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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper aims to think the forced migration to Europe under the perspective of a journalistic narrative which is based in repetitions and reiterations of words. When they produce meaning it results in a strait view where the migrant and refugee are the reason of disorder. Thus, we try to grasp how this process contributes to what we called colonization of the future, according to Giddens (2002) and Gomes (2004) concepts. In this process, an ordering is projected through the words based on a thought built during the European colonization. Its reminiscence is accumulated and form layers that appear in the journalistic narratives and on the borders. Narratives and borders are the metaphor and materialization of the conflict that impose to the migrant and to the refugee the condition of the difference, the condition to be the “other”. We propose that there is a journalistic narrative on the border that contributes to the production of meaning which its result is to discuss just for one perspective or just for one side of the borders. In this border scenery, thinking about a colonization of the future by the words lead us to understand that the journalism is also a constructor of invented time. To this paper, it was analysed some news from Brazilian newspaper Folha de São Paulo that were published between September and December 2015. There was in that moment a deeper debate concerning the refugees in Europe. We analysed the news from some keywords as refugees, borders and control.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS TEM&Aacute;TICOS</b></p>     <p><b>Ref&uacute;gio e coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro: fronteiras erguidas nas palavras</b></p>     <p><b>Refuge and colonization of the future: borders built by words</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Fernando Resende*</b></p>     <p><img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0002-7878-4840" target="_blank">https://orcid.org/0000-0002-7878-4840</a></p>     
<p><b>F&aacute;bio Ferreira Agra**</b></p>     <p><img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0001-5546-9349" target="_blank">https://orcid.org/0000-0001-5546-9349</a></p>     
<p>*Departamento de Estudos Culturais e M&iacute;dia, Programa de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o, Universidade Federal Fluminense, Brasil</p>     <p>**Programa de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o, Universidade Federal Fluminense, Brasil</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Este trabalho prop&otilde;e pensar a migra&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada para a Europa sob a perspectiva de uma narrativa jornal&iacute;stica ancorada em repeti&ccedil;&otilde;es e reitera&ccedil;&otilde;es de determinadas palavras que, ao produzir sentidos, resultam em uma vis&atilde;o de mundo que estabelece a presen&ccedil;a dos migrantes e dos refugiados como raz&atilde;o de uma desordem ao que est&aacute; posto. Assim, buscamos entender que esse processo contribui para o que denominamos de coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro, a partir das ideias de Giddens (2002) e Gomes (2004). Neste processo, projeta-se uma ordem, atrav&eacute;s das palavras, baseada em um pensamento constru&iacute;do ao longo dos per&iacute;odos de coloniza&ccedil;&atilde;o europeia. Seus resqu&iacute;cios se acumulam e formam camadas que se desvelam nas narrativas jornal&iacute;sticas e nas fronteiras. Ambas nos servem como met&aacute;fora e materializa&ccedil;&atilde;o dos conflitos e das rela&ccedil;&otilde;es de poder que imp&otilde;e ao migrante e ao refugiado a condi&ccedil;&atilde;o do diferente, do &ldquo;outro&rdquo;. Queremos propor que h&aacute; uma narrativa na/de fronteira no jornalismo que contribui para a produ&ccedil;&atilde;o de sentido no processo migrat&oacute;rio que enseja pensar apenas por um dos lados da fronteira. Nesse cen&aacute;rio fronteiri&ccedil;o, pens&aacute;-lo sob o aspecto de uma coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro pelas palavras nos imp&otilde;e o desafio de entender que o jornalismo tamb&eacute;m &eacute; construtor de um tempo inventado narrativamente. Para este trabalho, foram analisados textos do jornal brasileiro <i>Folha de S&atilde;o Paulo</i> publicados entre setembro e dezembro de 2015, momento em que houve um maior aprofundamento dos debates acerca do ref&uacute;gio na Europa. O recorte para a an&aacute;lise seguiu a partir das palavras refugiados, fronteiras e controle.</p>     <p><b>Palavras-chave:&nbsp;</b>coloniza&ccedil;&atilde;o; jornalismo; narrativa; refugiados; tempo</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>This paper aims to think the forced migration to Europe under the perspective of a journalistic narrative which is based in repetitions and reiterations of words. When they produce meaning it results in a strait view where the migrant and refugee are the reason of disorder. Thus, we try to grasp how this process contributes to what we called colonization of the future, according to Giddens (2002) and Gomes (2004) concepts. In this process, an ordering is projected through the words based on a thought built during the European colonization. Its reminiscence is accumulated and form layers that appear in the journalistic narratives and on the borders. Narratives and borders are the metaphor and materialization of the conflict that impose to the migrant and to the refugee the condition of the difference, the condition to be the &ldquo;other&rdquo;. We propose that there is a journalistic narrative on the border that contributes to the production of meaning which its result is to discuss just for one perspective or just for one side of the borders. In this border scenery, thinking about a colonization of the future by the words lead us to understand that the journalism is also a constructor of invented time. To this paper, it was analysed some news from Brazilian newspaper <i>Folha de S&atilde;o Paulo</i> that were published between September and December 2015. There was in that moment a deeper debate concerning the refugees in Europe. We analysed the news from some keywords as refugees, borders and control.</p>     <p><b>Keywords:&nbsp;</b>colonization; journalism; narrative; refugees; time</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A palavra &ldquo;refugiados&rdquo; ou o termo &ldquo;migrantes ilegais&rdquo; t&ecirc;m sido de alguma forma um inv&oacute;lucro utilizado amplamente pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, em especial pelo jornalismo, para condensar ou agrupar dentro do mesmo espectro os sujeitos que foram obrigados a se deslocar de maneira for&ccedil;ada por raz&otilde;es de conflitos, guerras, persegui&ccedil;&otilde;es e situa&ccedil;&otilde;es de vulnerabilidade. Tais nomes s&atilde;o usados para se referir &agrave;s pessoas que est&atilde;o nas fronteiras da Uni&atilde;o Europeia com a Turquia ou no mar Mediterr&acirc;neo e nas fronteiras entre M&eacute;xico e Estados Unidos, respectivamente. Ao mesmo tempo, ao caracterizar esse inv&oacute;lucro permeado de pessoas que buscam sobreviv&ecirc;ncia, inserem-se debates que circunscrevem a necessidade de ordem e seguran&ccedil;a aos pa&iacute;ses que poderiam acolh&ecirc;-los. Ao tomar tal direcionamento, essas narrativas jornal&iacute;sticas emulam pedras sobre os muros fronteiri&ccedil;os j&aacute; existentes, assim escamoteando as fronteiras como poss&iacute;veis espa&ccedil;os de passagem.</p>     <p>Alastrando mais ainda essa problematiza&ccedil;&atilde;o, pensamos que esse tipo de narrativa &eacute; constru&iacute;do a partir da caracter&iacute;stica jornal&iacute;stica de disciplinar o nosso olhar para os acontecimentos que s&atilde;o postos, concomitantemente, em visibilidade e vigil&acirc;ncia (Gomes, 2009). Nesse sentido, observa-se a preval&ecirc;ncia da reitera&ccedil;&atilde;o de palavras e express&otilde;es que ao mesmo tempo conotam medo e inseguran&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o aos que tentam atravessar as fronteiras, como tamb&eacute;m indicam uma ideia de uma coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro (Giddens, 2002; Gomes, 2004). O que pretendemos refletir sobre coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro pela palavra diz respeito a esta reitera&ccedil;&atilde;o de narrativas que resultam em uma atualiza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de poder que se engendraram em outro momento hist&oacute;rico, mas que s&atilde;o corroboradas, mantidas e com potencial de se prolongar.</p>     <p>Para essa narrativa que denominamos de coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro, propomos ent&atilde;o que h&aacute; tamb&eacute;m nesse debate uma am&aacute;lgama do passado colonial europeu que se desvela nos ecos propulsionados pelos textos de imprensa. Destrin&ccedil;ar as narrativas no campo do jornalismo, onde ele pr&oacute;prio e suas fontes disputam a produ&ccedil;&atilde;o de sentido, com o olhar direcionado para as fronteiras em tempos de migra&ccedil;&atilde;o e ref&uacute;gio, implica tamb&eacute;m pensar como os resqu&iacute;cios da coloniza&ccedil;&atilde;o europeia s&atilde;o catalisados para o ordenamento das vis&otilde;es de mundo. A fronteira que mant&eacute;m refugiados e migrantes &agrave; margem nos serve, ent&atilde;o, como met&aacute;fora e materializa&ccedil;&atilde;o dos conflitos e dessas rela&ccedil;&otilde;es de poder que se apresentam atrav&eacute;s da diferen&ccedil;a colonial (Mignolo, 2005).</p>     <p>Nesse sentido, colonizar o futuro atrav&eacute;s da narrativa relaciona-se com o ordenamento de mundo constru&iacute;do sob um vi&eacute;s que se forjou ainda em tempos de coloniza&ccedil;&atilde;o. E esta narrativa se quer como ferramenta de poder que ainda disciplina nosso olhar sobre o mundo desta forma. &Agrave; luz dos conceitos de coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro e diferen&ccedil;a colonial, problematizamos nos textos jornal&iacute;sticos as rela&ccedil;&otilde;es de poder que se deram nas fronteiras durante os deslocamentos for&ccedil;ados para a Europa em 2015, especificamente entre setembro e dezembro daquele ano. Queremos propor que h&aacute; uma narrativa na/de fronteira no jornalismo que contribui para a produ&ccedil;&atilde;o de sentido no processo migrat&oacute;rio que enseja pensar apenas por um dos lados da fronteira, onde p&otilde;e o migrante e o refugiado como sujeitos que desordenam o que est&aacute; posto socialmente.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Dos resqu&iacute;cios da coloniza&ccedil;&atilde;o para uma sociedade de controle</b></p>     <p>As rela&ccedil;&otilde;es assim&eacute;tricas de poder que se desenvolvem nas fronteiras ou em outros espa&ccedil;os de controle podem ser potencializadas quando os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, em especial o jornalismo, objeto de an&aacute;lise deste trabalho, reiteram narrativas que pretendem ordenar o mundo de acordo com vis&otilde;es consolidadas. Nesse sentido, refletimos sobre as narrativas produzidas em espa&ccedil;os de conten&ccedil;&atilde;o aquando do fluxo migrat&oacute;rio de pessoas que foram for&ccedil;adas a deixar seus lares e seus pa&iacute;ses para buscar ref&uacute;gio em outro territ&oacute;rio, ao passo que se deparavam com cercas, muros e aparatos de controle que os impediam de prosseguir.</p>     <p>Dentre os mais de 70 milh&otilde;es de pessoas que se deslocam de maneira for&ccedil;ada nessa segunda d&eacute;cada do s&eacute;culo XXI, as que se aportaram nas fronteiras europeias t&ecirc;m recebido importante destaque na cobertura midi&aacute;tica a partir de 2015<sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a>, inclusive pela imprensa brasileira. S&atilde;o pessoas em busca de ref&uacute;gio de pa&iacute;ses da &Aacute;frica, do Oriente M&eacute;dio, especialmente da S&iacute;ria, e da &Aacute;sia, territ&oacute;rios que foram colonizados ou sofreram agenciamentos de pot&ecirc;ncias europeias ou dos Estados Unidos nessas duas primeiras d&eacute;cadas, como foram o Iraque e o Afeganist&atilde;o<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>.</p>     <p>Pensando na perspectiva de que os corpos dos migrantes que buscam ref&uacute;gio na Europa s&atilde;o oriundos de pa&iacute;ses outrora colonizados, especialmente da &Aacute;frica, ou que sofreram fortes inger&ecirc;ncias pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas, como os pa&iacute;ses do Oriente M&eacute;dio, remetemo-nos a Mignolo (2005, p. 36) e Quijano (2002, p. 4), para quem os resqu&iacute;cios da coloniza&ccedil;&atilde;o europeia, que inaugura a modernidade/colonial a partir do s&eacute;culo XVI com o &ldquo;circuito comercial do Atl&acirc;ntico&rdquo;, se perpetuam ainda atrav&eacute;s do que eles chamam de &ldquo;diferen&ccedil;a colonial&rdquo; ou &ldquo;colonialidade do poder&rdquo;, respectivamente<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>. Esses conceitos podem ser entendidos como uma tentativa de subalternizar sujeitos a partir de uma classifica&ccedil;&atilde;o racial/cultural feita por quem det&eacute;m o poder, seja pol&iacute;tico, econ&ocirc;mico ou epist&ecirc;mico, em que a concep&ccedil;&atilde;o do tempo e modernidade s&atilde;o fundamentais para que permane&ccedil;a a fenda que separa a Europa dos seus outrora colonizados. De acordo com Mignolo (2017, p. 8) &ldquo;a l&oacute;gica da colonialidade (&hellip;) passou por etapas sucessivas e cumulativas que foram apresentadas positivamente na ret&oacute;rica da modernidade: especificamente, nos termos da salva&ccedil;&atilde;o, do progresso, do desenvolvimento, da moderniza&ccedil;&atilde;o e da democracia&rdquo;. Com isso estabeleceu-se um tempo linear para marcar quais sociedades j&aacute; haviam passado por est&aacute;gios de avan&ccedil;o e quais estavam atrasadas dentro da ret&oacute;rica da modernidade. O soci&oacute;logo Zigmunt Bauman (2006), ao se referir &agrave; Europa como uma aventureira que alcan&ccedil;ou seu poder no mundo inteiro, enfatizava que ao final do s&eacute;culo XX a sua miss&atilde;o conclu&iacute;da</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>mostrou ser a difus&atilde;o global do impulso compulsivo, obsessivo e vicioso de ordenar e reordenar (codinome: moderniza&ccedil;&atilde;o) e uma press&atilde;o irresist&iacute;vel a degradar e eliminar os modos antigos e atuais de viver e ganhar a vida, privando-os de seu valor em termos de sobreviv&ecirc;ncia e de sua capacidade de real&ccedil;ar a exist&ecirc;ncia (codinome: progresso econ&ocirc;mico). (Bauman, 2006, p. 21)         <p></p> </blockquote>     <p>Nesse sentido para Bauman (2006), em contraste com a moderniza&ccedil;&atilde;o europeia, h&aacute; os &ldquo;retardat&aacute;rios da modernidade&rdquo;, que passaram a produzir excedente populacional e, consequentemente, refugiados, como &ldquo;consequ&ecirc;ncia imprevista (&hellip;) do sucesso mundial da miss&atilde;o europeia&rdquo;:</p>     <p>     <blockquote>centenas de milhares de pessoas s&atilde;o expulsas de seus lares, assassinadas ou for&ccedil;adas a fugir de seus pa&iacute;ses destru&iacute;dos e devastados. Talvez a ind&uacute;stria mais florescente nas terras dos retardat&aacute;rios (tortuosa e fraudulentamente apelidadas de &ldquo;pa&iacute;ses em desenvolvimento&rdquo;) seja a produ&ccedil;&atilde;o em massa de refugiados. (Bauman, 2006, pp. 23-24)         <p></p> </blockquote>     <p>A estratifica&ccedil;&atilde;o, a partir de denominadores que tentam atribuir ao outro um lugar fixo e com isso estabelecer suas diferen&ccedil;as e seus est&aacute;gios dentro desse tempo inventado, &eacute; uma caracter&iacute;stica da colonialidade, que &ldquo;d&aacute; conta de um dos elementos fundantes do atual padr&atilde;o de poder, a classifica&ccedil;&atilde;o social b&aacute;sica e universal da popula&ccedil;&atilde;o do planeta em torno da ideia de &lsquo;ra&ccedil;a&rsquo;&rdquo; (Quijano, 2002, p. 4). Em outras palavras, &ldquo;a colonialidade do poder &eacute; o eixo que organiza e continua organizando a diferen&ccedil;a colonial&rdquo; (Mignolo, 2005, p. 36), e que a transforma &ldquo;em valores e hierarquias: raciais e patriarcais, por um lado, e geopol&iacute;ticas, por outro&rdquo;, como ressalta Mignolo (citado em Gallas, 2013)<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>.</p>     <p>Nesse sentido, as barreiras nas fronteiras aos migrantes e refugiados s&atilde;o ferramentas da colonialidade do poder e da diferen&ccedil;a colonial, pois elas existem para separar, o que no fim das contas serve para delinear as diferen&ccedil;as de quem est&aacute; do outro lado. Pensando com Grosfoguel (2007) quando se refere &agrave;s divis&otilde;es da for&ccedil;a de trabalho internacional no sistema-mundo capitalista<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>, nos atrai refletir que a expans&atilde;o da estrutura desse sistema se dava atrav&eacute;s de uma hierarquia ancorada tamb&eacute;m no racismo, seja biol&oacute;gico, que enquanto discurso foi sustentado entre os s&eacute;culos XV e XIX, ou cultural. Para o autor, ap&oacute;s a Segunda Guerra Mundial houve uma mudan&ccedil;a na forma&ccedil;&atilde;o global racial/colonial em que o discurso de uma inferioridade gen&eacute;tica do &ldquo;outro&rdquo; entra em crise na Europa e &eacute; substitu&iacute;do pelo discurso do racismo cultural. Esse &ldquo;outro&rdquo; passa a ser identificado a partir de categorias que dizem menos sobre caracter&iacute;sticas gen&eacute;ticas e mais sobre sua origem &eacute;tnica. O racismo cultural se torna parte da nova geocultura do sistema-mundo capitalista e passa a gravitar sobre sujeitos outrora colonizados. Grosfoguel (2007, p. 11) diz que a ideia de racismo cultural assume que a cultura metropolitana &eacute; diferente da cultura das minorias &eacute;tnicas, entendendo estas diferen&ccedil;as de maneira absoluta e essencialista. O autor ainda acrescenta que o racismo cultural se articula sempre em rela&ccedil;&atilde;o aos discursos de pobreza, de oportunidades nos mercados de trabalho e de marginaliza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Os corpos desses migrantes que est&atilde;o atrelados &agrave;s estruturas desse sistema-mundo capitalista e que permanecem colonizados devido &agrave; sua localiza&ccedil;&atilde;o subordinada ao mercado de trabalho metropolitano e sua continuada representa&ccedil;&atilde;o estereotipada no imagin&aacute;rio euro/americano, como afirma Grosfoguel (2007, p. 13), s&atilde;o os mesmos corpos dos migrantes for&ccedil;ados e refugiados que compartilham esse esteio do racismo cultural e da concep&ccedil;&atilde;o linear de um tempo inventado pela modernidade. Desta forma, ao pensarmos sobre a migra&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada e a busca por ref&uacute;gio, encontramos um aprofundamento das assimetrias nas rela&ccedil;&otilde;es de poder em que a diferen&ccedil;a colonial, a colonialidade do poder e o racismo cultural s&atilde;o evidenciados atrav&eacute;s dos r&iacute;gidos controles fronteiri&ccedil;os e do que Mbembe (2018) denomina de sociedade do enclausuramento.</p>     <p>Mbembe (2018, p. 53) pontua que estamos vivenciando uma sociedade onde &ldquo;o Estado securit&aacute;rio concebe a identidade e o movimento dos indiv&iacute;duos (inclusive seus cidad&atilde;os) como fontes de perigo e de risco&rdquo;, e no contexto anti-imigrat&oacute;rio na Europa, como ainda afirma, &ldquo;categorias inteiras da popula&ccedil;&atilde;o s&atilde;o indexadas, depois submetidas a diversas formas de designa&ccedil;&atilde;o racial, que fazem do migrante (legal ou ilegal) a figura de uma categoria essencial da diferen&ccedil;a&rdquo;, que para Mbembe pode ser entendida como &ldquo;cultural ou religiosa, al&eacute;m de lingu&iacute;stica, e se pressup&otilde;e que esteja inscrita no pr&oacute;prio corpo do sujeito migrante, onde se d&aacute; a ver nos planos som&aacute;ticos e at&eacute; mesmo gen&eacute;tico&rdquo;.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ainda pensando com Mbembe (2018, p. 54), essas configura&ccedil;&otilde;es e categoriza&ccedil;&otilde;es s&atilde;o o reflexo de um mundo contempor&acirc;neo &ldquo;modelado e condicionado profundamente por essa forma ancestral da vida cultural, jur&iacute;dica e pol&iacute;tica que s&atilde;o a clausura, o cerceamento, o muro, o campo, o cerco e, no fim das contas, a fronteira&rdquo;. Voltemos a citar Bauman (2006) que diz que esse tipo de controle &eacute; um modelo centr&iacute;peto pouco experimentado pela Europa, mas que condiz com uma postura que busca evitar uma migra&ccedil;&atilde;o em massa dos &ldquo;retardat&aacute;rios da modernidade&rdquo;:</p>     <p>     <blockquote>por enquanto, a Europa e seus filhotes/postos avan&ccedil;ados (como os Estados Unidos ou a Austr&aacute;lia) parecem buscar a resposta de problemas estranhos em pol&iacute;ticas igualmente estranhas, dificilmente praticadas na hist&oacute;ria europeia. Pol&iacute;ticas voltadas para dentro, e n&atilde;o para fora, centr&iacute;petas e n&atilde;o centr&iacute;fugas, implosivas em vez de explosivas &ndash; tais como entrincheirar-se, fechar-se, construir cercas equipadas com uma rede de m&aacute;quinas de raios x e c&acirc;meras de TV de circuito fechado, colocar mais agentes dentro das cabines de migra&ccedil;&atilde;o e mais guardas de fronteira fora delas, tornar mais restritivas as leis de imigra&ccedil;&atilde;o e naturaliza&ccedil;&atilde;o, manter os refugiados em campos isolados e estritamente guardados e impedir a chegada de outros antes que eles tenham a chance de reivindicar o status de refugiado ou pessoa em busca de asilo &ndash; em suma, lacrar os seus dom&iacute;nios contra as multid&otilde;es que lhes batem &agrave;s portas enquanto fazem muito pouco, se &eacute; que alguma coisa, para aliviar essa press&atilde;o eliminando as suas causas. (Bauman, 2006, pp. 24-25)         <p></p> </blockquote>     <p>Contra esse modelo, as migra&ccedil;&otilde;es servem como resist&ecirc;ncia aos atavismos que insistem em permanecer e produzir um corpo que s&oacute; se torna mais vis&iacute;vel e poss&iacute;vel de uma exist&ecirc;ncia que cause desconforto quando se est&aacute; diante de quem o inventou como indesejado, de quem atribuiu a esse corpo ser pass&iacute;vel de controle, exclus&atilde;o, expuls&atilde;o ou erradica&ccedil;&atilde;o. Esse corpo, do migrante ou do refugiado, que agora incomoda, alude &agrave;quele outro que Hannah Arendt (2016, p. 293) identificou em 1940, em uma Europa j&aacute; corro&iacute;da pela guerra, quando apontou que as minorias, como os judeus, se tornaram p&aacute;rias aos Estados-na&ccedil;&atilde;o e que o processo de integra&ccedil;&atilde;o na Europa e reorganiza&ccedil;&atilde;o dos povos, fruto ainda da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, havia chegado ao fim: &ldquo;ningu&eacute;m mais pode ser inclu&iacute;do. De fato, agora temos o processo revertido: a soma de grandes massas de pessoas e seu rebaixamento a p&aacute;rias&rdquo;.</p>     <p>&Eacute; poss&iacute;vel redesenhar esse quadro dentro do mesmo sistema em que os la&ccedil;os culturais, de identidade e ainda de Estado-na&ccedil;&atilde;o se apresentam como vetores que ordenam as integra&ccedil;&otilde;es e tr&acirc;nsito das pessoas. Assim, estendemos o pensamento de Arendt &agrave; crise migrat&oacute;ria, onde seus sujeitos representam atualmente tais p&aacute;rias &agrave; Europa. Essa distin&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se irrompe, obviamente, devido ao atual fluxo migrat&oacute;rio, mas ela &eacute; real&ccedil;ada e atualizada dentro de rela&ccedil;&otilde;es erguidas e consolidadas historicamente. O encontro disjuntivo entre migrantes que foram for&ccedil;ados a abandonar seus lares e os pa&iacute;ses que poderiam receb&ecirc;-los sintomatiza as rela&ccedil;&otilde;es que se deram com a coloniza&ccedil;&atilde;o e descoloniza&ccedil;&atilde;o dos pa&iacute;ses da &Aacute;frica e do Oriente M&eacute;dio quando submetidos &agrave; pol&iacute;tica europeia de explora&ccedil;&atilde;o desses territ&oacute;rios e de sua gente.</p>     <p>O impedimento de entrada no continente europeu ou pol&iacute;ticas que ensejam o controle de migrantes desde sua partida ainda em seus pa&iacute;ses de origem se apresentam como a evoca&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria colonizadora da Europa, particularmente, e &eacute; ela que acende o debate sobre a chamada crise migrat&oacute;ria, pois, a travessia pelo Mediterr&acirc;neo traz esse influxo de pessoas que carregam consigo os corpos negros e &aacute;rabes e seus territ&oacute;rios outrora marcados pela pilhagem colonial. O mar Mediterr&acirc;neo e as fronteiras v&atilde;o se tornando lugares de mem&oacute;ria (Nora, 1993) em seu sentido simb&oacute;lico e material ao ser travessia, rememora&ccedil;&atilde;o e cemit&eacute;rio.</p>     <p>Tomando ainda emprestada a ideia de lugares de mem&oacute;ria de Nora (1993, p. 12) quando diz que esses lugares &ldquo;s&atilde;o, antes de tudo, restos&rdquo;, alargamos esse entendimento para dizer que &eacute; dos restos produzidos em tempos de coloniza&ccedil;&atilde;o que erigem o influxo migrat&oacute;rio. Homi Bhabha (1998, p. 26) apontava para essa quest&atilde;o quando disse que &ldquo;a metr&oacute;pole ocidental deve confrontar sua hist&oacute;ria p&oacute;s-colonial, contada pelo influxo de migrantes e refugiados do p&oacute;s-guerra, como uma narrativa ind&iacute;gena ou nativa <i>interna &agrave; sua identidade Nacional</i>&rdquo;. Em outras palavras, podemos dizer que migrantes e refugiados s&atilde;o partes constituintes da Europa. A heran&ccedil;a de sua pilhagem e colonialismo sobre os territ&oacute;rios volta agora abrigada nos corpos dos que se lan&ccedil;am no Mediterr&acirc;neo ou nas fronteiras entre Turquia e Gr&eacute;cia.</p>     <p>Nesse sentido, a origem cultural/racial de quem se desloca tem se refletido no tratamento dispensado nas fronteiras europeias a essa popula&ccedil;&atilde;o que busca ref&uacute;gio. A diferen&ccedil;a colonial e a colonialidade de poder continuam ordenando e justificando o cerceamento ao deslocamento desses migrantes. Assim, esta crise migrat&oacute;ria joga luz &agrave; sombra dessas rela&ccedil;&otilde;es que se forjaram de forma violenta nos &uacute;ltimos quatro s&eacute;culos.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Acontecimento e a ruptura da ordem</b></p>     <p>O enclausuramento apontado por Mbembe (2018) &eacute; corroborado por Rog&eacute;rio Haesbaert (2009) quando reflete sobre a sociedade de controle que se vive atrav&eacute;s das conten&ccedil;&otilde;es territoriais, principalmente, aos migrantes. Nesse sentido, os Estados exercem o poder de controlar com seus aparatos os movimentos migrat&oacute;rios em nome da seguran&ccedil;a ou da xenofobia<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>. Nessa mesma dire&ccedil;&atilde;o, as narrativas midi&aacute;ticas exercem um papel fundamental para este debate, pois &eacute; atrav&eacute;s delas que estes conflitos emergem a seu p&uacute;blico e s&atilde;o desvelados. No entanto, assim como &eacute; necess&aacute;rio problematizar as rela&ccedil;&otilde;es de poder que contribuem para as pol&iacute;ticas anti-imigrat&oacute;rias, &eacute; preciso tamb&eacute;m analisar o papel dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, em especial o do jornalismo, dentro das assimetrias de poder e de representa&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>Seguimos o pensamento de Mayra Gomes (2009) que identifica o jornalismo como um dispositivo de controle disciplinar onde a visibilidade dos acontecimentos &eacute; tra&ccedil;ada a partir de um olhar que tenta disciplinar um outro olhar, estabelecendo nesse &iacute;nterim graus de import&acirc;ncia a serem dados aos eventos que criam desordem. Dessa forma, ao mesmo tempo em que se d&aacute; visibilidade se vigia.</p>     <p>     <blockquote>Antes de qualquer sele&ccedil;&atilde;o dada, perguntamo-nos sobre o que &eacute; importante e para quem o &eacute;. A import&acirc;ncia, assim como implica escolha, ou a escolha segundo <i>o dado a ver </i>de uma &eacute;poca e lugar, serve de baliza para o que &eacute; apontado como a verdade do que &eacute; posto em visibilidade. Sendo a import&acirc;ncia n&atilde;o o fato em si, mas sua implica&ccedil;&atilde;o na rede institucionalizada, qualquer investiga&ccedil;&atilde;o, qualquer vigil&acirc;ncia, faz o desenho do espa&ccedil;o a ser vivenciado procurando lei e ordem e, dessa forma, disciplinando naquilo que ela procura. (Gomes, 2009, p. 2)         <p></p> </blockquote>     <p>Para a autora, o jornalismo &ldquo;aponta os temas a serem privilegiados, em outras palavras, os temas a que seu p&uacute;blico deve dar aten&ccedil;&atilde;o. Seus relatos anunciam, implicitamente, aquilo que &eacute; importante para a vida dos leitores&rdquo; (Gomes, 2009, p. 2). Nesse sentido, &eacute; importante salientar que a tem&aacute;tica do ref&uacute;gio se torna mais frequente no notici&aacute;rio quando ela aporta &agrave; Europa com maior intensidade em 2015<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>. Naquele ano, cerca de quatro mil pessoas morreram ou desapareceram no mar Mediterr&acirc;neo (ACNUR, 2016)<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>. As mortes e o fluxo de embarca&ccedil;&otilde;es e milhares de pessoas em dire&ccedil;&atilde;o ao continente levaram a Uni&atilde;o Europeia a adotar medidas, como a distribui&ccedil;&atilde;o de migrantes e refugiados a outros pa&iacute;ses do bloco, para al&eacute;m da It&aacute;lia e Gr&eacute;cia, assim como um maior controle nas suas fronteiras. Nessa esteira, acendeu o debate sobre ajuda humanit&aacute;ria e seguran&ccedil;a (Georgiou &amp; Zaborowski, 2017).</p>     <p>A crise humanit&aacute;ria que se alojava em pa&iacute;ses em desenvolvimento havia, enfim, chegado &agrave; Europa e ao notici&aacute;rio internacional. Em 2015, pouco mais de um milh&atilde;o de pessoas em condi&ccedil;&otilde;es de ref&uacute;gio passaram pelas fronteiras do continente. No entanto, em compara&ccedil;&atilde;o com outros territ&oacute;rios, somente na Turquia eram 2,5 milh&otilde;es de refugiados. Na Alemanha, pa&iacute;s com mais pedido de ref&uacute;gio dentro da Europa, constavam 316 mil refugiados e mais 420 mil pessoas com pedido em an&aacute;lise (ACNUR, 2016). Antes, em 2013, quando a curva dos dados sobre os deslocamentos de maneira for&ccedil;ada no mundo come&ccedil;ava a se tornar ascendente, saltando de 45,2 (em 2012) para 51,2 milh&otilde;es (em 2013), somente no Paquist&atilde;o havia um milh&atilde;o e seiscentas mil pessoas na condi&ccedil;&atilde;o de refugiadas, um pouco mais do total que entrou na Europa em 2015 e quase o total do que havia em toda Europa em 2013 (1,7 milh&atilde;o) (ACNUR, 2013, 2014). Em 2014, tr&ecirc;s pa&iacute;ses estavam na lista dos que tinham mais de um milh&atilde;o de refugiados em seus territ&oacute;rios: Turquia (1.587.374), Paquist&atilde;o (1.505.525) e L&iacute;bano (1.154.040) (ACNUR, 2015). Sobre o L&iacute;bano h&aacute; um registro importante: a cada 1.000 pessoas, 183 eram refugiadas em 2015. Naquele ano, como compara&ccedil;&atilde;o, a cada 1.000 pessoas na Jord&acirc;nia, 87 eram refugiadas, na Turquia, a cada 1.000 pessoas 32 eram refugiadas, e na Su&eacute;cia, nono pa&iacute;s entre os 10 pa&iacute;ses que mais recebiam refugiados proporcionalmente &agrave; sua popula&ccedil;&atilde;o, e &uacute;nico pa&iacute;s europeu a figurar entre os 10 nesse crit&eacute;rio, a cada 1.000 pessoas, 17 eram refugiadas. Al&eacute;m disso, em 2015, os pa&iacute;ses em desenvolvimento acolheram 86% do total de refugiados no mundo (ACNUR, 2016).</p>     <p>Esses dados nos encaminham para problematizar o momento em que a &ldquo;crise de refugiados&rdquo; ou &ldquo;crise migrat&oacute;ria&rdquo; se torna um acontecimento para o jornalismo, deixando de estar situada apenas na invisibilidade da &Aacute;frica e de alguns pa&iacute;ses da &Aacute;sia e Oriente M&eacute;dio que t&ecirc;m vivenciado h&aacute; alguns anos o deslocamento for&ccedil;ado, tanto como pa&iacute;ses que produzem refugiados quanto como pa&iacute;ses que recebem. O acontecimento na acep&ccedil;&atilde;o que propomos &eacute; o de um fen&ocirc;meno percebido e a ser interpretado e configurado em significa&ccedil;&otilde;es para que outros o reinterpretem. Nesse sentido, o acontecimento &eacute; a configura&ccedil;&atilde;o da desordem em ordem, &eacute; a aplica&ccedil;&atilde;o de uma vis&atilde;o que produz sentido aos fen&ocirc;menos. Charaudeau (2006, p. 100) diz que o processo <i>evenemencial</i>, ou de interpreta&ccedil;&atilde;o, se d&aacute; atrav&eacute;s da modifica&ccedil;&atilde;o, percep&ccedil;&atilde;o e significa&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos, ao passo que a primeira condi&ccedil;&atilde;o &eacute; a de que &ldquo;alguma coisa cause uma ruptura na ordem estabelecida e provoque um desequil&iacute;brio nos sistemas que fundam essa ordem&rdquo;. Seguindo este mesmo racioc&iacute;nio, Muniz Sodr&eacute; (2012) diz que o acontecimento, quando relacionado com a informa&ccedil;&atilde;o midi&aacute;tica, o que nos interessa nesse trabalho,</p>     <p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>&eacute; uma modalidade clara e vis&iacute;vel de tratamento do fato, portanto, &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o ou uma produ&ccedil;&atilde;o do real, atravessada pelas representa&ccedil;&otilde;es da vicissitude da vida social, o que equivale a dizer tanto pela fragmenta&ccedil;&atilde;o &agrave;s vezes paradoxal das ocorr&ecirc;ncias quanto pelos conflitos em torno da hegemonia das representa&ccedil;&otilde;es. (Sodr&eacute;, 2012, pp. 36-37)         <p></p> </blockquote>     <p>As centenas de embarca&ccedil;&otilde;es que partiam do norte da &Aacute;frica para atravessar o mar Mediterr&acirc;neo e chegar &agrave; Europa ou os migrantes e refugiados que seguiam da Turquia para a Gr&eacute;cia causaram essa ruptura na ordem estabelecida europeia e, por extens&atilde;o, no campo midi&aacute;tico. Nessa esteira, ao ordenar o acontecimento, o jornalismo se utiliza de seus filtros para represent&aacute;-los, o que sugere um olhar inerente &agrave;s suas constru&ccedil;&otilde;es s&oacute;cio-hist&oacute;ricas. Assim, a narrativa jornal&iacute;stica est&aacute; imbu&iacute;da de paradoxo ao organizar o caos ao mesmo tempo em que em sua representa&ccedil;&atilde;o h&aacute; faltas (Resende, 2017).</p>     <p>     <blockquote>Como uma inst&acirc;ncia de enuncia&ccedil;&atilde;o na qual se deflagram lutas e rela&ccedil;&otilde;es de poder, o jornalismo &eacute; aqui entendido como uma pr&aacute;tica cultural-discursiva, sujeita a altera&ccedil;&otilde;es no tempo/espa&ccedil;o em que acontece. O que nele h&aacute; de fixo s&atilde;o suas regras discursivas, estrat&eacute;gias e t&eacute;cnicas que visam a referencialidade do fato que narra. Sob a perspectiva da narrativa, por&eacute;m, o que se instala &eacute; um paradoxo: a organiza&ccedil;&atilde;o do caos cotidiano &ndash; a tarefa que &eacute; premente ao exerc&iacute;cio do jornalismo &ndash; n&atilde;o &eacute; garantia de uma representa&ccedil;&atilde;o fidedigna. (Resende, 2017, p. 107)         <p></p> </blockquote>     <p>Dessa forma, intu&iacute;mos que a chamada crise migrat&oacute;ria ou de refugiados, que abarca o mundo todo e se espraia em m&uacute;ltiplos fluxos, s&oacute; se caracteriza como pot&ecirc;ncia para a desordem e passa a &ldquo;existir&rdquo;, aos olhos de quem a reporta, ao considerarmos de onde ela parte e para onde ela vai. &Eacute; nesse paradoxo de organizar e representar com faltas que a narrativa jornal&iacute;stica se inscreve tamb&eacute;m como mecanismo de disciplina e construtor de tempos e da &ldquo;exist&ecirc;ncia&rdquo;.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A palavra como ordena&ccedil;&atilde;o e coloniza&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>&Eacute; importante salientar que as palavras, ferramenta de trabalho do jornalista, s&atilde;o signos ideol&oacute;gicos (Bakhtin, 2010) e ao produzirem sentido se expandem. Assim, h&aacute; palavras que se instituem como dispositivos que a partir de sua repeti&ccedil;&atilde;o e reitera&ccedil;&atilde;o s&atilde;o lan&ccedil;adas para respaldar pensamentos que se acumulam sobre outros escombros, tornando-se palavras de ordem, como bem diz Mayra Gomes:&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <blockquote>primeiramente, o conte&uacute;do j&aacute; dito s&oacute; pode instalar-se e fixar-se via repeti&ccedil;&atilde;o, via comunicado que reitera alguns sentidos. Por outro lado, a repeti&ccedil;&atilde;o, ou a redund&acirc;ncia como frequ&ecirc;ncia, trabalha inerte na cristaliza&ccedil;&atilde;o desses conte&uacute;dos por ela mesma colocados. Desse modo a comunica&ccedil;&atilde;o e os comunicados t&ecirc;m que funcionar de duas maneiras: uma que se distende, se desloca, e outra que se redobra sobre si mesma; uma que inaugura, outra que eterniza. A que inaugura n&atilde;o pode ser trabalhada do nada, ela &eacute; sempre, e ainda, redund&acirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o aos escombros que lhe fazem fundo. Funciona como uma constru&ccedil;&atilde;o sobre ru&iacute;nas. A que cristaliza, a que refunda o campo &eacute; propriamente o que entendemos por palavra de ordem. (Gomes, 2004, pp. 85-86)         <p></p> </blockquote>     <p>Destarte, h&aacute; um car&aacute;ter disciplinador que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o exercem ao nos apresentar palavras de ordem (Gomes, 2004, 2009, 2018) que nos ajudam a organizar o mundo ao mesmo tempo em que as palavras utilizadas, em sua repeti&ccedil;&atilde;o, nos mant&ecirc;m atrelados aos paradigmas e constru&ccedil;&otilde;es dif&iacute;ceis de serem rompidas. Se apoiando em Deleuze e Foucault no que diz respeito &agrave;s palavras de ordem e dispositivos disciplinares, respectivamente, Gomes (2018) aponta que estes s&atilde;o dois caminhos que se correlacionam atrav&eacute;s da linguagem como suporte para a produ&ccedil;&atilde;o de discursos, como tamb&eacute;m para a internaliza&ccedil;&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o de um ordenamento do cotidiano.</p>     <p>Ainda pensando com Gomes (2018, pp. 41-42), a autora nos alerta para que seja necess&aacute;rio prestarmos aten&ccedil;&atilde;o &agrave; reincid&ecirc;ncia com certas palavras que s&atilde;o propagadas frequentemente pela m&iacute;dia &ldquo;pelo prisma de <i>dispositivo disciplinar</i>, da palavra dada como ordena&ccedil;&atilde;o&rdquo; e que dever&iacute;amos &ldquo;examin&aacute;-las n&atilde;o como esterilidade da repeti&ccedil;&atilde;o, da realidade vivida como esgotamento. Dever&iacute;amos tomar o caminho inverso: as palavras como circunscri&ccedil;&atilde;o de campo, defini&ccedil;&atilde;o e ordena&ccedil;&atilde;o numa abordagem espec&iacute;fica que &eacute; constru&ccedil;&atilde;o da realidade e que, uma vez educativa, pede reitera&ccedil;&atilde;o&rdquo;. A palavra como signo ideol&oacute;gico contribui para criar um ciclo de realidade que se apresenta moldada. Continuemos com Gomes quando ressalta</p>     <p>     <blockquote>que uma palavra n&atilde;o seja simples representa&ccedil;&atilde;o do real, ou mero instrumento para pensar, tanto lingu&iacute;stica quanto semi&oacute;tica encarregaram-se de demonstr&aacute;-lo, propondo-nos a no&ccedil;&atilde;o de apresenta&ccedil;&atilde;o do real e de um pensar que se modela pelas palavras. Somos ent&atilde;o confrontados com a opera&ccedil;&atilde;o de demarca&ccedil;&atilde;o que as palavras operam, recorte a partir do qual um segmento se abre a constru&ccedil;&otilde;es imagin&aacute;rias, a produ&ccedil;&otilde;es sociais, mecanismo de produ&ccedil;&atilde;o, sobretudo &agrave; possibilidade de disciplina e controle. (Gomes, 2018, p. 42)         <p></p> </blockquote>     <p>Com o entendimento de uma realidade produzida pela palavra, afirmamos que a repeti&ccedil;&atilde;o al&eacute;m de acumular resqu&iacute;cios, tamb&eacute;m insinua o que est&aacute; por vir, coloniza o futuro (Giddens, 2002; Gomes, 2004) numa tentativa de prevenir a desordem e os riscos. Repetir e colonizar se sustentam no deslizar das palavras e s&atilde;o ferramentas de domina&ccedil;&atilde;o. Em duas perspectivas que se assemelham, a coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro &eacute; definida por Gomes (2004), por um lado, como um ato de fala em que se associa, atrav&eacute;s da repeti&ccedil;&atilde;o e fixa&ccedil;&atilde;o, a proje&ccedil;&atilde;o de futuro que pode realizar-se ou n&atilde;o em a&ccedil;&otilde;es que se espera. Por outro lado, Giddens (2002) diz que para se prevenir de riscos, a sociedade toma medidas que se salvaguardam das amea&ccedil;as iminentes.</p>     <p>Pensando nessas perspectivas, as palavras lan&ccedil;adas controlam, disciplinam e buscam prevenir a desordem. Assim, acrescentamos que a coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro indica tamb&eacute;m um aprisionamento de uma temporalidade que se constituiu ainda no passado e que seus escombros continuam regendo o futuro. Esta temporalidade est&aacute; intrinsecamente vinculada ao tempo humano, criado pela linguagem, pela narrativa (Ricoeur, 1994). Ancoramo-nos novamente em Mignolo (2011) para quem o in&iacute;cio da modernidade marca uma coloniza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; do espa&ccedil;o, mas tamb&eacute;m do tempo, ao se narrar e construir o passado a partir de uma linearidade temporal que dicotomiza o que &eacute; moderno e o que n&atilde;o &eacute;. Para Mignolo (2011, p. 160), enquanto a modernidade foi estabelecida a partir da inven&ccedil;&atilde;o de outros tempos, como Idade M&eacute;dia e Antiguidade, deu-se a coloniza&ccedil;&atilde;o do tempo em que sua concep&ccedil;&atilde;o significa que as diferen&ccedil;as culturais passaram a ser classificadas de acordo com sua proximidade com a modernidade.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ao transportarmos a palavra colonizar, male&aacute;vel e sem a conota&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&atilde;o sobre o solo, sobre a terra (Bosi, 2014), para que a leitura de seu signo indique a&ccedil;&atilde;o que se desenrola no tempo atrav&eacute;s da narrativa que se expande, queremos incorpor&aacute;-la &agrave;s pr&aacute;ticas jornal&iacute;sticas ao compreendermos que suas narrativas quando eivadas de repeti&ccedil;&atilde;o e reitera&ccedil;&atilde;o produzem efeitos para al&eacute;m do presente. Neste caso, ao contr&aacute;rio de uma coloniza&ccedil;&atilde;o somente do tempo passado, seus efeitos s&atilde;o projetados para dominar um futuro pr&oacute;ximo. Narrar os acontecimentos do presente &eacute; tamb&eacute;m inscrever e projetar seus poss&iacute;veis efeitos que podem causar interfer&ecirc;ncia em uma ordem estabelecida.</p>     <p>Anthony Giddens (2002, p. 117) ao tratar, como o autor denomina, da consci&ecirc;ncia de &ldquo;riscos de alta consequ&ecirc;ncia&rdquo; modernos, a partir da coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro, nos conduz para a produ&ccedil;&atilde;o permanente da realidade onde &eacute; sempre preciso domar o presente para prever riscos de alguma natureza. Giddens (2002, p. 117) afirma que o &ldquo;risco se refere a acontecimentos futuros &ndash; ligados &agrave;s pr&aacute;ticas presentes &ndash; e portanto a coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro abre novas situa&ccedil;&otilde;es de risco, algumas das quais institucionalmente organizadas&rdquo; e que os riscos de alta consequ&ecirc;ncia &ldquo;constituem um segmento do generalizado &lsquo;clima de risco&rsquo; caracter&iacute;stico da modernidade tardia &ndash; que se caracteriza por mudan&ccedil;as regulares nas reivindica&ccedil;&otilde;es ao saber mediadas pelos sistemas especializados&rdquo;.</p>     <p>Ao direcionarmos o pensamento de Giddens para a crise migrat&oacute;ria, o fechamento das fronteiras como estrat&eacute;gia para frear a entrada de migrantes &eacute; a imposi&ccedil;&atilde;o de uma narrativa que resvala na imprensa e que pretende evitar os &ldquo;riscos de alta consequ&ecirc;ncia&rdquo;. &Eacute; a produ&ccedil;&atilde;o de um &ldquo;medo oficial&rdquo; (Bauman, 2006) que sutilmente implica em um medo do &ldquo;outro&rdquo;, do terrorismo, da barb&aacute;rie. Em outras palavras, podemos entender o jornalismo como um mediador de um sistema especializado que nos aponta o que est&aacute; fora de ordem e que est&aacute; assentado em um esteio que reitera narrativas anteriores.</p>     <p>Algumas not&iacute;cias caminham nessa dire&ccedil;&atilde;o. No segundo semestre de 2015, dois acontecimentos e suas consequ&ecirc;ncias talvez estejam ligados ao aumento no n&uacute;mero de publica&ccedil;&otilde;es do jornal <i>Folha de S&atilde;o Paulo</i> sobre os refugiados na Europa. O primeiro diz respeito &agrave; morte da crian&ccedil;a S&iacute;ria Alan Kurdi, cujo corpo foi encontrado em uma praia da Turquia em 02 de setembro. O outro est&aacute; ligado aos atentados de Paris em 06 de novembro. Ambos acontecimentos ampliaram o debate sobre o acolhimento de refugiados na Europa. Enquanto no primeiro caso houve como&ccedil;&atilde;o ao ter uma crian&ccedil;a que morreu ao buscar ref&uacute;gio da guerra na S&iacute;ria, no outro houve debates acerca de quem eram os migrantes que buscavam ref&uacute;gio na Europa (Georgiou &amp; Zaborowski, 2017). No Brasil, entre setembro e dezembro, a <i>Folha de S&atilde;o Paulo</i> publicou em sua editoria Mundo 310 textos que continham a palavra &ldquo;refugiados&rdquo;, o que corresponde a mais de metade do que foi publicado durante todo o ano (527), embora nem todos esses textos fossem especificamente sobre ref&uacute;gio na Europa.</p>     <p>Nesses quatro meses de publica&ccedil;&atilde;o, palavras como fronteiras e controle foram atreladas 26 vezes aos textos sobre refugiados. Nossa busca no portal de not&iacute;cias da <i>Folha de S&atilde;o Paulo</i> se deu atrav&eacute;s dessas tr&ecirc;s palavras-chave: &ldquo;refugiados&rdquo;, &ldquo;fronteira&rdquo; e &ldquo;controle&rdquo;. Dentro do que estamos pensando como coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro pela palavra, a mat&eacute;ria publicada em 04 de dezembro de 2015 e intitulada &ldquo;Refugiados e risco de ataques levam UE a rever controles de fronteira&rdquo;<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a> talvez seja emblem&aacute;tica para nos p&ocirc;r em contato com as outras mat&eacute;rias que a antecederam e que traziam uma proje&ccedil;&atilde;o sobre os poss&iacute;veis riscos. Aqui tanto se refor&ccedil;a os escombros do passado como coloniza o futuro.</p>     <p>Em seu t&iacute;tulo, &ldquo;refugiados&rdquo; e &ldquo;risco de ataques&rdquo; se apresentam como raz&otilde;es de controle fronteiri&ccedil;o. Embora tenham significados distintos, elas est&atilde;o indubitavelmente postas sob a acep&ccedil;&atilde;o de perigo. O texto que inicia a mat&eacute;ria segue nesta linha e contribui para disciplinar o nosso olhar sobre os refugiados e o terrorismo como esferas que gravitam muito pr&oacute;ximas uma da outra e que, por esta raz&atilde;o, a seguran&ccedil;a nas fronteiras &eacute; uma medida que pode arrefecer estas amea&ccedil;as.</p>     <p>     <blockquote>Em meio &agrave;s dificuldades de controlar o intenso fluxo de refugiados e migrantes e &agrave; amea&ccedil;a de terrorismo que paira sobre o continente desde os atentados em Paris, a Uni&atilde;o Europeia (UE) inicia um debate sobre o controle de suas fronteiras e o sistema de livre circula&ccedil;&atilde;o entre os pa&iacute;ses do bloco.         <p></p> </blockquote>     <p>Aqui j&aacute; h&aacute; uma reitera&ccedil;&atilde;o de outras publica&ccedil;&otilde;es, como estas: &ldquo;Rea&ccedil;&atilde;o a ataques amea&ccedil;a livre movimento de pessoas pela Europa&rdquo; (21 de novembro)<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>; &ldquo;Su&eacute;cia estabelece controle provis&oacute;rio de fronteiras para conter imigra&ccedil;&atilde;o&rdquo; (12 de novembro)<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>; &ldquo;Eslov&ecirc;nia come&ccedil;a a erguer cerca na fronteira para controlar fluxo&rdquo; (11 de novembro)<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>; &ldquo;Plano de cotas trava, e Europa cria barreiras &agrave; entrada de refugiados&rdquo; (14 de setembro)<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>; &ldquo;Hungria barra refugiados na v&eacute;spera de elevar pena para imigra&ccedil;&atilde;o ilegal&rdquo; (14 de setembro)<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a>; &ldquo;Alemanha decide restabelecer controle de fronteira ante onda de refugiados&rdquo; (13 de setembro)<sup><a href="#15">15</a></sup><a name="top15"></a>; &ldquo;Uni&atilde;o Europeia planeja fundo de 1,8 bilh&atilde;o para conter migra&ccedil;&otilde;es&rdquo; (08 de setembro)<sup><a href="#16">16</a></sup><a name="top16"></a>; &ldquo;Crise de refugiados p&otilde;e em xeque o espa&ccedil;o &uacute;nico europeu&rdquo; (02 de setembro)<sup><a href="#17">17</a></sup><a name="top17"></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nesse sentido, pensamos que as reitera&ccedil;&otilde;es discursivas sobre a necessidade de fechar fronteiras e controlar a entrada de imigrantes e refugiados s&atilde;o postas concomitantemente ao atrelar a estas popula&ccedil;&otilde;es os riscos que elas poderiam trazer &agrave; Europa. Esse debate &eacute; corroborado pela imprensa ao discutir estas perspectivas a partir de quem se sente amea&ccedil;ado e lan&ccedil;a a narrativa. Em continuidade &agrave; mat&eacute;ria &ldquo;Refugiados e risco de ataques levam UE a rever controles de fronteira&rdquo;<i>, </i>o texto segue enfatizando os riscos que est&atilde;o postos &agrave; livre circula&ccedil;&atilde;o na Europa, inclusive &agrave; pr&oacute;pria perda da mobilidade entre seus cidad&atilde;os.</p>     <p>     <blockquote>O princ&iacute;pio de livre circula&ccedil;&atilde;o de pessoas entre os pa&iacute;ses do bloco vem sendo posto em xeque com a crise de refugiados e migrantes, que chegam &agrave; Europa fugindo da pobreza e de conflitos armados.         <p></p>         <p>Nos &uacute;ltimos meses, diversos pa&iacute;ses restabeleceram o controle de suas fronteiras, e na&ccedil;&otilde;es como Hungria e a Eslov&ecirc;nia ergueram cercas sobre suas fronteiras para controlar o fluxo de pessoas.</p> </blockquote>     <p>A reitera&ccedil;&atilde;o dos sentidos constitui, a nosso ver, um efeito de poder que atinge n&atilde;o somente o corpo desses sujeitos j&aacute; afetados pelos conflitos dos quais fogem, mas sua alma, no conceito foucaultiano. O enfrentamento &agrave;s viagens que os aproximam da morte, &agrave; exaust&atilde;o e &agrave; luta pela vida poderia ser o supl&iacute;cio do corpo do migrante, o que representa em alguma maneira o exerc&iacute;cio de poder agindo sobre ele, como poderia ser tamb&eacute;m o supl&iacute;cio da sua alma ao ter-se inserido a ideia de que seu corpo &eacute; indesejado, que n&atilde;o &eacute; bem-vindo a algum territ&oacute;rio. Muitos migrantes partem para suas travessias com a incorpora&ccedil;&atilde;o desse saber que foi introduzido n&atilde;o somente quando se depara com as fronteiras, mas antes ainda quando se repercute que eles s&atilde;o a causa do caos. Nesse sentido, caminhamos com Foucault (2014) quando diz que</p>     <p>     <blockquote>n&atilde;o se deveria dizer que a alma &eacute; uma ilus&atilde;o, ou um efeito ideol&oacute;gico, mas afirmar que ela existe, que tem uma realidade, que &eacute; produzida permanentemente, em torno, na superf&iacute;cie, no interior do corpo pelo funcionamento de um poder que se exerce sobre os que s&atilde;o punidos &ndash; de uma maneira mais geral sobre os que s&atilde;o vigiados, treinados e corrigidos, sobre os loucos, as crian&ccedil;as, os escolares, os colonizados, sobre os que s&atilde;o fixados a um aparelho de produ&ccedil;&atilde;o e controlados durante toda a exist&ecirc;ncia (&hellip;). Realidade hist&oacute;rica dessa alma, que, diferentemente da alma representada pela teologia crist&atilde;, n&atilde;o nasce faltosa e merecedora de castigo, mas nasce antes de procedimentos de puni&ccedil;&atilde;o, de vigil&acirc;ncia, de castigo e de coa&ccedil;&atilde;o. Esta alma real e incorp&oacute;rea n&atilde;o &eacute; absolutamente subst&acirc;ncia; &eacute; o elemento onde se articulam os efeitos de um certo tipo de poder e a refer&ecirc;ncia de um saber, a engrenagem pela qual as rela&ccedil;&otilde;es de poder d&atilde;o lugar a um saber poss&iacute;vel, e o saber reconduz e refor&ccedil;a os efeitos de poder. (Foucault, 2014, pp. 32-33)         <p></p> </blockquote>     <p>A coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro &eacute; justamente manter as narrativas cristalizadas a um futuro pr&oacute;ximo, &eacute; fazer valer os efeitos de poder numa tentativa de dominar o tempo, o espa&ccedil;o e os corpos. Os dispositivos s&atilde;o tanto as fronteiras como as palavras, estas que ao narrar d&atilde;o visibilidade, mas tamb&eacute;m contribuem para a vigil&acirc;ncia que recai sobre o &ldquo;outro&rdquo;, sobre aquele que &eacute; dado como diferente. Acrescentamos um pensamento de Mignolo (2011, p. 161) que diz que a epistemologia e diferen&ccedil;a coloniais n&atilde;o terminaram com a descoloniza&ccedil;&atilde;o da &Aacute;sia e da &Aacute;frica ap&oacute;s a Segunda Guerra Mundial. A colonialidade continua a ser reproduzida no capitalismo global e a ideia de &ldquo;tempo&rdquo; continua a nutrir o imagin&aacute;rio que reproduz a diferen&ccedil;a colonial. O que pretendemos refletir sobre coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro pela palavra diz respeito a esta reitera&ccedil;&atilde;o de narrativas que resultam em uma atualiza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de poder que se engendraram em outro momento hist&oacute;rico, mas que s&atilde;o corroboradas, mantidas e com potencial de se prolongar.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Algumas considera&ccedil;&otilde;es</b></p>     <p>A Europa tem sido uma refer&ecirc;ncia para se pensar e debater a &ldquo;crise migrat&oacute;ria&rdquo; ou &ldquo;crise de refugiados&rdquo;, pois todo o controle que se apresenta &agrave;s popula&ccedil;&otilde;es que migram, especialmente as que buscam ref&uacute;gio, tem ganhado visibilidade nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o quando estas est&atilde;o diante de suas fronteiras. Assim, o jornalismo tem exercido o papel de nos trazer os acontecimentos que se desenrolam naqueles espa&ccedil;os fronteiri&ccedil;os. No entanto, neste trabalho propomos pensar que as narrativas que se forjam nessa esteira tamb&eacute;m trazem os resqu&iacute;cios de uma vis&atilde;o ainda colonial sobre os corpos que se lan&ccedil;am em busca de ref&uacute;gio. Isso se d&aacute; com a reitera&ccedil;&atilde;o e a repeti&ccedil;&atilde;o de palavras que p&otilde;em migrantes em vigil&acirc;ncia e como potenciais causadores de uma desordem em que esse &ldquo;outro&rdquo; &eacute; identificado como uma amea&ccedil;a e, portanto, n&atilde;o &eacute; bem-vindo.</p>     <p>Assim, esta reitera&ccedil;&atilde;o e repeti&ccedil;&atilde;o est&atilde;o ancoradas em um debate que emerge a partir dos resqu&iacute;cios e dos escombros acumulados com as rela&ccedil;&otilde;es de poder entre a Europa e os pa&iacute;ses que produzem refugiados atualmente. Elas s&atilde;o tamb&eacute;m um artif&iacute;cio de manter o tempo colonizado, especialmente o futuro, e o espa&ccedil;o ordenado. Um espa&ccedil;o do &ldquo;outro&rdquo; criado a partir de narrativas atravessadas por reminisc&ecirc;ncias colonialistas, narrativas que, ao (re)produzir geografias do poder, inventam espa&ccedil;os j&aacute; previamente configurados (Resende, 2014). Nesse sentido, pensamos que a partir das not&iacute;cias que d&atilde;o &ecirc;nfase a determinada produ&ccedil;&atilde;o de sentido, como estabelecer conson&acirc;ncia entre refugiados, migrantes, por um lado, e fechamento de fronteiras, medo, risco, por outro, constr&oacute;i-se atrav&eacute;s da narrativa um tempo futuro j&aacute; colonizado onde as diretrizes que regem as diferen&ccedil;as coloniais, apontadas por Mignolo, s&atilde;o desveladas.</p>     <p>O jornalismo, obviamente, n&atilde;o deve deixar de imiscuir-se sobre os controles fronteiri&ccedil;os, especialmente quando se trata de migrantes que buscam ref&uacute;gios e s&atilde;o impedidos de alcan&ccedil;ar o novo territ&oacute;rio. Contudo, nesse cen&aacute;rio fronteiri&ccedil;o, pens&aacute;-lo sob o aspecto de uma coloniza&ccedil;&atilde;o do futuro pelas palavras nos imp&otilde;e o desafio de entender que o jornalismo tamb&eacute;m &eacute; construtor de um tempo inventado narrativamente. E ao inventar esse tempo, o faz atrav&eacute;s de uma narrativa em que sua luz est&aacute; direcionada para um espelho do passado. O reflexo ilumina apenas uma parte do ambiente, apenas um dos lados da fronteira.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <p>ACNUR, Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados. (2013). <i>Global trends forced displacement 2012.</i> Retirado de <a href="https://www.unhcr.org/statistics/country/51bacb0f9/unhcr-global-trends-2012.html?query=global%20trends%202012" target="_blank">https://www.unhcr.org/statistics/country/51bacb0f9/unhcr-global-trends-2012.html?query=global%20trends%202012</a></p>     <p>ACNUR, Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados. (2014). <i>Global trends forced displacement 2013.</i> Retirado de <a href="https://www.unhcr.org/statistics/country/5399a14f9/unhcr-global-trends-2013.html?query=global%20trends%202013" target="_blank">https://www.unhcr.org/statistics/country/5399a14f9/unhcr-global-trends-2013.html?query=global%20trends%202013</a></p>     <p>ACNUR, Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados. (2015). <i>Global trends forced displacement 2014</i>. Retidado de <a href="https://www.unhcr.org/statistics/country/556725e69/unhcr-global-trends-2014.html?query=Global%20Trends%20Forced%20Displacement" target="_blank">https://www.unhcr.org/statistics/country/556725e69/unhcr-global-trends-2014.html?query=Global%20Trends%20Forced%20Displacement</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>ACNUR, Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados. (2016).<i> Global trends forced displacement 2015</i>. Retirado de <a href="https://www.unhcr.org/statistics/unhcrstats/576408cd7/unhcr-global-trends-2015.html" target="_blank">https://www.unhcr.org/statistics/unhcrstats/576408cd7/unhcr-global-trends-2015.html</a></p>     <p>ACNUR, Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados. (2019). <i>Global trends forced displacement 2018.</i> Retirado de <a href="https://www.unhcr.org/statistics/unhcrstats/5d08d7ee7/unhcr-global-trends-2018.html" target="_blank">https://www.unhcr.org/statistics/unhcrstats/5d08d7ee7/unhcr-global-trends-2018.html</a></p>     <p>Arendt, H. (2016). A quest&atilde;o da minoria. In J. Kohn &amp; R. H. Feldman (Eds.), <i>Escritos Judaicos</i> (pp. 289-299). Barueri, SP: Amarilys.</p>     <!-- ref --><p>Bakhtin, M. (2010). <i>Marxismo e Filosofia da Linguagem</i>. S&atilde;o Paulo: Hucitec.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023637&pid=S2183-3575202000020000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bauman, Z. (2006). <i>Europa: uma aventura inacabada</i>. Rio de Janeiro: Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023639&pid=S2183-3575202000020000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bhabha, H. K. (1998)<i>. O local da cultura</i>. Belo Horizonte: Editora UFMG.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023641&pid=S2183-3575202000020000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bosi, A. (2014). <i>Dial&eacute;tica da coloniza&ccedil;&atilde;o</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023643&pid=S2183-3575202000020000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Charaudeau, P. (2006). <i>Discursos da m&iacute;dia</i>. S&atilde;o Paulo: Contexto.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023645&pid=S2183-3575202000020000900006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Foucault, M. (2014). <i>Vigiar e punir: nascimento da pris&atilde;o</i>. Petr&oacute;polis, RJ: Vozes.</p>     <!-- ref --><p>Gallas, L. (2013, 04 de novembro). Decolonialidade como o caminho para a coopera&ccedil;&atilde;o. <i>Revista Instituto de Humanitas Unisinos On-line</i>. Retirado de <a href="http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&amp;view=%20article&amp;id=%205253&amp;secao" target="_blank">http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&amp;view=%20article&amp;id=%205253&amp;secao</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023648&pid=S2183-3575202000020000900008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Georgiou, M. &amp; Zaborowski, R. (2017). <i>Media coverage of the &ldquo;refugee crisis&rdquo;: a cross-European perspective</i>. (s.l.): Council of Europe Report.</p>     <!-- ref --><p>Giddens, A. (2002). <i>Modernidade e identidade</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023650&pid=S2183-3575202000020000900010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Gomes, M. R. (2004<i>). Jornalismo e filosofia da comunica&ccedil;&atilde;o</i>. S&atilde;o Paulo: Escrituras Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023652&pid=S2183-3575202000020000900011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Gomes, M. R. (2009). Jornalismo: poder disciplinar. <i>Revista Kair&oacute;s</i>, <i>6</i>, 1-6.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023654&pid=S2183-3575202000020000900012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Gomes, M. R. (2018). <i>Bordando o manto do mundo: pr&aacute;tica jornal&iacute;stica</i>, Volume 1. S&atilde;o Paulo: ECA-USP.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023656&pid=S2183-3575202000020000900013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Grosfoguel, R. (2007). <i>Migrantes coloniales caribe&ntilde;os en los centros metropolitanos del sistema-mundo. Los casos de Estados Unidos, Francia, los Pa&iacute;ses Bajos y el Reino Unido</i>. Barcelona: CIDOB edicions.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023658&pid=S2183-3575202000020000900014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Haesbaert, R. (2009). Dilemas de conceitos: espa&ccedil;o-territ&oacute;rio e conten&ccedil;&atilde;o territorial. In M. A. Saquet &amp; E. S. Sposito (Eds.), <i>Territ&oacute;rios e territorialidades: teorias, processos e conflitos</i> (pp. 95-120). S&atilde;o Paulo: Editora Express&atilde;o Popular.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023660&pid=S2183-3575202000020000900015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Mais de 20 mil migrantes morreram em travessias no Mediterr&acirc;neo desde 2014 (2020, 06 de mar&ccedil;o). <i>ONU News</i>. Retirado de <a href="https://news.un.org/pt/story/2020/03/1706451" target="_blank">https://news.un.org/pt/story/2020/03/1706451</a></p>     <!-- ref --><p>Mbembe, A. (2018). <i>Cr&iacute;tica da raz&atilde;o negra</i>. S&atilde;o Paulo: N-1 Edi&ccedil;&otilde;es.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023663&pid=S2183-3575202000020000900016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Mignolo, W. (2005). A colonialidade de cabo a rabo: o hemisf&eacute;rio ocidental no horizonte conceitual da modernidade. In E. Lander (Ed.), <i>A colonialidade do saber &ndash; eurocentrismo e ci&ecirc;ncias sociais &ndash; perspectivas latino-americanas</i> (pp. 35-54). Buenos Aires: CLACSO Livros.</p>     <!-- ref --><p>Mignolo, W. (2011). <i>The darker side of Western modernity: global futures, decolonial options</i>. EUA: Duke University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023666&pid=S2183-3575202000020000900018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Mignolo, W. (2017). Conolonialidade: o lado mais escuro da modernidade. <i>Revista Brasileira de Ci&ecirc;ncias Sociais</i>, <i>32</i>(94), e329402, 1-18.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023668&pid=S2183-3575202000020000900019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Moradores gregos queimam centro de acolhida para impedir que refugiados o utilizem (2020, 01 de mar&ccedil;o). <i>Folha de S&atilde;o Paulo</i>. Retirado de <a href="https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/moradores-gregos-queimam-centro-de-acolhimento-para-impedir-que-refugiados-o-utilizem.shtml" target="_blank">https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/moradores-gregos-queimam-centro-de-acolhimento-para-impedir-que-refugiados-o-utilizem.shtml</a></p>     <!-- ref --><p>Nora, P. (1993). Entre mem&oacute;ria e hist&oacute;ria: a problem&aacute;tica dos lugares. <i>Projeto Hist&oacute;ria</i>, <i>10</i>, 7-28.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023671&pid=S2183-3575202000020000900020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Quijano, A. (2002). Colonialidade, poder, globaliza&ccedil;&atilde;o e democracia. <i>Novos Rumos</i>, <i>17</i>(37), 4-28.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023673&pid=S2183-3575202000020000900021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Resende, F. (2014). The global South: conflicting narratives and the invention of geographies. <i>IBRAAZ - Contemporary Visual Culture in North Africa and the Middle East</i>. Retirado de <a href="https://www.ibraaz.org/essays/111/" target="_blank">https://www.ibraaz.org/essays/111/</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023675&pid=S2183-3575202000020000900022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Resende, F. (2017). Imprensa e conflito: narrativas de uma geografia violentada. In A. T. Peixinho &amp; B. Ara&uacute;jo (Eds.), <i>Narrativa e media: g&ecirc;nero, figuras e contextos</i> (1.&ordf; ed.) (pp. 105-136). Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2023676&pid=S2183-3575202000020000900023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Ricoeur, P. (1994). <i>Tempo e narrativa (tomo 1)</i>. Campinas, SP: Papirus.</p>     <p>Sodr&eacute;, M. (2012). <i>A narra&ccedil;&atilde;o do fato: notas para uma teoria do acontecimento</i>. Petr&oacute;polis, RJ: Vozes.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas biogr&aacute;ficas</b></p>     <p>Fernando Resende &eacute; professor do Departamento de Estudos Culturais e M&iacute;dia e do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal Fluminense. P&oacute;s-doutorado na School of Oriental and African Studies (SOAS), Universidade de Londres, Inglaterra, 2013. Doutor em Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o (Universidade de S&atilde;o Paulo), Mestre em Estudos Liter&aacute;rios (Universidade Federal de Minas Gerais). Coordenador do TRAVESSIA - Centro de Estudos e Pesquisas do Sul Global (Universidade Federal Fluminense). Professor Visitante na Universidade de Perpignan, Fran&ccedil;a (Erasmus/2014), Universidade T&uuml;bingen, Alemanha (DAAD/2015/2017), e Universidade Nacional Autonoma do M&eacute;xico, M&eacute;xico (UNAM/2016). &Eacute; pesquisador PQ/CNPq com &ecirc;nfase nos Estudos da Comunica&ccedil;&atilde;o, das narrativas de conflito e dos movimentos diasp&oacute;ricos, atuando principalmente nos seguintes temas: jornalismo, discurso, narrativas, cultura, comunica&ccedil;&atilde;o, alteridade, conflito, Sul Global, &Aacute;frica e Oriente M&eacute;dio.</p>     <p>ORCID: <a href="https://orcid.org/0000-0002-7878-4840" target="_blank">https://orcid.org/0000-0002-7878-4840</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Email: <a href="mailto:fernandoaresende1501@gmail.com">fernandoaresende1501@gmail.com</a></p>     <p>Morada: Departamento de Estudos Culturais e M&iacute;dia, Universidade Federal Fluminense, Niter&oacute;i/Rio de Janeiro, Brasil</p>     <p>F&aacute;bio Ferreira Agra &eacute; doutorando em Comunica&ccedil;&atilde;o pela Universidade Federal Fluminense (UFF); mestre em Letras: Cultura, Educa&ccedil;&atilde;o e Linguagens (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB) e graduado em Comunica&ccedil;&atilde;o Social/Jornalismo (UESB). Como doutorando, fez parte do projeto &ldquo;Future under Constructions&rdquo; na Universidade de T&uuml;bingen (Alemanha, 2018/2020). Membro do Travessia &ndash; Centro de Estudos e Pesquisas do Sul Global. Tem realizado pesquisas sobre jornalismo, narrativas, fronteiras, migra&ccedil;&atilde;o e ref&uacute;gio.</p>     <p>ORCID: <a href="https://orcid.org/0000-0001-5546-9349" target="_blank">https://orcid.org/0000-0001-5546-9349</a></p>     <p>Email: <a href="mailto:ff-agra@hotmail.com">ff-agra@hotmail.com</a></p>     <p>Morada: Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o, Universidade Federal Fluminense, Niter&oacute;i/RJ, Brasil</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Submetido: </b><b>15/04/2020</b></p>     <p><b>Aceite: </b><b>13/07/2020</b></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>NOTAS</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> O relat&oacute;rio anual <i>Global trends: forced displacement in 2018, </i>da ag&ecirc;ncia da ONU para os refugiados (Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para Refugiados [ACNUR]), apontava para mais de 70 milh&otilde;es de pessoas deslocadas de maneira for&ccedil;ada, sendo 25,9 milh&otilde;es de refugiados, em 2018 (ACNUR, 2019). Tr&ecirc;s anos antes, em 2015, o relat&oacute;rio anual <i>Global trends: forced displacement in 2015</i> indicava que n&uacute;mero de pessoas deslocadas de maneira for&ccedil;ada alcan&ccedil;ava 65,3 milh&otilde;es, com 21,3 milh&otilde;es de refugiados (ACNUR, 2016).</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> Em 2015, S&iacute;ria e Afeganist&atilde;o eram os dois pa&iacute;ses, respectivamente, que mais produziram refugiados. A guerra na S&iacute;ria desencadeada em 2011 trouxe em seu rastro 4,9 milh&otilde;es de refugiados, enquanto havia uma estimativa de 2,7 milh&otilde;es de afeg&atilde;os com <i>status</i> de ref&uacute;gio (ACNUR, 2016).</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Ao final do s&eacute;culo XV, Mignolo diz que come&ccedil;a a surgir a ideia da diferen&ccedil;a (exterioridade) quando em 1492 se d&aacute; a derrota dos mouros, a expuls&atilde;o dos judeus da pen&iacute;nsula Ib&eacute;rica e a expans&atilde;o atl&acirc;ntica (Mignolo, 2017). Desde ent&atilde;o, mouros, judeus, amer&iacute;ndios e escravos africanos &ldquo;passaram a configurar, no imagin&aacute;rio ocidental crist&atilde;o, a diferen&ccedil;a&rdquo; (Mignolo, 2005, p. 35).</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> O conceito de diferen&ccedil;a colonial proposto por Mignolo &eacute; explorado pelo autor tamb&eacute;m em uma entrevista concedida a Luciano Gallas e publicada em 2013 pela <i>Revista do Instituto de Humanitas Unisinos On-line </i>no Brasil (Gallas, 2013).</p>     <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> A ideia de sistema-mundo capitalista &eacute; pontuada por Grosfoguel (2007) a partir de Wallernstein (1979) e diz respeito &agrave; divis&atilde;o internacional do trabalho entre centros, periferias e semi-periferias, o que implica diferentes formas de trabalho e estruturas pol&iacute;ticas. Nesse sistema, as formas coercivas de trabalho se desenvolvem, especialmente, nas periferias (Wallernstein, 1979, citado em Grosfoguel, 2007).</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> A fronteira entre Gr&eacute;cia e Turquia se tornou um espa&ccedil;o para demonstra&ccedil;&otilde;es que v&atilde;o nessa dire&ccedil;&atilde;o. As not&iacute;cias sobre queima de abrigos por alguns moradores gregos e o uso de for&ccedil;a policial contra quem est&aacute; do outro lado da fronteira, como as que ocorreram entre o final de fevereiro e in&iacute;cio de mar&ccedil;o de 2020, nos revelam tais tens&otilde;es. Ver &ldquo;Moradores gregos queimam centro de acolhida para impedir que refugiados o utilizem&rdquo; (2020).</p>     <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> Em uma busca pelo termo &ldquo;refugiados&rdquo; no jornal brasileiro <i>Folha de S&atilde;o Paulo</i> entre 2011, ano em que inicia a guerra na S&iacute;ria, e 2015, temos uma quantidade maior de publica&ccedil;&otilde;es com esse termo em 2015. Em 2011 foram 453; 2012 - 355; 2013 - 306; 2014 - 306; e 2015 - 527.</p>     <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> Em seis anos (2014-2020), ao menos 20 mil pessoas morreram em travessias pelo Mediterr&acirc;neo segundo a Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional para a Migra&ccedil;&atilde;o (OIM). Ver &ldquo;Mais de 20 mil migrantes morreram em travessias no Mediterr&acirc;neo desde 2014&rdquo; (2020).&nbsp;</p>     <p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> Ver <a href="https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/12/1714958-refugiados-e-risco-de-ataques-levam-ue-a-rever-controles-de-fronteira.shtml" target="_blank">https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/12/1714958-refugiados-e-risco-de-ataques-levam-ue-a-rever-controles-de-fronteira.shtml</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> Ver <a href="https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1709415-reacao-a-ataques-ameaca-livre-movimento-de-pessoas-pela-europa.shtml" target="_blank">https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1709415-reacao-a-ataques-ameaca-livre-movimento-de-pessoas-pela-europa.shtml</a></p>     <p><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> Ver <a href="https://m.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1705347-suecia-estabelece-controle-provisorio-de-fronteiras-para-conter-%20imigracao.shtml" target="_blank">https://m.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1705347-suecia-estabelece-controle-provisorio-de-fronteiras-para-conter-</a> <a href="https://m.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1705347-suecia-estabelece-controle-provisorio-de-fronteiras-para-conter-%20imigracao.shtml" target="_blank"> imigracao.shtml</a></p>     <p><Sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></Sup> Ver <a href="https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1704823-eslovenia-comeca-a-erguer-cerca-na-fronteira-para-controlar-fluxo.shtml" target="_blank">https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/11/1704823-eslovenia-comeca-a-erguer-cerca-na-fronteira-para-controlar-fluxo.shtml</a></p>     <p><Sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></Sup> Ver <a href="https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1681752-plano-de-cotas-trava-e-europa-cria-barreiras-a-entrada-derefugiados.shtml" target="_blank">https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1681752-plano-de-cotas-trava-e-europa-cria-barreiras-a-entrada-derefugiados.shtml</a></p>     <p><Sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></Sup> Ver <a href="https://m.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1681430-hungria-barra-refugiados-na-vespera-de-elevar-pena-para-imigracao-ilegal.shtml" target="_blank">https://m.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1681430-hungria-barra-refugiados-na-vespera-de-elevar-pena-para-imigracao-ilegal.shtml</a></p>     <p><Sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></Sup> Ver <a href="https://m.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1681167-alemanha-decide-restabelecer-controle-de-fronteira-ante-ondade-refugiados.shtml" target="_blank">https://m.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1681167-alemanha-decide-restabelecer-controle-de-fronteira-ante-ondade-refugiados.shtml</a></p>     <p><Sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></Sup> Ver <a href="https://m.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1679152-uniao-europeia-planeja-fundo-de--18-bi-para-conter-migracoes.shtml" target="_blank">https://m.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1679152-uniao-europeia-planeja-fundo-de--18-bi-para-conter-migracoes.shtml</a></p>     <p><Sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></Sup> Ver <a href="https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1676642-crise-de-refugiados-do-leste-poe-em-xeque-o-espaco-unico-europeu.shtml" target="_blank">https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/09/1676642-crise-de-refugiados-do-leste-poe-em-xeque-o-espaco-unico-europeu.shtml</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Agradecimentos</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este trabalho foi financiado pela Coordena&ccedil;&atilde;o de Aperfei&ccedil;oamento de Pessoal de N&iacute;vel Superior (CAPES).</p>      ]]></body><back>
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