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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>LEITURAS</b></p>      <p><b>Piçarra, M. do C. (2015). <i>Azuis Ultramarinos. Propaganda Colonial e Censura no Cinema do Estado Novo</i>. Lisboa: Edições 70.</b></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Paulo Cunha*</b></p>      <p>*Universidade da Beira Interior e Escola Superior de Tecnologia de Abrantes.</p>      <p><a href="mailto:paulomfcunha@gmail.com">paulomfcunha@gmail.com</a></p>      <p>&nbsp;</p>     <p>Publicado em abril de 2015, <i>Azuis Ultramarinos. Propaganda Colonial e Censura no Cinema do Estado Novo </i>é o resultado do projeto de doutoramento de Maria do Carmo Piçarra, uma longa investigação desenvolvida entre 2008 e 2013. No entanto, o trabalho da autora sobre o cinema durante o Estado Novo remonta a 2005, à sua dissertação de mestrado sobre os jornais de atualidades que estaria na origem das publicações <i>Salazar vai ao cinema. O Jornal Português de Actualidades Filmadas </i>(2006, Almedina) e <i>Salazar vai ao Cinema II. A Política do Espírito no Jornal Português </i>(2011, DrellaDesign). Serve esta breve apresentação para alertar os mais distraídos que a autora deste volume tem um trabalho sistemático e consolidado nestas questões de representações e contra representações cinematográficas, de propaganda e de censura durante o Estado Novo, de projetos coloniais portugueses e europeus, de instrumentalização do cinema como agente político e ideológico, de construção da memória e da história, entre outros assuntos.</p>      <p>Apesar de tratar de uma questão cronologicamente situada em meados do século XX, o projeto de investigação de Maria do Carmo Piçarra assenta, como a própria afirma, de uma experiência humana e social vivida por si já neste século XXI. A questão central do seu projeto de doutoramento surgiu assim de uma experiência concreta, e de uma interrogação atual, claramente política, que continua a ser pertinente e necessária para se poder compreender melhor o presente: &#8220;como foi construída esta representação segundo a qual os portugueses não são racistas?&#8221; Para responder a esta questão, a autora pensou num dispositivo hegeliano que comunica e se relaciona:</p>      <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>um <i>campo/fora de campo/contra campo </i>rememorativo em que, às representações do colonialismo pelas atualidades de propaganda cinematográfica do Estado Novo, se contrapôs o olhar-consciência de autores censurados/ proibidos de filmes sobre as ex-colónias portuguesas para ir revelando &#8211; no <i>fora de campo </i>&#8211;, através de &#8216;imagens-clarão&#8217;, uma ética da memória (e do esquecimento). (p. 13)</p> </blockquote>      <p>Elaborada a partir das ciências da comunicação, este trabalho contribui, objetivamente, para o estado da arte de diferentes áreas científicas, expandindo consideravelmente um <i>corpus </i>documental e fílmico que consolida um espaço de reflexão e de ação em torno da herança colonial portuguesa e, também, europeia. Esta pesquisa inédita foi desenvolvida em vários fundos documentais da Torre do Tombo (nomeadamente o fundo do SNI - Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo) e em diversos acervos particulares, que permitiram resgatar ou valorizar uma série inestimável de dados e materiais inéditos (incluindo fotos de rodagem e até 11 minutos dos cortes de censura infligidos a <i>Catembe</i>!!), assim como a realização de diversas entrevistas que dão um outro olhar sobre a história tal como estava escrita e se convencionou, presa a vários constrangimentos que esta investigação expõe e denuncia.</p>      <p>O capítulo dedicado ao <i>campo</i>, o olhar do colonizador, naturalmente sintético, não deixa de ser exaustivo ao traçar um olhar panorâmico sobre o dispositivo de propaganda nacionalista e colonial, comparativamente a outros casos internacionais. Piçarra vai mais longe, nomeadamente nas questões que dizem respeito à projeção e percepção, introduzindo vários dados que ajudam a construir o seu argumento central, da construção e da promoção da representação de um colonialismo singular. Ao longo desse extenso capítulo, Piçarra relata um trabalho meticuloso de visionamento e estudo sobre os dois principais jornais de atualidades produzidos durante o Estado Novo, mas também dos filmes coloniais de ficção (<i>Feitiço do Império </i>e <i>Chaimite</i>) e todo o processo de doutrinação colonial vivida em Portugal nesse período.</p>      <p>No capítulo dedicado ao <i>contra campo</i>, o olhar disruptivo, a autora escreve uma história alternativa que a partir de agora deixa de o ser. A partir de três casos de estudo, Piçarra constrói uma narrativa complexa que fora abafada e escondida durante décadas e que agora permite rever e reler o processo de colonização português à luz de outros pressupostos. Pelo seu ineditismo, este é, sem dúvida, o ponto alto deste trabalho de investigação, constituindo uma parte fulcral da tese da autora, em concreto a leitura do caso <i>Catembe</i>. Apesar de vários dados novos revelados no capítulo anterior, é este <i>contra campo </i>que constitui uma nova narrativa, muito bem sustentada em diversa documentação e fontes inéditas, que permite reescrever uma parte significativa da história do cinema português na década de 1960, um período delicado no que a questões coloniais diz respeito.</p>      <p>Em <i>fora de campo</i>, capítulo mais reflexivo, é ensaiada uma proposta mais abrangente, de relacionar as imagens coloniais com o passado (Holocausto) e com a própria história do cinema (cinema direto), mas também sobre o processo de construção do seu próprio arquivo pessoal que lhe permitiu rever a história e memória coletiva. Estranhamente, fica a sensação que este capítulo poderia ter sido mais desenvolvido, explorando as diversas direções que vão sendo expostas nos dois capítulos anteriores. Apesar de uma bibliografia extensa, abrangente e adequada, usada ao longo da investigação, teria sido muito interessante convocar outras reflexões, pertinentes para este capítulo particular em, de Frantz Fanon (1967), Ella Shohat e Robert Stam (1994) ou Amílcar Cabral (1974), que permitiriam seguir algumas dessas outras direções.</p>      <p>Em suma, <i>Azuis Ultramarinos </i>é um livro obrigatório para qualquer biblioteca de ciências sociais e humanas, um trabalho que ultrapassa barreiras temáticas e propõe uma releitura de um momento da história portuguesa do século XX, que sai objetiva e claramente beneficiada. Mais do que encerrar uma visão alternativa, Piçarra deixa também elementos para que se possam construir outros olhares a partir dos materiais e fontes resgatados ao esquecimento. Parafraseando Hannah Arendt, e a citação concreta que inicia esta tese, todo o processo de pensamento é resultado de uma experiência pessoal, de um &#8220;repensar&#8221; com um ponto de vista. Esta será mesmo uma das grandes lições deixada por esta tese, que se afirma (e confirma) como um olhar político contra o esquecimento, que olha o passado a partir do presente, que desafia o arquivo e a memória, com um ponto de vista que é singular e subjetivo.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><b>Referências bibliográficas</b></p>      <!-- ref --><p>Cabral, A. (1974). National liberation and culture. <i>Transition</i>, <i>45</i>, 12-17.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1995938&pid=S2183-3575201600010001400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Fanon, F. (1967). <i>Black skin, white masks</i>. Nova Iorque: Grove Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1995940&pid=S2183-3575201600010001400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Piçarra, M. C. (2006). <i>Salazar vai ao cinema. O Jornal Português de actualidades filmadas</i>. Coimbra: Almedina.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1995942&pid=S2183-3575201600010001400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Piçarra, M. C. (2011). <i>Salazar vai ao cinema II. A política do espírito no Jornal Português</i>. Lisboa: DrellaDesign.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1995944&pid=S2183-3575201600010001400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Piçarra, M. C. (2015). <i>Azuis Ultramarinos. Propaganda Colonial e Censura no Cinema do Estado Novo</i>. Lisboa: Edições 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1995946&pid=S2183-3575201600010001400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <!-- ref --><p>Shohat, E. &amp; Stam, R. (1994). <i>Unthinking eurocentrism: multiculturalism and the media</i>. Brighton: Psychology Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1995948&pid=S2183-3575201600010001400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Nota biográfica</b></p>      <p>Paulo Cunha é Doutor em Estudos Contemporâneos pela Universidade de Coimbra. É professor auxiliar convidado na Universidade da Beira Interior e na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes. É investigador do CEIS20 - Centro de Estudos Interdisciplinares do Séc. XX da Universidade de Coimbra. É co-coordenador do GT História do Cinema Português da AIM &#8211; Associação de Investigadores da Imagem em Movimento. É responsável pelo projecto editorial Nós por cá todos bem.</p>      <p>E-mail: <a href="mailto:paulomfcunha@gmail.com">paulomfcunha@gmail.com</a></p>      <p>Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX. Rua Augusto Filipe Simões 33, Coimbra, Portugal, Portugal</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>* Submetido: 02-02-2016</b></p>      <p><b>* Aceite: 15-03-2016</b></p>       ]]></body><back>
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