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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Tempo e caos: a “imaginação dos possíveis” e os média]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article proposes a reflection about the notion of time and its relation to the media based on the complex thinking paradigm and the transdisciplinary perspective. Departing from reflections about literary and cinematographic narratives, our objective is to examine how the notion of time mediates the concept of comprehension of space/time as well as of the aesthetic perception of the world between order and chaos. We relied on the dialogue between science and narrative and on modern physics for concepts of time, order and chaos. Our conclusions point to three ideas: 1) the constant remembrance of catastrophe is an obsessive intimate theme which presents itself through an artistic and mediatic narrative; 2) the expression of catastrophic obsession partially satisfies the current humanity's affection for horror and 3) the imaginary of catastrophe traverses time and space, being transdisciplinary.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS TEM&Aacute;TICOS</b></p>     <p><b>Tempo e caos: a &ldquo;imagina&ccedil;&atilde;o dos poss&iacute;veis&rdquo; e os m&eacute;dia</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Time and chaos: the &ldquo;imagination of possibilities&rdquo; and the media</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> //     <p><b> Gustavo Castro <sup>*</sup></b>    <br>     <img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0001-7126-6947">https://orcid.org/0000-0001-7126-6947</a></p>     
<p><b> Florence Dravet <sup>**</sup></b>    <br>     <img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0002-3822-3627">https://orcid.org/0000-0002-3822-3627</a></p>     
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<body><![CDATA[<p>//*Faculdade de Comunica&ccedil;&atilde;o, Universidade de Bras&iacute;lia, Brasil, <a href="mailto:gustavodecastro@unb.br">gustavodecastro@unb.br</a>.</p>     <p>//**Universidade Cat&oacute;lica de Bras&iacute;lia, Brasil, <a href="mailto:flormd@gmail.com">flormd@gmail.com</a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Este artigo prop&otilde;e uma reflex&atilde;o sobre a no&ccedil;&atilde;o de tempo e suas rela&ccedil;&otilde;es com os m&eacute;dia, a partir dos estudos da complexidade e numa perspetiva transdisciplinar. Iniciando com reflex&otilde;es sobre narrativas liter&aacute;rias e cinematogr&aacute;ficas, o nosso objetivo &eacute; perceber como a no&ccedil;&atilde;o de tempo &eacute; mediadora da compreens&atilde;o da realidade espa&ccedil;o/tempo e da perce&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica do mundo entre ordem e caos. Recorremos ao di&aacute;logo entre ci&ecirc;ncia e narrativa e ao pensamento da f&iacute;sica moderna sobre os conceitos de tempo, ordem e caos. As nossas conclus&otilde;es apontam para tr&ecirc;s ideias: 1) a constante rememora&ccedil;&atilde;o da cat&aacute;strofe &eacute; um tema &iacute;ntimo obsessivo que se apresenta atrav&eacute;s da narrativa art&iacute;stica e medi&aacute;tica; 2) a express&atilde;o da obsess&atilde;o catastr&oacute;fica vem suprir parcialmente o afeto pelo horror da humanidade atual e 3) o imagin&aacute;rio da cat&aacute;strofe atravessa tempo e espa&ccedil;o e &eacute; transdisciplinar.</p>     <p><b>Palavras-chave</b>: Cat&aacute;strofe; comunica&ccedil;&atilde;o; Ilya Prigogine; imagin&aacute;rio; Italo Calvino; tempo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>This article proposes a reflection about the notion of time and its relation to the media based on the complex thinking paradigm and the transdisciplinary perspective. Departing from reflections about literary and cinematographic narratives, our objective is to examine how the notion of time mediates the concept of comprehension of space/time as well as of the aesthetic perception of the world between order and chaos. We relied on the dialogue between science and narrative and on modern physics for concepts of time, order and chaos. Our conclusions point to three ideas: 1) the constant remembrance of catastrophe is an obsessive intimate theme which presents itself through an artistic and mediatic narrative; 2) the expression of catastrophic obsession partially satisfies the current humanity&rsquo;s affection for horror and 3) the imaginary of catastrophe traverses time and space, being transdisciplinary.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Keywords</b>: Catastrophe; communication; Ilya Prigogine; imaginary; Italo Calvino; time.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>A rela&ccedil;&atilde;o entre tempo, m&eacute;dia e caos integrou um programa de pesquisa desenvolvido nos chamados &ldquo;estudos da complexidade&rdquo; . Deu-se a partir do desenvolvimento das ideias de &ldquo;ordem a partir do ru&iacute;do&rdquo; (&ldquo;ordre a partir du bruit&rdquo; ) defendida por Henri Atlan (1992) e de &ldquo;complexidade a partir da desordem&rdquo; , express&atilde;o utilizada pela primeira vez em 1948, por Warren Weaver, no c&eacute;lebre artigo &ldquo;Science and complexity&rdquo; <i>.</i> O conceito de m&eacute;dia tornou-se importante nos estudos da complexidade devido &agrave; perce&ccedil;&atilde;o da &ldquo;extrema quantidade de intera&ccedil;&otilde;es e de interfer&ecirc;ncias entre um n&uacute;mero muito grande de unidades que desafiam as nossas possibilidades de c&aacute;lculo&rdquo; (Pessis-Pasternak, 1993, p. 14).</p>     <p>Norbert Wiener e Ross Ashby, fundadores da cibern&eacute;tica, trabalharam para promover a no&ccedil;&atilde;o de complexidade. John von Neuman acabou por revelar os v&iacute;nculos que uniam os fen&oacute;menos de auto-organiza&ccedil;&atilde;o aos das intera&ccedil;&otilde;es. Foi da perce&ccedil;&atilde;o desses v&iacute;nculos que Edgar Morin (1987) prop&ocirc;s um tetragrama (ordem/desordem/intera&ccedil;&atilde;o/ auto-organiza&ccedil;&atilde;o) como articula&ccedil;&atilde;o conceitual. Este permite conceber a comunica&ccedil;&atilde;o como dial&oacute;gica, regulada, primeiro, pela incerteza – tend&ecirc;ncia permanente ao caos e &agrave; desordem – pr&oacute;xima ao que Ilya Prigogine designou flutua&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, um &ldquo;mecanismo de irreversibilidade: uma vez estabelecida, ela difere do que era anteriormente&rdquo; (Prigogine citado em Pessis-Pasternak, 1993, p. 43).</p>     <p>Neste artigo pretendemos pensar a no&ccedil;&atilde;o de tempo, aproximando-a da de cat&aacute;strofe. Pretendemos tamb&eacute;m pensar a no&ccedil;&atilde;o de m&eacute;dia, a partir de sua rela&ccedil;&atilde;o com a literatura.</p>     <p>A abordagem te&oacute;rico-metodol&oacute;gica que seguimos no texto baseia-se na premissa segundo a qual narrativas, imagin&aacute;rios, poemas, romances e contos s&atilde;o discursos engendrados no nosso quotidiano e est&atilde;o impregnados nos v&aacute;rios m&eacute;dia. Referimo-nos, tal como proposto por Vicente Romano (1993), desde os prim&aacute;rios (os de corpo e tempo presente), passando pelos secund&aacute;rios (aqueles em que o emissor se vale de um aparato t&eacute;cnico para enviar mensagens, alongando a perce&ccedil;&atilde;o do tempo), aos terci&aacute;rios (em que emissor e recetor necessitam de aparatos t&eacute;cnicos e podem trocar mensagens sem estar simultaneamente presentes, encurtando o tempo e tornando a comunica&ccedil;&atilde;o mais veloz).</p>     <p>O nosso m&eacute;todo de apresenta&ccedil;&atilde;o e explora&ccedil;&atilde;o do material &eacute; descritivo, interpretativo e cr&iacute;tico. Pretendemos privilegiar a an&aacute;lise do tempo, relacionando-o com o caos e a cat&aacute;strofe presentes nas narrativas <i>As cosmic&ocirc;micas</i> (1992) e <i>Novas cosmic&ocirc;micas</i> (1995) de Italo Calvino, no filme <i>Melancholia,</i> de Lars Von Trier (2011) e, tamb&eacute;m, nas interpreta&ccedil;&otilde;es do f&iacute;sico e pr&eacute;mio Nobel de Qu&iacute;mica, Ilya Prigogine<sup><a href="#1" name="top1">[1]</a></sup>. O nosso objetivo &eacute; mostrar como o conceito de tempo da literatura pode mediar a compreens&atilde;o de realidade espa&ccedil;o/tempo e de mundo, podendo colaborar com o programa de pesquisa transdisciplinar dos estudos da complexidade.</p>     <p>Tanto do ponto de vista epist&eacute;mico como metodol&oacute;gico, este artigo – que integra os estudos da complexidade – procura fazer dialogar com a ci&ecirc;ncia e arte, entendendo-as conjuntamente como campo de abertura e investimento na pr&oacute;pria transdisciplinaridade. Sabemos que a literatura e o cinema contem sempre modelos de sociedade, se n&atilde;o a que aspiramos, ao menos a que temos e constru&iacute;mos. Elas re&uacute;nem em si a multiplicidade dos saberes, a busca &eacute;tica e a cosmovis&atilde;o est&eacute;tica da vida. Ci&ecirc;ncia e arte s&atilde;o saberes intercomunicantes, dois modos de observa&ccedil;&atilde;o do mundo que podem chegar a formar uma complementaridade ou a mesma unidade de conhecimento. Elas n&atilde;o podem seguir artificialmente separadas. Devem, antes, reintroduzir o Homem na complexidade do mundo. Se o saber cient&iacute;fico alimenta a d&uacute;vida e cria hierarquias, ao fazer perguntas fundamentais, o saber art&iacute;stico ilumina e aclara a realidade, colocando ou devolvendo o Homem ao seu contexto vital. A necessidade de fazer intercomunicar ci&ecirc;ncia e arte &eacute; a de reconhecer que uma e outra s&atilde;o sistemas de conhecimento &uacute;teis &agrave; sociedade. Enquanto a ci&ecirc;ncia lida com esfor&ccedil;os conjuntos e sistem&aacute;ticos para aumentar a experi&ecirc;ncia e desenvolver conceitos apropriados para a sua compreens&atilde;o, a arte apresenta-nos esfor&ccedil;os individuais, mais intuitivos, para evocar sentimentos que lembrem a globalidade da situa&ccedil;&atilde;o humana.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>A ordem do tempo segundo Ilya Prigogine e Italo Calvino</b></p>     <p>A capacidade humana para imaginar o pior n&atilde;o tem limites. Sabemos que o tema da cat&aacute;strofe n&atilde;o &eacute; novo. &Eacute;, ali&aacute;s, t&atilde;o antigo quanto o do medo. Encontramos o assunto em, pelo menos, dois di&aacute;logos de Plat&atilde;o, no <i>Timeu</i> e no <i>Cr&iacute;tias</i> (escritos por volta do ano 360 a.C.). Em <i>Cr&iacute;tias</i> encontramos o relato a seguir. Conta-se que um antepassado do seu av&ocirc;, que visitara o Egito e conversara com anci&otilde;es, mestres da mem&oacute;ria dos antigos, dizia que a cat&aacute;strofe era algo do cosmos e, por isso mesmo, estava tamb&eacute;m em meio ao humano. Era um fen&oacute;meno que advinha de tempos em tempos. Inicialmente, diz Plat&atilde;o, acreditou-se que a cat&aacute;strofe era um &ldquo;mito&rdquo; , mas ela:</p>     <blockquote>significa o decl&iacute;nio dos corpos que se movem em torno da Terra e nos c&eacute;us; uma conflagra&ccedil;&atilde;o recorrente, que acontece em longos intervalos de tempo; quando isso acontece, aqueles que vivem nas montanhas e em outros lugares secos, est&atilde;o mais sujeitos &agrave; destrui&ccedil;&atilde;o do que aqueles que vivem &agrave; margem dos rios, dos lagos ou do mar. Mas, por outro lado, quando os deuses purgam a terra pela &aacute;gua [e n&atilde;o pelo fogo, como Faetonte], ent&atilde;o os pastores, os montanheses, s&atilde;o os sobreviventes e perecem os que vivem nas cidades, pr&oacute;ximos aos rios e fontes, a beira-mar; s&atilde;o levados pelas enchentes, submergem no oceano. (&hellip;) Enquanto voc&ecirc;s [gregos] e outras na&ccedil;&otilde;es mant&ecirc;m escrituras e somente estes registros que interessam ao estado, no momento presente, ignoram que a pestil&ecirc;ncia [a cat&aacute;strofe] pode estar vindo dos c&eacute;us para dizimar todos e deixar apenas aqueles dentre voc&ecirc;s que s&atilde;o destitu&iacute;dos das letras e da educa&ccedil;&atilde;o e assim, deste modo, voc&ecirc;s t&ecirc;m de come&ccedil;ar tudo novamente, como crian&ccedil;as, sem nada saber do que aconteceu nos tempos mais antigos, entre n&oacute;s [o Egito] e entre voc&ecirc;s mesmos [gregos]. (Plat&atilde;o, 2010, p. 88)</blockquote>     <p>Nesta cita&ccedil;&atilde;o percebemos que a &ldquo;cat&aacute;strofe&rdquo; n&atilde;o &eacute; tratada como inven&ccedil;&atilde;o, mas como algo que &ldquo;acontece em longos intervalos de tempo&rdquo; . Aparece como realidade vivida pelos antigos. Que se revela, ora pela a&ccedil;&atilde;o do fogo ora pela a&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua. Esses acontecimentos servem para que a Terra e a humanidade possam &ldquo;come&ccedil;ar tudo novamente como crian&ccedil;as&rdquo; . Os acontecimentos descritos neste fragmento de Plat&atilde;o alimentam, no m&iacute;nimo h&aacute; mais de dois mil&ecirc;nios – por vias filos&oacute;ficas – a imagem-ideia da cat&aacute;strofe. Alimentam o <i>pathos</i> do fim presente em todos os seres humanos, ou seja, o afeto da entropia, a sensa&ccedil;&atilde;o do rev&eacute;s e &agrave;s vezes a paix&atilde;o pela queda.</p>     <p>Segundo Ilya Prigogine (1996) a &ldquo;imagina&ccedil;&atilde;o dos poss&iacute;veis&rdquo; e a especula&ccedil;&atilde;o sobre o porvir s&atilde;o tra&ccedil;o fundante da intelig&ecirc;ncia humana. O mesmo considera Antonio Maza no seu artigo sobre &ldquo;O poder expressivo da teoria dos mundos nos videojogos&rdquo; (2015) ao assumir que a teoria dos mundos poss&iacute;veis est&aacute; presente no contexto liter&aacute;rio e narratol&oacute;gico em diversos autores e sob diversas formas: na realidade objetiva com textos de tipo hist&oacute;rico ou jornal&iacute;stico, em textos de fic&ccedil;&atilde;o veros&iacute;mil, de mundos ficcionais n&atilde;o veros&iacute;meis e nas m&uacute;ltiplas interpreta&ccedil;&otilde;es de mundos atuais.</p>     <p>Enquanto eg&iacute;pcios e gregos imaginaram a destrui&ccedil;&atilde;o pelas &aacute;guas e pelo fogo, o imagin&aacute;rio de Italo Calvino desenhou uma narrativa em que espa&ccedil;o e tempo se diluem e se esfacelam a todo instante em toda parte. O her&oacute;i de <i>As cosmic&ocirc;micas</i><sup><a href="#2" name="top2">[2]</a></sup> &eacute; Qfwfq, anam&oacute;rfico, sua forma muda continuamente, ora avan&ccedil;ando em complexidade, ora n&atilde;o. Este romance, escrito ao longo dos anos 1970, cont&eacute;m uma imagem-ideia de cat&aacute;strofe, de ordem e de desordem que vale a pena analisar.</p>     <p>Nele, as coisas duram enquanto durar o sol, d&aacute;-nos a entender o her&oacute;i-narrador. As pessoas s&atilde;o lisas e escovadas pelo vento das eras porque o tempo n&atilde;o passa de uma aposta: h&aacute; o tempo de curta e de longa dura&ccedil;&atilde;o. Os acontecimentos fervilham com multiplicada densidade. O personagem anam&oacute;rfico Qfwfq conhece a imortalidade. Est&aacute; al&eacute;m do tempo sob a forma das metamorfoses: ele foi, no decurso de 50 milh&otilde;es de anos, uma sequ&ecirc;ncia de dinossauros diversos; experimentou tamb&eacute;m formas como a do girino, a do &aacute;tomo, do cavalo, de um anci&atilde;o; conheceu o imp&eacute;rio de Justiniano, viu o bicho-da-seda ser levado da China &agrave; Constantinopla, entre outras perip&eacute;cias. Outro personagem, como seu irm&atilde;o, Rwzfs, n&atilde;o quis experimentar as formas, permanecendo n&iacute;quel por toda a vida. Sr. Hnw, por sua vez, passou a exist&ecirc;ncia aspirando transformar-se em cavalo. Qfwfq considera o ornitorrinco, a girafa, o crocodilo e o dinossauro, sublimes. &ldquo;A mem&oacute;ria dos mundos&rdquo; , t&iacute;tulo da primeira parte de <i>Novas cosmic&ocirc;micas</i> [<i>Tempo zero</i> em outras tradu&ccedil;&otilde;es], descreve hist&oacute;rias entremeadas de reflex&otilde;es cosmol&oacute;gicas, filos&oacute;ficas e existenciais:</p>     <blockquote>interrog&aacute;vamos qual o destino do universo, e os or&aacute;culos da termodin&acirc;mica nos respondiam: toda a forma existente se desfar&aacute; numa labareda de calor; n&atilde;o h&aacute; presen&ccedil;a que se salve da desordem sem retorno dos corp&uacute;sculos; o tempo &eacute; uma cat&aacute;strofe perp&eacute;tua e irrevers&iacute;vel. (Calvino, 1995, p. 127)</blockquote>     <p>A cat&aacute;strofe aparece como raz&atilde;o para a necessidade de apre&ccedil;o &agrave; ordem. Encontrar o equil&iacute;brio no universo, a forma naquilo que parece sem forma, n&atilde;o &eacute; tarefa f&aacute;cil. Qfwfq prefere arriscar-se na geometria dos cristais, das rela&ccedil;&otilde;es amorosas, n&uacute;meros, jogos e espirais. A primazia da ordem deve ser dada ao modelo amoroso, aquele que possua Eros em sua estrutura. A ordem buscada deve ser aquela na qual regularidade e tens&atilde;o contrap&otilde;em-se e justap&otilde;em-se para a manuten&ccedil;&atilde;o do equil&iacute;brio. Observemos cubos, octaedros, prismas e figuras di&aacute;fanas. A ordem assemelha-se aos cristais, que s&atilde;o esculpidos pelo tempo e lapidados por caracter&iacute;sticas de vigor, &iacute;mpeto e tens&atilde;o.</p>     <p>A no&ccedil;&atilde;o de uma ordem pela tens&atilde;o aparece na declara&ccedil;&atilde;o de amor que Qfwfq faz a Vug, personagem que &eacute; um cristal. O cristal, para Qfwfq, &eacute; a imagem da perfei&ccedil;&atilde;o ou o sonho de perfei&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria; a ordem refletida (esculpida) numa imagem mineral. A contempla&ccedil;&atilde;o da ordem faz Qfwfq admitir que, cedo ou tarde, o sonho de perfei&ccedil;&atilde;o estorva e pode tamb&eacute;m se esfuma&ccedil;ar no ar, desfazendo-se &ldquo;num esfiampado remendo da desagrega&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Calvino, 1995, p. 44). &Eacute; quando surge a cat&aacute;strofe. Tudo rui. Diante do cen&aacute;rio da cat&aacute;strofe, Qfwfq escolhe, preferencialmente, a ordem, pois ela propicia a sensa&ccedil;&atilde;o de temor e felicidade. A felicidade adv&eacute;m da descoberta de que as subst&acirc;ncias s&atilde;o teleol&oacute;gicas. Buscam algo &agrave; perfei&ccedil;&atilde;o, em especial, buscam uma forma eficaz, &uacute;til e bela. Temor por perceber na variedade das ordens as escalas crescentes de desordem. Escalas que, cedo ou tarde, comprometer&atilde;o a felicidade da busca.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Vug, a mulher-cristal &eacute; a imagem-reflexo do mundo, cont&eacute;m bilh&otilde;es de lados e &acirc;ngulos, conta-nos Qfwfq. &Eacute; um s&oacute;lido destinado a ampliar-se em perspectivas, transpar&ecirc;ncias, n&iacute;veis e lados. Com a ordem n&atilde;o pode haver embustes, diz. N&atilde;o se pode tentar fugir &agrave; dramaticidade do tempo ou ficar obcecado com a ideia de uma ordem perfeita. Qfwfq aprende, pouco a pouco, as li&ccedil;&otilde;es do cristal. Vug &eacute; quem lhe ensina: &ldquo;admitir que a verdadeira ordem &eacute; a que traz em si a impureza, a destrui&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Calvino, 1995, p. 49).</p>     <p>No conto &ldquo;Os cristais&rdquo; , Qfwfq narra os tempos remotos em que namorou Vug, Qfwfq comprou um rel&oacute;gio de pulso. Pretendia comparar o movimento dos ponteiros ao movimento das esta&ccedil;&otilde;es, das luas, dos ciclos da vida e da morte. Seguir o tempo orientando-se pelos ponteiros do rel&oacute;gio era importante para manter-se no jogo do mundo e dos homens, onde as coisas acontecem com hora marcada: pegar o trem, descer na esta&ccedil;&atilde;o correta, entrar pontualmente no trabalho, oficiar regularmente o cotidiano, cumprir compromissos, s&atilde;o formas do tempo cronom&eacute;trico. Mas aqueles ponteiros podem muito bem enganar-nos sobre o que &eacute; tempo. Os ponteiros indicam um erro, observa Qfwfq, o que significa fingir uma ordem na poeira, uma regularidade no sistema, porque toda ordem, seja ela qual for, logo se esboroa. O rel&oacute;gio de pulso ajuda-nos a simular uma ordem e uma regularidade onde n&atilde;o existe nem uma coisa nem outra. Com ou sem rel&oacute;gio, a ordem do tempo &eacute; desintegradora. Isto os ponteiros n&atilde;o mostram. &Eacute; preciso fugir (confessa na hist&oacute;ria: &ldquo;A implos&atilde;o&rdquo; ) que &ldquo;est&aacute; a fugir &agrave; cat&aacute;strofe do tempo&rdquo; . Reconhece: &ldquo;todo o percurso do tempo se dirige para o desastre num sentido ou no sentido contr&aacute;rio e o seu intersecar-se n&atilde;o forma uma rede de linhas reguladas por trocas e por desvios, mas sim um enredo, num emaranhado&rdquo; (Calvino, 1995, pp. 129-130).</p>     <p>O tempo conta uma hist&oacute;ria que s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel de ser percebida e desvendada se a registarmos mediante a narra&ccedil;&atilde;o. Percebemos, ao longo da sua trajet&oacute;ria, que esta mesma narra&ccedil;&atilde;o se desgasta a ponto de ter que mudar constantemente, para manter suas correla&ccedil;&otilde;es internas e prosseguir, ou dar-se por encerrada. Qfwfq dedica-se preferencialmente a entender a ordem atrav&eacute;s do caos. Ao associar ordem e Eros, consegue uma aproxima&ccedil;&atilde;o, &agrave; primeira vista, de termos contradit&oacute;rios. Seguimos a concep&ccedil;&atilde;o err&oacute;nea, diz ele, na qual Eros se associa &agrave; desordem. O motivo desse erro estaria no facto de ser somente na din&acirc;mica propiciada por Eros que a ordem pode ser amada. A associa&ccedil;&atilde;o entre Eros e ordem esconde a ambi&ccedil;&atilde;o pela perfei&ccedil;&atilde;o e simetria entre elementos divergentes.</p>     <p>A ordem apresenta-se enredada, simultaneamente, de Eros e de desordem. Eros, por sua vez, &eacute; simultaneamente ordem e caos. A pureza (do cristal e da ordem) s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel devido &agrave;s falhas, ruturas e impurezas. Somente a din&acirc;mica de Eros (ou o amor por Vug) que poderia ter-lhe revelado isto: o par ordem-caos &eacute; o que nos faz entender como funciona, se reorganiza e se lapida um sistema como o cristal. Mesmo a pureza do cristal n&atilde;o deixa de transparecer a mancha, a falha e a corros&atilde;o que o tempo inflige sobre ele. Para continuar a manter o &iacute;mpeto e o vigor, a mat&eacute;ria deve operar na cat&aacute;strofe e na degrada&ccedil;&atilde;o, o que na &oacute;tica de Qfwfq &eacute; o mesmo que lapida&ccedil;&atilde;o. Aparar arestas significa polir a forma. O rel&oacute;gio de pulso n&atilde;o consegue cronometrar, nem o enredo do tempo nem a lapida&ccedil;&atilde;o do cristal. O tempo do rel&oacute;gio de pulso n&atilde;o se afiniza com o tempo do cristal. At&eacute; porque o rel&oacute;gio cai, quebra, enferruja ou, simplesmente, para de funcionar. Qfwfq convence-se de que as irregularidades fazem parte de:</p>     <blockquote>uma estrutura regular muito mais vasta, em que a cada assimetria que julg&aacute;vamos observar correspondia na realidade a uma rede de simetrias t&atilde;o complicadas que nem d&aacute;vamos por ela, tentava calcular quantos bilh&otilde;es de lados e de &acirc;ngulos diedros devia ter este cristal labir&iacute;ntico. (Calvino, 1995, p. 49)</blockquote>     <p>Esta no&ccedil;&atilde;o de tempo de Italo Calvino chamou a aten&ccedil;&atilde;o de Ilya Prigogine para quem o conjunto das narrativas de <i>As cosmic&ocirc;micas</i> faz lembrar os contos &aacute;rabes em que cada hist&oacute;ria se encaixa em outras hist&oacute;rias. &ldquo;A hist&oacute;ria da mat&eacute;ria encaixa-se na hist&oacute;ria cosmol&oacute;gica, a hist&oacute;ria da vida na hist&oacute;ria da mat&eacute;ria. E, por fim, nossas pr&oacute;prias vidas est&atilde;o mergulhadas na hist&oacute;ria da sociedade&rdquo; (Prigogine, 1996, p. 192). O autor fez men&ccedil;&atilde;o ao livro como resultado da &ldquo;imagina&ccedil;&atilde;o dos poss&iacute;veis&rdquo; :</p>     <blockquote>Italo Calvino escreveu uma deliciosa colet&acirc;nea de novelas Cosmic&ocirc;micas nas quais imaginava seres que vivem num est&aacute;gio muito precoce do universo. Eles se re&uacute;nem e se lembram ainda hoje da &eacute;poca dif&iacute;cil em que o universo era t&atilde;o pequeno que seus corpos o preenchiam complemente. A imagina&ccedil;&atilde;o dos poss&iacute;veis, a especula&ccedil;&atilde;o sobre o que poderia ter sido &eacute; um dos tra&ccedil;os fundamentais da intelig&ecirc;ncia humana. Que teria sido da hist&oacute;ria da f&iacute;sica se Newton tivesse sido um membro dessa comunidade precoce? Ele teria observado o nascimento e a decomposi&ccedil;&atilde;o das part&iacute;culas, a aniquila&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua da mat&eacute;ria e antimat&eacute;ria. O universo ter-se-ia mostrado a ele desde o come&ccedil;o como um sistema distante do equil&iacute;brio, com suas instabilidade e bifurca&ccedil;&otilde;es. (Prigogine, 1996, p. 194)</blockquote>     <p>Ao ponderar aos &ldquo;or&aacute;culos da termodin&acirc;mica&rdquo; , Qfwfq apresenta um universo distante do equil&iacute;brio. A vis&atilde;o da protagonista, como vimos, perspetivada a partir de Vug, &eacute; a de uma &ldquo;ordem que traz em si a destrui&ccedil;&atilde;o&rdquo; . Ao consultar os or&aacute;culos, interrogando-os sobre o universo, obt&eacute;m a resposta de que &ldquo;o tempo &eacute; uma cat&aacute;strofe perp&eacute;tua e irrevers&iacute;vel&rdquo; . Prigogine identificou nestas no&ccedil;&otilde;es espa&ccedil;o-temporais presentes na comunidade de Qfwfq, as bifurca&ccedil;&otilde;es e desequil&iacute;brios do universo. As part&iacute;culas elementares parecem ser insens&iacute;veis &agrave; a&ccedil;&atilde;o do tempo, muito embora, ao adquirirem uma forma qualquer, passem pelo efeito temporal de degenera&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Foi Prigogine quem primeiro duvidou, nos dom&iacute;nios da pesquisa cient&iacute;fica, da hip&oacute;tese segundo a qual tempo &eacute; uma ilus&atilde;o. Segundo ele: &ldquo;&eacute; Einstein que encarna com a maior for&ccedil;a a ambi&ccedil;&atilde;o de eliminar o tempo&rdquo; (Prigogine &amp; Stengers, 1997, p. 210). A nega&ccedil;&atilde;o do tempo sempre foi uma tenta&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Tanto para Einstein, o f&iacute;sico, quanto para Borges, o poeta&rdquo; (Prigogine, 1996, p. 197). Negar o tempo significa negar a pr&oacute;pria realidade, considerando-a uma ilus&atilde;o. &ldquo;Tempo e realidade est&atilde;o irredutivelmente ligados. Negar o tempo pode parecer um consolo ou parecer com o triunfo da raz&atilde;o humana, &eacute; sempre uma nega&ccedil;&atilde;o da realidade&rdquo; (Prigogine, 1996, p. 197). A conce&ccedil;&atilde;o de que &ldquo;o tempo &eacute; uma ilus&atilde;o&rdquo; foi incorporada nas leis fundamentais da f&iacute;sica e passou a desautorizar, desde ent&atilde;o, uma distin&ccedil;&atilde;o entre passado e futuro que desempenham pap&eacute;is diferentes, n&atilde;o sim&eacute;tricos. Coube ao observador, ao ter o seu papel destacado com o advento da teoria qu&acirc;ntica, ser o respons&aacute;vel pela quebra da simetria temporal, conforme esclarece o f&iacute;sico: &ldquo;hoje, a f&iacute;sica n&atilde;o nega mais o tempo. Reconhece o tempo irrevers&iacute;vel das evolu&ccedil;&otilde;es para o equil&iacute;brio, o tempo ritmado das estruturas cuja puls&atilde;o se alimenta do mundo que as atravessa&rdquo; (Prigogine &amp; Stengers 1997, p. 211).</p>     <p>H&aacute; mais do que uma aceita&ccedil;&atilde;o do tempo. O que ocorre &eacute; uma redescoberta do tempo, um pensamento que trata o tempo como o elemento modificador e dial&oacute;gico, por excel&ecirc;ncia, entre ci&ecirc;ncia, cultura e sociedade. Podemos dizer que a literatura de Marcel Proust, Jorge Lu&iacute;s Borges e Italo Calvino, s&oacute; para nos atermos a esses tr&ecirc;s mestres, &eacute; perpassada pela ideia de tempo. Tal redescoberta trouxe consigo tamb&eacute;m a garantia de que no&ccedil;&otilde;es, tais como a de flecha do tempo ou cat&aacute;strofe, possuem papel construtivo fundamental que nos fornece a imagem de universo em constante realiza&ccedil;&atilde;o, evolutivo e assim&eacute;trico. Revela-nos tamb&eacute;m o seu elemento narrativo, pois o tempo est&aacute; constantemente a contar uma hist&oacute;ria. Esta redescoberta &eacute; tamb&eacute;m fundamental para Edgar Morin:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>reabilitar unicamente o tempo n&atilde;o &eacute; suficiente; o novo universo, ao nascer, fez-nos descobrir a sua complexidade. O tempo &eacute; uno e m&uacute;ltiplo. &Eacute; simultaneamente cont&iacute;nuo e descont&iacute;nuo, eventual, agitado por rupturas e sobressaltos que rompem o seu fio e eventualmente recriam, noutros s&iacute;tios, outros fios. Este tempo &eacute;, no mesmo momento, o tempo das deriva&ccedil;&otilde;es e dispers&otilde;es, o tempo das morfog&ecirc;neses e dos desenvolvimentos. (Morin 1987, p. 85)</blockquote>     <p>A hist&oacute;ria contada pelo universo e que a f&iacute;sica reiteradamente busca decifrar, assemelha-se, na vis&atilde;o de Prigogine, a um romance como, o das &ldquo;As mil e uma noites&rdquo; (Prigogine &amp; Morin, 1998, p. 232): uma intricada cadeia de enredos e tempos internos a perpassar cada corpo, seja ele um grupo social ou um livro. Cada um deles &ldquo;&eacute; constitu&iacute;do por uma pluralidade de tempos ramificados um nos outros segundo articula&ccedil;&otilde;es sutis e m&uacute;ltiplas&rdquo; (Prigogine &amp; Stengers, 1997, p. 121).</p>     <p>As conclus&otilde;es das pesquisas formais de Prigogine apresentadas, tanto no livro <i>A nova alian&ccedil;a</i>, com Isabelle Stengers (1997), como na obra <i>O fim das certezas</i> (1996), mostram-nos que persiste a irresolu&ccedil;&atilde;o do paradoxo do tempo: &ldquo;o tempo em que vivemos &eacute; essencialmente irrevers&iacute;vel, enquanto nos objetos f&iacute;sicos simples – um p&ecirc;ndulo ou o sistema planet&aacute;rio – n&atilde;o se v&ecirc; essa flecha do tempo (Prigogine citado em Pessis-Pasternak, 1993, p. 45).</p>     <p>Segundo Prigogine, a tomada de consci&ecirc;ncia desse paradoxo aparece primeiro na teoria darwiniana, j&aacute; que esta foi a primeira a tratar da evolu&ccedil;&atilde;o dos organismos, portanto, da irreversibilidade. Em seguida h&aacute; o aparecimento do segundo princ&iacute;pio da termodin&acirc;mica, formulado por Rudolf Clausius<sup><a href="#3" name="top3">[3]</a></sup>, em 1865, que trata da entropia no universo. Os dois princ&iacute;pios fundamentais da termodin&acirc;mica s&atilde;o: [1] &ldquo;a energia do universo &eacute; constante&rdquo; e [2] &ldquo;a entropia do universo cresce na dire&ccedil;&atilde;o de um m&aacute;ximo&rdquo; . A natureza apresenta-nos, diz o autor, processos revers&iacute;veis e irrevers&iacute;veis:</p>     <blockquote>Por um lado, h&aacute; o tempo dos rel&oacute;gios, das trajet&oacute;rias das din&acirc;micas cl&aacute;ssicas, o tempo da comunica&ccedil;&atilde;o. Esse tempo &eacute; de alguma forma exterior a n&oacute;s, que emitimos e recebemos signos. &Eacute; um tempo que medimos com nossos rel&oacute;gios, mas que n&atilde;o faz parte do nosso corpo vivido. H&aacute; por outro lado o tempo estrutural, que chamei de interno, marcado pelo irrevers&iacute;vel e pelas flutua&ccedil;&otilde;es, pr&oacute;ximo ao &ldquo;tempo-inven&ccedil;&atilde;o&rdquo; de Bergson. (Prigogine citado em Pessis-Pasternak, 1993, p. 42)</blockquote>     <p>A tradicional cronologia da teoria do Big Bang pressup&otilde;e a exist&ecirc;ncia de um tempo zero, a partir do qual os rel&oacute;gios c&oacute;smicos tenham come&ccedil;ado a funcionar. Evento para o qual os f&iacute;sicos como Hubert Reeves e Ilya Prigogine recomendam cautela. Essa forma de contar o tempo n&atilde;o considera a possibilidade de um tempo anterior a este tempo zero. &Eacute; justamente a ideia do tempo zero o que alimenta o enredo dos romances de Italo Calvino. No conto &ldquo;Os cristais&rdquo; , o rel&oacute;gio de pulso de Qfwfq n&atilde;o lhe assegura que a ordem do tempo pode ser fixada nas escalas dos tr&ecirc;s ponteiros, do mesmo modo que no conto &ldquo;Ao nascer do dia&rdquo; , o personagem narra a cria&ccedil;&atilde;o do universo como um evento emergindo num clar&atilde;o de dentro de um tempo-espa&ccedil;o j&aacute; preexistente. Neste aspeto, Calvino (ao lidar com o imagin&aacute;rio) e Prigogine (pesquisa cient&iacute;fica), aproximam-se: &ldquo;o tempo precede a exist&ecirc;ncia. Acho mais natural supor que o nascimento do nosso universo &eacute; um evento na hist&oacute;ria do cosmo e que devemos, pois, atribuir a este um tempo que precede o pr&oacute;prio nascimento de nosso universo (Prigogine, 1996, p. 169).</p>     <p>A hist&oacute;ria, o ser vivo e a sociedade n&atilde;o podem mais ser reduzidos &agrave; no&ccedil;&atilde;o de tempo &uacute;nico. Agora a multiplicidade de tempos constitui-se como fator criativo, perturbador do sistema; perturba&ccedil;&atilde;o que pode tanto gerar como degradar as coisas. Prigogine encontra na ideia do <i>clin&acirc;men</i> de Lucr&eacute;cio<sup><a href="#4" name="top4">[4]</a></sup> uma inspira&ccedil;&atilde;o. Ele &eacute; o elemento perturbador que anuncia a &ldquo;guinada&rdquo; dos &aacute;tomos no mundo. Esse elemento &eacute; uma fonte de instabilidade que anuncia que o processo e o devir s&atilde;o constitutivos da exist&ecirc;ncia f&iacute;sica. Um mundo no qual os seres vivos e as coisas aparentemente inanimadas como a pedra, o pl&aacute;stico e o sab&atilde;o interagem de modo din&acirc;mico e podem nascer, morrer e evoluir. A irreversibilidade do tempo relaciona-se, assim, com os n&iacute;veis de correla&ccedil;&otilde;es e coer&ecirc;ncias do sistema e leva em conta a sua capacidade de resistir e se auto-organizar atrav&eacute;s desta tens&atilde;o perturbadora. A perspectiva de que todas as coisas est&atilde;o submetidas &agrave;s pequenas e grandes cat&aacute;strofes, ou seja, &agrave;s instabilidades do tempo, aparecem nos personagens de Calvino como exorta&ccedil;&atilde;o a uma tomada de consci&ecirc;ncia e de decis&otilde;es, requerida pelo exerc&iacute;cio da liberdade. As escolhas da vida s&atilde;o tamb&eacute;m irrevers&iacute;veis.</p>     <p><b>Cat&aacute;strofe, caos e imagin&aacute;rio</b></p>     <p>Assim como a literatura, o cinema tamb&eacute;m explora a &ldquo;imagina&ccedil;&atilde;o dos poss&iacute;veis&rdquo; . O cinema de cat&aacute;strofe<sup><a href="#5" name="top5">[5]</a></sup> j&aacute; mostrou nossa humanidade (e no nosso planeta) destru&iacute;do por guerras (tribais, sazonais e interestelares), bombas, monstros, cataclismos diversos como invernos polares, vulc&otilde;es, meteoros, desastres naturais e provocados. O cinema mostra espetacularmente multid&otilde;es devastadas em segundos, cidades arrasadas num passe de m&aacute;gica e continentes que se partem ao meio. O que significa essa constante retomada do tema pela fic&ccedil;&atilde;o e pelos document&aacute;rios especulativos do Discovery Channel? Os notici&aacute;rios da TV tornam-se urubus que sobrevoam a mis&eacute;ria, atentados terroristas, bugs, mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas, o 21.12.2012, enfim, onde est&aacute; a cat&aacute;strofe, ali estar&atilde;o os m&eacute;dia. Por que investimos tantos olhares nesta dire&ccedil;&atilde;o? Como continuar a encarar os neo-messianismos<sup><a href="#6" name="top6">[6]</a></sup> e os neo-sebastianismos<sup><a href="#7" name="top7">[7]</a></sup> da nossa &eacute;poca que n&atilde;o param de insistir e alertar que o fim est&aacute; pr&oacute;ximo ou que o Homem &ldquo;ir&aacute; voltar&rdquo; ?</p>     <blockquote>A palavra &ldquo;cat&aacute;strofe&rdquo; vem do grego e significa, literalmente, &ldquo;virada para baixo&rdquo; (kata + sthoph&eacute;). Outra tradu&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel &eacute; &ldquo;desabamento&rdquo; , ou &ldquo;desastre&rdquo; ; ou mesmo no hebraico <i>shoah,</i> especialmente apto no contexto. A cat&aacute;strofe &eacute; por defini&ccedil;&atilde;o um evento que provoca um trauma, outra palavra grega que quer dizer &ldquo;ferimento&rdquo; . &ldquo;Trauma&rdquo; deriva de uma raiz indo-europeia com dois sentidos: &ldquo;friccionar, triturar, perfurar&rdquo; ; mas tamb&eacute;m &ldquo;suplantar&rdquo; , &ldquo;passar atrav&eacute;s&rdquo; . Nesta contradi&ccedil;&atilde;o – uma coisa que tritura, perfura, mas que, ao mesmo tempo, &eacute; o que nos faz suplant&aacute;-la, j&aacute; se revela, mais uma vez, o paradoxo da experi&ecirc;ncia catastr&oacute;fica, que por isso mesmo n&atilde;o se deixa apanhar por formas simples de narrativa. (Nestrovski &amp; Seligman-Silva, 2000, p. 8)</blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Podemos, ent&atilde;o, dizer que o imagin&aacute;rio dos atores sociais, assim como o cinema de cat&aacute;strofe, comporta/guarda/realimenta a imagem arquet&iacute;pica da ferida e do ferimento, guarda a &ldquo;virada para baixo&rdquo; e o &ldquo;trauma&rdquo; . A ferida tr&aacute;gica n&atilde;o pode ser definitivamente curada. Ela est&aacute; em nossa mem&oacute;ria arcaica e, de tempos em tempos, ressurge. Filmes sobre o holocausto dominaram o imagin&aacute;rio cinematogr&aacute;fico de destrui&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XX para lembrar que um sangue ruim correu pelas veias do s&eacute;culo. O cinema – agente de nossa mem&oacute;ria arcaica – reviveu e encenou dores das quais n&atilde;o conseguimos livrar-nos enquanto sociedade.</p>     <p>O cinema e a literatura mostraram-nos tamb&eacute;m a vida ps&iacute;quica: a subjetividade e os afetos. Inclusive, a hist&oacute;ria de muitos artistas &eacute; uma hist&oacute;ria de loucuras, trag&eacute;dias, sofrimentos, tormentos e desesperos, portanto, temas da cat&aacute;strofe &iacute;ntima. O cinema e a literatura, neste sentido, s&atilde;o dois infinitos subjetivos. N&atilde;o cessam de contar par&aacute;bolas sobre o passado e o futuro. Trata-se de uma antiga pedagogia do presente: a narrativa como reatualiza&ccedil;&atilde;o do essencial. A arte mostra-nos que a cat&aacute;strofe transita da esfera c&oacute;smica para a da interioridade humana, como se o caos estivesse continuamente a renovar-se. A cat&aacute;strofe &ldquo;est&aacute; em nosso meio&rdquo; , diz Plat&atilde;o no <i>Cr&iacute;tias</i>. Queremos dizer com isso que o tema reaparece em toda parte, semelhante aos temas cosmol&oacute;gicos. &Eacute; um tema singular, pessoal, concordando aqui com o que observou Morin:</p>     <blockquote>nosso universo &eacute; catastr&oacute;fico desde o in&iacute;cio. Desde a deflagra&ccedil;&atilde;o formid&aacute;vel que o fez nascer, ele &eacute; dominado pelas for&ccedil;as de desloca&ccedil;&otilde;es, de desintegra&ccedil;&otilde;es, de colis&otilde;es, de explos&otilde;es e de destrui&ccedil;&atilde;o. &Eacute; constitu&iacute;do no e pelo genoc&iacute;dio da antimat&eacute;ria pela mat&eacute;ria, e sua aventura aterradora prossegue nas devasta&ccedil;&otilde;es, nos massacres e nas dilapida&ccedil;&otilde;es singulares. A sa&iacute;da &eacute; impiedosa. Tudo morrer&aacute;. (Morin, 1997, p. 271)</blockquote>     <p>Em 2011, Lars Von Trier lan&ccedil;ou o filme <i>Melancholia</i> e vimos novamente o &ldquo;fim dos tempos&rdquo; . O filme retrata duas irm&atilde;s (uma noiva, Justine – Kirsten Dunsy) e outra j&aacute; m&atilde;e, Claire (Charlotte Gainsbourg), com o seu marido John (Kiefer Sutherland), nas suas rela&ccedil;&otilde;es familiares e interpessoais e na sua dimens&atilde;o mental. Passa-se em dois momentos, o primeiro, antes de se saber que o Mundo vai acabar, no casamento falhado de Justine, que &eacute; a&iacute; o centro das aten&ccedil;&otilde;es; o segundo, quando o Apocalipse terrestre j&aacute; &eacute; quase uma certeza e &eacute; dado destaque, acima de tudo, ao &ldquo;desmoronar&rdquo; do mundo pessoal de Claire. Von Trier opta por iniciar o filme precisamente com o momento em que a Terra embate, sendo destru&iacute;da, com Melancolia, planeta imagin&aacute;rio. Explicou &agrave; imprensa que o fez precisamente porque queria deslocar a aten&ccedil;&atilde;o do espectador do acontecimento em si para o cen&aacute;rio humano subjacente. Justine (o nome da noiva) &eacute; uma refer&ecirc;ncia &agrave; &ldquo;Justine&rdquo; , do Marqu&ecirc;s de Sade; a m&uacute;sica do filme &eacute; essencialmente &ldquo;Trist&atilde;o e Isolda&rdquo; , de Richard Wagner.</p>     <p>Vimos ali o planeta Terra a ser atingido por outro planeta, chamado Melancolia. No filme, o ceticismo da ci&ecirc;ncia e dos m&eacute;dia s&atilde;o evidentes, vis&atilde;o n&atilde;o compartilhada pelas mulheres e os cavalos que, na sua intimidade com o cosmos, conseguem perceber o que est&aacute; por vir. Ali, semelhante ao romance de Italo Calvino, a cat&aacute;strofe acontece tanto na ordem cosmol&oacute;gica, como na ordem pessoal. No filme vemos Justine (Kirsten Dunsy) encarar a c&acirc;mara com olhar de tristeza enquanto p&aacute;ssaros mortos caem a sua volta; Claire (Charlotte Gainsbourg) carrega o filho com dificuldade atrav&eacute;s de um campo de golfe. Kirsten, vestida de noiva, aparece amarrada a fios de l&atilde; e, depois, a ser levada pela correnteza; um cavalo cai em sil&ecirc;ncio. Tudo rui.</p>     <p>O cinema est&aacute; impregnado de <i>pathos</i> do fim. O tema do holocausto, por exemplo, &eacute; uma constante na cinematografia mundial. Alguns ditadores tamb&eacute;m ficaram fascinados por imagens cinematogr&aacute;ficas. Adolf Hitler foi um deles. Hans Jurgen Syberberg conta-nos em <i>Hitler, um filme da Alemanha</i> (1978), que, at&eacute; iniciar a guerra, o <i>F&uuml;hrer</i> assistia a v&aacute;rios filmes todos os dias. Depois o in&iacute;cio da guerra, s&oacute; atualidades filmadas na frente de batalha. Ficamos a saber que cada regimento do ex&eacute;rcito alem&atilde;o tinha uma companhia de propaganda, cuja fun&ccedil;&atilde;o era cinematogr&aacute;fica. Esta a&ccedil;&atilde;o permitia que factos ocorridos no front se transformassem em document&aacute;rios jornal&iacute;sticos. Num discurso de Joseph Goebbels, no fim da guerra, ouvimo-lo dizer: &ldquo;senhores, em cem anos mostrar&atilde;o o filme que descrever&aacute; os espantosos dias que vivemos atualmente. N&atilde;o querem representar um papel neste filme? Cada um tem a oportunidade de escolher o seu papel&rdquo; (Nap, 1977, s.p.).</p>     <p>Hans Syberberg mostra-nos que a Alemanha perdeu a guerra, mas Hitler triunfou, ou seja, conseguiu impregnar ou imprimir a sua l&oacute;gica diab&oacute;lica ao s&eacute;culo, fazendo da pol&iacute;tica arte para as massas. Ele viu na destrui&ccedil;&atilde;o uma obra de arte total: &ldquo;Hitler o mais pretensioso dos cineastas. &Eacute; preciso v&ecirc;-lo como um cineasta&rdquo; , diz Peter Pal Pelbart (2000, p. 178). Segundo Pelbart, <i>Hitler, um filme da Alemanha</i>, n&atilde;o &eacute; um document&aacute;rio sobre uma cat&aacute;strofe, mas sobre como a cat&aacute;strofe se produziu como filme, a cat&aacute;strofe como <i>mise-en-sc&egrave;ne,</i> como megaprodu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica cinematogr&aacute;fica do III Reich.</p>     <p>Os filmes <i>Melancolia</i> e <i>Hitler, um filme da Alemanha</i> retomam o fio tem&aacute;tico da cat&aacute;strofe no nosso tempo pela via cinematogr&aacute;fica, atualizando a mem&oacute;ria arcaica sobre a cat&aacute;strofe. Assim como a arte, a ci&ecirc;ncia e a filosofia tamb&eacute;m atualizam a nossa mem&oacute;ria arcaica, como vemos em propostas como a Teoria do Caos ou a Teoria da Cat&aacute;strofe, de Ren&eacute; Thom (1983), a Teoria da Complexidade de Edgar Morin (1987), al&eacute;m da teoria dos m&eacute;dia de Vil&eacute;m Flusser. Cabe destacar que este &uacute;ltimo, em <i>Vampyroteuthis infernalis</i> (2011), designou como &ldquo;as tr&ecirc;s cat&aacute;strofes&rdquo; o processo de hominiza&ccedil;&atilde;o, de civiliza&ccedil;&atilde;o e o dos &ldquo;furac&otilde;es da m&iacute;dia&rdquo; (apesar de dizer que este terceiro momento est&aacute; ainda sem nome), ele refere-se obviamente ao campo da informa&ccedil;&atilde;o, da imprensa, da publicidade, do cinema, enfim, das trocas &ldquo;velozes e furiosas&rdquo; dos sistemas medi&aacute;tico-culturais.</p>     <p>A primeira cat&aacute;strofe foi a hominiza&ccedil;&atilde;o, a descida das &aacute;rvores, o tornar-se b&iacute;pede e ereto, o deslocar-se n&ocirc;made pela terra. A segunda cat&aacute;strofe foi a civilizacional, a cria&ccedil;&atilde;o de aldeias e cidades, em torno das quais os homens foram domesticados e passaram a cultivar vegetais e criar galinhas. Em latim, os verbos <i>sedere</i> (sentar) e <i>possedere</i> (possuir) s&atilde;o irm&atilde;os e mostram claramente a proximidade sem&acirc;ntica entre sentar e possuir. Dez mil anos depois dos primeiros assentamentos surge a escrita e os sistemas l&oacute;gicos dela advindos. Vivemos agora o advento da terceira grande cat&aacute;strofe, que nos obriga a navegar, surfar, perambular, viajar, enfim, dar o fora, pelas redes virtuais, pelas paisagens sint&eacute;ticas, pelos cen&aacute;rios e ambientes retangulares, enfim, pelas imagens visuais e sonoras dos m&eacute;dia.</p>     <p>O imagin&aacute;rio da cat&aacute;strofe remete-nos para dois imagin&aacute;rios opostos e complementares: do finito e do infinito. Sobre o imagin&aacute;rio do finito encontramos algumas ideias-imagens agrupadas nas representa&ccedil;&otilde;es de entropia, de morte, de desaparecimento, de cemit&eacute;rio, de sepultura, de abismo, de crep&uacute;sculo e de iman&ecirc;ncia absoluta. No imagin&aacute;rio do infinito temos outras imagens: o 8 (lemniscata<sup><a href="#8" name="top8">[8]</a></sup>), que &eacute; o Ouroboros<sup><a href="#9" name="top9">[9]</a></sup> duplicado (O + O), a cobra que come o pr&oacute;prio rabo, representa&ccedil;&atilde;o do movimento cont&iacute;nuo e perp&eacute;tuo, a imagem da liberdade, dos espa&ccedil;os abertos, a impossibilidade de registo como os gr&atilde;os de areia, as folhas e das estrelas. Esses imagin&aacute;rios (finito e infinito) op&otilde;em-se e complementam-se revelando-nos, por sua vez, os dois sentidos da cat&aacute;strofe: o negativo, de entropia, fim, t&eacute;rmino; e o positivo, de suplanta&ccedil;&atilde;o, cria&ccedil;&atilde;o e recria&ccedil;&atilde;o indeterminadas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>N&atilde;o queremos que o fim esteja pr&oacute;ximo, padecemos da agonia das conclus&otilde;es. Aquilo que os terapeutas chamam &ldquo;s&iacute;ndrome da procrastina&ccedil;&atilde;o&rdquo; <sup><a href="#10" name="top10">[10]</a></sup>. O que Nestrovski e Seligman-Silva denominaram &ldquo;paradoxo da cat&aacute;strofe&rdquo; anuncia a presen&ccedil;a do trauma, o eco da dor e da ferida, mas tamb&eacute;m a ultrapassagem e sua transcend&ecirc;ncia. Este paradoxo revela a nossa imensa capacidade de recome&ccedil;ar do zero. Observamos uma rela&ccedil;&atilde;o de proximidade entre as no&ccedil;&otilde;es de caos e de cat&aacute;strofe. A palavra Caos deriva de <i>K</i>&aacute;<i>os</i>, <i>Khra&iacute;en</i>, quer dizer abrir, entreabrir: &ldquo;significa abismo insond&aacute;vel, conceito acompanhado por uma esfera s&iacute;gnica que o personifica como vazio primordial, anterior &agrave; cria&ccedil;&atilde;o, enfim, como <i>rudis indigestaques moles</i> – massa informe e confusa – capaz de conter a semente de todas as coisas (Naves citado em Castro, Galeno &amp; Silva, 2003, p. 82).</p>     <p>O caos (assim como a cat&aacute;strofe) tira o fundamento, substituindo-o. A cat&aacute;strofe traz a incerteza e a &ldquo;virada para baixo&rdquo; . A nossa civiliza&ccedil;&atilde;o parece sofrer do que Peter Sloterdijk (2012) chamou &ldquo;complexo de catastrofilia&rdquo; . Significa um sintoma psicopol&iacute;tico de sufocamento da atmosfera social que carrega o nosso tempo at&eacute; o insuport&aacute;vel com tens&otilde;es esquizoides e ambival&ecirc;ncias. Passamos a encarar a realidade como paranoica, como perturba&ccedil;&atilde;o coletiva do sentimento vital, pela qual as energias da vida se deslocam para a simpatia do que &eacute; catastr&oacute;fico, apocal&iacute;ptico e dotado de viol&ecirc;ncia espetacular.</p>     <p>A literatura, o cinema, as artes e os m&eacute;dia, como um todo, mostram-nos que estamos submetidos a tempestades afetivas, informacionais e de consci&ecirc;ncia que se apoderam do grande p&uacute;blico, via explos&otilde;es de alegria, de viol&ecirc;ncia e, &agrave;s vezes – como no Brasil em &eacute;pocas de Copa do Mundo – de emo&ccedil;&atilde;o nacional; em outros momentos, o grande p&uacute;blico apodera-se do prazer e da ang&uacute;stia, da embriaguez de destino e da felicidade religiosa. As ideias de felicidade e sucesso s&atilde;o formas de fugir do fracasso. O &ldquo;complexo de catastrofilia&rdquo; corrobora o <i>pathos</i> do fim, essa incapacidade de concluir ou atitude sistem&aacute;tica de &ldquo;deixar para depois&rdquo; mesmo que essas tarefas se tornem urgentes e inadi&aacute;veis.</p>     <p>O volume da informa&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;dia imp&otilde;e-se como uma forma de consci&ecirc;ncia que aprende a escolher o esc&acirc;ndalo como modo de vida e a cat&aacute;strofe como ru&iacute;do de fundo, diz Peter Sloterdijk (2012, p. 412). Um exemplo: quando pensamos a quest&atilde;o criminal da maneira como &eacute; posta na nossa sociedade, mas tamb&eacute;m da maneira como &eacute; posta no &acirc;mbito das artes – literatura, teatro e cinema – deparamo-nos com um excesso de esquemas criminais diversos que nos d&aacute; a impress&atilde;o de esgotamento das f&oacute;rmulas de imaginar torturas, assassinatos, esquartejamentos, viol&ecirc;ncias v&aacute;rias. Criamos sempre e a cada dia novas formas de tens&atilde;o; situa&ccedil;&otilde;es de tens&atilde;o, que n&atilde;o querem mais ser comunicadas e dissolvidas, mas sim, lan&ccedil;adas pelos ares: &ldquo;a tend&ecirc;ncia aponta para caminhos brutais de sa&iacute;da de tens&atilde;o – para uma inclina&ccedil;&atilde;o a arrebentar, ao massacre, &agrave; explos&atilde;o, &agrave; cat&aacute;strofe&rdquo; (p. 410). O tr&aacute;gico deslocou-se para o mundo do jornalismo, n&atilde;o deixando totalmente o campo art&iacute;stico, como observamos nas reencena&ccedil;&otilde;es das trag&eacute;dias gregas e no cinema de cat&aacute;strofe.</p>     <p><b>O fim que &eacute; recome&ccedil;o: conclus&atilde;o</b></p>     <p>O nosso objetivo neste artigo consistiu em perceber como a no&ccedil;&atilde;o de tempo na literatura e no cinema pode aproximar-se daquela da f&iacute;sica e ambas subsidiarem um modo percetivo/est&eacute;tico pr&oacute;prio de media&ccedil;&atilde;o com o mundo como caos e ordem. Vimos como a no&ccedil;&atilde;o de tempo &eacute; mediadora da compreens&atilde;o da realidade espa&ccedil;o/tempo, seja do ponto de vista cient&iacute;fico (f&iacute;sico), seja do ponto de vista art&iacute;stico (ficcional). A &ldquo;imagina&ccedil;&atilde;o dos poss&iacute;veis&rdquo; de Calvino descrita por Prigogine revela um tra&ccedil;o fundante de abertura conceitual e de exerc&iacute;cio da transdisciplinaridade. &Eacute;, portanto, um tra&ccedil;o da intelig&ecirc;ncia humana. A imagina&ccedil;&atilde;o de Italo Calvino desenhou uma narrativa em que espa&ccedil;o e tempo se diluem de modo anam&oacute;rfico, din&acirc;mico, flutuante e auto-organizado. A forma do tempo aproxima-se da pr&oacute;pria forma de Qfwfq, muda continuamente, ora avan&ccedil;ando em complexidade, ora n&atilde;o. Estas narrativas, escritas ao longo dos anos 1970, cont&ecirc;m uma imagem-ideia de comunica&ccedil;&atilde;o e de m&eacute;dia que acompanha essa flutua&ccedil;&atilde;o, din&acirc;mica, movimento e incerteza. Neste sentido, cabe aos m&eacute;dia, qualquer que seja, abrigar em sua l&oacute;gica o processo ruidoso (&ldquo;bruit&rdquo; ), ca&oacute;tico ou catastr&oacute;fico, n&atilde;o como ru&iacute;do que produz apenas a desordem, mas tamb&eacute;m, necessariamente, como uma nova organiza&ccedil;&atilde;o s&oacute; poss&iacute;vel de ser alcan&ccedil;ada devido &agrave; capacidade de media&ccedil;&atilde;o (ou de &ldquo;intera&ccedil;&atilde;o&rdquo; ) do sistema.</p>     <p>A t&iacute;tulo de conclus&atilde;o, defendemos a ideia de que a rememora&ccedil;&atilde;o da cat&aacute;strofe &eacute; uma constante na arte, no cinema e na cultura porque &eacute; um tema &iacute;ntimo obsessivo. Padecemos do medo do fim. O esp&iacute;rito da morte parece assombrar apenas os que n&atilde;o foram marcados definitivamente pela cicatriz da finitude. A finitude &eacute;, portanto, quest&atilde;o de transcend&ecirc;ncia. Guardamos a mem&oacute;ria daquilo a que Edgar Morin chamou &ldquo;Destino doloroso&rdquo; (2013). A vida consciente &eacute; fr&aacute;gil e minorit&aacute;ria no imenso universo; ela guarda a informa&ccedil;&atilde;o e a lembran&ccedil;a remota dessa fragilidade.</p>     <p>Para Edgar Morin observamos cat&aacute;strofes em cadeia, na economia, na degrada&ccedil;&atilde;o da biosfera, na multiplica&ccedil;&atilde;o das armas de destrui&ccedil;&atilde;o, nas convuls&otilde;es etno-religiosas. N&atilde;o vivemos uma s&oacute; cat&aacute;strofe, mas um conjunto de movimentos com tend&ecirc;ncias para o desequil&iacute;brio e a instabilidade. Entendemos que o imagin&aacute;rio da cat&aacute;strofe, pensado a partir da literatura, do cinema, das artes e da comunica&ccedil;&atilde;o, &eacute; um infinito emocional &agrave; parte. Italo Calvino mostrou-nos a resili&ecirc;ncia, a capacidade de adaptabilidade e de resist&ecirc;ncia humana diante do tempo e do caos.</p>     <p>A nossa segunda conclus&atilde;o &eacute; a de que o tema da cat&aacute;strofe supre um pouco o afeto de horror da humanidade atual. &Eacute; um imagin&aacute;rio que precisa de ser constantemente reatualizado, revisitado, reexplorado para nos comover em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; necessidade de renascimentos.</p>     <p>A terceira conclus&atilde;o &eacute; a de que o imagin&aacute;rio da cat&aacute;strofe n&atilde;o &eacute; recente, n&atilde;o &eacute; individual, n&atilde;o &eacute; nacional. &Eacute; coletivo, transcultural e, em certo sentido, afetivo-po&eacute;tico e m&aacute;gico. A cat&aacute;strofe produz uma cadeia de afetos que vai do terror &agrave; piedade. Existe nela uma instabilidade permanente e atuante. Dia e noite, atua um princ&iacute;pio de convuls&atilde;o e harmonia entre as leis universais e os casos particulares, entre os deuses e os homens, entre as formas da natureza e as da cultura, os objetos do mundo e os seres pensantes. A import&acirc;ncia desta instabilidade est&aacute; no fato de que ela parece ser o motor das a&ccedil;&otilde;es. Sabemos que a cat&aacute;strofe real n&atilde;o &eacute; quando h&aacute; movimento, mas ao contr&aacute;rio, quando tudo fica estagnado, sem criatividade, sem sentido, sem fundo. A capacidade humana de imaginar e fazer o pior n&atilde;o tem limites. Mas tamb&eacute;m o contr&aacute;rio. Fugir do caos em dire&ccedil;&atilde;o a uma &ldquo;ordem de cristal&rdquo; , a <i>Eros</i> ou ao amor de Vug &eacute; uma forma de realizar a beleza.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></p>     <!-- ref --><p>Atlan, H. (1992). <i>Entre o cristal e a fuma&ccedil;a. Ensaio sobre a organiza&ccedil;&atilde;o do ser vivo</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013076&pid=S2183-3575201900020000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Baitello Jr, N. (2012). <i>Pensamento sentado. Sobre gl&uacute;teos, cadeiras e imagens</i>. S&atilde;o Leopoldo: Ed. Unisinos.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013078&pid=S2183-3575201900020000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Calvino, I. (1992). <i>As cosmic&ocirc;micas</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013080&pid=S2183-3575201900020000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Calvino, I. (1995). <i>Novas cosmic&ocirc;micas</i>. Lisboa: Teorema.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013082&pid=S2183-3575201900020000200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Flusser, V. (2011). <i>Vampyroteuthis infernalis</i>. S&atilde;o Paulo: Annablume.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013084&pid=S2183-3575201900020000200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Castro, G., Galeno, A. &amp; Silva, J. (2003). <i>Complexidade &agrave; flor da pele</i>. S&atilde;o Paulo: Cortez.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013086&pid=S2183-3575201900020000200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Garde, P. (Produtor) &amp; Von Trier, L. (Realizador). (2011). <i>Melancholia</i> [Filme]. Alemanha/Dinamarca/Fran&ccedil;a/ Su&eacute;cia.</p>     <!-- ref --><p>Maza, A. J. P. (2015). O poder expressivo da teoria dos mundos poss&iacute;veis nos videojogos: quando as narra&ccedil;&otilde;es se convertem em espa&ccedil;os interactivos e fict&iacute;cios. <i>Comunica&ccedil;&atilde;o e Sociedade</i>, <i>27</i>, 273-277. <a href="http://dx.doi.org/10.17231/comsoc.27(2015).2101" target="_blank">http://dx.doi.org/10.17231/comsoc.27(2015).2101</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013089&pid=S2183-3575201900020000200008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Morin, E. (1987). <i>O M&eacute;todo I – A natureza da natureza</i>. Lisboa: Europa Am&eacute;rica.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013090&pid=S2183-3575201900020000200009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Morin, E. (1997). <i>Meus dem&ocirc;nios</i>. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013092&pid=S2183-3575201900020000200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Morin, E. (2013). <i>Meus fil&oacute;sofos</i>. Porto Alegre: Sulina.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013094&pid=S2183-3575201900020000200011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Nap, H. (Produtor) &amp; Syberberg, H. (Realizador). (1977). <i>Hitler – Um filme da Alemanha</i> [Filme]. BBC Londres.</p>     <!-- ref --><p>Naves, D. (2003). Caos, filosofia e ci&ecirc;ncia. In G. Castro, J. Silva &amp; A. Galeno, <i>Complexidade &agrave; flor da pele</i> (pp. 81-94). S&atilde;o Paulo: Cortez.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013097&pid=S2183-3575201900020000200013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Nestrovski, A. &amp; Seligman-Silva, M. (2000). <i>Cat&aacute;strofe e representa&ccedil;&atilde;o</i>. S&atilde;o Paulo: Escuta.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013099&pid=S2183-3575201900020000200014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Pelbart, P. P. (2000). Cinema e holocausto. In A. Nestrovski &amp; M. Seligman-Silva, <i>Cat&aacute;strofe e representa&ccedil;&atilde;o</i> (pp. 171-183). S&atilde;o Paulo: Escuta.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013101&pid=S2183-3575201900020000200015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Pessis-Pasternak, G. (1993). <i>Do caos &agrave; intelig&ecirc;ncia artificial</i>. S&atilde;o Paulo: Unesp.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013103&pid=S2183-3575201900020000200016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Plat&atilde;o (2010). <i>Timeu – Cr&iacute;tias</i>. S&atilde;o Paulo: Annablume.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013105&pid=S2183-3575201900020000200017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Prigogine, I. (1996). <i>O fim das certezas</i>. S&atilde;o Paulo: Unesp.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013107&pid=S2183-3575201900020000200018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Prigogine, I. (1993). Ilya Prigogine: o arquiteto das &lsquo;estruturas dissipativas&rsquo;. In G. Pessis-Pasternak, <i>Do caos &agrave; intelig&ecirc;ncia artificial</i> (pp. 35-50). S&atilde;o Paulo: Unesp.</p>     <!-- ref --><p>Prigogine, I. &amp; Morin, E. (1998). <i>A sociedade em busca de valores</i>. Lisboa: Instituto Piaget.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013110&pid=S2183-3575201900020000200020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Prigogine, I. &amp; Stengers, I. (1997). <i>A nova alian&ccedil;a. Metamorfose da ci&ecirc;ncia</i>. Bras&iacute;lia: UnB.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013112&pid=S2183-3575201900020000200021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Romano, V. (1993). <i>Desrollo y progresso. Por una ecolog&iacute;a de la comunicaci&oacute;n.</i> Barcelona: Teide.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013114&pid=S2183-3575201900020000200022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Sloterdijk, P. (2012). <i>Cr&iacute;tica da raz&atilde;o c&iacute;nica</i>. S&atilde;o Paulo: Esta&ccedil;&atilde;o Liberdade.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013116&pid=S2183-3575201900020000200023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Thom, R. (1983). <i>Paraboles et catastrophes</i>. Paris: Flammarion.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013118&pid=S2183-3575201900020000200024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Weaver, W. (1948). Science and complexity. <i>American Scientist</i>, <i>36</i>, 536-544.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2013120&pid=S2183-3575201900020000200025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Nota biogr&aacute;fica</b></p>     <p>Gustavo Castro &eacute; poeta, escritor e jornalista. Est&aacute;gio s&ecirc;nior (2015) em Estudos Ib&eacute;ricos e Latino-americanos pela Universidade de Sorbonne - Paris IV (Bolsa Capes); P&oacute;s-doutorado (2011) em Teoria Liter&aacute;ria pela Universidade de Bras&iacute;lia (UnB); Doutorado (2002) em Antropologia pela Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo (PUC-SP), com tese sobre o escritor Italo Calvino (Bolsa Capes). Mestrado em Educa&ccedil;&atilde;o (Bolsa CNPq em Tecnologia Educacional) pela UFRN (1997). Pesquisador volunt&aacute;rio no Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de S&atilde;o Paulo (IEB-USP). Estuda o imagin&aacute;rio na perspectiva do pensamento complexo. Membro do eixo tem&aacute;tico &Eacute;tudes Lusophones (EL), do Centre de Recherches Interdisciplinaires sur le Monde Ib&eacute;riques Contemporains (Crimic/Sorbonne). Coordena o Grupo Siruiz - Estudo em Comunica&ccedil;&atilde;o e Produ&ccedil;&atilde;o Liter&aacute;ria (<a href="http://siruiz.com" target="_blank">http://siruiz.com/</a>), na Universidade de Bras&iacute;lia, onde &eacute; professor de Est&eacute;tica na Faculdade de Comunica&ccedil;&atilde;o. Dedica-se na atualidade ao projeto &ldquo;Perfil biogr&aacute;fico de Jo&atilde;o Guimar&atilde;es Rosa (1908-67)&rdquo; . &Eacute; autor de &ldquo;O Enigma Orides&rdquo; (Ed. Hedra, 2015), sobre a poeta Orides Fontela (1940-1998), entre outros.</p>     <p>ORCID: <a href="https://orcid.org/0000-0001-7126-6947" target="_blank">https://orcid.org/0000-0001-7126-6947</a></p>     <p>Email: <a href="mailto:gustavodecastro@unb.br">gustavodecastro@unb.br</a></p>     <p>Morada: QNL 07 Conjunto J, Casa 7, Taguatinga Norte, Bras&iacute;lia – DF / 72150-710</p>     <p>Florence Dravet &eacute; professora de Est&eacute;tica na Universidade Cat&oacute;lica de Bras&iacute;lia. &Eacute; doutora em Didactologia das L&iacute;nguas e Culturas, com tese em Comunica&ccedil;&atilde;o Intercultural, na Universidade de Paris III – Sorbonne-Nouvelle (2002). Fez p&oacute;s-doutorado em Comunica&ccedil;&atilde;o, pela Universidade de Bras&iacute;lia,(2011). Atual coordenadora do Programa de P&oacute;s Gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade Cat&oacute;lica de Bras&iacute;lia. Membro do corpo editorial da revista Esferas e da revista Comunicologia. Orienta pesquisas de gradua&ccedil;&atilde;o, inicia&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e mestrado. Estuda os fen&ocirc;menos da sensibilidade, do imagin&aacute;rio, do feminino, do corpo e do po&eacute;tico, as tradi&ccedil;&otilde;es afrobrasileiras e a transculturalidade. Coordena o grupo de estudos em Comunica&ccedil;&atilde;o, linguagem e Poesia do CNPq. &Eacute; co-organizadora dos livros &ldquo;Sob o c&eacute;u da cultura&rdquo; (Bras&iacute;lia, Thesaurus, Casa das Musas, 2008) e &ldquo;Saberes da comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Bras&iacute;lia, Casa das Musas, 2010). &Eacute; autora dos livros: &ldquo;Cr&iacute;tica da raz&atilde;o metaf&oacute;rica – mito, magia e poesia na cultura contempor&acirc;nea&rdquo; (Bras&iacute;lia, Casa das Musas, 2014) e &ldquo;Comunica&ccedil;&atilde;o e Poesia&rdquo; (Bras&iacute;lia, UnB, 2014) al&eacute;m de v&aacute;rios livros de poesia.</p>     <p>ORCID: <a href="https://orcid.org/0000-0002-3822-3627">https://orcid.org/0000-0002-3822-3627</a></p>     <p>Email: <a href="mailto:flormd@gmail.com">flormd@gmail.com</a></p>     <p>Morada: Avenida Jacarand&aacute;, Lote 22, Apto. 1011, &Aacute;guas Claras, Bras&iacute;lia – DF / 71927-540</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>* Submetido: 02/08/2018</b></p>     <p><b>* Aceite: 19/11/2018</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>     <p><sup><a href="#top1" name="1">[1]</a></sup> (1917-2003). F&iacute;sico-qu&iacute;mico russo naturalizado belga, especialista em desequil&iacute;brio termodin&acirc;mico. Pr&eacute;mio Nobel de Qu&iacute;mica (1977) pela sua contribui&ccedil;&atilde;o ao estudo do desequil&iacute;brio termodin&acirc;mico ou teoria das estruturas dissipativas. Foi fundador (1967) e primeiro diretor do Ilya Prigogine Center of Studies in Statistical Mechanics, Thermodynamics and Complex Systems, Universidade do Texas, Austin.</p>     <p><sup><a href="#top2" name="2">[2]</a></sup> Italo Calvino publicou tamb&eacute;m a continuidade das aventuras de Qfwfq no <i>Novas cosmic&ocirc;micas</i> (1995) a que faremos refer&ecirc;ncia aqui.</p>     <p><sup><a href="#top3" name="3">[3]</a></sup> Rudolf Clausius (1822-1888) f&iacute;sico e matem&aacute;tico alem&atilde;o, considerado um dos fundadores da ci&ecirc;ncia da termodin&acirc;mica. Em seu artigo mais importante, <i>Sobre a teoria mec&acirc;nica do calor</i>, publicado em 1850, exp&ocirc;s pela primeira vez as ideias b&aacute;sicas da segunda lei da termodin&acirc;mica. Em 1865 introduziu o conceito de entropia.</p>     <p><sup><a href="#top4" name="4">[4]</a></sup> Tito Lucr&eacute;cio Caro (99 a. C.). Poeta e fil&oacute;sofo, viveu 44 anos. Em <i>De rerum natura</i> Lucr&eacute;cio apresenta a teoria de que a luz vis&iacute;vel seria composta de pequenas part&iacute;culas.</p>     <p><sup><a href="#top5" name="5">[5]</a></sup> Chamamos &ldquo;cinema de cat&aacute;strofe&rdquo; ao conjunto de filmes produzidos com o tema do fim da humanidade (ou de parte dela) ou do planeta terra.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a href="#top6" name="6">[6]</a></sup> Cren&ccedil;a do retorno de um enviado divino. Palavra que deriva de Messias (<i>mashiah</i> em hebraico, <i>christ&oacute;s</i> em grego). Termo utilizado para caracterizar movimentos ou atitudes movidas pelo afeto de &ldquo;escolha&rdquo; ou de &ldquo;elei&ccedil;&atilde;o&rdquo; .</p>     <p><sup><a href="#top7" name="7">[7]</a></sup> Movimento m&iacute;stico-secular ocorrido em Portugal na segunda metade do s&eacute;culo XVI. Com o desaparecimento do rei D. Sebasti&atilde;o na batalha de Alc&aacute;cer-Quibir, em 1578 e, por falta de herdeiros, o trono portugu&ecirc;s terminou nas m&atilde;os do rei Felipe II da casa de Habsburgo. O sebastianismo &eacute; uma forma de messianismo adaptado &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es lusas e &agrave; cultura nordestina do Brasil. Significa inconformidade com a situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica vigente e expectativa de salva&ccedil;&atilde;o, ainda que miraculosa.</p>     <p><sup><a href="#top8" name="8">[8]</a></sup> Do latim <i>Lemniscus</i>: faixa suspensa. Curva que tem curva a forma similar ao numeral 8 e o s&iacute;mbolo de infinito. A raz&atilde;o dessa curva geom&eacute;trica assumir tal significado &eacute; em fun&ccedil;&atilde;o da sua linha cont&iacute;nua.</p>     <p><sup><a href="#top9" name="9">[9]</a></sup> <i>Ouroboros</i> (ou <i>oroboro</i> ou ainda <i>ur&oacute;boro</i>) &eacute; um s&iacute;mbolo representado por uma serpente, ou um drag&atilde;o, que morde a pr&oacute;pria cauda. O nome vem do grego antigo: ???? (oura) significa &ldquo;cauda&rdquo; e ß???? (boros), que significa &ldquo;devora&rdquo; . Assim, a palavra designa &ldquo;aquele que devora a pr&oacute;pria cauda&rdquo; . Sua representa&ccedil;&atilde;o simboliza a eternidade. Est&aacute; relacionado com a alquimia e &eacute;, por vezes, representado como dois animais m&iacute;ticos, mordendo o rabo um do outro. &Eacute; poss&iacute;vel que o s&iacute;mbolo matem&aacute;tico do infinito (8) tenha tido sua origem a partir da imagem de dois ouroboros, lado a lado.</p>     <p><sup><a href="#top10" name="10">[10]</a></sup> Refere-se &agrave; incapacidade de concluir. Atitude sistem&aacute;tica de &ldquo;deixar para depois&rdquo; mesmo que essas tarefas se tornem urgentes e inadi&aacute;veis.</p>      ]]></body><back>
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