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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Os refugiados em manifestos políticos presidenciais: entre silenciar e dar voz]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The crisis of migrants and refugees in 21st century Europe has created new disagreements on the old continent that pose difficult challenges for the construction of European identity. Already classified as the most massive post-war humanitarian and migratory crisis, the reality of migrants and refugees has revealed a Europe unable to respond to the problem with a joint solution. In addition to the humanitarian aspect, often of dramatic contours exploited by the media, the phenomenon is also a source of friction between the institutions and the Member states of EU, threatening to become the trigger for a European political crisis and a new balance of forces between States. Given the centrality it has gained, the refugee crisis may also be viewed as a means of pursuing strategic advantage by different political factions, which extract significant dividends for their territorialisation from the issue. Europeanist discourses of tolerance and acceptance, based on the ideals of solidarity of the European project, coexist with extremist, xenophobic and anti-integration discourses. In the present reflection, we analyse how the electoral political discourse, of the textual genre political manifesto, encodes argumentatively the refugee question, focusing, for this purpose, four of the electoral manifestos of the candidates for the Portuguese presidential elections of 2016. Following the proposal of Adam (2001, pp. 40-41) for the characterisation of a genre (in semantic, compositional/structural, enunciative, pragmatic, stylistic and phraseological, metatextual, peritextual and material components), we confirm that there is unity and diversity in the analysed specimens. On the one hand, unity that enables recognising the different texts as manifestations of the same genre; on the other hand, diversity that translates/produces effects in the ethè and discursive/political strategies of each candidate. The refugee crisis is precisely one of the topics whose management diverges substantially from manifesto to manifesto, revealing specific discursive and political strategies.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS TEM&Aacute;TICOS</b></p>     <p><b>Os refugiados em manifestos pol&iacute;ticos presidenciais: entre silenciar e dar voz</b></p>     <p><b>Refugees in presidential political manifestos: between silencing and giving a voice</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Alexandra Guedes Pinto</b></p>     <p><img src="http:/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="http://orcid.org/0000-0001-9120-1542" target="_blank">http://orcid.org/0000-0001-9120-1542</a></p>     <p>Departamento de Estudos Portugueses e Estudos Rom&acirc;nicos, Faculdade de Letras, Universidade do Porto, Portugal</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>A crise dos migrantes e refugiados na Europa do s&eacute;culo XXI originou novas diverg&ecirc;ncias no velho continente que colocam desafios dif&iacute;ceis &agrave; constru&ccedil;&atilde;o da identidade europeia. Classificada j&aacute; como a maior crise migrat&oacute;ria e humanit&aacute;ria do p&oacute;s-guerra, a realidade dos migrantes e refugiados revelou uma Europa incapaz de responder ao problema com uma solu&ccedil;&atilde;o conjunta. Para al&eacute;m do aspeto humanit&aacute;rio, muitas vezes de contornos dram&aacute;ticos explorados pelos m&eacute;dia, o fen&oacute;meno &eacute; tamb&eacute;m motivo de fric&ccedil;&otilde;es entre as institui&ccedil;&otilde;es e os Estados-membro da Uni&atilde;o Europeia, amea&ccedil;ando tornar-se o gatilho de uma crise pol&iacute;tica e de um novo equil&iacute;brio de for&ccedil;as entre os Estados. Dada a centralidade que ganhou, a crise dos refugiados pode tamb&eacute;m ser perspetivada do ponto de vista do aproveitamento pol&iacute;tico por parte de diferentes fa&ccedil;&otilde;es, que dela extraem dividendos importantes para a sua pr&oacute;pria territorializa&ccedil;&atilde;o. Discursos europe&iacute;stas, de toler&acirc;ncia e aceita&ccedil;&atilde;o, baseados nos ideais solid&aacute;rios do projeto europeu, coexistem com discursos extremistas, de tend&ecirc;ncia xen&oacute;foba e anti-integra&ccedil;&atilde;o. Na presente reflex&atilde;o, analisamos a forma como o discurso pol&iacute;tico eleitoralista, do g&eacute;nero textual <i>manifesto pol&iacute;tico,</i> codifica argumentativamente a quest&atilde;o dos refugiados, focalizando, para esse efeito, quatro dos manifestos eleitorais dos candidatos &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es presidenciais portuguesas de 2016. A partir da caracteriza&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero seguindo a proposta de Adam (2001, pp. 40-41) das componentes sem&acirc;ntica, composicional/estrutural, enunciativa, pragm&aacute;tica, estil&iacute;stica e fraseol&oacute;gica, metatextual, peritextual e material, confirmamos que existe, simultaneamente, unidade e diversidade nos exemplares analisados. Por um lado, uma unidade que permite reconhecer nos diferentes textos manifesta&ccedil;&otilde;es de um mesmo g&eacute;nero; por outro lado, uma diversidade que traduz/produz efeitos na constru&ccedil;&atilde;o do <i>ethos </i>e nas estrat&eacute;gias discursivas e pol&iacute;ticas de cada candidato. O tratamento da crise dos refugiados &eacute; justamente um dos temas cujo tratamento diverge substancialmente de manifesto para manifesto, revelando estrat&eacute;gias discursivas e pol&iacute;ticas espec&iacute;ficas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras-chave:&nbsp;</b>crise dos refugiados; manifestos pol&iacute;ticos; g&eacute;nero de texto; constru&ccedil;&atilde;o do <i>ethos</i>; estrat&eacute;gias discursivas e pol&iacute;ticas</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>The crisis of migrants and refugees in 21st century Europe has created new disagreements on the old continent that pose difficult challenges for the construction of European identity. Already classified as the most massive post-war humanitarian and migratory crisis, the reality of migrants and refugees has revealed a Europe unable to respond to the problem with a joint solution. In addition to the humanitarian aspect, often of dramatic contours exploited by the media, the phenomenon is also a source of friction between the institutions and the Member states of EU, threatening to become the trigger for a European political crisis and a new balance of forces between States. Given the centrality it has gained, the refugee crisis may also be viewed as a means of pursuing strategic advantage by different political factions, which extract significant dividends for their territorialisation from the issue. Europeanist discourses of tolerance and acceptance, based on the ideals of solidarity of the European project, coexist with extremist, xenophobic and anti-integration discourses. In the present reflection, we analyse how the electoral political discourse, of the textual genre <i>political manifesto,</i> encodes argumentatively the refugee question, focusing, for this purpose, four of the electoral manifestos of the candidates for the Portuguese presidential elections of 2016. Following the proposal of Adam (2001, pp. 40-41) for the characterisation of a genre (in semantic, compositional/structural, enunciative, pragmatic, stylistic and phraseological, metatextual, peritextual and material components), we confirm that there is unity and diversity in the analysed specimens. On the one hand, unity that enables recognising the different texts as manifestations of the same genre; on the other hand, diversity that translates/produces effects in the <i>eth</i>&egrave; and discursive/political strategies of each candidate. The refugee crisis is precisely one of the topics whose management diverges substantially from manifesto to manifesto, revealing specific discursive and political strategies.</p>     <p><b>Keywords:&nbsp;</b>refugees crisis; political manifestos; textual genre; <i>ethos</i> construction; discursive and political strategies</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>A crise dos migrantes e refugiados na Europa do in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI abriu as portas a novas diverg&ecirc;ncias no velho continente que colocam desafios dif&iacute;ceis &agrave; constru&ccedil;&atilde;o da identidade europeia.</p>     <p>Classificada j&aacute; como a maior crise migrat&oacute;ria e humanit&aacute;ria na Europa ap&oacute;s a Segunda Guerra Mundial, a realidade dos migrantes e refugiados p&ocirc;s a nu uma Europa incapaz de responder ao problema com uma solu&ccedil;&atilde;o &uacute;nica e conjunta. Para al&eacute;m do aspeto humanit&aacute;rio, muitas vezes de contornos dram&aacute;ticos explorados pelos m&eacute;dia, o fen&oacute;meno &eacute; tamb&eacute;m motivo de fric&ccedil;&otilde;es e fissuras entre as institui&ccedil;&otilde;es e os Estados-membro da Uni&atilde;o Europeia, amea&ccedil;ando tornar-se o gatilho de uma crise pol&iacute;tica europeia, conducente a um novo equil&iacute;brio de for&ccedil;as entre os Estados.</p>     <p>Dada a centralidade que ganhou, a crise dos refugiados pode tamb&eacute;m ser perspetivada do ponto de vista do aproveitamento pol&iacute;tico por parte de diferentes fa&ccedil;&otilde;es, que dela extraem dividendos importantes para a sua pr&oacute;pria territorializa&ccedil;&atilde;o. Discursos europe&iacute;stas, de toler&acirc;ncia e aceita&ccedil;&atilde;o, baseados nos ideais solid&aacute;rios do projeto europeu, coexistem com discursos extremistas, de tend&ecirc;ncia xen&oacute;foba e anti-integra&ccedil;&atilde;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na presente reflex&atilde;o, analisaremos a forma como o discurso pol&iacute;tico eleitoralista, do g&eacute;nero textual <i>manifesto pol&iacute;tico eleitoral,</i> codifica argumentativamente a quest&atilde;o dos refugiados, focalizando, para esse efeito, os manifestos eleitorais dos candidatos &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es presidenciais portuguesas de 2016<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Contextualiza&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>Come&ccedil;ando por uma brev&iacute;ssima contextualiza&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica dos discursos em an&aacute;lise, lembramos que as elei&ccedil;&otilde;es presidenciais em estudo foram as&nbsp;nonas elei&ccedil;&otilde;es para a Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica Portuguesa, desde a&nbsp;Revolu&ccedil;&atilde;o de 25 de abril de 1974,&nbsp;que rep&ocirc;s o regime democr&aacute;tico constitucional em Portugal. Tiveram lugar em 24 de janeiro&nbsp;de&nbsp;2016 e decidiram o sucessor do&nbsp;presidente&nbsp;&agrave; data, An&iacute;bal Cavaco Silva.</p>     <p>Dos 10 candidatos a concurso nestas elei&ccedil;&otilde;es, apenas cinco disputaram mais diretamente o acesso ao cargo, a saber: Marcelo Rebelo de Sousa, Ant&oacute;nio Sampaio da N&oacute;voa, Marisa Matias, Maria de Bel&eacute;m Roseira e Edgar Silva, visto que os restantes obtiveram vota&ccedil;&otilde;es menos expressivas.</p>     <p>Entre os mais votados, destacaram-se Marcelo Rebelo de Sousa, que acabou por vencer com maioria absoluta, obtendo 52% dos votos, e Ant&oacute;nio Sampaio da N&oacute;voa, que ficou em 2.&ordm; lugar, com cerca de 23% dos votos. Estes dois candidatos mais votados propuseram-se, inicialmente, como independentes, mas acabaram por conseguir o apoio de dois dos principais partidos pol&iacute;ticos portugueses, designados como os partidos do &ldquo;Bloco Central&rdquo; (PSD e PS, respetivamente). Os outros tr&ecirc;s candidatos mais votados foram Marisa Matias, representante do Bloco de Esquerda, que contou com 10% dos votos; Maria de Bel&eacute;m Roseira, militante socialista, mas a concorrer como independente, com 4,24% da vota&ccedil;&atilde;o; e o candidato comunista, Edgar Silva, que obteve 3,95% dos votos<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>.</p>     <p>Apesar de, no momento das elei&ccedil;&otilde;es em causa, Portugal n&atilde;o estar j&aacute; sob a supervis&atilde;o do programa de assist&ecirc;ncia financeira da Troika<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>, o pa&iacute;s enfrentava ainda os efeitos de uma crise econ&oacute;mica e social profunda, com dif&iacute;ceis metas a cumprir junto dos credores e algumas medidas de austeridade muito sens&iacute;veis, que marcaram de forma indel&eacute;vel o contexto deste plebiscito. A quase totalidade dos manifestos analisados reflete o seu contexto de produ&ccedil;&atilde;o, nomeadamente atrav&eacute;s da den&uacute;ncia forte do estado do pa&iacute;s; da express&atilde;o do descontentamento e revolta face ao estado de coisas vigente; do ataque aos atores sociais considerados respons&aacute;veis pela situa&ccedil;&atilde;o e atrav&eacute;s de propostas v&aacute;rias de supera&ccedil;&atilde;o e mudan&ccedil;a.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Tipo de discurso e g&eacute;nero de texto</b></p>     <p>Um outro aspeto relevante na caracteriza&ccedil;&atilde;o destes discursos &eacute; a sua inclus&atilde;o no g&eacute;nero de texto e no tipo de discurso respetivo.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Utilizando a proposta de Adam (2001, pp. 40-41) para a delimita&ccedil;&atilde;o de g&eacute;neros textuais, segundo as componentes sem&acirc;ntica, composicional/estrutural, enunciativa, pragm&aacute;tica, estil&iacute;stica e fraseol&oacute;gica, metatextual, peritextual e material, esbo&ccedil;amos aqui uma caracteriza&ccedil;&atilde;o breve deste g&eacute;nero de texto <i>manifesto pol&iacute;tico eleitoral</i> dentro do tipo de <i>discurso pol&iacute;tico</i><sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>.</p>     <p>Um <i>manifesto eleitoral</i> &eacute; um documento em que um candidato ou um partido identificam as suas posi&ccedil;&otilde;es e estrat&eacute;gias pol&iacute;ticas e definem as suas propostas de a&ccedil;&atilde;o e de legisla&ccedil;&atilde;o futura, no caso de conquistarem votos suficientes para chegarem ao poder. Trata-se de uma declara&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica de princ&iacute;pios e inten&ccedil;&otilde;es, destinada a mobilizar uma comunidade na ades&atilde;o a um projeto pol&iacute;tico, tendo, por isso, prop&oacute;sitos pragm&aacute;ticos est&aacute;veis que s&atilde;o os de confirmar as posi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas do locutor, compromet&ecirc;-lo com a execu&ccedil;&atilde;o futura de determinadas a&ccedil;&otilde;es, e apelar &agrave; ades&atilde;o do destinat&aacute;rio.</p>     <p>Do ponto de vista composicional, o manifesto possui dimens&otilde;es vari&aacute;veis e uma estrutura relativamente livre, mas com algumas componentes regulares. Compreende sempre uma sequ&ecirc;ncia de abertura com um t&iacute;tulo destacado graficamente<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>, que identifica um eixo sem&acirc;ntico-pragm&aacute;tico central da proposta do candidato, o &ldquo;mote da campanha&rdquo;, seguido de um ou v&aacute;rios atos de sauda&ccedil;&atilde;o do <i>tu</i>, podendo tamb&eacute;m ocorrer atos expressivos de agradecimento; compreende tamb&eacute;m uma sequ&ecirc;ncia de fecho, com atos diretivos de incita&ccedil;&atilde;o ao voto e o encerramento, com a identifica&ccedil;&atilde;o do local, da data, e da(s) assinatura(s) dos autor(es), &agrave; semelhan&ccedil;a do que se passa com uma carta<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>. A sequ&ecirc;ncia de desenvolvimento est&aacute; sempre dividida em macroestruturas identificadas atrav&eacute;s de subt&iacute;tulos. Estas subdivis&otilde;es correspondem &agrave; identifica&ccedil;&atilde;o das principais sec&ccedil;&otilde;es sem&acirc;ntico-pragm&aacute;ticas do texto, que variam de caso para caso, mas que incluem sempre duas grandes partes: a parte em que o candidato caracteriza o contexto vigente e a parte em que o candidato formula os princ&iacute;pios defendidos e as propostas de a&ccedil;&atilde;o futura. As sequ&ecirc;ncias textuais dominantes, tendo em conta a proposta das sequ&ecirc;ncias textuais de Adam (2008), s&atilde;o, prototipicamente, a expositiva e a argumentativa.</p>     <p>Os manifestos eleitorais presidenciais t&ecirc;m marcas do seu enunciador &agrave; superf&iacute;cie do discurso, quer seja atrav&eacute;s do <i>eu</i>, quer seja atrav&eacute;s do <i>n</i><i>&oacute;s</i> (n&atilde;o inclusivo e inclusivo)<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>, sendo formulados por locutores que se declaram, atrav&eacute;s do seu manifesto, como atores pol&iacute;ticos, mudando, desta forma, o seu estatuto de cidad&atilde;os comuns para o de candidatos presidenciais<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>. No quadro desta afirma&ccedil;&atilde;o do <i>eu</i>, torna-se particularmente relevante a constru&ccedil;&atilde;o do <i>ethos</i> do locutor, que se faz, prototipicamente, pelo menos parcialmente, por alteridade, ou seja, por oposi&ccedil;&atilde;o a um <i>outro</i> de que o <i>eu </i>se serve para se autoidentificar e face a quem se posiciona para construir uma identidade qualificada. Neste contexto, surgem enunciados de polariza&ccedil;&atilde;o de um <i>eu</i>/<i>n</i><i>&oacute;s</i> face a um <i>eles</i>/os <i>outros</i> que o locutor critica e de quem se distancia.</p>     <p>Em termos lingu&iacute;sticos, a superf&iacute;cie destes discursos cont&eacute;m marcas fortes de modaliza&ccedil;&atilde;o e subjetividade, tra&ccedil;os relacionados com a presen&ccedil;a do locutor no seu texto e tamb&eacute;m marcas fortes de argumenta&ccedil;&atilde;o, que suportam a presen&ccedil;a da controv&eacute;rsia e da persuas&atilde;o.</p>     <p>Do ponto de vista metatextual, estes documentos s&atilde;o normalmente identificados pelos seus autores como &ldquo;manifestos&rdquo;, havendo, todavia, algumas varia&ccedil;&otilde;es nestas refer&ecirc;ncias metatextuais, tais como as que acontecem no caso em estudo, em que Ant&oacute;nio Sampaio da N&oacute;voa renomeia o seu manifesto, chamando-lhe &ldquo;Carta de princ&iacute;pios&rdquo;<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>, Edgar Silva, que intitula o seu como &ldquo;Declara&ccedil;&atilde;o de candidatura&rdquo;<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>; ou ainda Marcelo Rebelo de Sousa<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>, que n&atilde;o identifica o seu texto com qualquer r&oacute;tulo metatextual<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>.</p>     <p>Ainda, dos pontos de vista peritextual e material, acrescentaremos sumariamente que estes textos circulam tanto como textos impressos, por vezes distribu&iacute;dos nas sess&otilde;es de apresenta&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica das candidaturas em que s&atilde;o comunicados oralmente, como enquanto textos digitais, normalmente colocados no website das candidaturas e, por vezes, nas pr&oacute;prias p&aacute;ginas dos partidos apoiantes. Tanto nas p&aacute;ginas impressas como nas p&aacute;ginas digitais, os textos estabelecem fronteira com outros textos, como sejam as fotografias dos candidatos, a identifica&ccedil;&atilde;o dos links das p&aacute;ginas das candidaturas, entre outros. A dimens&atilde;o dos manifestos, no caso em apre&ccedil;o, varia entre uma vers&atilde;o mais curta, de que &eacute; exemplo o manifesto de Marcelo Rebelo de Sousa, com 1.400 palavras, at&eacute; uma vers&atilde;o mais longa, de que &eacute; exemplo o manifesto de Edgar Silva, com 3.929 palavras.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Os manifestos presidenciais de 2016</b></p>     <p>Torna-se claro, a partir do exposto na sec&ccedil;&atilde;o anterior, que, entre os manifestos analisados, se desenha uma &aacute;rea de prototipicidade, com a sali&ecirc;ncia de alguns aspetos regulares e partilhados, aos n&iacute;veis previstos por Adam para o recorte de um g&eacute;nero (2001), aspetos esses que nos habilitam a falar do desenho de um g&eacute;nero de texto espec&iacute;fico, dentro do tipo de discurso pol&iacute;tico: o manifesto pol&iacute;tico eleitoral.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em contrapartida, embora o enquadramento num g&eacute;nero de texto nos permita antecipar algumas linhas de organiza&ccedil;&atilde;o comuns dos manifestos, a verdade &eacute; que se percebe tamb&eacute;m, em cada um deles, uma &aacute;rea de especificidade, com diferen&ccedil;as sem&acirc;ntico-pragm&aacute;ticas, estil&iacute;sticas e enunciativas, que s&atilde;o resultado e, simultaneamente, que produzem efeitos da/na constru&ccedil;&atilde;o do <i>ethos </i>e das/nas estrat&eacute;gias discursivas e pol&iacute;ticas de cada um. A abordagem do t&oacute;pico dos refugiados/migrantes &eacute; justamente um dos aspetos em que os manifestos presidenciais em estudo se revelam diferentes<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Venho de uma fam&iacute;lia de emigrantes: o <i>ethos</i> emp&aacute;tico no manifesto de Marcelo Rebelo de Sousa</b></p>     <p>De entre os quatro manifestos confrontados, o manifesto de Marcelo Rebelo de Sousa &eacute; o que se afirma como o menos protot&iacute;pico.</p>     <p>Este candidato, que partia nas sondagens j&aacute; com uma larga vantagem e que acabou por ganhar as elei&ccedil;&otilde;es, era Professor Catedr&aacute;tico na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e possu&iacute;a j&aacute; uma longa carreira pol&iacute;tica, tendo assumido v&aacute;rios minist&eacute;rios em Governos constitucionais sucessivos. O candidato colaborou tamb&eacute;m, como comentador pol&iacute;tico, na r&aacute;dio e em dois canais de televis&atilde;o generalistas, tendo adquirido, gra&ccedil;as a esta exposi&ccedil;&atilde;o, uma influ&ecirc;ncia medi&aacute;tica grande. Ter&aacute; sido, porventura, esta vantagem medi&aacute;tica que lhe permitiu a constru&ccedil;&atilde;o de uma estrat&eacute;gia discursiva at&iacute;pica.</p>     <p>Com efeito, se, de uma forma geral, os manifestos pol&iacute;ticos se caracterizam por uma constru&ccedil;&atilde;o discursiva fundamentada num processo de polariza&ccedil;&atilde;o do <i>eu</i> face ao <i>outro</i> (&ldquo;Apresenta&ccedil;&atilde;o positiva do <i>eu</i> e negativa do <i>outro</i>&rdquo;, Wodak, 2001, p. 73), criando dois eixos axiol&oacute;gicos antag&oacute;nicos, resum&iacute;veis em: <i>eu</i> = <i>bem</i> <i>versus</i> o <i>outro</i> = <i>mal</i>, o manifesto presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa afasta-se desta organiza&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica e enunciativa, na medida em que o seu discurso se centra na caracteriza&ccedil;&atilde;o do <i>eu</i>, atrav&eacute;s de uma exposi&ccedil;&atilde;o e uma argumenta&ccedil;&atilde;o que evidenciam o seu percurso de vida, os seus sucessos profissionais e pessoais, os cargos no setor p&uacute;blico e privado, bem como alguns compromissos futuros muito gen&eacute;ricos, sem recurso &agrave; desqualifica&ccedil;&atilde;o do <i>outro </i>para se autoafirmar.</p>     <p>Veja-se, a t&iacute;tulo de exemplo desta estrat&eacute;gia n&atilde;o protot&iacute;pica, o excerto seguinte, em que o candidato enaltece os candidatos oponentes: &ldquo;ponderado tudo isto assim como as candidaturas anunciadas, todas elas a merecerem a minha maior considera&ccedil;&atilde;o, e ponderada tamb&eacute;m a situa&ccedil;&atilde;o nacional &agrave; sa&iacute;da das elei&ccedil;&otilde;es para a Assembleia da Rep&uacute;blica tinha de fazer uma escolha&rdquo; (Manifesto MRS<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a>).</p>     <p>O manifesto de Marcelo Rebelo de Sousa &eacute;, tamb&eacute;m, o manifesto menos program&aacute;tico de todos, na medida em que o candidato n&atilde;o toma posi&ccedil;&atilde;o clara em rela&ccedil;&atilde;o a praticamente nenhum dos t&oacute;picos abordados pelos outros candidatos. O seu manifesto aposta, essencialmente, na constru&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita da imagem do <i>eu</i>, numa esp&eacute;cie de autobiografia, em que o proponente seleciona aqueles aspetos da sua identidade e da sua hist&oacute;ria de vida que lhe parecem mais relevantes para se autocaracterizar e para construir uma rela&ccedil;&atilde;o com o <i>tu</i>. &Eacute; atrav&eacute;s da narra&ccedil;&atilde;o do seu percurso biogr&aacute;fico, que assume, por vezes, um tom confessional, de grande proximidade para com o <i>tu</i>, que a sua identidade p&uacute;blica se afirma como experiente, fi&aacute;vel, emp&aacute;tica, solid&aacute;ria e digna do cargo de Presidente da Rep&uacute;blica.</p>     <p>O pol&iacute;tico apenas indiretamente toma posi&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o ao tema sens&iacute;vel dos migrantes, fazendo-o mais uma vez num contexto de relato autobiogr&aacute;fico, ou seja, mostrando que, sendo proveniente de uma fam&iacute;lia de emigrantes, ningu&eacute;m mais do que ele conhece esta realidade e a aceita como estrutural na nossa sociedade. &Eacute;, pois, num contexto n&atilde;o program&aacute;tico, mas sim de relato autobiogr&aacute;fico confessional, afetivo, que Marcelo Rebelo de Sousa insinua a sua posi&ccedil;&atilde;o de toler&acirc;ncia e aceita&ccedil;&atilde;o relativamente a este assunto, ensaiando uma estrat&eacute;gia de aproxima&ccedil;&atilde;o do <i>tu</i>.</p>     <p>Veja-se a passagem abaixo, em que o candidato caracteriza a sua fam&iacute;lia como uma fam&iacute;lia de emigrantes:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <blockquote>sou pai de dois filhos e av&ocirc; de cinco netos. A maior parte desta minha fam&iacute;lia vive no Brasil dando continuidade a uma gesta que o meu av&ocirc;, os meus pais e um dos meus irm&atilde;os corporizaram como emigrantes. Sei, como um sem n&uacute;mero de portugueses, o que custa a dist&acirc;ncia e o que vale sermos uma p&aacute;tria dispersa pelo mundo em que muitos dos nossos melhores tiveram de partir porque n&atilde;o encontravam entre n&oacute;s condi&ccedil;&otilde;es para ficar. (Manifesto MRS)         <p></p> </blockquote>     <p>O manifesto de Marcelo Rebelo de Sousa &eacute; um manifesto constitu&iacute;do maioritariamente por atos assertivos, sendo quase inexistentes os atos diretivos, onde poderiam estar expressas recomenda&ccedil;&otilde;es ou apelos, e os atos compromissivos, contribuindo, isto, para a aus&ecirc;ncia de um <i>ethos </i>autorit&aacute;rio. Um dos poucos atos compromissivos executados pelo enunciador neste manifesto &eacute; o que encerra o seu discurso e que transcrevemos abaixo:</p>     <p>     <blockquote>foi para dizer que cumprirei o meu dever moral de pagar a Portugal o que Portugal me deu que aqui vim e aqui estou. Serei candidato &agrave; presid&ecirc;ncia da rep&uacute;blica de Portugal, pelas portuguesas e pelos portugueses. (Manifesto MRS)         <p></p> </blockquote>     <p>A escassez deste tipo de ato ilocut&oacute;rio, caracter&iacute;stico do discurso pol&iacute;tico e dos manifestos eleitorais, devido &agrave; formula&ccedil;&atilde;o das chamadas &ldquo;promessas pol&iacute;ticas&rdquo;, marca tamb&eacute;m a diferencia&ccedil;&atilde;o de posicionamento deste candidato. Cognominado posteriormente de &ldquo;presidente dos afetos&rdquo;, poder&iacute;amos resumir o lema da sua candidatura como &ldquo;eu sou um de v&oacute;s&rdquo;, na medida em que esta estrat&eacute;gia de empatia &eacute; a estrat&eacute;gia mais poderosa que utiliza para se afirmar.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O regresso aos ideais de solidariedade e paz da Europa: o discurso gen&eacute;rico sobre os migrantes no manifesto de Ant&oacute;nio Sampaio da N&oacute;voa</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Professor Catedr&aacute;tico no Instituto de Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade de Lisboa, onde ocupou j&aacute; o cargo de reitor, Sampaio da N&oacute;voa candidatou-se &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es presidenciais de 2016 como independente, embora tenha tido apoios &agrave; esquerda, de v&aacute;rias forma&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e de ex-presidentes da Rep&uacute;blica, tais como M&aacute;rio Soares, Jorge Sampaio e Ramalho Eanes.</p>     <p>O manifesto de Sampaio da N&oacute;voa possui um conte&uacute;do program&aacute;tico mais claro do que o de Marcelo Rebelo de Sousa, que se revela nas frequentes constru&ccedil;&otilde;es compromissivas do texto, exemplificadas atrav&eacute;s dos segmentos seguintes:</p>     <p>     <blockquote>defenderei o pluralismo, a diversidade, a discuss&atilde;o aberta dos problemas nacionais. (&hellip;) Lutarei contra o amorfismo, a indiferen&ccedil;a, a resigna&ccedil;&atilde;o, a passividade, o conformismo e o pensamento &uacute;nico. (&hellip;) N&atilde;o serei um Presidente passivo. (&hellip;) Usarei a palavra, a interven&ccedil;&atilde;o e a magistratura de influ&ecirc;ncia de que o Presidente, e s&oacute; o Presidente, disp&otilde;e. (Manifesto ASN)         <p></p> </blockquote>     <p>J&aacute; os atos diretivos est&atilde;o presentes em v&aacute;rios momentos deste discurso, sendo expressos por estruturas lingu&iacute;sticas diversificadas, mas todas com a presen&ccedil;a da modalidade de&ocirc;ntica<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a>, ora positiva, ora negativa, como podemos verificar nos exemplos seguintes:</p>     <p>     <blockquote>esta &eacute;, tem de ser, novamente, a nossa hora (&hellip;). N&atilde;o podemos aceitar que sejam postas em causa expectativas de quem trabalhou uma vida inteira. (&hellip;) N&atilde;o podemos colocar portugueses contra portugueses, quebrar os la&ccedil;os solid&aacute;rios que devem unir as gera&ccedil;&otilde;es. (&hellip;) N&atilde;o podemos aceitar a vergonha do desemprego jovem e do trabalho prec&aacute;rio, que s&atilde;o factores permanentes de corros&atilde;o, crimes contra a dignidade de cada um e o futuro de todos. (Manifesto ASN)         <p></p> </blockquote>     <p>Em alguns destes atos, a modalidade de&ocirc;ntica cruza-se com a modalidade apreciativa da cr&iacute;tica, produzindo atos h&iacute;bridos. Todavia, a cr&iacute;tica n&atilde;o surge de forma expl&iacute;cita e a constru&ccedil;&atilde;o do <i>eu</i> por oposi&ccedil;&atilde;o a um <i>outro</i> apenas fica dispon&iacute;vel nestas sequ&ecirc;ncias em que o candidato, identificando a instru&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s da estrutura de&ocirc;ntica negativa <i>n&atilde;o podemos</i> <i>x</i>, acaba por verbalizar um conjunto de situa&ccedil;&otilde;es negativas no passado/presente, das quais se demarca, apontando para as mudan&ccedil;as que se prop&otilde;e executar.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O &uacute;nico momento em que o candidato faz uma alus&atilde;o mais direta ao problema da emigra&ccedil;&atilde;o &eacute; no excerto seguinte:</p>     <p>     <blockquote>as tens&otilde;es dos &uacute;ltimos anos t&ecirc;m colocado em causa a coes&atilde;o pol&iacute;tica da Europa e exigem um debate urgente sobre a democratiza&ccedil;&atilde;o da Uni&atilde;o. (&hellip;) As alternativas est&atilde;o, em grande parte, no regresso aos ideais europeus de solidariedade, de paz e de converg&ecirc;ncia, ideais pelos quais um Presidente da Rep&uacute;blica tem de se bater, corajosamente. (Manifesto ASN)         <p></p> </blockquote>     <p>Atrav&eacute;s deste exemplo, confirmamos que n&atilde;o existe, neste discurso, uma refer&ecirc;ncia expl&iacute;cita ao tema dos migrantes ou refugiados, ao contr&aacute;rio do que veremos acontecer nos manifestos dos candidatos de esquerda, Marisa Matias e Edgar Silva, mas sim o enquadramento do tema numa quest&atilde;o mais geral, que &eacute; a da rela&ccedil;&atilde;o de Portugal com a Europa e o regresso da Europa aos seus ideais originais de solidariedade, paz e converg&ecirc;ncia. Esta tomada de posi&ccedil;&atilde;o, moderada, faz-se atrav&eacute;s da generaliza&ccedil;&atilde;o e abstra&ccedil;&atilde;o do tema para o plano dos valores e ideais e serve para preservar a face positiva do candidato, que n&atilde;o se exp&otilde;e em demasia, no que diz respeito a um assunto sens&iacute;vel e fraturante.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Os terr&iacute;veis flagelos dos refugiados: a hiperboliza&ccedil;&atilde;o no manifesto de Edgar Silva</b></p>     <p>Edgar Silva, natural do Funchal, licenciou-se em Teologia e exerceu fun&ccedil;&otilde;es de Padre Cat&oacute;lico. Em 1996, tornou-se deputado na Assembleia Legislativa da Regi&atilde;o Aut&oacute;noma da Madeira e, desde 1998, membro do Comit&eacute; Central do PCP, renunciando &agrave; sua carreira religiosa. No manifesto que assinala a sua candidatura &agrave; Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica, Edgar Silva constr&oacute;i um <i>ethos</i> que assenta, sobretudo, no sentido de dever e de miss&atilde;o para com os portugueses.</p>     <p>Atualizando uma constru&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntico-argumentativa mais protot&iacute;pica dos manifestos pol&iacute;ticos, a que aludimos na sec&ccedil;&atilde;o dois acima, a constru&ccedil;&atilde;o da imagem do <i>eu</i> na declara&ccedil;&atilde;o de candidatura de Edgar Silva &eacute; feita em confronto com a imagem do <i>outro</i>. Para tal, o autor serve-se de estruturas lingu&iacute;sticas tais como estruturas de&ocirc;nticas positivas e negativas e de um l&eacute;xico com dimens&atilde;o axiol&oacute;gica marcada.</p>     <p>Para al&eacute;m destas sequ&ecirc;ncias em torno de atos assertivos avaliativos, de atos expressivos, de cr&iacute;tica e de elogio, e de atos diretivos de recomenda&ccedil;&atilde;o, encontramos, no seu discurso, longas listas de atos compromissivos, performativos expl&iacute;citos e n&atilde;o expl&iacute;citos, onde o candidato apresenta o seu programa, que podemos ilustrar a partir dos exemplos seguintes:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <blockquote>comprometo-me com a causa da liberta&ccedil;&atilde;o das amarras da pobreza, encarando-a como dever do Presidente da Rep&uacute;blica (&hellip;). Comprometo-me, entre outros objectivos, a promover a participa&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica e pol&iacute;tica e o di&aacute;logo com as estruturas representativas da Di&aacute;spora (&hellip;). Assumo e assumirei o compromisso da op&ccedil;&atilde;o preferencial pelos mais pobres, pelos explorados. (&hellip;) &Eacute; um compromisso que tem orientado toda a minha vida. (&hellip;) Como candidato ou como Presidente da Rep&uacute;blica defenderei<b>,</b> intransigentemente, os ideais libertadores de Abril. (Manifesto ES)         <p></p> </blockquote>     <p>A imagem do <i>eu</i>/<i>n</i><i>&oacute;s</i> (os apoiantes e os potenciais apoiantes<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a>) &eacute; constru&iacute;da atrav&eacute;s de um l&eacute;xico euf&oacute;rico que visa valorizar a face do locutor e do movimento pol&iacute;tico e c&iacute;vico que este representa. Em oposi&ccedil;&atilde;o, a constru&ccedil;&atilde;o do <i>outro</i> &eacute; feita atrav&eacute;s de express&otilde;es lexicais com valor sem&acirc;ntico avaliativo negativo<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a>. Al&eacute;m da utiliza&ccedil;&atilde;o do l&eacute;xico disf&oacute;rico, a imagem do <i>outro</i> &eacute;, tamb&eacute;m, constru&iacute;da atrav&eacute;s do uso da modalidade de&ocirc;ntica negativa em constru&ccedil;&otilde;es do tipo de <i>n&atilde;o podemos x, </i>que j&aacute; vimos ocorrer no Manifesto de Ant&oacute;nio Sampaio da N&oacute;voa:</p>     <p>     <blockquote>n&atilde;o podemos ser c&uacute;mplices do ataque ao Servi&ccedil;o Nacional de Sa&uacute;de e &agrave; Escola P&uacute;blica. (&hellip;) N&atilde;o podemos pactuar com o corte nas presta&ccedil;&otilde;es sociais, com o roubo aos rendimentos, com a brutal injusti&ccedil;a fiscal, com o desemprego, a precariedade, a viola&ccedil;&atilde;o de direitos, enquanto se refina a prote&ccedil;&atilde;o e apoio ao grande capital, que n&atilde;o p&aacute;ra de aumentar os seus colossais lucros. (Manifesto ES)         <p></p> </blockquote>     <p>Atrav&eacute;s destas estruturas de&ocirc;nticas negativas, o locutor afirma uma posi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica (sua e do movimento que representa), contr&aacute;ria a uma outra posi&ccedil;&atilde;o, identificada no complemento das ora&ccedil;&otilde;es em causa, onde s&atilde;o enumerados estados de coisas disf&oacute;ricos, j&aacute; referidos acima (&ldquo;o ataque ao Servi&ccedil;o Nacional de Sa&uacute;de e &agrave; Escola P&uacute;blica&rdquo;; &ldquo;o corte nas presta&ccedil;&otilde;es sociais&rdquo;, &ldquo;o roubo aos rendimentos&rdquo;, &ldquo;a brutal injusti&ccedil;a fiscal&rdquo;, &ldquo;o desemprego&rdquo;, &ldquo;a precariedade&rdquo;, &ldquo;a viola&ccedil;&atilde;o de direitos&rdquo;). O locutor desqualifica, assim, a imagem de um <i>outro</i>, respons&aacute;vel pelos estados de coisas descritos e afasta-se deste, recusando-se a seguir pol&iacute;ticas do passado e comprometendo-se a fazer de forma diferente:</p>     <p>     <blockquote>esta candidatura que assumo exprime essa exig&ecirc;ncia de uma profunda ruptura e de viragem em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s orienta&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas que tanta desordem e tanta regress&atilde;o impuseram ao nosso Pa&iacute;s (&hellip;). Defendo que um outro Portugal &eacute; poss&iacute;vel. Com uma economia mista que defenda os recursos e a produ&ccedil;&atilde;o nacional, o emprego, que promova a ci&ecirc;ncia e a tecnologia, que desenvolva e modernize as capacidades produtivas nacionais, que desenvolva a economia do mar e apoie os pescadores, apoie e incentive as micro, pequenas e m&eacute;dias empresas. (Manifesto ES)         ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p> </blockquote>     <p>Em passagens como a anterior, a argumenta&ccedil;&atilde;o &eacute; apoiada pelo uso do presente do conjuntivo que remete para um mundo potencial, diferente do mundo atual, que o candidato critica, configurando, numa mesma unidade, um complexo ilocut&oacute;rio de cr&iacute;tica sobre o passado /presente e de proposta para o futuro. As duas realidades passado + presente <i>versus</i> futuro s&atilde;o alvo de posicionamentos axiol&oacute;gicos antag&oacute;nicos, sendo a primeira perspetivada como altamente negativa e a segunda, apresentada como altamente positiva, numa configura&ccedil;&atilde;o polarizada do real<sup><a href="#18">18</a></sup><a name="top18"></a>.</p>     <p>A constru&ccedil;&atilde;o de uma imagem negativa do outro ajuda a constru&ccedil;&atilde;o da imagem positiva do <i>eu</i>. As sequ&ecirc;ncias em que o candidato desqualifica o <i>outro</i> s&atilde;o sequ&ecirc;ncias de cr&iacute;tica com for&ccedil;a ilocut&oacute;ria expressiva forte, tal como fica patente nos exemplos abaixo:</p>     <p>     <blockquote>nos nossos dias, o Pa&iacute;s est&aacute; a ser saqueado e destru&iacute;do pelos especuladores, e os respons&aacute;veis pela governa&ccedil;&atilde;o decretaram a subordina&ccedil;&atilde;o de Portugal aos mercados (&hellip;). As pol&iacute;ticas dos &uacute;ltimos anos agravaram ainda mais as desigualdades sociais e a pobreza. Um modelo econ&oacute;mico assente em baixos sal&aacute;rios e em baixos n&iacute;veis de qualifica&ccedil;&atilde;o, a crescente desresponsabiliza&ccedil;&atilde;o do Estado das suas fun&ccedil;&otilde;es sociais, o forte agravamento do desemprego, a conten&ccedil;&atilde;o dos rendimentos, os cortes nas pens&otilde;es. (Manifesto ES)         <p></p> </blockquote>     <p>A refer&ecirc;ncia ao fen&oacute;meno das migra&ccedil;&otilde;es surge, justamente, numa destas sequ&ecirc;ncias de cr&iacute;tica e den&uacute;ncia, que transcrevemos abaixo:</p>     <p>     <blockquote>este &eacute; um tempo em que, no Mundo, cresce uma perversa desigualdade econ&oacute;mica entre os indiv&iacute;duos e entre os pa&iacute;ses. Multiplica-se a degrada&ccedil;&atilde;o social. Acentuam-se as chagas ambientais e agravam-se os problemas dos trabalhadores e alastra a pobreza, tudo na decorr&ecirc;ncia directa do dom&iacute;nio absoluto dos grandes grupos econ&oacute;micos. Deste modo, degrada-se a injusta ordem internacional assente na desp&oacute;tica l&oacute;gica dos mercados que, por cima dos Povos e dos Estados, se vai apropriando de todas as decis&otilde;es e escolhas, multiplicando focos de tens&atilde;o e de guerra, espalhando os terr&iacute;veis flagelos das migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas e dos refugiados, do desemprego, da fome e da mis&eacute;ria, que mergulham grande parte da Humanidade em indiz&iacute;veis car&ecirc;ncias e intoler&aacute;veis sofrimentos (&hellip;). Este &eacute; um rumo inaceit&aacute;vel. (Manifesto ES)         <p></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute;, pois, numa longa sequ&ecirc;ncia de censura, materializada em nomes semanticamente marcados por uma valora&ccedil;&atilde;o negativa (<i>desigualdade, degrada&ccedil;&atilde;o, problemas, chagas, tens&atilde;o, guerra, flagelos, desemprego, fome, mis&eacute;ria</i>, <i>car&ecirc;ncias, sofrimentos</i>); por adjetivos valorativos (alguns modais) altamente disf&oacute;ricos (<i>perversa, injusta, desp&oacute;tica, terr&iacute;veis, for&ccedil;adas, indiz&iacute;veis, intoler&aacute;veis, inaceit&aacute;vel</i>) e por paralelismos sint&aacute;ticos de valor ret&oacute;rico (<i>cresce x, multiplica-se x, acentuam-se x, agravam-se x, alastra x) </i>que Edgar Silva refere a crise dos refugiados, mostrando que esta decorre da mesma fonte que origina os outros flagelos sociais (desemprego, fome, mis&eacute;ria&hellip;), contra os quais o candidato e o partido que o apoia tradicionalmente lutam. A fonte &eacute; &ldquo;o dom&iacute;nio absoluto dos grandes grupos econ&oacute;micos&rdquo; e a &ldquo;desp&oacute;tica l&oacute;gica dos mercados que imp&otilde;e uma ordem internacional injusta e inaceit&aacute;vel&rdquo;. A tomada de posi&ccedil;&atilde;o &eacute; clara, com muitas marcas de subjetividade do <i>eu</i> pelas vias referidas acima<sup><a href="#19">19</a></sup><a name="top19"></a>. Um <i>eu</i> que se assume como solid&aacute;rio, caridoso e revoltado, pronto para lutar no sentido de mudar a ordem internacional que est&aacute; na origem dos flagelos.</p>     <p>A hiperboliza&ccedil;&atilde;o do tema &eacute; conseguida pelas estruturas enunciativo-pragm&aacute;ticas empregues, com particular sali&ecirc;ncia para o l&eacute;xico altamente disf&oacute;rico e os atos expressivos de cr&iacute;tica forte.</p>     <p>&nbsp;Torna-se ainda relevante mencionar a forma sint&aacute;tica de referencia&ccedil;&atilde;o dos processos, atrav&eacute;s da <i>passiva</i> <i>de se</i> e da <i>invers&atilde;o Suj-V</i> (&ldquo;multiplica-se a degrada&ccedil;&atilde;o social. Acentuam-se as chagas ambientais e agravam-se os problemas dos trabalhadores e alastra a pobreza&rdquo;), dando focaliza&ccedil;&atilde;o aos processos e n&atilde;o aos agentes/objetos. Esta estrat&eacute;gia permite atribuir todos os estados de coisas descritos nas proposi&ccedil;&otilde;es (os problemas sociais) a uma mesma causa, mencionada atrav&eacute;s de grupos nominais de refer&ecirc;ncia gen&eacute;rica e de valor ideol&oacute;gico: &ldquo;o dom&iacute;nio absoluto dos grandes grupos econ&oacute;micos&rdquo; e a &ldquo;desp&oacute;tica l&oacute;gica dos mercados&rdquo;, aqueles que s&atilde;o os verdadeiros inimigos a abater. A ret&oacute;rica deste discurso coloca assim a t&oacute;nica na disputa entre o povo, v&iacute;tima dos flagelos sociais enumerados, e as elites poderosas, identificadas com os grandes grupos econ&oacute;micos e o mercado.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Arriscar a vida dos filhos em barcos de papel: a <i>patemiza&ccedil;&atilde;o</i> no manifesto de Marisa Matias</b></p>     <p>Marisa Matias, doutorada em Sociologia e deputada europeia pelo partido pol&iacute;tico Bloco de Esquerda, foi a candidata &agrave; presid&ecirc;ncia da rep&uacute;blica das elei&ccedil;&otilde;es de 2016 em Portugal que mais espa&ccedil;o dedicou no seu manifesto &agrave; quest&atilde;o dos refugiados.</p>     <p>Com um manifesto igualmente protot&iacute;pico, do ponto de vista ret&oacute;rico e enunciativo-pragm&aacute;tico, verifica-se em Marisa Matias um forte recurso &agrave; cr&iacute;tica, evidenciada por mecanismos lingu&iacute;sticos tais como o l&eacute;xico, selecionado para conferir atributos disf&oacute;ricos &agrave;s entidades visadas, e ainda as met&aacute;foras e os paralelismos sint&aacute;ticos. Em termos pragm&aacute;ticos, coexistem v&aacute;rios atos lingu&iacute;sticos, que servem os principais eixos do texto: a express&atilde;o do descontentamento com a situa&ccedil;&atilde;o presente; a cr&iacute;tica e desqualifica&ccedil;&atilde;o do <i>outro</i>, identificado como o respons&aacute;vel pela mesma; a sugest&atilde;o de mudan&ccedil;as para o futuro; o compromisso de atua&ccedil;&atilde;o por parte do candidato e o apelo &agrave; ades&atilde;o do <i>tu</i>. Os segmentos abaixo ilustram esta variedade.</p>     <p>Come&ccedil;ando pelos atos declarativos de afirma&ccedil;&atilde;o da candidatura, podemos confrontar os seguintes enunciados: &ldquo;candidato-me para trazer uma alternativa popular para estas elei&ccedil;&otilde;es, na convic&ccedil;&atilde;o de que, numa Rep&uacute;blica, s&atilde;o os votos que decidem quem &eacute; que vai estar na chefia do Estado. (&hellip;) Candidato-me para ajudar a derrotar este projecto das elites&rdquo; (Manifesto MM).</p>     <p>Tamb&eacute;m os atos compromissivos marcam presen&ccedil;a, como seria de esperar: &ldquo;num mundo cheio de injusti&ccedil;a e de guerras, comigo ningu&eacute;m duvida que Portugal estar&aacute; sempre, sempre ao lado da justi&ccedil;a e da paz&rdquo; (Manifesto MM).</p>     <p>Os atos expressivos de cr&iacute;tica s&atilde;o muito numerosos e contundentes, por for&ccedil;a dos mecanismos lingu&iacute;sticos j&aacute; referidos acima:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <blockquote>a direita anda desesperada como nunca a t&iacute;nhamos visto, os grandes interesses consideram-se em risco e, em conjunto t&ecirc;m um projecto: onde cresce a esperan&ccedil;a, espalham o medo; onde se forma a uni&atilde;o, semeiam a chantagem; onde h&aacute; sinais de mudan&ccedil;a, tentam manter o <i>status quo</i>. (&hellip;) A direita apresenta-se com um rosto mais civilizado, com um ar mais moderno e tolerante, mas n&atilde;o se iludam: quem procurou fazer da televis&atilde;o um trampolim ao servi&ccedil;o da sua desmesurada ambi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, estar&aacute; disposto a vender tudo e o seu contr&aacute;rio para atingir os seus objectivos.<sup><a href="#20">20</a></sup><a name="top20"></a> (Manifesto MM)         <p></p> </blockquote>     <p>Os atos diretivos s&atilde;o tamb&eacute;m frequentes, marcando sequ&ecirc;ncias de interpela&ccedil;&atilde;o direta do <i>tu</i>. Em muitos segmentos, esta interpela&ccedil;&atilde;o &eacute; feita atrav&eacute;s da constru&ccedil;&atilde;o, j&aacute; descrita acima, <i>n&atilde;o podemos</i> <i>x, </i>que funciona como um complexo ilocut&oacute;rio expressivo de cr&iacute;tica e diretivo de apelo, no qual as repeti&ccedil;&otilde;es lexicais e sint&aacute;ticas elevam a for&ccedil;a ilocut&oacute;ria do ato.</p>     <p>     <blockquote>Num Pal&aacute;cio de Bel&eacute;m que cheira a bafio vai ser preciso abrir as janelas para entrar ar fresco. &Eacute; a for&ccedil;a da democracia que as vai abrir. &Eacute; a vossa for&ccedil;a. (&hellip;) N&atilde;o podemos ter um Presidente indiferente &agrave; destrui&ccedil;&atilde;o dos direitos constitucionais dos trabalhadores. (&hellip;) N&atilde;o podemos ter um presidente indiferente &agrave; pobreza e ao desemprego. (&hellip;) N&atilde;o podemos ter um Presidente indiferente &agrave; destrui&ccedil;&atilde;o da nossa agricultura e das nossas pescas em nome do direito &agrave; concorr&ecirc;ncia das multinacionais.<sup><a href="#21">21</a></sup><a name="top21"></a> (Manifesto MM)         <p></p> </blockquote>     <p>De todos os manifestos estudados, o manifesto de Marisa Matias &eacute; o mais forte em termos da for&ccedil;a ilocut&oacute;ria dos atos lingu&iacute;sticos utilizados: as promessas s&atilde;o arrojadas; os atos expressivos de cr&iacute;tica s&atilde;o contundentes; os restantes atos expressivos, em que o locutor exprime o seu estado psicol&oacute;gico sobre o conte&uacute;do proposicional descrito, s&atilde;o atos fortes, com a mobiliza&ccedil;&atilde;o de emo&ccedil;&otilde;es tais como repugn&acirc;ncia, solidariedade profunda, afeto, entre outras.</p>     <p>No que diz respeito &agrave; sequ&ecirc;ncia dedicada ao tema dos refugiados, este manifesto n&atilde;o foge a esta regra e encerra a sequ&ecirc;ncia mais forte de todas as sequ&ecirc;ncias at&eacute; aqui analisadas, como podemos comprovar pela leitura do excerto abaixo:</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>a indiferen&ccedil;a das institui&ccedil;&otilde;es portuguesas face ao drama escandaloso dos refugiados s&oacute; &eacute; compreens&iacute;vel porque temos governantes e representantes que nunca se deram ao trabalho de ir directamente aos locais e falar directamente com quem sofre e conhecer que raz&otilde;es t&atilde;o profundas tem algu&eacute;m para decidir abandonar a sua terra, de se fazer ao mar e atravessar a Europa a p&eacute;, a empurrar a cadeira de rodas da sua m&atilde;e ou a trazer um beb&eacute; rec&eacute;m-nascido sujeito &agrave;s intemp&eacute;ries e ao risco. Nenhuma m&atilde;e ou nenhum pai arrisca a vida dos seus filhos em barcos de papel se esses barcos n&atilde;o forem mais seguros que o ch&atilde;o que pisavam antes. Quem n&atilde;o conseguir compreender isto n&atilde;o &eacute; digno de ocupar a Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica Portuguesa. (Manifesto MM)         <p></p> </blockquote>     <p>No discurso de Marisa Matias, a situa&ccedil;&atilde;o dos refugiados &eacute; alvo de uma dramatiza&ccedil;&atilde;o, no sentido que lhe confere Trckov&aacute; (2014, p. 87) de &ldquo;uma ado&ccedil;&atilde;o de temas e esquemas m&iacute;ticos em narrativas sobre v&iacute;timas, uma sele&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;rias de v&iacute;timas carregadas de emo&ccedil;&otilde;es&rdquo;. De facto, esta candidata representa a situa&ccedil;&atilde;o de forma altamente avaliativa, facto comprovado pela express&atilde;o &ldquo;drama escandaloso dos refugiados&rdquo;, mostrando, atrav&eacute;s da referencia&ccedil;&atilde;o do objeto pelo nome &ldquo;drama&rdquo;, e da sua qualifica&ccedil;&atilde;o, atrav&eacute;s do adjetivo avaliativo &ldquo;escandaloso&rdquo;, a sua conceptualiza&ccedil;&atilde;o pessoal da situa&ccedil;&atilde;o. Para al&eacute;m desta conceptualiza&ccedil;&atilde;o axiologicamente marcada do real, a candidata tamb&eacute;m particulariza, na sua argumenta&ccedil;&atilde;o, atores e situa&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas vividas nestes dramas, quase construindo narrativas de vida e imagens visuais das mesmas, com as quais o p&uacute;blico se pode identificar mais facilmente. Trata-se do recurso a uma estrat&eacute;gia populista de aproxima&ccedil;&atilde;o do <i>tu</i> atrav&eacute;s da explora&ccedil;&atilde;o do <i>pathos</i>.</p>     <p>Assim &eacute; que a candidata fala de algu&eacute;m que decide abandonar a sua terra, de se fazer ao mar e atravessar a Europa a p&eacute;, a empurrar a cadeira de rodas da sua m&atilde;e ou a trazer um beb&eacute; rec&eacute;m-nascido, sujeito &agrave;s intemp&eacute;ries e ao risco. O efeito de contraste entre a fragilidade dos atores sociais trazidos para a cena (a m&atilde;e na cadeira de rodas e o beb&eacute; rec&eacute;m-nascido) e o car&aacute;ter violento dos processos a que s&atilde;o sujeitos (abandonar a sua terra; fazer-se ao mar; atravessar a Europa a p&eacute;; sujeitar-se &agrave;s intemp&eacute;ries e ao risco; arriscar a vida) acentua o car&aacute;ter dram&aacute;tico destas mininarrativas encaixadas em sequ&ecirc;ncias de argumenta&ccedil;&atilde;o. Tal como indica Trckov&aacute;:</p>     <p>     <blockquote>os contrastes s&atilde;o geralmente baseados em oposi&ccedil;&otilde;es bin&aacute;rias (as luzes t&eacute;nues no bairro normalmente efervescente; subir a colina nestes dias sombrios &eacute; mover-se entre a vida e a morte, a tristeza e a esperan&ccedil;a; o para&iacute;so rapidamente se torna numa prova&ccedil;&atilde;o), que s&atilde;o ferramentas rudimentares nos sistemas conceptuais dos indiv&iacute;duos, ajudando-os a impor categorias claras &agrave; realidade, mas tamb&eacute;m simplificando-a e esquematizando-a. (Trckov&aacute;, 2014, p. 88).         <p></p> </blockquote>     <p>Na passagem do manifesto de Marisa Matias sobre os refugiados &eacute; de salientar ainda o recurso &agrave; met&aacute;fora dos &ldquo;barcos de papel&rdquo; que acentua, pela explora&ccedil;&atilde;o do tra&ccedil;o de fragilidade das v&iacute;timas, a carga emocional destas sequ&ecirc;ncias h&iacute;bridas entre os prot&oacute;tipos narrativo e argumentativo. De facto, trabalhadas como tipos sociais, as personagens destas mininarrativas pretendem simbolizar milhares de pessoas aut&ecirc;nticas que experimentam estas mesmas situa&ccedil;&otilde;es, elas mesmas reduzidas a esquemas de a&ccedil;&atilde;o tipificados e simb&oacute;licos (abandonar a sua terra; fazer-se ao mar; atravessar a Europa a p&eacute;; sujeito &agrave;s intemp&eacute;ries e ao risco; arriscar a vida<i>). </i>Por via destes recursos discursivos de dramatiza&ccedil;&atilde;o, torna-se claro que a candidata opta por uma forma mais emocional (<i>pat</i>&eacute;<i>mica</i>) de construir empatia com o <i>tu</i>. Estas sequ&ecirc;ncias acumulam, pela estrat&eacute;gia da dramatiza&ccedil;&atilde;o, um valor ilocut&oacute;rio derivado de censura &agrave;s for&ccedil;as pol&iacute;ticas oponentes e aos candidatos que as representam, identificados como os respons&aacute;veis pelo drama, facto que fica expl&iacute;cito no enunciado que encerra esta sequ&ecirc;ncia, em que a candidata remata, num tom profundamente judicativo: &ldquo;quem n&atilde;o conseguir compreender isto n&atilde;o &eacute; digno de ocupar a Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica Portuguesa&rdquo;.</p>     <p>Esta sequ&ecirc;ncia encerra com a formula&ccedil;&atilde;o de um discurso de exclus&atilde;o, onde se separa o <i>eu</i> e o <i>n</i><i>&oacute;s</i>, os que compreendem e se preocupam com a situa&ccedil;&atilde;o (grupo em que a candidata se integra), dos <i>outros</i>, que n&atilde;o compreendem a situa&ccedil;&atilde;o, que eventualmente nem lhe d&atilde;o voz e a quem falta a qualidade essencial da empatia e da solidariedade, n&atilde;o sendo, por isso, dignos de ocupar o cargo da presid&ecirc;ncia portuguesa. O fecho desta sequ&ecirc;ncia argumentativa configura, desta forma, um <i>ethos</i> autorit&aacute;rio, investido de um poder moral suficientemente forte e convicto para formular enunciados judicativos, de valor de&ocirc;ntico alto.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Retomando a ideia aristot&eacute;lica de que o <i>ethos </i>&eacute; constru&iacute;do no e pelo discurso, Maingueneau (2005, 2008) lembra que n&atilde;o existe um <i>ethos </i>preestabelecido, mas, sim, que este se vai construindo durante e a partir da atividade discursiva. Tamb&eacute;m Giddens (1991, p. 54) salienta a import&acirc;ncia da &ldquo;narrativa de si&rdquo; na constru&ccedil;&atilde;o de uma identidade pessoal e social:</p>     <p>     <blockquote>a identidade de uma pessoa n&atilde;o pode ser encontrada no comportamento, nem &ndash; por mais importante que estas sejam &ndash; nas rea&ccedil;&otilde;es dos outros, mas sim na capacidade de manter uma narrativa espec&iacute;fica em andamento. A biografia da pessoa, se ela deseja manter uma intera&ccedil;&atilde;o regular com outras pessoas no mundo quotidiano, (&hellip;) deve integrar continuamente eventos que ocorrem no mundo externo e encaix&aacute;-los na &laquo;hist&oacute;ria&raquo; em andamento sobre si mesmo. (Giddens, 1991, p. 54)         <p></p> </blockquote>     <p>A constru&ccedil;&atilde;o de um <i>ethos</i> cred&iacute;vel por parte dos candidatos pol&iacute;ticos &eacute; uma das estrat&eacute;gias mais importantes no projeto de conquista do poder. Pudemos verificar, a partir da breve an&aacute;lise comparativa dos manifestos pol&iacute;ticos de quatro candidatos presidenciais &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es portuguesas de 2016, que o estilo de fazer pol&iacute;tica difere substancialmente entre os candidatos. Os processos sem&acirc;nticos, pragm&aacute;ticos e discursivos estudados, parecem contribuir, de forma integrada, para a constru&ccedil;&atilde;o das estrat&eacute;gias de silenciamento ou referencia&ccedil;&atilde;o direta do tema em an&aacute;lise e das consequentes estrat&eacute;gias pol&iacute;ticas de conquista do poder. Uma constru&ccedil;&atilde;o ret&oacute;rica forte, com um l&eacute;xico de polaridade sem&acirc;ntica negativa alta e paralelismos recorrentes, encontrada, por exemplo, nos manifestos de Edgar Silva e de Marisa Matias, configura textos em que os atos ilocut&oacute;rios expressivos de lamento, cr&iacute;tica e den&uacute;ncia e a correlativa modalidade apreciativa ganham particular relevo, servindo a constru&ccedil;&atilde;o clara de projetos pol&iacute;ticos de &ldquo;oposi&ccedil;&atilde;o&rdquo;. J&aacute; nos manifestos dos outros dois candidatos analisados, a modera&ccedil;&atilde;o das propostas pol&iacute;ticas encontra reflexo numa igualmente moderada sele&ccedil;&atilde;o do l&eacute;xico, dos atos lingu&iacute;sticos e das estrat&eacute;gias de modaliza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Assim, confirma-se que o tratamento da crise dos refugiados nos manifestos eleitorais presidenciais de cada um reflete e contribui para a constru&ccedil;&atilde;o dos <i>eth</i>&egrave; e das estrat&eacute;gias pol&iacute;ticas respetivas. Os dois candidatos mais moderados do leque dos mais votados &ndash; Marcelo Rebelo de Sousa e Ant&oacute;nio Sampaio da N&oacute;voa &ndash; optaram por n&atilde;o referenciar diretamente a quest&atilde;o dos refugiados nos seus manifestos, dando-lhe voz de uma forma mais gen&eacute;rica atrav&eacute;s da refer&ecirc;ncia &agrave; quest&atilde;o da emigra&ccedil;&atilde;o e &agrave; quest&atilde;o da integra&ccedil;&atilde;o de Portugal na Europa e da perda de ideais da Europa. Silenciar tamb&eacute;m &eacute; uma estrat&eacute;gia, sendo que uma das conclus&otilde;es que podemos tirar &eacute; a de que optar por n&atilde;o nomear e n&atilde;o assumir uma posi&ccedil;&atilde;o direta sobre este assunto fraturante &eacute; uma posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica prudente, para quem almeja um eleitorado mais abrangente em termos de cor pol&iacute;tica e para quem quer construir um <i>ethos</i> politicamente menos marcado. Comprovamos, igualmente, pela leitura dos excertos alusivos destes manifestos, que Marcelo Rebelo de Sousa &eacute; o que aborda a quest&atilde;o de forma mais emp&aacute;tica e afetiva, apresentando-se, ele mesmo, como um emigrante. Elimina, desta forma, as dist&acirc;ncias potencialmente existentes entre ele mesmo, locutor; o objeto de discurso representado (os emigrantes, os refugiados) e o <i>tu</i>. Concretiza, assim, uma estrat&eacute;gia amb&iacute;gua, que lhe permite referir a quest&atilde;o sem tomar posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica sobre a mesma.</p>     <p>Em contrapartida, os dois candidatos posicionados mais &agrave; esquerda representam e avaliam o problema dos refugiados de forma marcada, no contexto de uma constru&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica que op&otilde;e um <i>eu</i>/<i>n</i><i>&oacute;s</i> a um <i>outro</i>/<i>outros</i>, dignos de cr&iacute;tica e despromo&ccedil;&atilde;o, contribuindo assim para a constru&ccedil;&atilde;o de uma estrat&eacute;gia pol&iacute;tica e de um <i>ethos</i> de oposi&ccedil;&atilde;o e de combate social. Confirmamos, tamb&eacute;m, a partir da an&aacute;lise dos manifestos, que a explora&ccedil;&atilde;o do <i>pathos</i>, atrav&eacute;s do aumento do tom subjetivista e dram&aacute;tico nas macroestruturas dedicadas ao tema, denuncia o aproveitamento populista do mesmo. Nestes manifestos a vitimiza&ccedil;&atilde;o dos refugiados, tratados como personagens-tipo &ldquo;redondas&rdquo; que representam milhares de pessoas reais e a esquematiza&ccedil;&atilde;o (simplifica&ccedil;&atilde;o) das situa&ccedil;&otilde;es vividas por eles, sempre por recurso a um l&eacute;xico disf&oacute;rico forte, marca uma estrat&eacute;gia de ativa&ccedil;&atilde;o de emo&ccedil;&otilde;es no eleitorado que passam pela simpatia, pela revolta, pela indigna&ccedil;&atilde;o e, consequentemente, pela vontade de mudan&ccedil;a.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Adam, J. M. (2001). En finir avec les types de textes. In M. Ballabriga (Ed.), <i>Analyse des discours. Types et genres: communication et interpr&eacute;tation</i> (pp. 25-43). Toulouse: EUS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022140&pid=S2183-3575202000020000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Adam, J. M. (2008). <i>A Lingu&iacute;stica textual: uma introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; an&aacute;lise textual dos discursos.</i> S&atilde;o Paulo: Contexto.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022142&pid=S2183-3575202000020000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Benveniste, &Eacute;. (1966). De la subjectivit&eacute; dans le langage. In <i>Probl&egrave;mes de linguistique g&eacute;n&eacute;rale I</i> (pp. 258-266). Paris: Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022144&pid=S2183-3575202000020000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Campos, M. H. C &amp; Xavier, M. F. (1991). <i>Sintaxe e sem&acirc;ntica do Portugu&ecirc;s</i> (pp. 361-379). Lisboa: Universidade Aberta. Retirado de <a href="https://area.dge.mec.pt/gramatica/umfimtriste/valoresmodais10.html#topo" target="_blank">https://area.dge.mec.pt/gramatica/umfimtriste/valoresmodais10.html#topo</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022146&pid=S2183-3575202000020000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Campos, M. H. C. (2004). A modalidade apreciativa: uma quest&atilde;o te&oacute;rica. In F. Oliveira &amp; I. M. Duarte (Eds.), <i>Da l&iacute;ngua e do discurso</i> (pp. 265-281). Porto: Campo das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022147&pid=S2183-3575202000020000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>EsquerdaNet. (2015). <i>Marisa Matias | Apresenta&ccedil;&atilde;o da candidatura &agrave; Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica 2016</i>. Retirado de <a href="https://www.youtube.com/watch?v=idiwx4L3xsk&amp;index=40&amp;list=PLYha99yG0g27Hnez8eQ6rt3Uef8ieIEgg" target="_blank">https://www.youtube.com/watch?v=idiwx4L3xsk&amp;index=40&amp;list=PLYha99yG0g27Hnez8eQ6rt3Uef8ieIEgg</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Giddens, A. (1991). <i>Modernity and self-identity: self and society in the late modern age.</i> Cambridge: Polity.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022150&pid=S2183-3575202000020000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Kerbrat-Orecchioni, C. (1980). <i>L&rsquo;</i>&eacute;<i>nonciation de la subjectivit&eacute; dans le langage</i>. Paris: Armand Colin.</p>     <!-- ref --><p>Maingueneau, D. (2005). Ethos, cenografia, incorpora&ccedil;&atilde;o. In R. Amossy (Ed.),<i> Imagens de si no discurso: a constru&ccedil;&atilde;o do ethos </i>(pp. 69-92)<i>. </i>S&atilde;o Paulo: Contexto.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022153&pid=S2183-3575202000020000300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Maingueneau, D. (2008). A prop&oacute;sito do ethos. In A. R. Motta &amp; L. S. Salgado (Eds.), <i>Ethos discursivo</i> (pp. 11-29). S&atilde;o Paulo: Contexto.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022155&pid=S2183-3575202000020000300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Oliveira, F. (2003). Modalidade e modo. In M. H. M. Mateus; A. M. Brito; I. Duarte &amp; I. H. Faria (Eds.), <i>Gram&aacute;tica da L&iacute;ngua Portuguesa</i> (pp. 245-247). Lisboa: Caminho.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022157&pid=S2183-3575202000020000300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Oliveira, F. &amp; Mendes, A. (2013). Modalidade. In E. P. Raposo; M. F. B. Nascimento; M. A. Mota; L. Segura &amp; A. Mendes (Eds.), <i>Gram&aacute;tica do Portugu&ecirc;s </i>(vol. I.) (pp. 623-669). Lisboa: Edi&ccedil;&atilde;o Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022159&pid=S2183-3575202000020000300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Pinto, A. (2012). Dialogismo, polifonia e heterogeneidade enunciativa nos manifestos pol&iacute;ticos das presidenciais de 2011. <i>Estudos Lingu&iacute;sticos/Linguistic Studies</i>, 8, 195-212. Retirado de <a href="https://clunl.fcsh.unl.pt/wp-content/uploads/sites/12/2018/02/195_212.pdf" target="_blank">https://clunl.fcsh.unl.pt/wp-content/uploads/sites/12/2018/02/195_212.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022161&pid=S2183-3575202000020000300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Pinto, A. G., Pinho, A. C. &amp; Teixeira, J. (2017). Polariza&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a discursiva em manifestos pol&iacute;ticos: o caso das presidenciais portuguesas de 2016. <i>Linha D&rsquo;&Aacute;gua</i>, <i>30</i>(1), 35-68. Retirado de <a href="http://www.revistas.usp.br/linhadagua/article/view/133203" target="_blank">http://www.revistas.usp.br/linhadagua/article/view/133203</a></p>     <!-- ref --><p>Searle, J. (1969). <i>Speech acts. An essay in the philosophy of language</i>. Cambridge: Cambridge University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022163&pid=S2183-3575202000020000300014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Trckov&aacute;, D. (2014). <i>Representations of natural catastrophes in newspaper discourse</i>. Brno: Masarykova univerzita. Retirado de <a href="https://digilib.phil.muni.cz/handle/11222.digilib/133015" target="_blank">https://digilib.phil.muni.cz/handle/11222.digilib/133015</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022165&pid=S2183-3575202000020000300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Wodak, R. (2001). The discourse historical approach. In R. Wodak &amp; M. Meyer (Eds.), <i>Methods of critical discourse analysis </i>(pp. 63-94). Londres: Sage.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2022166&pid=S2183-3575202000020000300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Nota biogr&aacute;fica</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Alexandra Guedes Pinto, doutorada em Lingu&iacute;stica e Professora Associada do Departamento de Estudos Portugueses e Estudos Rom&acirc;nicos, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP). Membro do Conselho Cient&iacute;fico do Centro de Lingu&iacute;stica da Universidade do Porto e da Comiss&atilde;o Cient&iacute;fica do Mestrado em Tradu&ccedil;&atilde;o e Servi&ccedil;os Lingu&iacute;sticos da FLUP. Membro da Comiss&atilde;o Cient&iacute;fica do IJUP <i>&ndash; </i>Investiga&ccedil;&atilde;o Jovem da Universidade do Porto (UP). Membro do grupo de trabalho de publicidade da Sopcom e do grupo &ldquo;Argumentation Hub&rdquo; dos Laborat&oacute;rios MIL da UP. Participante em v&aacute;rios projetos e redes de investiga&ccedil;&atilde;o internacionais. Organizadora, desde 2011, das &ldquo;Jornadas Internacionais de An&aacute;lise do Discurso &ndash; JADIS&rdquo; (<a href="http://web4.letras.up.pt/jadis" target="_blank">http://web4.letras.up.pt/jadis</a>) e fundadora e respons&aacute;vel editorial da revista <i>REDIS &ndash; Revista de Estudos do Discurso</i> (<a href="http://ojs.letras.up.pt/index.php/re" target="_blank">http://ojs.letras.up.pt/index.php/re</a>). Autora de v&aacute;rias publica&ccedil;&otilde;es na &aacute;rea dos Estudos do Discurso, consult&aacute;veis em <a href="https://www.cienciavitae.pt/CB1D-AA66-6572" target="_blank">https://www.cienciavitae.pt/CB1D-AA66-6572</a>.</p>     <p>ORCID: <a href="http://orcid.org/0000-0001-9120-1542" target="_blank">http://orcid.org/0000-0001-9120-1542</a></p>     <p>Email: <a href="mailto:mapinto@letras.up.pt">mapinto@letras.up.pt</a></p>     <p>Morada: Rua Senhora da Penha, n&ordm; 250, 4460-423, Sra. da Hora, Portugal</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Submetido: 14/04/2020</b></p>     <p><b>Aceite: 01/07/2020</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Note-se que, apesar da dist&acirc;ncia temporal entre a data dos manifestos em an&aacute;lise e a data de publica&ccedil;&atilde;o deste trabalho, estamos a falar da an&aacute;lise das mais recentes elei&ccedil;&otilde;es presidenciais portuguesas e aquelas que aconteceram no auge da crise dos refugiados.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Os resultados eleitorais foram consultados na p&aacute;gina: <a href="https://www.eleicoes.mai.gov.pt/presidenciais2016/resultados-globais.html" target="_blank">https://www.eleicoes.mai.gov.pt/presidenciais2016/resultados-globais.html</a></p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> &ldquo;Troika&rdquo;, neste contexto de uso, foi um termo popularizado durante a crise da zona euro para descrever o grupo formado pela Comiss&atilde;o Europeia, o Fundo Monet&aacute;rio Internacional e o Banco Central Europeu como o grupo de credores que imp&ocirc;s medidas de austeridade a estados europeus endividados &ndash; como a Irlanda, Portugal, Chipre e Gr&eacute;cia &ndash; em troca dos resgates financeiros providenciados.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> &Eacute; poss&iacute;vel consultar uma caracteriza&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero <i>manifesto presidencial</i> segundo a proposta de Adam (2001) em Pinto, Pinho e Teixeira (2017). &Eacute; poss&iacute;vel, ainda, rever algumas das caracter&iacute;sticas deste g&eacute;nero em Pinto (2012).</p>     <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> O t&iacute;tulo &eacute; normalmente acompanhado de uma imagem do(a) candidato(a), no caso dos manifestos eleitorais presidenciais.</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> A classifica&ccedil;&atilde;o dos atos ilocut&oacute;rios dominantes nos manifestos pol&iacute;ticos em estudo segue o modelo de Searle (1969).</p>     <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> J&aacute; Benveniste (1966) afirmava que o&nbsp;<i>n&oacute;s</i>&nbsp;&eacute; uma jun&ccedil;&atilde;o entre o&nbsp;<i>eu</i>&nbsp;e o&nbsp;<i>n&atilde;o-eu</i>. Este&nbsp;<i>n&atilde;o-eu&nbsp;</i>pode ser o <i>tu</i> ou o&nbsp;<i>eles</i>, distinguindo-se a forma inclusiva (<i>eu + tu</i>), que inclui o interlocutor, da forma exclusiva (<i>eu + eles</i>), de que o interlocutor &eacute; exclu&iacute;do. As ocorr&ecirc;ncias do <i>n</i>&oacute;s nos manifestos presidenciais em an&aacute;lise distribuem-se em ocorr&ecirc;ncias do n&oacute;s inclusivo, em que se fundem o&nbsp;<i>eu</i>&nbsp;e o&nbsp;<i>tu</i>, e ocorr&ecirc;ncias do n&oacute;s n&atilde;o inclusivo, em que o <i>n&oacute;s</i> implica <i>eu + os outros, &ldquo;</i>outros membros do partido que represento&rdquo; ou &ldquo;outros apoiantes da minha candidatura&rdquo;.</p>     <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> Ver Pinto, Pinho e Teixeira (2017, p. 39).</p>     <p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> Informa&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel em <a href="http://www.sampaiodanovoa.pt/principios/" target="_blank">http://www.sampaiodanovoa.pt/principios/</a></p>     <p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> Informa&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel em <a href="https://edgarsilva2016.pt/declaracao" target="_blank">https://edgarsilva2016.pt/declaracao</a></p>     <p><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> Informa&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel em <a href="https://www.juntosporportugal.pt/" target="_blank">https://www.juntosporportugal.pt/</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></Sup> Note-se, ainda, que a declara&ccedil;&atilde;o oficial de Marisa Matias, identificada como &ldquo;manifesto&rdquo; se encontrava dispon&iacute;vel na p&aacute;gina oficial da sua candidatura &agrave;s presidenciais de 2016, no link: <a href="http://marisa2016.net/candidata/manifesto.html" target="_blank">http://marisa2016.net/candidata/manifesto.html</a>. Esta p&aacute;gina deixou, entretanto, de estar acess&iacute;vel, podendo a declara&ccedil;&atilde;o ser confrontada em vers&atilde;o audiovisual (EsquerdaNet, 2015).</p>     <p><Sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></Sup> Para este trabalho foram confrontados os cinco manifestos eleitorais presidenciais das elei&ccedil;&otilde;es de 2016 dos candidatos mais votados. Neste processo, confirmamos que o manifesto de Maria de Bel&eacute;m Roseira n&atilde;o continha nenhuma men&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita ou impl&iacute;cita &agrave; quest&atilde;o dos emigrantes, migrantes ou refugiados, motivo pelo qual n&atilde;o o consideramos para este estudo, que se focou nos restantes quatro manifestos presidenciais, a saber: os de Marcelo Rebelo de Sousa, Ant&oacute;nio Sampaio da N&oacute;voa, Marisa Matias e Edgar Silva.</p>     <p><Sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></Sup> Doravante, referiremos os excertos retirados dos manifestos em estudo atrav&eacute;s das iniciais dos seus proponentes. MRS corresponde, ent&atilde;o, a Marcelo Rebelo de Sousa.</p>     <p><Sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></Sup> Apoiamo-nos, neste trabalho, em contributos anteriores para o estudo da modalidade em Lingu&iacute;stica, tais como os de Oliveira (2003, 2013) e os de Campos (1991, 2004).</p>     <p><Sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></Sup> O <i>n</i><i>&oacute;s</i> inclusivo surge no manifesto como forma de constru&ccedil;&atilde;o de um <i>ethos</i> em que as fronteiras entre o <i>eu</i> e o <i>tu</i> se esbatem, configurando um <i>ethos</i> de perten&ccedil;a a uma coletividade: &ldquo;assim, esta &eacute; a nossa candidatura, a nossa, de uma extensa e funda energia transformadora. Esta &eacute;, e ser&aacute;, a nossa candidatura a Presidente da Rep&uacute;blica, a nossa, de um amplo movimento vital&rdquo; (Manifesto ES).</p>     <p><Sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></Sup> Veja-se, a t&iacute;tulo de exemplo, os excertos: &ldquo;este &eacute; um tempo em que, em Portugal, depois de d&eacute;cadas de governa&ccedil;&atilde;o em confronto com os valores de Abril, se aprofundam as injusti&ccedil;as sociais e a explora&ccedil;&atilde;o&rdquo;; &ldquo;multiplica-se a degrada&ccedil;&atilde;o social. Acentuam-se as chagas ambientais e agravam-se os problemas dos trabalhadores e alastra a pobreza, tudo na decorr&ecirc;ncia directa do dom&iacute;nio absoluto dos grandes grupos econ&oacute;micos&rdquo; (Manifesto ES).</p>     <p><Sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></Sup> Para consultar uma an&aacute;lise completa das estrat&eacute;gias discursivas no Manifesto Presidencial de Edgar Silva &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es presidenciais portuguesas de 2016, conferir Pinto, Pinho e Teixeira (2017, pp. 35-68).</p>     <p><Sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></Sup> Reportamo-nos aqui a um sentido lingu&iacute;stico de subjetividade, entendida como a presen&ccedil;a do enunciador no seu enunciado, tal como defendido por autores como Benveniste (1966) e Kerbrat-Orecchioni (1980).</p>     <p><Sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></Sup> Seria relevante verificar, nestes excertos, de que forma os objetos do discurso s&atilde;o referenciados linguisticamente e quais s&atilde;o as carater&iacute;sticas e as qualidades que lhes s&atilde;o atribu&iacute;das. A utiliza&ccedil;&atilde;o do nome &ldquo;Direita&rdquo; &eacute; um dos casos interessantes a ressaltar. N&atilde;o poderemos, todavia, seguir esta pista de an&aacute;lise na medida em que se encontra fora do escopo mais restrito do presente trabalho.</p>     <p><Sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></Sup> Salientamos o que referimos acima sobre o car&aacute;ter h&iacute;brido destes atos de express&atilde;o da modalidade de&ocirc;ntica sob a forma de <i>n&atilde;o podemos</i> <i>x</i>, que j&aacute; analisamos no caso dos outros tr&ecirc;s manifestos em estudo, excetuando o manifesto de Marcelo Rebelo de Sousa. Trata-se de complexos ilocut&oacute;rios, que concentram dois valores associados, neste caso, o valor da recomenda&ccedil;&atilde;o e o valor da cr&iacute;tica.</p>     ]]></body>
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