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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Média e migrações forçadas: representações sociais dos refugiados nos média portugueses em dois momentos mediáticos (2015 e 2019)]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Forced migration movements marked the economic, political, and social agenda in 2015. Consequently, these events also determined the agenda of the media, which took on an essential role in the social representation of refugees. In 2019, when humanitarian ships found it hard to dock at European ports, we saw another peak in media coverage. The purpose of this article is to analyse how the Portuguese media covered the theme of forced migration during two of the most relevant moments (2015 and 2019) and thus, how they contributed to the social representation of refugees. After a content analysis, we concluded that the newspapers on which our study focused undervalued refugees as individuals with their own identity, reducing them to a homogeneous and voiceless group. This trend, already present in 2015, was further emphasised in 2019. There was a clear absence of explanatory articles, with the media output showing a predominance of western perspective and a constant reliance on news agencies as sources.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS TEM&Aacute;TICOS</b></p>     <p><b>M&eacute;dia e migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas: representa&ccedil;&otilde;es sociais dos refugiados nos m&eacute;dia portugueses em dois momentos medi&aacute;ticos (2015 e 2019)</b></p>     <p><b>Media and forced migrations: social representations of refugees in the Portuguese media in two mediatic peaks (2015 and 2019)</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Dora Santos-Silva*</b></p>     <p><img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0003-1611-8858" target="_blank">https://orcid.org/0000-0003-1611-8858</a></p>     
<p><b>D&eacute;bora Guerreiro**</b></p>     <p><img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0003-1708-4047" target="_blank">https://orcid.org/0000-0003-1708-4047</a></p>     
<p>*Instituto de Comunica&ccedil;&atilde;o da Nova (ICNOVA), Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Portugal</p>     <p>**Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Portugal</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Os movimentos migrat&oacute;rios for&ccedil;ados marcaram a agenda econ&oacute;mica, pol&iacute;tica e social em 2015 e, nessa sequ&ecirc;ncia, a dos m&eacute;dia, que assumiram um papel essencial na representa&ccedil;&atilde;o social dos refugiados. Em 2019, assistimos a um novo momento medi&aacute;tico, motivado pelas dificuldades encontradas pelos navios humanit&aacute;rios em atracar nos portos europeus. O objetivo deste artigo foi analisar a forma como os m&eacute;dia portugueses cobriram a tem&aacute;tica das migra&ccedil;&otilde;es for&ccedil;adas em dois momentos mediaticamente relevantes, em 2015 e em 2019, e de que forma contribu&iacute;ram para a representa&ccedil;&atilde;o social dos refugiados. A partir de uma an&aacute;lise de conte&uacute;do, conclu&iacute;mos que os jornais analisados subvalorizaram os refugiados enquanto indiv&iacute;duos com identidade pr&oacute;pria, reduzindo-os a um grupo homog&eacute;neo e sem voz. Esta tend&ecirc;ncia, j&aacute; presente em 2015, acentuou-se em 2019 com a aus&ecirc;ncia de artigos explicativos, com a predomin&acirc;ncia de uma vis&atilde;o ocidental e uma depend&ecirc;ncia das ag&ecirc;ncias de not&iacute;cias.</p>     <p><b>Palavras-chave:&nbsp;</b>jornalismo de direitos humanos; refugiados; crise migrat&oacute;ria; migra&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada; representa&ccedil;&otilde;es sociais</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>Forced migration movements marked the economic, political, and social agenda in 2015. Consequently, these events also determined the agenda of the media, which took on an essential role in the social representation of refugees. In 2019, when humanitarian ships found it hard to dock at European ports, we saw another peak in media coverage. The purpose of this article is to analyse how the Portuguese media covered the theme of forced migration during two of the most relevant moments (2015 and 2019) and thus, how they contributed to the social representation of refugees. After a content analysis, we concluded that the newspapers on which our study focused undervalued refugees as individuals with their own identity, reducing them to a homogeneous and voiceless group. This trend, already present in 2015, was further emphasised in 2019. There was a clear absence of explanatory articles, with the media output showing a predominance of western perspective and a constant reliance on news agencies as sources.</p>     <p><b>Keywords:&nbsp;</b>human rights journalism; refugees; migratory crisis; forced migration; social representations</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em 2015, a Europa assistiu &agrave; desde ent&atilde;o designada &ldquo;crise dos refugiados no Mediterr&acirc;neo&rdquo; quando, nesse ano, cerca de um milh&atilde;o de pessoas alcan&ccedil;aram a costa europeia por mar, deixando nas suas &aacute;guas 3.700 pessoas que a&iacute; pereceram. O fluxo de refugiados, considerado o maior desde a II Guerra Mundial, teve como protagonistas cidad&atilde;os s&iacute;rios, afeg&atilde;os, iraquianos, eritreus, entre outros, que se deslocaram for&ccedil;adamente devido a conflitos armados.</p>     <p>Segundo o relat&oacute;rio do Alto Comiss&aacute;rio das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados (ACNUR, 2019), existiam no mundo, em 2018, 25,9 milh&otilde;es de refugiados, 41,3 milh&otilde;es de pessoas deslocadas internamente e 3,5 milh&otilde;es requerentes de asilo, devido a cen&aacute;rios de conflito e viol&ecirc;ncia. A Rep&uacute;blica &Aacute;rabe da S&iacute;ria liderava, com 6,1 milh&otilde;es de pessoas deslocadas, seguida da Col&ocirc;mbia (5,9 milh&otilde;es) e da Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo (3,1 milh&otilde;es). A S&iacute;ria era tamb&eacute;m o pa&iacute;s com maior n&uacute;mero de refugiados no mundo: 6,7 milh&otilde;es.</p>     <p>Desde o come&ccedil;o da crise, em 2013, j&aacute; morreram mais de 10 mil pessoas no Mediterr&acirc;neo, segundo a Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional para as Migra&ccedil;&otilde;es (OIM, 2019), das quais 500 no primeiro semestre de 2019. Se, em 2015, pico da crise migrat&oacute;ria, tinham chegado mais de um milh&atilde;o de pessoas &agrave;s costas europeias, s&oacute; nos primeiros tr&ecirc;s dias de 2019, outro momento relevante, eram resgatados 400 migrantes pela Guarda Fronteira Espanhola (Cha&iacute;&ccedil;a, 2019).</p>     <p>Entre 2015 e 2019, muito mudou no panorama social e pol&iacute;tico europeu: a surpresa e a corrente de solidariedade inicial deram lugar ao medo nos pa&iacute;ses recetores, aumentou a for&ccedil;a pol&iacute;tica dos partidos anti-imigra&ccedil;&atilde;o e foram celebrados acordos de reten&ccedil;&atilde;o de refugiados ao n&iacute;vel internacional. Em junho de 2019, a It&aacute;lia, um dos tr&ecirc;s pa&iacute;ses que mais migrantes tinham recebido em 2018 (Espanha em primeiro lugar, seguida da Gr&eacute;cia), fechava todos os portos aos navios de ajuda humanit&aacute;ria que trouxessem migrantes (Fernandes, 2019).</p>     <p>Neste contexto, Portugal assumiu, desde o in&iacute;cio da crise, a sua disponibilidade para receber refugiados, facto que aumenta a responsabilidade da cobertura jornal&iacute;stica portuguesa em desconstruir estere&oacute;tipos relacionados com os refugiados e prestar uma informa&ccedil;&atilde;o clara e aprofundada.</p>     <p>Embora seja uma problem&aacute;tica antiga, existem tr&ecirc;s caracter&iacute;sticas desta sociedade que revestem a crise migrat&oacute;ria de novos contornos, elencados por Abdo, Cabecinhas e Brites (2019): a globaliza&ccedil;&atilde;o, na qual estes processos &ldquo;se tornam mais intensos, velosos e abundantes&rdquo; (p. 80); o papel dos m&eacute;dia, que acompanham essa &ldquo;velocidade, abund&acirc;ncia e intensidade&rdquo; (p. 80); e a pr&oacute;pria sede que a sociedade tem do espet&aacute;culo, alimentado pelos m&eacute;dia.&nbsp;</p>     <p>Neste artigo, partimos da hip&oacute;tese j&aacute; comprovada por v&aacute;rios autores (como Blumell, Bunce, Cooper &amp; McDowell, 2020; Chouliaraki &amp; Stolic, 2017; Empinotti, 2017; Gemi, Ulasiuk &amp; Triandafyllidou, 2013; Guerreiro, 2018; McIntyre, 2013; Silvestre, 2011) de que os m&eacute;dia influenciam a perce&ccedil;&atilde;o da sociedade em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; problem&aacute;tica dos migrantes e refugiados e que s&atilde;o os principais intermedi&aacute;rios numa rela&ccedil;&atilde;o com o <i>outro</i> que s&oacute; existe muitas vezes nesse plano. Nessa l&oacute;gica, os m&eacute;dia t&ecirc;m um papel essencial na constru&ccedil;&atilde;o do imagin&aacute;rio coletivo sobre refugiados e crise migrat&oacute;ria.</p>     <p>Este estudo tem como objetivo analisar a forma como dois jornais portugueses cobriram a tem&aacute;tica dos refugiados em dois momentos mediaticamente relevantes: um de 2015 &ndash; per&iacute;odo em que deu &agrave; costa de uma praia turca um menino s&iacute;rio sem vida &ndash; e outro de 2019, marcado pelas dificuldades encontradas pelos navios humanit&aacute;rios em atracar nos portos europeus. Pretende explorar em particular qual &eacute; a representa&ccedil;&atilde;o social dos refugiados, a partir da an&aacute;lise de caracter&iacute;sticas editoriais das pe&ccedil;as jornal&iacute;sticas publicadas e de uma tipologia de regimes de visibilidade proposta por Chouliaraki e Stolic (2017). Para alcan&ccedil;ar este objetivo, foram delineadas tr&ecirc;s perguntas de investiga&ccedil;&atilde;o (PI):</p>     <p>PI1: quais s&atilde;o as principais caracter&iacute;sticas editoriais das pe&ccedil;as publicadas em dois jornais portugueses sobre a tem&aacute;tica dos refugiados, em dois momentos mediaticamente relevantes de 2015 e 2019?</p>     <p>PI2: que representa&ccedil;&otilde;es sociais s&atilde;o feitas dos refugiados, a partir dessas caracter&iacute;sticas editoriais e das imagens adotadas pelos jornais como estrat&eacute;gia de visibilidade?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>PI3: quais s&atilde;o as principais diferen&ccedil;as entre a cobertura jornal&iacute;stica de 2015 e de 2019?</p>     <p>Para responder a estas quest&otilde;es, foi utilizada uma metodologia comparativa baseada na an&aacute;lise de conte&uacute;do de duas semanas, em 2015 (02 a 08 de setembro) e em 2019 (30 de junho a 07 de julho), em dois jornais di&aacute;rios online de refer&ecirc;ncia &ndash; <i>P&uacute;blico</i> e <i>Observador</i>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Enquadramento te&oacute;rico</b></p>     <p><b>Processos migrat&oacute;rios for&ccedil;ados e a responsabilidade dos m&eacute;dia</b></p>     <p>O ponto de partida para a reflex&atilde;o entre refugiados e m&eacute;dia &eacute; a pr&oacute;pria defini&ccedil;&atilde;o de refugiado que se encontra na Conven&ccedil;&atilde;o de Genebra de 1951, alterada pelo Protocolo de 1967, que veio alargar o seu &acirc;mbito. No mesmo ano, &eacute; criado o Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados (ACNUR).</p>     <p>Os refugiados fazem parte de um conjunto amplo que se designa por &ldquo;migrantes for&ccedil;ados&rdquo;, que incluem tamb&eacute;m outras categorias como os requerentes de asilo. O direito a requerer asilo est&aacute; consagrado no art. 14.&ordm; da Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948). A pessoa pode pedir asilo ou solicitar o estatuto de refugiado, de acordo com as respetivas condi&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>Considera-se refugiado a</p>     <p>     <blockquote>pessoa, que, receando com raz&atilde;o ser perseguida em virtude das sua ra&ccedil;a, religi&atilde;o, nacionalidade, filia&ccedil;&atilde;o em certo grupo social ou das suas opini&otilde;es pol&iacute;ticas, se encontre fora do pa&iacute;s de que tem a nacionalidade e que n&atilde;o possa ou, em virtude daquele receio, n&atilde;o queira pedir a prote&ccedil;&atilde;o daquele pa&iacute;s. (ONU, 1951)         ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p> </blockquote>     <p>A liberdade de express&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; um direito humano plasmado na Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos Humanos, para a qual o jornalismo assume um papel de relevo, desde logo porque o seu prop&oacute;sito &ldquo;&eacute; fornecer aos cidad&atilde;os a informa&ccedil;&atilde;o de que precisam para serem livres e se autogovernarem&rdquo; (Kovach &amp; Rosenstiel, 2001, p. 16).</p>     <p>Mesmo no novo ecossistema digital, os m&eacute;dia determinam a agenda do mundo e atuam ainda como &uacute;nicos intermedi&aacute;rios em v&aacute;rios acontecimentos mundiais, tendo o poder de alargar os horizontes do p&uacute;blico ou de os restringir (P&ouml;yht&auml;ri, 2014). No caso dos refugiados, essa evid&ecirc;ncia &eacute; maior, dado que a popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o os conhece e, portanto, constr&oacute;i a sua perce&ccedil;&atilde;o a partir das representa&ccedil;&otilde;es dos m&eacute;dia.</p>     <p>Com o aumento do discurso anti-imigra&ccedil;&atilde;o, bem como da proje&ccedil;&atilde;o dos partidos anti-imigra&ccedil;&atilde;o em v&aacute;rios pa&iacute;ses europeus, a cobertura deste tema assume cada vez mais relev&acirc;ncia, at&eacute; porque o jornalismo tem a capacidade de habilitar as audi&ecirc;ncias a desenvolver um verdadeiro conhecimento global (Hafez, 2009).</p>     <p>O jornalismo tem, assim, a responsabilidade acrescida de cobrir um tema que &eacute; sobretudo de direitos humanos. Thompson (2007) sugere a exist&ecirc;ncia de uma responsabilidade para reportar, que se interliga com uma responsabilidade moral em rela&ccedil;&atilde;o aos direitos humanos. Esta n&atilde;o &eacute; uma opini&atilde;o isolada: Rose (2013) defende o conceito de <i>human rights-based aproach</i>, baseado no princ&iacute;pio de que a abordagem aos direitos humanos deve ser uma fun&ccedil;&atilde;o fundamental nas obriga&ccedil;&otilde;es de um jornalista, obrigando-o a identificar a viola&ccedil;&atilde;o e a incluir nas suas reportagens formas de eliminar o abuso. Tamb&eacute;m Shaw (2012) afirma que se o p&uacute;blico tiver um maior entendimento dos problemas atrav&eacute;s da sua explica&ccedil;&atilde;o &eacute; mais prov&aacute;vel ter empatia com o sofrimento das pessoas e apelar &agrave; interven&ccedil;&atilde;o internacional, ajudando a superar a falta de mem&oacute;ria hist&oacute;rica que constitui um obst&aacute;culo ao entendimento (The International Council Human Rights Policy, 2002).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Representa&ccedil;&otilde;es sociais dos refugiados nos m&eacute;dia</b></p>     <p>A teoria das representa&ccedil;&otilde;es sociais s&oacute; entrou na agenda cient&iacute;fica na segunda metade do s&eacute;culo XX, pela m&atilde;o do psic&oacute;logo social Serge Moscovici (1961), influenciado pelas bases te&oacute;ricas que Durkheim tinha lan&ccedil;ado no s&eacute;culo XIX. O objetivo desta teoria era explicar fen&oacute;menos a partir de uma perspetiva coletiva, isto &eacute;, as representa&ccedil;&otilde;es sociais correspondem a cren&ccedil;as ou ideias que temos relativamente a uma pessoa, a uma comunidade, a um acontecimento ou objeto, fruto da nossa intera&ccedil;&atilde;o social. Al&eacute;m de Moscovici, o conceito de representa&ccedil;&otilde;es sociais foi trabalhado por Denise Jodelet (1989), outra refer&ecirc;ncia na &aacute;rea, que as definiu como &ldquo;uma forma de conhecimento, socialmente elaborado e compartilhado, que tem um objetivo pr&aacute;tico e concorre para a realidade comum a um conjunto social&rdquo; (p. 36).</p>     <p>A acad&eacute;mica francesa salienta duas caracter&iacute;sticas desta forma de conhecimento que s&atilde;o cruciais para pensarmos a rela&ccedil;&atilde;o entre os m&eacute;dia e as representa&ccedil;&otilde;es sociais dos refugiados: a &ldquo;constru&ccedil;&atilde;o&rdquo;, isto &eacute;, a representa&ccedil;&atilde;o social &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o que deriva da rela&ccedil;&atilde;o entre um sujeito e o objeto; e a &ldquo;express&atilde;o&rdquo;, isto &eacute;, deriva dessa rela&ccedil;&atilde;o uma interpreta&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Se aplicarmos isto ao contexto deste artigo, podemos concluir que a representa&ccedil;&atilde;o social do refugiado &eacute; fruto de uma constru&ccedil;&atilde;o que resulta da rela&ccedil;&atilde;o entre a popula&ccedil;&atilde;o e o refugiado, rela&ccedil;&atilde;o essa possibilitada pelos m&eacute;dia, pelo que a cobertura jornal&iacute;stica determina a interpreta&ccedil;&atilde;o que a popula&ccedil;&atilde;o tem desta crise e do refugiado como o <i>outro</i>. Os m&eacute;dia influenciam a opini&atilde;o p&uacute;blica e contribuem para o grau de aceita&ccedil;&atilde;o e compreens&atilde;o do refugiado.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Partindo deste racioc&iacute;nio, &eacute; essencial trazer para a discuss&atilde;o investiga&ccedil;&otilde;es acad&eacute;micas que j&aacute; se tenham debru&ccedil;ado sobre a an&aacute;lise da cobertura jornal&iacute;stica dos refugiados e das suas representa&ccedil;&otilde;es sociais.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Quem &eacute; o refugiado nos m&eacute;dia?</b></p>     <p>J&aacute; em 2003, Peter McIntyre defendia que os refugiados eram historicamente despersonalizados pelos m&eacute;dia e representados como um grupo a ser temido e rejeitado, na obra <i>Human rights reporting &ndash; a handbook for journalists in South-eastern Europe</i>, publicado pela Federa&ccedil;&atilde;o Internacional dos Jornalistas. Um estudo do Observat&oacute;rio da Comunica&ccedil;&atilde;o sobre a cobertura dos imigrantes e das minorias &eacute;tnicas pelos m&eacute;dia portugueses em 2001 e 2002 tamb&eacute;m conclu&iacute;a que estes grupos estavam associados sobretudo a not&iacute;cias sobre delitos (OberCom, 2003). Ao longo do s&eacute;culo XXI esta realidade foi sendo comprovada por diversos estudos acad&eacute;micos.</p>     <p>Gemi, Ulasiuk e Triandafyllidou (2013) analisaram o impacto dos valores-not&iacute;cia, das fontes e da agenda nas not&iacute;cias relacionadas com processos migrat&oacute;rios em m&eacute;dia de seis pa&iacute;ses europeus e conclu&iacute;ram que t&ecirc;m uma linha editorial desequilibrada relativa &agrave; cobertura da migra&ccedil;&atilde;o, nomeadamente aos acontecimentos que selecionam (os negativos) e as fontes que usam, o que pode provocar uma perce&ccedil;&atilde;o deturpada no p&uacute;blico.</p>     <p>Por sua vez, o estudo de Blumell et al. (2020), com base na cobertura de m&eacute;dia online do Reino Unido, mostra que h&aacute; uma sobrevaloriza&ccedil;&atilde;o da criminalidade cometida pelos requerentes de asilo e uma politiza&ccedil;&atilde;o deste tema: os m&eacute;dia considerados de esquerda focam-se na vitimiza&ccedil;&atilde;o, enquanto os de direita, na criminalidade. Os autores apontam a necessidade de mais <i>soft news</i> sobre refugiados, e n&atilde;o apenas <i>hard news</i>, para dar mais contexto, personaliza&ccedil;&atilde;o e esclarecimento ao tema.</p>     <p>Para al&eacute;m da falta de voz e de uma participa&ccedil;&atilde;o ativa, os refugiados s&atilde;o, ainda, representados visualmente como grupos e n&atilde;o como indiv&iacute;duos, como confirmam estudos de base semi&oacute;tica. Investigadoras do Reino Unido analisaram imagens publicadas por &oacute;rg&atilde;os de comunica&ccedil;&atilde;o social de cinco pa&iacute;ses europeus sobre refugiados entre junho e dezembro de 2015 e conclu&iacute;ram que &ldquo;falham na humaniza&ccedil;&atilde;o de migrantes e refugiados&rdquo; (Chouliaraki &amp; Stolic, 2017, p. 1162) e que urge &ldquo;mudar radicalmente a forma como entendemos a responsabilidade dos <i>media</i> para com os <i>outros</i> vulner&aacute;veis&rdquo; (p. 1162).</p>     <p>Estas autoras propuseram uma tipologia de regimes de visibilidade da crise, a partir da qual reconstroem visualidades espec&iacute;ficas dos refugiados. Identificaram cinco configura&ccedil;&otilde;es visuais b&aacute;sicas: vida biol&oacute;gica, empatia, amea&ccedil;a, hospitalidade e auto-reflex&atilde;o. As imagens escolhidas pelos &oacute;rg&atilde;os de comunica&ccedil;&atilde;o social s&atilde;o depois enquadradas numa ou mais destas vari&aacute;veis de an&aacute;lise.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Visibilidade como vida biol&oacute;gica</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nesta vari&aacute;vel, as investigadoras incluem imagens que representam os refugiados como uma &ldquo;massa de desafortunados&rdquo; (p. 1167), ou seja, desprovidos de identidade e voz, &agrave; merc&ecirc; da benevol&ecirc;ncia ocidental. S&atilde;o imagens que promovem um distanciamento social e que n&atilde;o oferecem qualquer contexto sobre o sofrimento dos refugiados ou dos motivos da sua migra&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Visibilidade como empatia</b></p>     <p>O regime de visibilidade como empatia &eacute; associado &agrave; humaniza&ccedil;&atilde;o das imagens, como uma crian&ccedil;a que chora, uma m&atilde;e com o seu filho ao colo. Ao contr&aacute;rio do primeiro regime, neste h&aacute; uma perspetiva visual mais pr&oacute;xima e uma tentativa de individualizar os refugiados, fomentando a compaix&atilde;o e a caridade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Visibilidade como amea&ccedil;a</b></p>     <p>As investigadoras incluem neste regime imagens de jovens armados ou barcos a tentar atracar em portos europeus, que acabam por suscitar medo nos leitores ou a sensa&ccedil;&atilde;o de amea&ccedil;a &agrave; seguran&ccedil;a. &Eacute;, por isso, uma &ldquo;vilifica&ccedil;&atilde;o daqueles que n&atilde;o s&atilde;o como &lsquo;n&oacute;s&rsquo;&rdquo; (p. 1169).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Visibilidade como hospitalidade</b></p>     <p>Este regime de visibilidade &eacute; associado a ativismo pol&iacute;tico, como imagens de manifesta&ccedil;&otilde;es pr&oacute;-refugiados, mensagens de acolhimento por parte da popula&ccedil;&atilde;o ou outros atos de hospitalidade. Embora sejam, &agrave; partida, positivas, acabam por subjetivar os refugiados.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Visibilidade como auto-reflex&atilde;o</b></p>     <p>Este &uacute;ltimo regime de visibilidade &eacute; associado &agrave; identifica&ccedil;&atilde;o dos refugiados como parte de n&oacute;s e n&atilde;o os &ldquo;outros&rdquo; (como imagens de celebridades a ajudar os refugiados, gr&aacute;ficos ou imagens de destro&ccedil;os, sem personagens).</p>     <p>Este mapeamento dos regimes de visibilidade p&uacute;blica torna os refugiados &ldquo;objetos da &lsquo;nossa&rsquo; responsabilidade&rdquo; (p. 1172), segundo Chouliaraki e Stolic, e acabam por ser &ldquo;espa&ccedil;os-chave de moraliza&ccedil;&atilde;o que produzem e regulam as disposi&ccedil;&otilde;es do p&uacute;blico&rdquo; (p. 1172) em rela&ccedil;&atilde;o aos refugiados, perpetuando um distanciamento ou contribuindo para uma responsabiliza&ccedil;&atilde;o coletiva. As investigadoras concluem que esta crise humanit&aacute;ria &eacute;, na ess&ecirc;ncia, uma crise da no&ccedil;&atilde;o de responsabilidade para a qual a representa&ccedil;&atilde;o imag&eacute;tica dos refugiados contribui em grande parte.</p>     <p>Em Portugal, a cobertura jornal&iacute;stica dos refugiados tamb&eacute;m tem sido objeto de v&aacute;rios estudos. Uma tese de mestrado sobre as representa&ccedil;&otilde;es dos refugiados e requerentes de asilo nos m&eacute;dia portugueses (Silvestre, 2011) concluiu que estes s&atilde;o sistematicamente desqualificados enquanto fonte de informa&ccedil;&atilde;o cred&iacute;vel e a sua voz &eacute; silenciada. Outra tese de mestrado defendida em 2018, que se debru&ccedil;ou sobre a cobertura jornal&iacute;stica portuguesa da crise dos refugiados em 2015, concluiu que houve falhas ao n&iacute;vel da explica&ccedil;&atilde;o e contextualiza&ccedil;&atilde;o das pe&ccedil;as, a come&ccedil;ar pela defini&ccedil;&atilde;o correta de refugiado, e que h&aacute; necessidade de um maior comprometimento e especializa&ccedil;&atilde;o dos jornalistas para com os direitos humanos (Guerreiro, 2018).</p>     <p>Outro estudo com base em imagens publicadas em 2015 no jornal di&aacute;rio portugu&ecirc;s <i>P&uacute;blico</i> mostra que h&aacute; poucas pistas sobre a identidade dos refugiados, representados recorrentemente como grupos homog&eacute;neos e n&atilde;o indiv&iacute;duos (Empinotti, 2017). A autora alerta para o facto de serem repetidos esquemas de representa&ccedil;&atilde;o &ldquo;que tendem a reduzir a compreens&atilde;o do refugiado como algu&eacute;m em constante deslocamento, muitas vezes em situa&ccedil;&atilde;o de risco ou m&aacute;s condi&ccedil;&otilde;es&rdquo; (p. 114).</p>     <p>A literatura portuguesa diz-nos que nestes encontros com os refugiados, mediados pelos m&eacute;dia, estes indiv&iacute;duos s&atilde;o representados como os <i>outros</i>, sem voz, sem identidade, sem contexto, sem mem&oacute;ria. Mois&eacute;s Lemos Martins (2019) vai mais longe e qualifica esta rela&ccedil;&atilde;o com o <i>outro</i>: &ldquo;e se o que est&aacute; em causa &eacute; ignorar o outro, ou ent&atilde;o, segreg&aacute;-lo, discrimin&aacute;-lo e domin&aacute;-lo, do que se trata mesmo &eacute; de exercer sobre ele uma viol&ecirc;ncia&rdquo; (p. 21).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Objeto de investiga&ccedil;&atilde;o e metodologia</b></p>     <p>A 02 de setembro de 2015, Alan Kurdi, uma crian&ccedil;a s&iacute;ria de tr&ecirc;s anos, deu &agrave; costa sem vida numa praia turca. A fam&iacute;lia fazia a travessia do mar Egeu, da Turquia para a Gr&eacute;cia, de barco. A m&atilde;e e o irm&atilde;o tamb&eacute;m perderam a vida. A fotografia, captada por Nil&uuml;fer Demir, redefiniu a crise dos refugiados &ndash; ganhou a legenda de &ldquo;naufr&aacute;gio da humanidade&rdquo; &ndash; e levou a um pico da cobertura jornal&iacute;stica sobre a tem&aacute;tica.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os primeiros dias de julho de 2019 foram marcados pelas dificuldades encontradas pelos navios humanit&aacute;rios em atracar nos portos europeus com migrantes a bordo. No dia quatro, uma embarca&ccedil;&atilde;o que transportava migrantes capotava ao largo da Tun&iacute;sia, provocando a morte a 82 pessoas. O acontecimento mais medi&aacute;tico foi protagonizado pela capit&atilde; do navio Sea Watch que atracou em Lampedusa, contra a ordens da pol&iacute;cia italiana.</p>     <p>Nesse sentido, este estudo tem como objetivo analisar a forma como os m&eacute;dia portugueses cobriram a tem&aacute;tica dos refugiados em dois momentos mediaticamente relevantes: em 2015 (02 a 08 de setembro) e em 2019 (30 de junho a 7 de julho). Houve outros momentos igualmente relevantes, mas o de 2015 foi o primeiro caso que despoletou uma cobertura jornal&iacute;stica &agrave; escala global e a consterna&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica; o de 2019 foi escolhido por ser o mais recente &agrave; data deste estudo.</p>     <p>O artigo pretende explorar em particular qual &eacute; a representa&ccedil;&atilde;o social dos refugiados, a partir da an&aacute;lise de caracter&iacute;sticas editoriais das pe&ccedil;as jornal&iacute;sticas publicadas e de uma tipologia de regimes de visibilidade proposta por Chouliaraki e Stolic (2017). Para alcan&ccedil;ar este objetivo, foram delineadas tr&ecirc;s perguntas de investiga&ccedil;&atilde;o:</p>     <p>PI1: quais s&atilde;o as principais caracter&iacute;sticas editoriais das pe&ccedil;as publicadas em dois jornais portugueses sobre a tem&aacute;tica dos refugiados, em dois momentos mediaticamente relevantes de 2015 e 2019?</p>     <p>PI2: que representa&ccedil;&otilde;es sociais s&atilde;o feitas dos refugiados, a partir dessas caracter&iacute;sticas editoriais e das imagens adotadas pelos jornais como estrat&eacute;gia de visibilidade?</p>     <p>PI3: quais s&atilde;o as principais diferen&ccedil;as entre a cobertura jornal&iacute;stica de 2015 e de 2019?</p>     <p>Para responder a estas quest&otilde;es, foi utilizada uma metodologia comparativa baseada na an&aacute;lise de conte&uacute;do das semanas supramencionadas, em dois di&aacute;rios online de refer&ecirc;ncia &ndash; <i>P&uacute;blico</i> e <i>Observador</i>. &Agrave; data de 2015, estes dois di&aacute;rios tinham, no campo dos jornais de refer&ecirc;ncia, os maiores n&uacute;meros de p&aacute;ginas visualizadas. Em 2019, foi mantido o <i>corpus</i> para sustentar a an&aacute;lise comparativa. N&atilde;o foi objetivo deste artigo fazer uma an&aacute;lise da evolu&ccedil;&atilde;o da cobertura jornal&iacute;stica portuguesa entre 2015 e 2019 (per&iacute;odo durante o qual houve v&aacute;rios outros momentos mediaticamente relevantes), mas, sim, fazer uma compara&ccedil;&atilde;o entre momentos com uma diferen&ccedil;a de quatro anos, de forma a identificar diferen&ccedil;as nas estrat&eacute;gias editoriais.</p>     <p>O levantamento das pe&ccedil;as jornal&iacute;sticas foi feito atrav&eacute;s das palavras-chave &ldquo;refugiado&rdquo; e &ldquo;migrante&rdquo; (em 2019, houve uma mudan&ccedil;a de nomenclatura dos refugiados) refor&ccedil;ado com o levantamento direto das pe&ccedil;as alocadas ao t&oacute;pico e &aacute;reas espec&iacute;ficas definidos pelo <i>P&uacute;blico</i> e pelo <i>Observador</i>. A an&aacute;lise teve em conta vari&aacute;veis, como o g&eacute;nero jornal&iacute;stico, o autor, as fontes, o t&oacute;pico, o &acirc;ngulo de abordagem, o uso de imagem, a sua proveni&ecirc;ncia e enquadramento.</p>     <p>A an&aacute;lise de conte&uacute;do foi complementada por uma an&aacute;lise mais detalhada das imagens usadas &ndash; n&atilde;o querendo chegar a uma an&aacute;lise multimodal &ndash; com base na tipologia de visibilidade proposta por Chouliaraki e Stolic (2017), de forma a percebermos o papel que as imagens t&ecirc;m nas representa&ccedil;&otilde;es sociais dos refugiados atrav&eacute;s das suas configura&ccedil;&otilde;es visuais. Essa tipologia foi j&aacute; apresentada no enquadramento te&oacute;rico e integra a visibilidade como vida biol&oacute;gica, empatia, amea&ccedil;a, acolhimento/hospitalidade e auto-reflex&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Apresenta&ccedil;&atilde;o e discuss&atilde;o dos resultados</b></p>     <p><b>Menos pe&ccedil;as e menos mem&oacute;ria</b></p>     <p>Com base na an&aacute;lise de conte&uacute;do a dois di&aacute;rios generalistas online &ndash; <i>Observador</i> e <i>P&uacute;blico</i> &ndash; num per&iacute;odo distinto de 2015 (02 a 08 de setembro) e de 2019 (30 de junho a 07 de julho), foram identificadas 145 pe&ccedil;as em 2015 (88 no <i>Observador</i> e 57 no <i>P&uacute;blico</i>) e 48 pe&ccedil;as em 2019 (31 pe&ccedil;as no <i>Observador</i> e 17 no <i>P&uacute;blico</i>).</p>     <p>Podemos observar, desde logo, uma diminui&ccedil;&atilde;o significativa do n&uacute;mero de pe&ccedil;as publicadas nos dois per&iacute;odos analisados (menos 97). Embora a fotografia do menino s&iacute;rio, em 2015, tenha suscitado uma ampla cobertura n&atilde;o s&oacute; nos &oacute;rg&atilde;os de comunica&ccedil;&atilde;o social, mas tamb&eacute;m nas redes sociais, o naufr&aacute;gio da embarca&ccedil;&atilde;o que levou &agrave; morte de 82 migrantes, em 2019, tamb&eacute;m foi um acontecimento igualmente grave com repercuss&otilde;es pol&iacute;ticas e sociais assinal&aacute;veis, pelo que, &agrave; partida, n&atilde;o haver&aacute; explica&ccedil;&atilde;o rigorosa para justificar esta disparidade na cobertura jornal&iacute;stica. No entanto, os pontos em an&aacute;lise seguintes poder&atilde;o contribuir para explicar esta diminui&ccedil;&atilde;o de pe&ccedil;as.</p>     <p>&Eacute; importante considerar a pr&oacute;pria estrat&eacute;gia de navega&ccedil;&atilde;o nos websites destes &oacute;rg&atilde;os de comunica&ccedil;&atilde;o social. O <i>Observador</i> tinha, em 2015, uma &aacute;rea intitulada &ldquo;crise dos refugiados&rdquo;, onde se encontravam todas as pe&ccedil;as associadas ao t&oacute;pico refugiados. Ter&aacute; tido em considera&ccedil;&atilde;o a especificidade do assunto e a sua potencial visibilidade ao longo do tempo, servindo tamb&eacute;m como facilitador de pesquisa. Por&eacute;m, em 2019, as pe&ccedil;as encontram-se dispersas por v&aacute;rias sec&ccedil;&otilde;es do jornal, com t&oacute;picos como &ldquo;mundo&rdquo;, &ldquo;migrantes&rdquo;, &ldquo;direitos humanos&rdquo;, &ldquo;pol&iacute;tica&rdquo;, entre outros. Tamb&eacute;m se verificaram casos de pe&ccedil;as mal arquivadas e ainda algumas no t&oacute;pico &ldquo;crise dos refugiados&rdquo; (que n&atilde;o desapareceu completamente, mas deixou de ser um agregador fi&aacute;vel).</p>     <p>Em rela&ccedil;&atilde;o ao <i>P&uacute;blico</i>, a dispers&atilde;o j&aacute; se verificava em 2015, mas &eacute; interessante constatar que, em 2019, os refugiados s&oacute; surgem como t&oacute;pico principal (imediatamente antes do t&iacute;tulo) em duas pe&ccedil;as e em 2015 em oito pe&ccedil;as. Mesmo <i>follow-ups</i> do mesmo acontecimento t&ecirc;m t&oacute;picos diferentes, o que sugere que ainda n&atilde;o h&aacute; uma estrat&eacute;gia de organiza&ccedil;&atilde;o dos t&oacute;picos nos dois websites.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Preval&ecirc;ncia do &ldquo;acontecimento&rdquo; replicado por ag&ecirc;ncias e o contexto portugu&ecirc;s</b></p>     <p>Em 2015, o g&eacute;nero jornal&iacute;stico maiorit&aacute;rio foi a not&iacute;cia, com 89,77% no <i>Observador</i> e 84,21% no <i>P&uacute;blico</i>, o que aponta para uma preval&ecirc;ncia do acontecimento face &agrave; explica&ccedil;&atilde;o e enquadramento, que poderiam ser verificados em pe&ccedil;as mais desenvolvidas. Em 2019, esse dom&iacute;nio foi ainda mais significativo: todas as pe&ccedil;as publicadas no <i>Observador</i> s&atilde;o not&iacute;cias; no <i>P&uacute;blico</i>, equivalem a 65% (h&aacute; uma reportagem, uma cr&oacute;nica e dois artigos de opini&atilde;o).</p>     <p>A preval&ecirc;ncia de not&iacute;cias tamb&eacute;m est&aacute; associada &agrave; autoria e &agrave; fonte prim&aacute;ria. Se, em 2015, pe&ccedil;as assinadas exclusivamente por ag&ecirc;ncias de not&iacute;cias correspondiam a 23,9% no <i>Observador</i> e a 8,77% no <i>P&uacute;blico</i>, em 2019, esse n&uacute;mero sobe para 80,65% (Lusa) e 41% (Lusa e Reuters), respetivamente. Mesmo nos artigos assinados por jornalistas, as ag&ecirc;ncias de not&iacute;cias continuam a ser a fonte prevalente. Esta replica&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos de ag&ecirc;ncias de not&iacute;cias diz-nos que, por um lado, n&atilde;o foram investidos recursos nem se aprofundaram os temas, mesmo que saibamos, &agrave; partida, que n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil chegar &agrave; voz dos refugiados. Estes dados podem tamb&eacute;m ajudar a explicar a diminui&ccedil;&atilde;o do n&uacute;mero de pe&ccedil;as em 2019 face a 2015.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Al&eacute;m das ag&ecirc;ncias de not&iacute;cias, as fontes mais comuns quer no <i>P&uacute;blico</i> quer no <i>Observador</i>, nos dois momentos analisados, s&atilde;o as institucionais: Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU), ACNUR e governos de v&aacute;rios pa&iacute;ses. Uma vez mais, s&atilde;o as &ldquo;elites brancas&rdquo; a serem ouvidas, ainda que as organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais (ONG) em causa persigam a defesa dos direitos humanos e o apoio dos refugiados.</p>     <p>Quanto aos protagonistas desta crise, a sua voz &eacute; quase ausente. &Eacute; certo que n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil chegar ao contacto com os refugiados, mas mesmo assim esperava-se mais. De facto, em 2019, apenas uma reportagem publicada no <i>P&uacute;blico</i>, mas assinada por uma jornalista da <i>Reuters</i>, tem a voz de refugiados. O mesmo n&uacute;mero surge no <i>Observador</i>.</p>     <p>Relativamente ao uso de cidad&atilde;os como fontes, &eacute; de salientar que continuam com percentuais menores, como se analisa no <i>Observador</i>, e que a voz mais ouvida foi a da capit&atilde; Carola Rackete que, numa altura em que os pa&iacute;ses europeus recusavam a entrada dos navios humanit&aacute;rios repletos de refugiados, ficou conhecida por ter representado a luta pelo salvamento no mar. O mesmo se verifica no <i>P&uacute;blico</i>. Em 2015, a percentagem era um pouco mais alta: 45,61% (incluindo os refugiados) no <i>P&uacute;blico</i> e 23,86% no <i>Observador</i>.</p>     <p>Em 2015, as pe&ccedil;as sobre o contexto portugu&ecirc;s na crise dos refugiados correspondiam a 29,55% no <i>Observador</i> e a 40,35% no <i>P&uacute;blico</i>. Portugal mostrava-se dispon&iacute;vel para acolher refugiados e discutia-se publicamente, entre as entidades pol&iacute;ticas e civis, qual seria a melhor forma de recoloca&ccedil;&atilde;o. J&aacute; em 2019, o percentual diminuiu para 9,68% no <i>Observador</i>, o que pode ser explicado pela replica&ccedil;&atilde;o das not&iacute;cias de ag&ecirc;ncias, que se centraram nos acontecimentos ocorridos fora de Portugal e sem grande impacto para os decisores nacionais. J&aacute; o <i>P&uacute;blico</i>, com menos replica&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos de ag&ecirc;ncias, obteve 41,18% de pe&ccedil;as em contexto portugu&ecirc;s, onde, ao contr&aacute;rio do&nbsp;<i>Observador</i>, que se focou apenas nos salvamentos de refugiados pela&nbsp;Pol&iacute;cia Mar&iacute;tima portuguesa na Gr&eacute;cia, abordou tamb&eacute;m&nbsp;a&nbsp;situa&ccedil;&atilde;o do ativista portugu&ecirc;s Miguel Duarte, acusado em It&aacute;lia de aux&iacute;lio &agrave; imigra&ccedil;&atilde;o ilegal.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Quem &eacute; o refugiado nos m&eacute;dia?</b></p>     <p>Para responder a esta quest&atilde;o, socorremo-nos n&atilde;o s&oacute; da an&aacute;lise de conte&uacute;do, mas tamb&eacute;m de um olhar mais detalhado das imagens publicadas nos dois jornais segundo a tipologia de visibilidade proposta por Chouliaraki e Stolic (2017): vida biol&oacute;gica, empatia, amea&ccedil;a, acolhimento/hospitalidade e auto-reflex&atilde;o.</p>     <p>Contudo, come&ccedil;ando pelo princ&iacute;pio, &eacute; condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria &agrave; compreens&atilde;o do <i>outro</i> saber quem &eacute; o <i>outro</i>. Saber quem &eacute; o refugiado, partindo da sua defini&ccedil;&atilde;o, permite-nos combater alguns preconceitos e estere&oacute;tipos relacionados com este grupo.</p>     <p>Por&eacute;m, a defini&ccedil;&atilde;o de refugiado &ldquo;pessoa que receia ser perseguida em virtude da sua ra&ccedil;a, religi&atilde;o, nacionalidade, grupo social ou das suas opini&otilde;es pol&iacute;ticas e que n&atilde;o pode pedir prote&ccedil;&atilde;o ao seu pa&iacute;s de origem&rdquo;, como est&aacute; inscrita na Conven&ccedil;&atilde;o de Genebra de 1951 Relativa ao Estatuto dos Refugiados, apenas pontualmente foi inclu&iacute;da nas pe&ccedil;as &ndash; uma em 88 no <i>Observador</i> e um em 57 no <i>P&uacute;blico</i>, em 2015. Num tema marcado por grandes diverg&ecirc;ncias de conceitos (&agrave; data, mais especificamente, entre o que era um refugiado ou um migrante econ&oacute;mico), a defini&ccedil;&atilde;o foi considerada o ponto de partida para a compreens&atilde;o da crise dos refugiados.</p>     <p>Em 2019, nenhuma pe&ccedil;a quer no <i>P&uacute;blico</i> quer no <i>Observador</i> cont&eacute;m a defini&ccedil;&atilde;o de refugiado ou uma aproxima&ccedil;&atilde;o &agrave; sua identifica&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso, este desconhecimento relativamente ao refugiado &eacute; agravado pelo uso aleat&oacute;rio da palavra &ldquo;migrante&rdquo;. No <i>Observador</i>, na semana analisada, s&oacute; foi usada duas vezes a palavra &ldquo;refugiados&rdquo;; as restantes pe&ccedil;as, mesmo sobre o mesmo assunto, foram indexadas ao t&oacute;pico &ldquo;migrantes&rdquo; ou tinham essa palavra no texto, talvez porque este conceito abarque v&aacute;rias realidades, mas que pode abrir caminho a equ&iacute;vocos desnecess&aacute;rios na perce&ccedil;&atilde;o do leitor (no <i>P&uacute;blico</i>, isto n&atilde;o se verificou).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se &eacute; certo que a popula&ccedil;&atilde;o que foge de conflitos armados e que estava a tentar desembarcar em 2019 dos v&aacute;rios navios humanit&aacute;rios ou barcos clandestinos n&atilde;o tem ainda o estatuto de refugiado (que &eacute; obtido no pa&iacute;s de acolhimento depois de verificadas v&aacute;rias condi&ccedil;&otilde;es), tamb&eacute;m n&atilde;o pode ser comparada aos migrantes que deixam os seus pa&iacute;ses por raz&otilde;es econ&oacute;micas. O uso da express&atilde;o &ldquo;migrante for&ccedil;ado&rdquo; em vez de apenas &ldquo;migrante&rdquo; poderia acautelar alguma desinforma&ccedil;&atilde;o relacionada com a pr&oacute;pria identidade dos refugiados.</p>     <p>Contribuem tamb&eacute;m para o desconhecimento do refugiado o &acirc;ngulo de abordagem das pr&oacute;prias pe&ccedil;as jornal&iacute;sticas. Em 2015, denotou-se uma primazia da vis&atilde;o ocidental no <i>Observador</i> (90,91%) e no <i>P&uacute;blico</i> (87,72%), isto &eacute;, fontes (oficiais e n&atilde;o oficiais) ocidentais que falam sobre o problema como sendo do <i>outro</i>. Inversamente, verificou-se o detrimento da vis&atilde;o intercultural, uma vez que o ponto de vista assumido na cobertura esteve muito mais alinhado com as preocupa&ccedil;&otilde;es ocidentais do que com as preocupa&ccedil;&otilde;es dos &ldquo;protagonistas&rdquo; da crise, de cariz multicultural.</p>     <p>Em 2019, o &acirc;ngulo de abordagem ocidental &eacute; ainda mais flagrante, se pensarmos que os her&oacute;is das pe&ccedil;as s&atilde;o os capit&atilde;es dos navios humanit&aacute;rios ou os pa&iacute;ses que acolhem os refugiados. O her&oacute;i nunca &eacute; o refugiado que conseguiu fugir do seu pa&iacute;s &ndash; mas tamb&eacute;m n&atilde;o aparece como v&iacute;tima.</p>     <p>Esta sub-representa&ccedil;&atilde;o dos refugiados nos textos, sendo muitas vezes reduzidos a n&uacute;meros ou a um grupo homog&eacute;neo, &eacute; ainda agravada pelas imagens escolhidas pelos jornais, numa evolu&ccedil;&atilde;o claramente negativa de 2015 para 2019. Neste ano, em 96,77% das pe&ccedil;as do <i>Observador</i> havia uma &uacute;nica imagem a acompanhar o texto, sem recurso a galerias de imagens, o que se considerou muito pobre numa l&oacute;gica visual. O <i>P&uacute;blico</i> tamb&eacute;m s&oacute; usou galerias de imagens em duas das 17 pe&ccedil;as.</p>     <p>Por&eacute;m, s&atilde;o poucas as imagens publicadas nos jornais que retratam os refugiados como indiv&iacute;duos com voz e identidade pr&oacute;pria. No <i>P&uacute;blico</i>, s&oacute; em quatro das 17 s&atilde;o protagonistas. Nas restantes, as imagens escolhidas s&atilde;o de pol&iacute;ticos ocidentais, chefes de miss&atilde;o de ONG ou capit&atilde;es dos navios humanit&aacute;rios. No caso do <i>Observador</i>, embora houvesse mais imagens com refugiados, 29,03% das imagens estavam desatualizadas (os dados apontam para que n&atilde;o sejam de 2019 e sim de anos anteriores), 12,90% eram padronizadas (por representarem os refugiados de forma indiferenciada, massificada), 22,58% estavam descontextualizadas (por n&atilde;o terem correspond&ecirc;ncia com a not&iacute;cia) e 6,45% eram repetidas. O mesmo n&atilde;o se verificou com o <i>P&uacute;blico </i>que teve o cuidado, no caso de imagens com refugiados, de ter uma legenda que confirmava a atualidade e a pertin&ecirc;ncia daquela imagem.</p>     <p>Aplicando os regimes de visibilidade propostos por Chouliaraki e Stolic (2017) &agrave;s imagens com refugiados, nota-se uma predomin&acirc;ncia clara de configura&ccedil;&otilde;es visuais relacionadas com a vida biol&oacute;gica, isto &eacute;, prevalecem imagens de pessoas indiferenciadas &ndash; ou &ldquo;massa de desafortunados&rdquo; (p. 1167) nos barcos, como caracterizam as investigadoras. No caso do <i>Observador</i>, no qual as representa&ccedil;&otilde;es imag&eacute;ticas de refugiados equivalem a 35,48% do total, 12,90% eram situa&ccedil;&otilde;es de homogeneiza&ccedil;&atilde;o/generaliza&ccedil;&atilde;o (ex. fotos de grupos indiferenciados), enquanto 9,68% representavam uma massa humana despersonalizada, como as &ldquo;cl&aacute;ssicas&rdquo; imagens de botes com aglomerados de pessoas. Tais imagens tornaram-se incontorn&aacute;veis na cobertura da crise em 2015, serviram de padr&atilde;o &agrave; situa&ccedil;&atilde;o e continuam a aparecer nos mesmos moldes, por vezes at&eacute; desatualizadas, conforme os dados anteriormente apresentados. No <i>P&uacute;blico</i>, tamb&eacute;m surgem as mesmas imagens de refugiados indiferenciados, em barcos ou em situa&ccedil;&otilde;es de destrui&ccedil;&atilde;o. Este regime de visibilidade promove o distanciamento dos leitores e a aus&ecirc;ncia de responsabilidade coletiva, dado que n&atilde;o h&aacute; um &ldquo;rosto&rdquo; nem uma hist&oacute;ria.</p>     <p>A segunda tipologia de visibilidade mais utilizada &eacute; a amea&ccedil;a, com o constante uso de imagens de barcos com os refugiados a tentarem sair de forma desesperada. Como referem Chouliaraki e Stolic (2017), este regime de visibilidade promove o receio, o medo e a sensa&ccedil;&atilde;o de inseguran&ccedil;a. Se aliarmos este tipo de imagens &agrave;s da primeira categoria &ndash; que promove o desconhecimento &ndash; ent&atilde;o a amea&ccedil;a &ldquo;do desconhecido&rdquo; e do <i>outro</i> assume propor&ccedil;&otilde;es ainda mais significativas. Estas configura&ccedil;&otilde;es visuais confirmam o que as investigadoras defendem: a crise humanit&aacute;ria acaba por ser uma crise da no&ccedil;&atilde;o de responsabilidade.</p>     <p>A terceira tipologia de visibilidade mais usada &eacute; a da empatia, situa&ccedil;&atilde;o em que os refugiados s&atilde;o representados como v&iacute;timas que merecem preocupa&ccedil;&atilde;o e a den&uacute;ncia dos casos de viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos, mas, mesmo assim, s&atilde;o n&uacute;meros inferiores a 10%.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A crise dos refugiados prossegue agora a um ritmo mais lento e contido. Mais distante da lente medi&aacute;tica em 2015, mas omnipresente nas tend&ecirc;ncias pol&iacute;ticas anti-imigra&ccedil;&atilde;o e nas decis&otilde;es estatais que decidem o encerramento de portos do Mediterr&acirc;neo. Por sua vez, o jornalismo, enquanto mediador e porta-voz, restringiu o seu papel &agrave; medida que reduziu a investiga&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Em 2019, para os m&eacute;dia portugueses em foco, o refugiado &eacute; uma entidade sem voz e sem identidade. N&atilde;o lhe &eacute; dado valor enquanto fonte das not&iacute;cias publicadas, pois que n&atilde;o &eacute;, sequer, ouvido. Quando &eacute; representado, fazem-no sem individualiza&ccedil;&atilde;o, como uma imagem padr&atilde;o (ex. a &ldquo;massa humana&rdquo; num bote) que &eacute; replicada desde 2015 at&eacute; hoje.</p>     <p>A defini&ccedil;&atilde;o de refugiado (a ess&ecirc;ncia da sua situa&ccedil;&atilde;o) &eacute; ignorada, sem a devida contextualiza&ccedil;&atilde;o deste universo para uma maior compreens&atilde;o do leitor. &Eacute; ausente de todas as not&iacute;cias de 2019, o que nos diz que a cobertura jornal&iacute;stica continua a n&atilde;o ter em considera&ccedil;&atilde;o a explica&ccedil;&atilde;o dos conceitos, em particular deste conceito basilar, apesar do tempo decorrido entre o in&iacute;cio da crise, em 2015, at&eacute; &agrave; presente an&aacute;lise, de 2019.</p>     <p>O refugiado tamb&eacute;m n&atilde;o tem mem&oacute;ria nos m&eacute;dia, pois as pe&ccedil;as sobre estes est&atilde;o cada vez mais dispersas nas v&aacute;rias sec&ccedil;&otilde;es dos jornais, perdendo autonomia, e tornando-se mais dif&iacute;ceis de encontrar. Juntos, promovem o afastamento do p&uacute;blico em rela&ccedil;&atilde;o ao tema.</p>     <p>Chegados a 2019, o refugiado n&atilde;o foi preocupa&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;dia, que se limitaram, na grande maioria, &agrave; replica&ccedil;&atilde;o dos conte&uacute;dos de ag&ecirc;ncias noticiosas. No g&eacute;nero predominante, a not&iacute;cia, a vis&atilde;o ocidental tornou-se ainda mais acentuada, deixando para o refugiado o papel do <i>outro</i>. Aquele que, sem voz, sem identidade, sem contexto nem mem&oacute;ria, n&atilde;o merece destaque na agenda medi&aacute;tica.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Abdo, C., Cabecinhas, R. &amp; Brites, M. J. (2019). Crise migrat&oacute;ria na Europa: os m&eacute;dia e a constru&ccedil;&atilde;o da imagem dos refugiados. In Z. Pinto-Coelho; S. Marinho &amp; T. Ru&atilde;o (Eds.), <i>Comunidades, participa&ccedil;&atilde;o e regula&ccedil;&atilde;o. VI Jornadas Doutorais, Comunica&ccedil;&atilde;o &amp; Estudos Culturais</i> (pp. 71-83). Braga: CECS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023131&pid=S2183-3575202000020000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>ACNUR, Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados. (2019). <i>Global trends report. Forced displacement in 2018.</i> Retirado de <a href="https://www.unhcr.org/globaltrends2018/" target="_blank">https://www.unhcr.org/globaltrends2018/</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023133&pid=S2183-3575202000020000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Blumell, L. E., Bunce, M., Cooper, G. &amp; McDowell, C. (2020). Refugee and asylum news coverage in UK print and online media. <i>Journalism Studies</i>, <i>21</i>(2), 162-179. <a href="https://doi.org/10.1080/1461670X.2019.1633243" target="_blank">https://doi.org/10.1080/1461670X.2019.1633243</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023134&pid=S2183-3575202000020000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Cha&iacute;&ccedil;a, I. (2019, 03 de janeiro). Morreram 2262 refugiados no mar Mediterr&acirc;neo em 2018. <i>P&uacute;blico</i>. Retirado de <a href="https://www.publico.pt/2019/01/03/mundo/noticia/migrantes-mediterraneo-europa-1856539" target="_blank">https://www.publico.pt/2019/01/03/mundo/noticia/migrantes-mediterraneo-europa-1856539</a></p>     <p>Chouliaraki, L. &amp; Stolic, T. (2017). Rethinking media responsibility in the refugee &ldquo;crisis&rdquo;: a visual typology of European news. <i>Media, Culture and Society</i>, <i>39</i>(8), 1162-1177. <a href="https://doi.org/10.1177/0163443717726163" target="_blank">https://doi.org/10.1177/0163443717726163</a></p>     <p>ONU, Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas. (1948). Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos Humanos. Retirado de <a href="https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2018/10/DUDH.pdf" target="_blank">https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2018/10/DUDH.pdf</a></p>     <p>ONU, Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas. (1951). Conven&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas relativa ao estatuto dos refugiados. Retirado de <a href="http://www.acnur.org/t3/fileadmin/Documentos/portugues/BDL/Convencao_relativa_ao_Estatuto_dos_Refugiados.pdf" target="_blank">http://www.acnur.org/t3/fileadmin/Documentos/portugues/BDL/Convencao_relativa_ao_Estatuto_dos_Refugiados.pdf</a></p>     <!-- ref --><p>Empinotti, M. (2017). Discrimina&ccedil;&atilde;o no discurso: an&aacute;lise da representa&ccedil;&atilde;o de refugiados no P&uacute;blico atrav&eacute;s da gram&aacute;tica visual de Kress e Van Leeuwn. <i>Media&amp;Journalism</i>, <i>17</i>(31), 95-116.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023139&pid=S2183-3575202000020000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Fernando, R. (2019, 19 de junho). Refugiados s&atilde;o j&aacute; mais de 70 milh&otilde;es, n&uacute;mero recorde. <i>P&uacute;blico</i>. Retirado de <a href="https://www.publico.pt/2019/06/19/mundo/noticia/refugiados-sao-ja-70-milhoes-recorde-20-anos-1876916" target="_blank">https://www.publico.pt/2019/06/19/mundo/noticia/refugiados-sao-ja-70-milhoes-recorde-20-anos-1876916</a></p>     <!-- ref --><p>Gemi, E., Ulasiuk, I. &amp; Triandafyllidou, A. (2013). Migrants and media newsmaking practices. <i>Journalism Practice, 7</i>(3), 266-281.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023142&pid=S2183-3575202000020000700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Guerreiro, D. (2018<i>). A crise dos refugiados no Mediterr&acirc;neo - a cobertura jornal&iacute;stica em Portugal e proposta de modelo editorial.</i> Tese de Mestrado, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal. Retirado de <a href="https://run.unl.pt/handle/10362/46729" target="_blank">https://run.unl.pt/handle/10362/46729</a></p>     <p>Hafez, K. (2009, mar&ccedil;o). <i>Global journalism for global governance? Theoretical visions, practical constraints</i>. Comunica&ccedil;&atilde;o apresentada no congresso Power and Pluralism. A Media Seminar on International Reporting, Su&eacute;cia.&nbsp;</p>     <!-- ref --><p>Jodelet, D. (1989). <i>Les repr&eacute;sentations sociales</i>. Paris: Presses Universitaires de France.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023146&pid=S2183-3575202000020000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Kovach, B. &amp; Rosenstiel, T. (2001). <i>Os elementos do jornalismo</i>. Porto: Porto Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023148&pid=S2183-3575202000020000700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Martins, M. L. (2019). A &ldquo;crise dos refugiados&rdquo; na Europa &ndash; entre totalidade e infinito. <i>Comunica&ccedil;&atilde;o e Sociedade</i>, [Vol. especial], 21-36. <a href="https://doi.org/10.17231/comsoc.0(2019).3058" target="_blank">https://doi.org/10.17231/comsoc.0(2019).3058</a></p>     <p>McIntyre, P. (2003). <i>Human rights reporting &ndash; a handbook for journalists in Southeastern Europe</i>. International Federation of Journalists and European Commission. Retirado de <a href="http://www.ifj.org/nc/news-single-view/backpid/59/category/reports-1/article/journalism-and-human-rights-handbook-on-human-rights-reporting-in-southeastern-europe-2003/" target="_blank">http://www.ifj.org/nc/news-single-view/backpid/59/category/reports-1/article/journalism-and-human-rights-handbook-on-human-rights-reporting-in-southeastern-europe-2003/</a></p>     <!-- ref --><p>Moscovici, S. (1961/2003). <i>Representa</i><i>&ccedil;&otilde;es sociais: investiga&ccedil;&otilde;es em Psicologia S</i><i>ocial</i>. Petr&oacute;polis: Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023152&pid=S2183-3575202000020000700011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Obercom. (2003). <i>Representa&ccedil;&otilde;es (imagens) dos imigrantes e das minorias &eacute;tnicas na imprensa</i>. Retirado de <a href="https://www.om.acm.gov.pt/documents/58428/177157/Estudo+Obercom.pdf/a664dc38-65cf-4398-896a-751dbdde0c5a" target="_blank">https://www.om.acm.gov.pt/documents/58428/177157/Estudo+Obercom.pdf/a664dc38-65cf-4398-896a-751dbdde0c5a</a></p>     <p>OIM, Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional para as Migra&ccedil;&otilde;es. (2019). <i>World migration report 2020</i>. Genebra.</p>     <p>P&ouml;yht&auml;ri, R. (2014). <i>Immigration and ethnic diversity in Finnish and Dutch magazines: articulations of subject positions and symbolic communities</i>. Tese de Doutoramento, Tampere University, Tampere.</p>     <!-- ref --><p>Rose, T. (2013). A human rights-based approach to journalism: Ghana. <i>The Journal of International Communication, 19</i>(1), 85-106.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023157&pid=S2183-3575202000020000700013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Shaw, I. S. (2012). <i>Human rights journalism: advances in reporting distant humanitarian interventions</i>. Bakingstoke, Hampshire: Palgrave Macmillan.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023159&pid=S2183-3575202000020000700014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Silvestre, F. (2011<i>). Um olhar sobre a imprensa: representa&ccedil;&otilde;es sobre os requerentes de asilo e refugiados em Portugal</i>. Disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal.</p>     <!-- ref --><p>The International Council Human Rights Policy. (2002). <i>Journalism, media and the challenges of human rights reporting</i>. Retirado <a href="http://www.ichrp.org/files/reports/14/106_report_en.pdf" target="_blank">http://www.ichrp.org/files/reports/14/106_report_en.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023162&pid=S2183-3575202000020000700015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Thompson, A. (2007). The responsibility to report: a new journalistic paradigm. In A. Thompson (Ed.), <i>The media and the Rwanda Genocide</i> (pp. 433-445). Londres: Pluto Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023163&pid=S2183-3575202000020000700016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas biogr&aacute;ficas</b></p>     <p>Dora Santos-Silva &eacute; Professora Auxiliar no Departamento de Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde concluiu a licenciatura em Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o, o mestrado em Cultura Contempor&acirc;nea e Novas Tecnologias, e o doutoramento em Digital Media (programa UT Austin Portugal).</p>     <p>ORCID: <a href="https://orcid.org/0000-0003-1611-8858" target="_blank">https://orcid.org/0000-0003-1611-8858</a></p>     <p>Email: <a href="mailto:dorasantossilva@fcsh.unl.pt">dorasantossilva@fcsh.unl.pt</a></p>     <p>Morada: NOVA FCSH, Avenida de Berna, 26-C, 1069-061 Lisboa</p>     <p>D&eacute;bora Guerreiro &eacute; licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e mestre em Jornalismo pela Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.</p>     <p>ORCID: <a href="https://orcid.org/0000-0003-1708-4047" target="_blank">https://orcid.org/0000-0003-1708-4047</a></p>     <p>Email: <a href="mailto:debora.santos.guerreiro@gmail.com">debora.santos.guerreiro@gmail.com</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Morada: NOVA FCSH, Avenida de Berna, 26-C, 1069-061 Lisboa</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Submetido: 15/04/2020</b></p>     <p><b>Aceite: 13/05/2020</b></p>      ]]></body><back>
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