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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Imagens e poder: encenação, rasura e pintura]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article addresses the power of images in three periods of 20th century history. The use of images, particularly of photography, during these periods became omnipresent, although there are many other examples of the power of images over the relevance of words: the sight of Phryne's partially naked body, for instance, had a big impact in her trial in the 4th century. Two of the examples presented in this paper (Nazism and Stalinism) used images as an instrument of power. They aimed to present simultaneously a sense of heroism and of “normalization” in radical contrast to the brutality that left a decisive mark in history as one of the most tragic dark moments of the 20th century. On the other hand, under Stalin, photos and images were manipulated: erasing people in photos can be understood as a macabre allegory of their annihilation in real life. The efficacy in the re-construction of reality through the manipulation of photos seems to result from an illusional omnipotence, as if dictators had the power to enunciate, create and destroy “reality”. The third part of this article discusses the answer open and given by painting to the increasing erosion of images witnessed nowadays. Painting, contrary to the ephemeral nature of photography, survive dark times. It resists in a stubborn way, as we can see, for instance in the example of Tuymans' paintings. You cannot erase its memory. Painting is not “programmatic”. It is an attempt to depollute images. And by doing this, it tears open a space for the search for meaning.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>VARIA</b></p>     <p><b>Imagens e poder: encena&ccedil;&atilde;o, rasura e pintura</b></p>     <p><b>Images and power: scenario, erasure and painting</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Eduardo Paz Barroso* </b></p>     <p><img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0002-3788-8459" target="_blank">https://orcid.org/0000-0002-3788-8459</a></p>     
<p><b>Rui Estrada** </b></p>     <p><img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0002-8076-6692" target="_blank">https://orcid.org/0000-0002-8076-6692</a></p>     
<p><b>Teresa Toldy*** </b></p>     <p><img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0002-2299-3504" target="_blank">https://orcid.org/0000-0002-2299-3504</a></p>     
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<body><![CDATA[<p>*LabCom, Universidade da Beira Interior, Portugal / Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas e Sociais, Universidade Fernando Pessoa, Portugal</p>     <p>**Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o Transdisciplinar Cultura, Espa&ccedil;o e Mem&oacute;ria, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal / Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas e Sociais, Universidade Fernando Pessoa, Portugal</p>     <p>***Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, Portugal / Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas e Sociais, Universidade Fernando Pessoa, Portugal</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Este artigo procura abordar o poder da presen&ccedil;a da imagem em tr&ecirc;s per&iacute;odos hist&oacute;ricos do s&eacute;culo XX, algo que se tornou omnipresente nestas &eacute;pocas hist&oacute;ricas, mas que n&atilde;o &eacute; exclusivo das mesmas: veja-se a refer&ecirc;ncia ao impacto da vis&atilde;o de parte do corpo descoberto de Frine, levada a julgamento no s&eacute;culo IV a.C. A imagem, em dois dos casos aqui apresentados (o nazismo e o estalinismo), constituiu um instrumento ao servi&ccedil;o do poder, com o objetivo de encenar simultaneamente a &ldquo;heroicidade&rdquo; e uma normalidade em contraste radical com uma brutalidade que marcou decisivamente a hist&oacute;ria e constituiu um dos principais momentos de trevas vividos no s&eacute;culo XX. Por seu turno, sob Estaline, a imagem &eacute; manipulada, tornando o processo de rasura de personagens uma alegoria macabra da sua aniquila&ccedil;&atilde;o real. A efic&aacute;cia da reconstru&ccedil;&atilde;o da realidade, atrav&eacute;s da manipula&ccedil;&atilde;o da imagem, passa, assim, por uma ilus&atilde;o de omnipot&ecirc;ncia: como se os ditadores tivessem o poder de enunciar, construir e destruir a &ldquo;realidade&rdquo;. Na terceira parte, partindo da quest&atilde;o da acentuada eros&atilde;o das imagens na atualidade, a discuss&atilde;o centra-se na resposta que a pintura abre e problematiza. Ao contr&aacute;rio do car&aacute;cter ef&eacute;mero da fotografia, a pintura sobrevive a tempos sombrios, persiste teimosamente, como se pode ver no caso de Tuymans. A mem&oacute;ria n&atilde;o pode ser apagada. E porque n&atilde;o &eacute; program&aacute;tica, porque constitui uma tentativa de despolui&ccedil;&atilde;o da imagem, rasga o espa&ccedil;o para a busca de sentido.</p>     <p><b>Palavras-chave:&nbsp;</b>fotografia; pintura; poder; nazismo; estalinismo</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>This article addresses the power of images in three periods of 20th century history. The use of images, particularly of photography, during these periods became omnipresent, although there are many other examples of the power of images over the relevance of words: the sight of Phryne&rsquo;s partially naked body, for instance, had a big impact in her trial in the 4th century. Two of the examples presented in this paper (Nazism and Stalinism) used images as an instrument of power. They aimed to present simultaneously a sense of heroism and of &ldquo;normalization&rdquo; in radical contrast to the brutality that left a decisive mark in history as one of the most tragic dark moments of the 20th century. On the other hand, under Stalin, photos and images were manipulated: erasing people in photos can be understood as a macabre allegory of their annihilation in real life. The efficacy in the re-construction of reality through the manipulation of photos seems to result from an illusional omnipotence, as if dictators had the power to enunciate, create and destroy &ldquo;reality&rdquo;. The third part of this article discusses the answer open and given by painting to the increasing erosion of images witnessed nowadays. Painting, contrary to the ephemeral nature of photography, survive dark times. It resists in a stubborn way, as we can see, for instance in the example of Tuymans&rsquo; paintings. You cannot erase its memory. Painting is not &ldquo;programmatic&rdquo;. It is an attempt to depollute images. And by doing this, it tears open a space for the search for meaning.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Keywords:&nbsp;</b>photography; painting; power; nazism; stalinism</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>Neste ensaio, procuramos fazer um percurso acerca do poder das imagens em tr&ecirc;s per&iacute;odos hist&oacute;ricos diferentes: o nazismo, o estalinismo e a contemporaneidade.</p>     <p>A escolha destes tr&ecirc;s momentos tem esta explica&ccedil;&atilde;o: se nos dois primeiros estamos no in&iacute;cio da apropria&ccedil;&atilde;o/manipula&ccedil;&atilde;o da imagem, sobretudo a fotografia, pelo poder, para desta fazer um uso conveniente e eficaz, a contemporaneidade traz a satura&ccedil;&atilde;o, a indistin&ccedil;&atilde;o e, at&eacute;, a vulgariza&ccedil;&atilde;o das imagens e logo, tamb&eacute;m, a quest&atilde;o &oacute;bvia: como resgat&aacute;-las desta banaliza&ccedil;&atilde;o?</p>     <p>De facto, no regime nazi, o fot&oacute;grafo oficial de Hitler, Heinrich Hoffmann, mitificou o ditador, sempre tendo em aten&ccedil;&atilde;o as circunst&acirc;ncias, ou seja, o que o momento exigia. Tanto o apresenta como um guerreiro liberto da pris&atilde;o e pronto para a luta como um d&oacute;cil homem em ambiente familiar. Estaline refez a hist&oacute;ria da &eacute;poca atrav&eacute;s de um outro expediente: rasurou pelo esquecimento, ou literalmente, pessoas n&atilde;o gratas nas fotografias do regime. O caso de Trotsky, que mandou executar em 1940, &eacute; exemplar. Ou, ainda, a transforma&ccedil;&atilde;o de uma fotografia de conjunto em uma pintura ic&oacute;nica de apenas um homem providencial: o pr&oacute;prio Estaline.</p>     <p>Na contemporaneidade, assistimos a uma tentativa de despolui&ccedil;&atilde;o da imagem, da fotografia, atrav&eacute;s da pintura. Face &agrave; sobre-exposi&ccedil;&atilde;o, j&aacute; muitas vezes in&oacute;cua, das primeiras, a pintura, que n&atilde;o &eacute; manipul&aacute;vel, embora possa ser destru&iacute;da, (re)surge como uma hermen&ecirc;utica cr&iacute;tica da Babel de imagens dos nossos dias. Por outras palavras, nesta sec&ccedil;&atilde;o do ensaio, mais do que uma discuss&atilde;o acerca do uso da imagem nos dias de hoje, interessa-nos, justamente pela incessante volatiliza&ccedil;&atilde;o desta, perceber como a pintura aparece, simultaneamente, enquanto resposta e questionamento. E isso permite-nos regressar, embora com prop&oacute;sitos diferentes, ao horror do totalitarismo: Luc Tuymans (1958/2006), por exemplo, evoca nas suas obras os campos de concentra&ccedil;&atilde;o nazis ou a &ldquo;solu&ccedil;&atilde;o final&rdquo;.</p>     <p>Em suma, este ensaio, balizado nestes tr&ecirc;s momentos, procura responder a esta quest&atilde;o: como vemos as imagens e que poder podem ter?</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A presen&ccedil;a da imagem</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p style="text-align: right;">A felicidade consiste em dizer a verdade sem magoar ningu&eacute;m. (Fellini, 1963)</p>     <p>No s&eacute;culo IV a.C., a <i>hetaira</i><a href="#1">1</a><a name="top1"></a>Frine foi levada a julgamento acusada de impiedade, o que podia resultar na pena capital: teria profanado os mist&eacute;rios de El&ecirc;usis.</p>     <p>Dotada de uma enorme beleza, Frine, que tinha posado para Prax&iacute;teles e Apeles, foi defendida por Hiperides. Num dado momento do julgamento, e sem mais recursos para convencer os ju&iacute;zes, o orador desnudou a <i>hetaira </i>at&eacute; &agrave; cintura:</p>     <p>     <blockquote>valeu-lhe, por&eacute;m, o expediente do advogado Hiperides, s&aacute;bio e experimentado orador de Atenas que, ao sentir a causa perdida, se abeirou da cliente e lhe rasgou as vestes at&eacute; &agrave; cintura, rogando clem&ecirc;ncia aos ju&iacute;zes para figura de t&atilde;o rara beleza. (Junior, 2008, p. 13)         <p></p> </blockquote>     <p>Confrontado com este gesto e com a beleza de Frine, uma disc&iacute;pula de Afrodite, o tribunal absolveu a cortes&atilde;: a imagem de parte do corpo descoberto de Frine teve o efeito que as palavras n&atilde;o tinham conseguido alcan&ccedil;ar (Dyck, 2001).</p>     <p>Esta passagem do julgamento de Frine n&atilde;o pode, segundo alguns classicistas, ser dada como certa. Craig Cooper, por exemplo, num artigo escrito em 1995, &eacute; claro quanto &agrave; efabula&ccedil;&atilde;o deste epis&oacute;dio. Sugerindo que o julgamento decorre mais de uma disputa entre Euthias, o amante despeitado, e Hiperides, o novo admirador, Cooper afirma que apenas uma interpreta&ccedil;&atilde;o desatenta das fontes pode ter levado &agrave; ideia de que a cena do desnudamento aconteceu de facto: &ldquo;a evid&ecirc;ncia indica que a cena do desnudamento foi inventada por Idomeneu talvez para parodiar e ridicularizar os artif&iacute;cios forenses dos demagogos de Atenas&rdquo; (Cooper, 1995, p. 315).</p>     <p>Igualmente Konstantinos Kapparis (2017), numa obra recente intitulada <i>Prostitution in the ancient greek world</i>, defende que n&atilde;o h&aacute; demonstra&ccedil;&atilde;o que permita verificar com rigor o acontecimento: &ldquo;n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel verificar ou negar definitivamente os epis&oacute;dios pitorescos que podem ou n&atilde;o ter garantido a sua absolvi&ccedil;&atilde;o, ali&aacute;s, o melhor talvez seja releg&aacute;-los para a esfera da mitologia popular em torno desta figura lend&aacute;ria&rdquo; (Kapparis, 2017, p. 384).</p>     <p>Independentemente de ser lend&aacute;rio ou real, este epis&oacute;dio sugere, logo no s&eacute;culo IV a.C., o poder da imagem e o efeito que esta pode ter no confronto com a palavra. Se &eacute; certo que o objetivo final da ret&oacute;rica &eacute; a persuas&atilde;o, e o objetivo espec&iacute;fico de Hiperides, neste caso, era a absolvi&ccedil;&atilde;o de Frine, qualquer recurso &eacute; v&aacute;lido para o efeito pretendido. Foi justamente esse efeito que o ret&oacute;rico conseguiu, atrav&eacute;s da exposi&ccedil;&atilde;o ostensiva da beleza de Frine, alimentando ali&aacute;s um <i>topos </i>habitual no mundo cl&aacute;ssico: o poder da beleza explorado, por exemplo, na famos&iacute;ssima hist&oacute;ria de Helena (Curado [2008], mais concretamente o cap&iacute;tulo intitulado &ldquo;O poder da beleza&rdquo;; G&oacute;rgias [1993], &ldquo;Elogio de Helena<i>&rdquo;</i>).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em 20 de Dezembro de 1924, Heinrich Hoffmann, o fot&oacute;grafo oficial de Hitler, tirou a fotografia que vemos em baixo. Pretendia justamente anunciar a liberta&ccedil;&atilde;o do futuro ditador, ap&oacute;s ter estado preso nove meses, por trai&ccedil;&atilde;o, em Landsberg, na Baviera.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f1"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v38/v38a12f1.jpg"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O problema desta foto, que correu a Alemanha e o mundo, como explica Moorhouse (2014), &eacute; que assenta numa fraude: impedido por um guarda prisional de fazer a fotografia mesmo &agrave; porta da pris&atilde;o, Hoffmann deslocou Hitler para a entrada g&oacute;tica da cidade, visto que esse local tinha uma atmosfera semelhante &agrave; da fortaleza em que o futuro ditador tinha estado preso. Mas, na verdade, a pris&atilde;o n&atilde;o tinha aquele port&atilde;o medieval que vemos na imagem, do qual Hitler parece estar a sair.</p>     <p>Ora, foi justamente assim que a famosa foto publicada e comentada: como se Hitler estivesse, de facto, a sair da pris&atilde;o. H&aacute; at&eacute; um t&iacute;tulo de uma not&iacute;cia da altura que diz mesmo isso: &ldquo;o port&atilde;o da fortaleza abriu&rdquo; (Moorhouse, 2014, p. 7), assumindo que o port&atilde;o g&oacute;tico da cidade de Landsberg &eacute; literalmente a entrada da pris&atilde;o.</p>     <p>Como afirma Moorhouse, Hoffmann e Hitler, desde muito cedo, perceberam o poder da imagem e o poder que a imagem tem de curvar a verdade: &ldquo;ela mostra n&atilde;o s&oacute; que Hitler e Hoffmann estavam perfeitamente cientes da import&acirc;ncia pol&iacute;tica da imagem, mas tamb&eacute;m como estavam dispostos a manipular a verdade&rdquo; (Moorhouse, 2014, p. 7).</p>     <p>No dia 18 de setembro de 1931, Angela &ldquo;Geli&rdquo; Maria Raubal, meia-sobrinha de Hitler, que vivia com o tio desde 1929, aparece morta na casa em que ambos habitavam. H&aacute; uma enorme especula&ccedil;&atilde;o acerca da morte de Geli<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>. Para o que aqui nos interessa, o momento n&atilde;o podia ser pior para Hitler. Al&eacute;m das suspeitas da liga&ccedil;&atilde;o &agrave; morte da sobrinha, este incidente punha em causa toda uma estrat&eacute;gia pol&iacute;tica do futuro ditador em plena campanha para chegar ao poder.</p>     <p>De todo o ardil planeado para Hitler n&atilde;o sucumbir ao esc&acirc;ndalo (G&ouml;rtemaker, 2012, p. 25), o livro de fotografias de Hoffmann, intitulado <i>Hitler wie ihn keiner kennt</i> (<i>The Hitler no one knows</i>), 1932, &eacute; uma pe&ccedil;a fundamental.</p>     <p>Como afirma Maiken Umbach, no document&aacute;rio <i>The rise of the Nazi Party </i>(Kloska, 2014), as fotografias e os postais de Hoffmann tinham o prop&oacute;sito de apresentar Hitler como um homem comum, um homem do povo: Hitler num piquenique, a brincar com o c&atilde;o, em momentos de lazer, num ambiente familiar e paternal. Sendo um <i>best-seller</i>, o livro de Hoffmann contribuiu naturalmente para restaurar a vida p&uacute;blica e a carreira pol&iacute;tica do futuro ditador.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f2"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v38/v38a12f2.jpg"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O resto da hist&oacute;ria &eacute; genericamente conhecida: usando um avi&atilde;o, o que acontece pela primeira vez, para fazer campanha para as elei&ccedil;&otilde;es de 1932 (G&ouml;rtemaker, 2012, p. 27), Hitler, esquecido j&aacute; o incidente &ldquo;Geli&rdquo;, aparece como o salvador que vai devolver &agrave; Alemanha o seu prest&iacute;gio. A coroa&ccedil;&atilde;o acontece a 30 de janeiro de 1933, ano em que o inc&ecirc;ndio do Reichstag, a 27 de fevereiro, as elei&ccedil;&otilde;es de mar&ccedil;o e a aprova&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m no dia 23 desse m&ecirc;s, pelo parlamento, do estado de emerg&ecirc;ncia, lhe conferem, democr&aacute;tica e paradoxalmente, o poder ditatorial com que veio depois a assombrar o mundo.</p>     <p>Em suma, as fotografias de Hoffmann foram decisivas para uma est&eacute;tica fascista que intuiu (e aproveitou), desde cedo, que a pol&iacute;tica tinha entrado definitivamente na era da imagem. E que estas, tal como os gregos diziam dos discursos, s&atilde;o um alvo f&aacute;cil de manipula&ccedil;&atilde;o. Foi isso que fez Hoffmann: &ldquo;as fotos de Hoffmann, o fot&oacute;grafo oficial de Hitler, foram exploradas amplamente como um registo dos feitos de Hitler e usadas como propaganda, manipulando o poder que a fotografia possu&iacute;a de criar uma imagem p&uacute;blica do Reich dos Mil Anos e da superioridade da Alemanha&rdquo; (Brett, 2016, p. 235).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A aus&ecirc;ncia da imagem</b></p>     <p style="text-align: right;">Por vezes, tratar uma fotografia significava voltar ao passado para alterar o registo hist&oacute;rico. (Blackmore, 2019, &sect; 11)</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f3"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v38/v38a12f3.jpg"></p>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Simon Sebag Montefiore, na sua obra intitulada <i>Estaline. A corte do czar vermelho</i> (2017, p. 25), publica uma foto do ditador com a sua filha, Svetlana, no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 30. O cap&iacute;tulo de enquadramento desta foto na obra de Montefiore menciona o profundo amor que o ditador nutria pela sua filha, sentimento esse referido igualmente, a t&iacute;tulo de exemplo, por Rosemary Sullivan (2016) na sua biografia de Svetlana.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f4"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v38/v38a12f4.jpg"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Particularmente depois da morte da m&atilde;e de Svetlana, Nadya, em circunst&acirc;ncias n&atilde;o completamente esclarecidas, Estaline manifesta um amor aut&ecirc;ntico pela filha, a quem, segundo Sullivan (2016, p. 61), chamava &ldquo;borboletazinha&rdquo;, &ldquo;a sua mosquinha&rdquo;, &ldquo;o seu pardalinho&rdquo;. Chamava-lhe tamb&eacute;m &ldquo;anfitri&atilde;&rdquo;, dizendo que era ela que mandava na casa, na qual, nas palavras de Montefiore (2017, p. 20), vivia a sua &ldquo;amant&iacute;ssima fam&iacute;lia&rdquo;, que inclu&iacute;a membros do Politburo, cunhados, figuras como aquela a quem Svetlana chamava o &ldquo;tio Lara&rdquo;, com quem brincava e ao colo de quem se sentava &ndash; Lavrenti Pavlovitch B&eacute;ria (Overy, 2016; Milhazes, 2018).</p>     <p>Se o objetivo subjacente &agrave;s fotografias de Hitler, mencionadas na sec&ccedil;&atilde;o anterior, era criar a ilus&atilde;o de normalidade, estas fotografias de Estaline &ldquo;em contexto familiar&rdquo; parecem indiciar a exist&ecirc;ncia de um mundo paralelo &ndash; o mundo da sua <i>dasha</i>, na qual ele trabalha calmamente, enquanto a sua filha brinca com o carrasco do regime, o executor das suas ordens, que passariam, inclusivamente, pela elimina&ccedil;&atilde;o de elementos da &ldquo;amant&iacute;ssima fam&iacute;lia&rdquo;. Poder&aacute; ser l&iacute;cito supor que n&atilde;o existe uma encena&ccedil;&atilde;o deliberada nestas fotos, como existia no caso de Hitler: o objetivo parece n&atilde;o ser encenar uma vida familiar. Contudo, a quest&atilde;o que poder&aacute; colocar-se &eacute;, qui&ccedil;&aacute;, mais perturbadora: o Estaline que manifesta um amor aut&ecirc;ntico pela filha e o B&eacute;ria que brinca com Svetlana, como fazendo todos parte da mesma fam&iacute;lia, vivem esta dualidade entre a &ldquo;normalidade&rdquo; dos homens comuns e a monstruosidade da elimina&ccedil;&atilde;o, do apagamento, dos seus opositores reais ou imagin&aacute;rios<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>.</p>     <p>A paranoia que caracterizava Estaline, e que se traduzia numa constante sensa&ccedil;&atilde;o de amea&ccedil;a, levava-o ao exterm&iacute;nio de quem quer que fosse, incluindo membros da sua pr&oacute;pria fam&iacute;lia, na sequ&ecirc;ncia daquela que ficou tristemente conhecida como a fase do &ldquo;terror&rdquo;. De facto, a maioria das pessoas que posam, em 1934, para uma fotografia de fam&iacute;lia, tirada no dia do seu anivers&aacute;rio, entre as quais se encontram membros do Politburo, esposas de militares, mas tamb&eacute;m de cientistas e ainda familiares mais diretos, viriam a ser todas atingidas pela exclus&atilde;o do mundo familiar de Estaline nos anos 40. Tratando-se de uma fotografia &ldquo;de fam&iacute;lia&rdquo;, a sua presen&ccedil;a n&atilde;o &eacute; apagada, como acontecer&aacute; com outras fotos em contexto oficial, p&uacute;blico. Os rostos continuam l&aacute;, mas a exclus&atilde;o j&aacute; tinha acontecido.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f5"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v38/v38a12f5.jpg"></p>     
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<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Foi este o destino, nos anos 40, de alguns dos rostos sorridentes desta &ldquo;foto de fam&iacute;lia&rdquo;<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>, com Estaline ao centro: na fila de cima, &agrave; esquerda, encontra-se Ana Redens, presa em 1948 (o seu marido, Stalisnav, que n&atilde;o se encontra na fotografia, fora executado em 1940). Na fila do meio, podemos ver Maria Svanidze (&agrave; esquerda), executada em 1942. Embora Sashiko Svanidze (terceira a contar da esquerda) tenha sobrevivido, a sua irm&atilde;, Mariko, foi executada em 1942; Polina Molotov (&agrave; esquerda de Estaline) foi presa em 1948. Por fim, na fila de baixo, a segunda a partir da esquerda, Zhenya Alliluyeva, foi presa em 1947. Estamos, pois, perante uma foto intacta (tirada em 1934) de um grupo de pessoas que, na d&eacute;cada seguinte, seriam erradicadas.</p>     <p>A erradica&ccedil;&atilde;o real, incluindo das imagens, verificar-se-&aacute; crescentemente como um elemento claro de propaganda pol&iacute;tica, de reconstru&ccedil;&atilde;o da realidade, ali&aacute;s, de dissuas&atilde;o da dissid&ecirc;ncia, atrav&eacute;s da &ldquo;puni&ccedil;&atilde;o&rdquo; do desaparecimento da mem&oacute;ria hist&oacute;rica, estrat&eacute;gia que enuncia igualmente o poder do ditador para refazer a hist&oacute;ria, eliminando da mesma os seus inimigos. Se no caso das fotografias de Hitler mencionadas na primeira parte, o objetivo &eacute; fazer crer que se est&aacute; perante um homem comum, com uma vida familiar comum &ndash; o que acontece, ali&aacute;s, tamb&eacute;m, nas fotografias (ainda que n&atilde;o encenadas) de Estaline com a sua filha e com a sua &ldquo;amant&iacute;ssima&rdquo; fam&iacute;lia &ndash; nas fotografias estalinistas das quais os inimigos s&atilde;o literalmente apagados, &eacute; clara a inten&ccedil;&atilde;o de manipula&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria e da mem&oacute;ria e, atrav&eacute;s destas, de refor&ccedil;o de um clima de medo, de subservi&ecirc;ncia a uma vers&atilde;o que &eacute; apresentada como sendo aquela em que &ldquo;se deve acreditar&rdquo;, como se a realidade fosse mat&eacute;ria de cren&ccedil;a, ditada pelo &ldquo;grande l&iacute;der&rdquo;. Como diz Leah Dickerman (2000, p. 143), &ldquo;ao tornar expl&iacute;cita a viol&ecirc;ncia da imagem, este registo da aus&ecirc;ncia recorda a quem a v&ecirc; o poder omnipotente do sistema&rdquo;.</p>     <p>Estaline torna-se, assim, omnipotente, ao mesmo tempo que faz desaparecer os seus inimigos. S&atilde;o c&eacute;lebres os casos das fotografias de onde Trotsky, o arqui-inimigo de Estaline, &eacute; eliminado<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>. A propaganda estalinista visa, assim, aniquilar a mem&oacute;ria visual, o registo hist&oacute;rico-fotogr&aacute;fico da pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia de Trotsky e da sua relev&acirc;ncia na revolu&ccedil;&atilde;o vermelha, colocando-se na perspetiva de enunciadora da &ldquo;verdade hist&oacute;rica&rdquo;: a manipula&ccedil;&atilde;o substitui os factos, numa mescla de ideologia e de mitologia, como afirma, mais uma vez, Leah Dickerman (2000, p. 141), ao dizer: &ldquo;uma grande parte da manipula&ccedil;&atilde;o visa produzir uma ilus&atilde;o de plausibilidade constante que naturaliza a ideologia como mitologia&rdquo;.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f6"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v38/v38a12f6.jpg"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f7"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v38/v38a12f7.jpg"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A reconstru&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria, com recurso &agrave; recomposi&ccedil;&atilde;o da imagem, est&aacute;, pois, associada &agrave; exalta&ccedil;&atilde;o do her&oacute;i. Esta n&atilde;o passa, contudo, apenas pela supress&atilde;o imag&eacute;tica de figuras n&atilde;o queridas: passa tamb&eacute;m pelo apagamento da imagem atrav&eacute;s da coloca&ccedil;&atilde;o de manchas sobre o retrato de algu&eacute;m, como foi o caso da foto de Djakhan Abidova, membro do Partido Comunista do Uzbequist&atilde;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f8"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v38/v38a12f8.jpg"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A violenta erradica&ccedil;&atilde;o do rosto de algu&eacute;m numa fotografia que n&atilde;o &eacute; retirada, mas na qual se exp&otilde;e a sua elimina&ccedil;&atilde;o vergonhosa, cobrindo a sua cara de negro, corresponde, num crescendo, a um processo que passa por duas opera&ccedil;&otilde;es: a elimina&ccedil;&atilde;o dos opositores e a exalta&ccedil;&atilde;o do l&iacute;der, transformando as imagens do mesmo em pinturas. &Eacute; o caso de uma fotografia de 1929, em que podemos ver Nikolai Antipov, Stalin, Sergei Kirov e Nikolai Shvernik.</p>     <p>O recurso &agrave; elimina&ccedil;&atilde;o das restantes personagens da fotografia e a transforma&ccedil;&atilde;o da &uacute;nica figura que resta em pintura, porque perdura, tal como os seus &ldquo;atos de hero&iacute;smo&rdquo;, enfatizam e apelam ao culto da personalidade: j&aacute; n&atilde;o estamos apenas perante um registo eventualmente ef&eacute;mero. Estamos perante um &iacute;cone<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f9"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v38/v38a12f9.jpg"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p><b>A imagem contempor&acirc;nea: banalidade, sacraliza&ccedil;&atilde;o e significado</b></p>     <p style="text-align: right;">M&aacute;s testemunhas s&atilde;o, para os homens, os olhos e os ouvidos, que possuem almas b&aacute;rbaras. (Heraclito citado em Pereira, 1971, p. 124)</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como ensina Heraclito os sentidos enganam. A imagem contempor&acirc;nea, assente em dispositivos tecnol&oacute;gicos da mais variada &iacute;ndole, atingiu impressionantes velocidades de propaga&ccedil;&atilde;o e o valor que transmite, na sua referencialidade ao real, muda constantemente de estatuto, fen&oacute;meno que Benjamin descobriu nos seus escritos c&eacute;lebres sobre a reprodutibilidade t&eacute;cnica e o impacto desta no devir est&eacute;tico e na vida quotidiana (Benjamin, 2006). Ao compreender que &ldquo;a natureza que fala &agrave; c&acirc;mara &eacute; diferente da que fala aos olhos&rdquo; (Benjamin, 2006, p. 246), o fil&oacute;sofo cria as bases de um entendimento centrado na diferen&ccedil;a entre fotografia e pintura, jogando com as dimens&otilde;es de consciente e inconsciente, das escalas do olhar.</p>     <p>Sens&iacute;vel ao &ldquo;inconsciente mec&acirc;nico&rdquo;, da inova&ccedil;&atilde;o fotogr&aacute;fica, mas tamb&eacute;m ao facto da pintura ao ar livre na mesma &eacute;poca conquistar novas perspetivas, gra&ccedil;as ao trabalho dos pintores impressionistas, Benjamin questiona-se sobre o conceito de aura que tanto o absorveu: &ldquo;uma estranha trama de espa&ccedil;o e tempo: o aparecimento &uacute;nico de algo distante, por muito perto que esteja&rdquo; (Benjamin, 2006, p. 254). Sabemos que a descoberta e a generaliza&ccedil;&atilde;o da fotografia, sobretudo a partir de meados do s&eacute;culo XIX (Freund, 1995), est&aacute; associada &agrave; rutura modernista e por consequ&ecirc;ncia ao abandono da conce&ccedil;&atilde;o naturalista e realista da pintura, e ao advento do retrato burgu&ecirc;s de &iacute;ndole mais popular<sup><a href="#7">7</a></sup><a name="top7"></a>.</p>     <p>O Modernismo determina como sabemos a caducidade das Belas Artes, da conce&ccedil;&atilde;o harmoniosa da beleza, acabando por a tornar paradoxal e laica. O fim de todos os c&acirc;nones, institu&iacute;do no brevi&aacute;rio dada&iacute;sta que prefere substituir a designa&ccedil;&atilde;o de obra por &ldquo;coisa&rdquo; (Duchamp, 1990), vem dar mais for&ccedil;a a uma consci&ecirc;ncia est&eacute;tica do objeto comum. &ldquo;Creio que a pintura morre, compreende? O quadro morre ao fim de quarenta ou cinquenta anos, porque a frescura desapareceu. A escultura tamb&eacute;m morre. &Eacute; uma pequena mania minha que ningu&eacute;m aceita, mas n&atilde;o tem import&acirc;ncia&rdquo; (Duchamp, 1990, pp. 103-104). &Agrave; morte da arte sobreveio um mundo de coisas, reinado de imagens feitas coisas, uma apoteose da vulgaridade, amplificada pelos ecr&atilde;s e pelas programa&ccedil;&otilde;es televisivas.</p>     <p>Trata-se por isso de organizar uma resposta cr&iacute;tica aos problemas pol&iacute;ticos, &eacute;ticos, sociais e econ&oacute;micos transportados no caudal contempor&acirc;neo das imagens, a partir da pintura definida como conceito, e n&atilde;o como <i>t&eacute;cnica.</i> Isso implica uma reorganiza&ccedil;&atilde;o do olhar, fundado, ancorado, no processo e no imagin&aacute;rio da pintura, numa plasticidade reinventada. Deleuze, Derrida, Perniola, Foster, Bourdieu, s&atilde;o apenas alguns exemplos de pensadores, &ndash; j&aacute; para n&atilde;o falar da a&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica de in&uacute;meros artistas &ndash; que t&ecirc;m vindo a alimentar esse debate, o qual n&atilde;o exclui o estatuto <i>ret&oacute;rico</i> das imagens, o seu plano mitol&oacute;gico (Barthes, 1976) ou a sua condi&ccedil;&atilde;o espetacular de mercadoria (Debord, 2018), bem como especificidades antropol&oacute;gicas, rituais de mem&oacute;ria coletiva. Resposta ainda que nos permite orientar num universo de <i>coisas</i>. Gra&ccedil;as a ela &eacute; poss&iacute;vel arriscar uma inteligibilidade transformada em experi&ecirc;ncia do significativo, aberta, onde se agregam e declinam infinitas enciclop&eacute;dias pessoais (Eco, 2004).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f10"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v38/v38a12f10.jpg"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>As imagens mec&acirc;nicas podem ser manipuladas, apagadas, refeitas, encenadas, e s&atilde;o, ainda assim, percecionadas e aceites como &iacute;ndices de real. S&atilde;o as herdeiras massificadas de uma hist&oacute;ria nobilitada que foi sepultada, depois de ser negada e rasurada. Quando Picasso retoma Velasquez e &ldquo;Las Meninas&rdquo; (1656), ou Edouard Manet e o seu &ldquo;Le d&eacute;jeuner sur l&rsquo;herbe&rdquo; (1863), demonstra como as imagens se desdobram e se reinventam a partir da pintura e da sua condi&ccedil;&atilde;o aur&aacute;tica. Mas n&atilde;o foi apenas relativamente a duas obras chave, consagradas na grande tradi&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica, que Picasso reagiu, modificando-as, como quem desafia e em certa medida modifica o passado. El Greco, Goya, Jaques-Louis David, Rembrandt, Ingres, Van Gogh, e outros <i>mestres </i>foram igualmente objeto de revisita&ccedil;&atilde;o, nunca de &ldquo;c&oacute;pia&rdquo; ou de repeti&ccedil;&atilde;o. Como sublinha Cowling:</p>     <p>     <blockquote>mas a no&ccedil;&atilde;o de colabora&ccedil;&atilde;o &eacute; reveladora n&atilde;o s&oacute; porque implica um sentido de companheirismo e de igualdade, mas tamb&eacute;m de irrelev&acirc;ncia da hist&oacute;ria e da cronologia: para Picasso, estes artistas &ldquo;mortos&rdquo; de diversas eras ou gera&ccedil;&otilde;es estavam vivos. Ali&aacute;s, nunca morreriam. Mais, tinham sido impulsionados fundamentalmente pelos mesmos imperativos que ele pr&oacute;prio. (Cowling, 2009, p. 13)<sup><a href="#8">8</a></sup><a name="top8"></a>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p> </blockquote>     <p>A partir desta situa&ccedil;&atilde;o trata-se de tentar perceber como colaboram (agora) as imagens entre si? Quest&atilde;o ampla que apela quer &agrave; an&aacute;lise da evolu&ccedil;&atilde;o do cinema, quer ao enquadramento museol&oacute;gico da experi&ecirc;ncia das imagens em movimento, quer, por outro lado, a uma hermen&ecirc;utica da pintura num per&iacute;odo, compreendido sobretudo entre as duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX e o presente. Este momento hist&oacute;rico &eacute; caracterizado por apropria&ccedil;&otilde;es do cinema e das suas lendas, pela politiza&ccedil;&atilde;o que visa denunciar e combater a distopia contempor&acirc;nea, a partir da reformula&ccedil;&atilde;o do conceito de instala&ccedil;&atilde;o, de performance, e de par&oacute;dia. Richard Prince (1948), que se apropria de an&uacute;ncios c&eacute;lebres da mitologia cultural americana como a figura do cowboy da marca de cigarros Marlboro, fazendo coabitar no mesmo imagin&aacute;rio essa imagem (e outras da mesma &iacute;ndole) com pinturas de enfermeiras e outros &iacute;cones de uma fic&ccedil;&atilde;o popular, surge neste contexto como um nome essencial.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f11"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v38/v38a12f11.jpg"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Se nos detivermos mais exclusivamente sobre a iman&ecirc;ncia da fotografia (de autor), nomes como Cindy Sherman (1954), Wolfgang Tillmans (1968), Jeff Wall (1946), Douglas Gordon (1966) ou Thomas Struth (1954), s&atilde;o extraordin&aacute;rios exemplos da ascens&atilde;o da fotografia a um patamar de notoriedade que refor&ccedil;a a sua capacidade de a&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica. Trata-se nas obras destes artistas de substituir e/ou denegar a pintura a &oacute;leo ou acr&iacute;lico na tentativa de proclamar outra autonomia para as imagens. Mas os registos e os m&eacute;todos de cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica s&atilde;o hoje os mais diversos. Basta consultar um qualquer livro de divulga&ccedil;&atilde;o publicado pela Taschen ou percorrer os sites com a programa&ccedil;&atilde;o dos grandes museus de arte contempor&acirc;nea, isto para n&atilde;o falar da real e efetiva circula&ccedil;&atilde;o nos meios expositivos, para constatar esta eloquente diversidade, que torna as imagens porosas, enredadas numa contamina&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca. Neste ambiente comunicacional, a pintura ressurge e afirma-se com uma voca&ccedil;&atilde;o interpretativa que decanta o caos de sentidos propagado pela generalidade das outras imagens.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f12"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v38/v38a12f12.jpg"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O fot&oacute;grafo Thomas Struth (1954) desenvolveu um extenso cap&iacute;tulo do seu trabalho com s&eacute;ries de fotografias realizadas em grandes museus do mundo (Louvre, Paris; o Kunsthistorisches Museum, Viena; a National Gallery, Londres; o Rijksmuseum em Amsterdam e o Art Institute of Chicago) a partir das quais &eacute; poss&iacute;vel intuir uma esp&eacute;cie de co-protagonismo<sup><a href="#9">9</a></sup><a name="top9"></a>. Isto &eacute;, um protagonismo partilhado entre a pintura e mundo, mostrada com teatralidade, com a impon&ecirc;ncia de um gesto ritual, de acordo com um protocolo discursivo que conduz &agrave; sacraliza&ccedil;&atilde;o da imagem, intemporal, &uacute;nica e exclusiva. Depois, temos o p&uacute;blico. Centenas de pessoas, transeuntes em massa a deambular pelas salas e galerias, numa err&acirc;ncia perp&eacute;tua. Os visitantes cedem lugar aos que est&atilde;o &agrave; porta dos museus, nas longas filas, uma massa indiferenciada, como que se v&ecirc; nos grandes aeroportos, nas gares de caminho de ferro, nas est&acirc;ncias balneares&hellip; Gente &agrave; procura de um certificado de presen&ccedil;a, de que a Gioconda de Leonardo, no Louvre, &eacute; um exemplo absoluto, hoje inevitavelmente selado por uma <i>selfie</i>. Enquanto o retrato em tela, sem verdadeiramente ser visto, e votado a uma admira&ccedil;&atilde;o compulsiva, ocupa a sala onde permanece com soberana indiferen&ccedil;a, os visitantes, esses, parecem querer inverter a l&oacute;gica da perce&ccedil;&atilde;o, sem suspeitarem que s&atilde;o eles que s&atilde;o vistos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nas mencionadas s&eacute;ries fotogr&aacute;ficas de Struth observamos precisamente o olhar dos passeantes devolvido ao olhar da c&acirc;mara do fot&oacute;grafo, que tenta descortinar uma hierarquia imposs&iacute;vel, porquanto as telas dos grandes pintores cl&aacute;ssicos foram trazidas a uma condi&ccedil;&atilde;o de imagens como as outras, gra&ccedil;as a uma centrifuga&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria, uma esp&eacute;cie de desfigura&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gica mediante a qual ser, representar e ver se tornam categorias indiscern&iacute;veis. Afigura-se ent&atilde;o pertinente transpor para este tipo de ambiente sociocultural a figura da multid&atilde;o urbana como sin&oacute;nimo do her&oacute;i moderno, t&atilde;o bem caracterizada por Baudelaire. Nesta sobreposi&ccedil;&atilde;o de imagens e situa&ccedil;&otilde;es ela acaba por se substituir &agrave; heroicidade sagrada da pintura. &ldquo;Com o <i>fl&acirc;neur</i>, o prazer de olhar celebra o seu triunfo&rdquo; (Benjamin, 1995, p. 71).</p>     <p>Neste emaranhado de imagens, de pr&aacute;ticas e de possibilidades, a pintura &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o de materialidade pl&aacute;stica. Estabelece para todos os efeitos uma rela&ccedil;&atilde;o vinculativa com a mem&oacute;ria, mas tamb&eacute;m com a pintura do passado. Ter&aacute; sido essa a decis&atilde;o que inspirou e animou Francis Bacon (1909-1992), autor de uma pintura visceral, sexual, que desconstr&oacute;i e reedifica no&ccedil;&otilde;es como a de retrato, autorretrato ou de natureza morta, ou Lucien Freund (1922-2011), criador de poderosas representa&ccedil;&otilde;es de corpos, rostos, enquadramentos de paisagem, aprisionados num realismo visceral e cruel<sup><a href="#10">10</a></sup><a name="top10"></a>.</p>     <p>Nestas duas obras a materialidade da pintura, o seu acontecer, como facto est&eacute;tico &uacute;nico, alcan&ccedil;a um grande impacto. Por outro lado, o seu fazer exige uma capacidade de manusear a sombra e a luz, a cor e a forma, que se inscrevem no campo do ju&iacute;zo, abrindo espa&ccedil;o a uma cr&iacute;tica das imagens que n&atilde;o poderia ser alcan&ccedil;ada por outra via. A pintura tornou-se minorit&aacute;ria, &eacute; um facto. O que n&atilde;o a impede de ser percorrida por uma intensidade que a autoriza a julgar e a discutir o valor e o poder das imagens no tempo. Uma tarefa imposs&iacute;vel para a fotografia e para o cinema que constroem espa&ccedil;o e tempo, documentam e comentam, confrontam reportagem e poesia. Criam ilus&otilde;es e alus&otilde;es, fingimentos e suspeitas, como afinal lhes compete&hellip;</p>     <p>As &uacute;ltimas d&eacute;cadas t&ecirc;m sido marcada por uma reaprecia&ccedil;&atilde;o da pintura. O tema tem estado presente em todo o debate cr&iacute;tico, medi&aacute;tico e comunicacional, subsequente &agrave;s teses defendidas pela Escola de Frankfurt relativas &agrave;s ind&uacute;strias da cultura, aos debates implicados no p&oacute;s-modernismo (Lyotard, Vattimo e outros), ou &agrave; perspetiva de Bauman ao defender a fluidez l&iacute;quida numa &eacute;poca em que as identidades se tornaram inst&aacute;veis.</p>     <p>Um texto de Zelizer (2010), que trata das rela&ccedil;&otilde;es entre a imagem e a mem&oacute;ria cruzando-as com o jornalismo, amplia a reflex&atilde;o sobre o discurso da crise e o clima de incerteza. A partir da leitura de um di&aacute;logo entre Bauman e Carlo Bordoni, em que este &uacute;ltimo defende que &ldquo;a modernidade retirou as suas promessas&rdquo;, e depois a p&oacute;s-modernidade &ldquo;subestimou-as&rdquo;, e chegou o triunfo das apar&ecirc;ncias em prol da perda de subst&acirc;ncia (Bauman &amp; Bordoni, 2016, p. 75), salienta que a crise pressup&otilde;e o imagin&aacute;rio de uma supera&ccedil;&atilde;o. Refira-se a prop&oacute;sito que Bauman manifesta d&uacute;vidas sobre se foram as promessas que foram retiradas; entende antes que foram as estrat&eacute;gias e os &ldquo;modelos de uma sociedade que fracassaram&rdquo; (Bauman &amp; Bordoni, 2016, p. 80).</p>     <p>Uma combina&ccedil;&atilde;o entre risco, conting&ecirc;ncia, indetermina&ccedil;&atilde;o e liquidez, gra&ccedil;as &agrave; qual a autora articula no&ccedil;&otilde;es chave de Ulrich Beck, Rorty, Eisenstadt e do pr&oacute;prio Bauman, leva Zelizer a concluir que &ldquo;embora a crise seja um fen&oacute;meno com dimens&otilde;es materiais&rdquo;, &eacute; um fen&oacute;meno igualmente &ldquo;moldado pelo discurso&rdquo; (Zelizer, 2018, pp. 91,95).</p>     <p>Ora culturalmente a pintura, &agrave; semelhan&ccedil;a do desemprego, da inseguran&ccedil;a, da morte e do medo, da recess&atilde;o econ&oacute;mica, ou at&eacute; dos impasses do pr&oacute;prio jornalismo, tamb&eacute;m se inscreve na materialidade das crises. Sobrevivendo &agrave; crise que ela pr&oacute;pria experimentou, num ato de persist&ecirc;ncia intelectual e com uma l&oacute;gica da imagem que lhe &eacute; exclusiva, restaura um nexo na questiona&ccedil;&atilde;o do real (e, portanto, no questionamento de todas as imagens mec&acirc;nicas que o absorvem e com ele agora se confundem). Por isso a advert&ecirc;ncia de Zelizer (2018, p. 106) adquire neste contexto um tom preocupante: &ldquo;uma vez que as institui&ccedil;&otilde;es constituem necessariamente um terreno f&eacute;rtil para a crise, resta saber se a incerteza alguma vez desaparecer&aacute; numa paisagem cujos contornos s&atilde;o institucionalmente determinados&rdquo;. A pintura &eacute; assim uma teimosia no panorama da arte contempor&acirc;nea.</p>     <p>Tuymans (1958), consensualmente um dos mais importantes pintores da atualidade, apresentou em Veneza (no Palazzo Grassi) uma exposi&ccedil;&atilde;o antol&oacute;gica intitulada &ldquo;La pelle&rdquo; que re&uacute;ne obras realizadas entre 1986 e 2019 integrados na cole&ccedil;&atilde;o Pinault<sup><a href="#11">11</a></sup><a name="top11"></a>. Tuymans dedicou-se ao cinema na d&eacute;cada de 80 do s&eacute;culo XX e a sua pintura posteriormente desenvolvida revela bem a import&acirc;ncia do cinema na reflex&atilde;o que conduz da realidade ao sonho e &agrave; fic&ccedil;&atilde;o. Na sua obra, a pintura parte do cinema e de outras imagens desmaterializadas para explorar a ambiguidade e o inacabamento. Motivos da imprensa, da internet, fotografias espont&acirc;neas feitas pelo artista com o seu pr&oacute;prio telem&oacute;vel s&atilde;o a mat&eacute;ria-prima de uma pintura capaz de dar significado &agrave;s imagens<sup><a href="#12">12</a></sup><a name="top12"></a>.</p>     <p>Uma das obras principais da exposi&ccedil;&atilde;o intitula-se Schwarzheide (2019), o nome de um campo de trabalhos for&ccedil;ados na Alemanha nazi onde alguns dos prisioneiros fizeram em segredo desenhos que foram dissimulados para evitar a sua confisca&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o esses desenhos e esse campo que o artista torna presentes numa pintura que remete para a bela floresta no meio da qual um lugar terr&iacute;vel e medonho permanecia como que camuflado do olhar dos habitantes que viviam nas redondezas. S&oacute; na medida em que o visitante percorre o interior do Pal&aacute;cio Grassi e, imbu&iacute;do da sua bela arquitetura, sobe ao n&iacute;vel da balaustrada que circunda o &aacute;trio onde a pintura foi instalada, &eacute; que se vai dar conta desta poderosa met&aacute;fora. Como sublinha Caroline Bourgeois, fica provado que a dist&acirc;ncia e o ponto de observa&ccedil;&atilde;o s&atilde;o essenciais na leitura da obra (Bourgeois, 2019).</p>     <p>A Alemanha e o holocausto n&atilde;o s&atilde;o uma preocupa&ccedil;&atilde;o nova no trabalho de Tuymans. A pintura trabalha a luz e a penumbra, o jogo das oculta&ccedil;&otilde;es e das evid&ecirc;ncias, o submerso e o flutuante. &ldquo;Penumbra&rdquo; &eacute; o t&iacute;tulo de uma outra exposi&ccedil;&atilde;o deste artista na qual recorre a fotografias de campos de concentra&ccedil;&atilde;o nazis, evoca doen&ccedil;as estranhas, espa&ccedil;os abandonados e fantasm&aacute;ticos. Essa exposi&ccedil;&atilde;o articulava pinturas, imagens e objetos que lhe deram origem e era tutelada por um projeto caro ao artista que consistia em transpor, usando o tempo (um tempo heideggeriano?), da Villa Wannsee, onde no dia 20 de janeiro de 1942 se discutiu, ao mais alto n&iacute;vel, &ldquo;a solu&ccedil;&atilde;o final&rdquo;<sup><a href="#13">13</a></sup><a name="top13"></a>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a name="f13"></a> <img src="/img/revistas/csoc/v38/v38a12f13.jpg"></p>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Para Tuymans (1958/2006, s.p.) a &ldquo;imagem est&aacute;tica na mem&oacute;ria pode ser infinitamente mais forte que a imagem m&oacute;vel&rdquo;, a primeira &eacute; fixa, mas o seu equivalente mental encontra-se sempre e cada vez mais em movimento&rdquo;. Somos por isso enquanto espectadores comprometidos levados a desbravar os meandros da representa&ccedil;&atilde;o subjetiva (pict&oacute;rica), o registo instant&acirc;neo (fotogr&aacute;fico) e a proje&ccedil;&atilde;o (cinematogr&aacute;fica), com as suas resson&acirc;ncias freudianas alicer&ccedil;adas na transfer&ecirc;ncia. Para nos orientarmos em tais meandros, que afinal s&atilde;o os da pr&oacute;pria Hist&oacute;ria, temos de recuperar o significado. E este encontra-se, cada vez mais, em perda: &ldquo;a pergunta sobre se a fotografia, o filme, a televis&atilde;o ou mesmo a internet s&atilde;o arte n&atilde;o contrabalan&ccedil;a de todo a pergunta sobre a qualidade de uma determinada transfer&ecirc;ncia de significado&rdquo; (Tuymans, 1958/2006, s.p.).</p>     <p>A pintura n&atilde;o &eacute; objeto de manipula&ccedil;&atilde;o nem pode ser apagada. Envelhece, restaura-se, acumula cicatrizes do tempo. Ou ent&atilde;o s&oacute; pode ser destru&iacute;da, tal como se aniquilam testemunhas. Mas ainda assim deixa um rasto, um sulco de sacraliza&ccedil;&atilde;o emocional. E &eacute; imprescind&iacute;vel &agrave; compreens&atilde;o cr&iacute;tica de todas as imagens, uma vez que permite ao espectador conviver com a incerteza, eventualmente suport&aacute;-la. A sua presen&ccedil;a material e sua metaf&iacute;sica exigem que ele lave o olhar. O cineasta Mizoguchi (1898-1956) afirmou: devem lavar-se os olhos entre cada olhar. Cita&ccedil;&atilde;o que um historiador do cinema convoca a prop&oacute;sito de John Ford, realizador de uma evidente clareza visual. Uma clareza desde logo t&eacute;cnica que, no caso de Ford (homem de <i>westerns</i>, duelos e rivalidades movido por um sentido b&iacute;blico de justi&ccedil;a na fidelidade &agrave;s suas ra&iacute;zes irlandesas), o alicer&ccedil;ava no pragmatismo industrial do sistema de Hollywood<sup><a href="#14">14</a></sup><a name="top14"></a>.</p>     <p>J&aacute; nessa outra tela de que se fazem os quadros, qual pele coberta de tintas, a imagem est&aacute; despolu&iacute;da da acumula&ccedil;&atilde;o e da satura&ccedil;&atilde;o. O imagin&aacute;rio das equival&ecirc;ncias entre &ldquo;verdadeiro&rdquo; e &ldquo;falso&rdquo; no mundo da representa&ccedil;&atilde;o &eacute; agora um campo desminado. O espectador pode finalmente isolar-se da barb&aacute;rie e das subjetividades, para reivindicar, se for essa a sua vontade, a condi&ccedil;&atilde;o de aut&ecirc;ntica testemunha.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Gra&ccedil;as &agrave; reprodutibilidade t&eacute;cnica e &agrave; desmultiplica&ccedil;&atilde;o dos seus efeitos, as imagens ganharam uma velocidade de propaga&ccedil;&atilde;o e um valor de troca que rivaliza com a palavra, sobretudo com a palavra mediatizada. As imagens podem ser utilizadas precisamente para fazer desaparecer palavras ou mem&oacute;rias da pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia dos proscritos (como &eacute; o caso da altera&ccedil;&atilde;o das imagens sob o regime estalinista). E podem ser manipuladas, encenadas, para substitu&iacute;rem realidades indesej&aacute;veis (pensemos na necessidade de normalizar o n&atilde;o-normaliz&aacute;vel como &eacute; o caso do &ldquo;&aacute;lbum de fam&iacute;lia&rdquo; de Hitler). Contudo, tanto num como no outro caso, partimos de imagens numa &eacute;poca ainda n&atilde;o sujeita &agrave; banaliza&ccedil;&atilde;o da fotografia a que assistimos atualmente. Poderemos perguntar-nos, at&eacute;, se as imagens que aqui aparecem expostas, caso nos fossem contempor&acirc;neas, e passassem por um processo de vulgariza&ccedil;&atilde;o resultante da repeti&ccedil;&atilde;o, continuariam a ter o mesmo impacto. &Eacute; prov&aacute;vel que n&atilde;o, se pensarmos em contextos democr&aacute;ticos.</p>     <p>Mas a resposta poder&aacute; ser diferente se pensarmos em contextos ditatoriais nos quais a repeti&ccedil;&atilde;o das imagens poder&aacute; estar associada &agrave; perpetua&ccedil;&atilde;o de estrat&eacute;gias de terror, como se a pr&oacute;pria imagem fosse uma esp&eacute;cie de &ldquo;olho&rdquo; vigilante, sempre presente e, eventualmente, uma forma de normaliza&ccedil;&atilde;o do medo. N&atilde;o no sentido de desdramatiza&ccedil;&atilde;o do mesmo, mas no sentido da &ldquo;habitua&ccedil;&atilde;o&rdquo; a uma exist&ecirc;ncia vigiada. A ser pens&aacute;vel, a extrema generaliza&ccedil;&atilde;o da imagem, em cada uma destas situa&ccedil;&otilde;es, teria um mesmo impacto: uma esp&eacute;cie de conformismo do inaceit&aacute;vel. O que levaria &agrave; indiferen&ccedil;a ou, pelo contr&aacute;rio, &agrave; aus&ecirc;ncia de um horizonte de fuga ao medo. Ora &eacute; este horizonte de conformismo, de banaliza&ccedil;&atilde;o, de condescend&ecirc;ncia, determinado por irrelev&acirc;ncia ou por medo, que a pintura parece querer resgatar. E chama a si um outro poder: o poder do olhar. Enquanto a fotografia, nos casos aqui analisados, &eacute; manipulada por um poder prescritivo do ver, a pintura, e algumas fotografias ou imagens inseridas no espa&ccedil;o (Tuymans no Palazzo Grassi, por exemplo), produzidas e pensadas de acordo com a l&oacute;gica da pintura, teimam em desafiar a exist&ecirc;ncia de um sentido, de um questionamento do real que n&atilde;o se desvanece: a pintura n&atilde;o pode ser apagada. A pintura inscreve-se no real como testemunha e convoca testemunhas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Barthes, R. (1976). <i>Mitologias</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024337&pid=S2183-3575202000020001200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Benjamin, W. (2006). <i>A modernidade, obras escolhidas de Walter Benjamin</i>. Lisboa: Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024339&pid=S2183-3575202000020001200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Blackmore, E. (2019, 26 de abril). How photos became a weapon in Stalin&rsquo;s Great Purge. <i>Canal Hist&oacute;ria</i>. Retirado de <a href="https://www.history.com/news/josef-stalin-great-purge-photo-retouching" target="_blank">https://www.history.com/news/josef-stalin-great-purge-photo-retouching</a></p>     <!-- ref --><p>Bauman, Z. &amp; Bordini, C. (2016). <i>Estado de crise</i>. Lisboa: Rel&oacute;gio d&acute;&Aacute;gua.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024342&pid=S2183-3575202000020001200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bougeois, C. (2019). <i>Luc Tuymans. La Pelle.</i> Veneza: Marsilio Editori. Retirado de <a href="https://www.palazzograssi.it/site/assets/files/7599/guidina_la_pelle_tuymans_fra.pdf" target="_blank">https://www.palazzograssi.it/site/assets/files/7599/guidina_la_pelle_tuymans_fra.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024344&pid=S2183-3575202000020001200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>Brett, D. W. (2016). Banality, memory and the index: Thomas Demand and Hitler&rsquo;s photographer. <i>Journal photographies</i>, <i>9</i>, 233-249.</p>     <!-- ref --><p>Cooper, C. (1995). Hyperides and the trial of Phryne. <i>Phoenix</i>, <i>49</i>(4), 303-318.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024346&pid=S2183-3575202000020001200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Cowling, E. (2009). Competition and collaboration: Picasso and the old masters. In C. Riopelle &amp; A. Robbins, <i>Cat&aacute;logo Picasso:</i> <i>challenging the past </i>(pp. 11-23)<i>.</i> Londres: The National Gallery.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024348&pid=S2183-3575202000020001200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Crespo, N. (2019, 20 de agosto). Luc Tuymans: a persist&ecirc;ncia pol&iacute;tica da pintura. <i>P&uacute;blico - &Iacute;psilon</i>, pp. 24-25.</p>     <!-- ref --><p>Curado, A. L. (2008). <i>Mulheres em Atenas</i>. Lisboa: S&aacute; da Costa Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024351&pid=S2183-3575202000020001200008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Danto, A. C. (1964). The artworld. <i>The Journal of Philosophy</i>, <i>61</i>(19), 571-584.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024353&pid=S2183-3575202000020001200009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Debord, G. (2018). <i>La soci&eacute;t&eacute; du spectacle</i>. Paris: Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024355&pid=S2183-3575202000020001200010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Dickerman, L. (2000). Camera obscura: socialist realism in the shadow of photography. <i>The MIT Press</i>, <i>93,</i> 138-153.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024357&pid=S2183-3575202000020001200011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>D&rsquo; Orey, C. (2007). <i>O que &eacute; a Arte? A perspectiva anal&iacute;tica</i>. Lisboa: Dinalivro.</p>     <!-- ref --><p>Duchamp, M. (1990). <i>O engenheiro do tempo perdido, entrevistas com Pierre Cabanne</i>. Lisboa: Ass&iacute;rio &amp; Alvim.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024360&pid=S2183-3575202000020001200013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Dyck, A. R. (2001). Dressing to kill: attire as a proof and means of characterization in Cicero&rsquo;s speeches. <i>Arethusa</i>, <i>34</i>(1), 119-130. Retirado de <a href="http://www.jstor.org/stable/779160" target="_blank">http://www.jstor.org/stable/779160</a></p>     <!-- ref --><p>Eco, U. (2004). <i>Os limites da interpreta&ccedil;&atilde;o</i>. Lisboa: Difel.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024363&pid=S2183-3575202000020001200015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Fellini, F. (Realizador). (1963). <i>8 &frac12; </i>[Filme]. Roma: CSC &ndash; Cineteca Nazionale.</p>     <!-- ref --><p>Freund, G. (1995). <i>Fotografia e sociedade.</i> Lisboa: Vega.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024366&pid=S2183-3575202000020001200016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Gayford, M., Holborn, M. &amp; Dawson, D. (2018). <i>Lucian Freud</i>. Londres, Nova Iorque: Phaidon Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024368&pid=S2183-3575202000020001200017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Gessen, M. (2018, 15 de julho). The photo book that captured how the soviet regime made the truth disappear. <i>The</i> <i>New Yorker</i>. Retirado de <a href="https://www.newyorker.com/culture/photo-booth/the-photo-book-that-captured-how-the-soviet-regime-made-the-truth-disappear" target="_blank">https://www.newyorker.com/culture/photo-booth/the-photo-book-that-captured-how-the-soviet-regime-made-the-truth-disappear</a></p>     <!-- ref --><p>G&oacute;rgias. (1993). <i>Testemunhos e fragmentos.</i> Lisboa: Colibri.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024371&pid=S2183-3575202000020001200018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Gortemaker, H. B. (2012). <i>Eva Braun: life with Hitler.</i> Londres: Vintage.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024373&pid=S2183-3575202000020001200019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Harrison, M. &amp; Daniels, R. (2016). <i>Francis Bacon: catalogue raisonn&eacute;</i>. Londres: Estate of Francis Bacon.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024375&pid=S2183-3575202000020001200020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Hoffmann, H. (1932). <i>Hitler wie ihn keiner kennt</i>. Berlin: Verlag und Vertriebs-Gesellschaft M. B. H.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024377&pid=S2183-3575202000020001200021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>J&uacute;nior, M. A. (2008). Efic&aacute;cia ret&oacute;rica: a palavra e a imagem. <i>Revista Rh&ecirc;torik&ecirc;</i>. Retirado de <a href="http://www.rhetorike.ubi.pt/00/pdf/alexandre-junior-eficacia-retorica.pdf" target="_blank">http://www.rhetorike.ubi.pt/00/pdf/alexandre-junior-eficacia-retorica.pdf</a></p>     <!-- ref --><p>Kapparis, K. (2017). <i>Prostitution in the ancient greek world.</i> Berlim: De Gruyter.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024380&pid=S2183-3575202000020001200022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Kloska, J. (Realizador). (2014) <i>The rise of the Nazi Party </i>[Document&aacute;rio]. Athena.</p>     <p>Kruszynski, A., Bezzola, T. &amp; Lingwood, J. (2010). <i>Thomas Struth: photographs 1978&minus;2010</i>. Nova Iorque: The Monacelli Press.</p>     <!-- ref --><p>Milhazes, J. (2018). <i>Laurenti B&eacute;ria. O carrasco ao servi&ccedil;o de Estaline.</i> Lisboa: Oficina do Livro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024384&pid=S2183-3575202000020001200024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Montefiore, S. S. (2017). <i>Estaline. A corte do Czar vermelho</i>. Lisboa: Al&ecirc;theia Editores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024386&pid=S2183-3575202000020001200025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Moorhouse, R. (2014). Calling time on Hitler&rsquo;s Hoax. <i>History Today</i>, <i>64</i>(12), 7.</p>     <!-- ref --><p>Overy, R. (2016). <i>Os ditadores. A Alemanha de Hitler e a R&uacute;ssia de Estaline</i>. Lisboa: Bertrand Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024389&pid=S2183-3575202000020001200027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Pereira, M. H. R. (1971). <i>Helade, antologia da cultura grega</i>. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024391&pid=S2183-3575202000020001200028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Pina, L. (1984). John Ford &ndash; a luz e o olhar<i>. </i>In<i> Cat&aacute;logo John Ford</i>. Lisboa: Cinemateca Portuguesa/Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian.</p>     <p>Pisch, A. (2016). The personality cult of Stalin in Soviet posters, 1929 - 1953: archetypes, inventions and fabrications. <i>ANU Pres</i>s. Retirado de <a href="http://press-%20files.anu.edu.au/downloads/press/n2129/html/cover.xhtml?referer=2129&amp;page=0#" target="_blank">http://press- files.anu.edu.au/downloads/press/n2129/html/cover.xhtml?referer=2129&amp;page=0#</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Reust, H. R. (2006). Penumbra &ndash; Um turno da noite. In <i>Cat&aacute;logo</i> <i>Dusk/Penumbra</i>. Porto: Museu de Arte Contempor&acirc;nea de Serralves.</p>     <p>Rosenbaum, R. (2012, 03 de setembro). Hitler&rsquo;s doomed angel. <i>Vanity Fair</i>. Retirado de <a href="https://www.vanityfair.com/news/1992/04/hitlers-doomed-angel" target="_blank">https://www.vanityfair.com/news/1992/04/hitlers-doomed-angel</a></p>     <p>Siegal, N. (2019, 21 de mar&ccedil;o). Luc Tuymans, master of moral complexities, tries something new. <i>The New York Times</i>. Retirado de <a href="https://www.nytimes.com/2019/03/21/arts/design/luc-tuymans-palazzo-grassi-mosaic-la-pelle.html" target="_blank">https://www.nytimes.com/2019/03/21/arts/design/luc-tuymans-palazzo-grassi-mosaic-la-pelle.html</a>.</p>     <!-- ref --><p>Sullivan, R. (2016). A filha de Estaline. A vida extraordin&aacute;ria e tumultuosa de Svetlana Alliluyeeva. Lisboa: Temas e Debates/C&iacute;rculo dos Leitores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024398&pid=S2183-3575202000020001200031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Tuymans, L. (2006). Sobre a imagem<i>. </i>In<i> Cat&aacute;logo</i> <i>Dusk/Penumbra</i>. Porto: Museu de Arte Contempor&acirc;nea de Serralves.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024400&pid=S2183-3575202000020001200032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Zelizer, B. (2010). How news images move the public. USA: Oxford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024402&pid=S2183-3575202000020001200033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Zelizer. B. (2018). Crise, incerteza e jornalismo. <i>Electra</i>, <i>4</i>, 89-106.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024404&pid=S2183-3575202000020001200034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas biogr&aacute;ficas</b></p>     <p>Eduardo Barroso &eacute; Professor Catedr&aacute;tico de Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o na Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas e Sociais da Universidade Fernando Pessoa. &Eacute; investigador do LabCom da Universidade da Beira Interior. Obteve o t&iacute;tulo de Agregado pela Faculdade de Letras e Artes Universidade da Beira Interior (2009). Doutor em Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o pela Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2002), licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1986). Programador cultural e art&iacute;stico em diversas institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e privadas. Presidiu ao centro de espet&aacute;culos Coliseu Porto, nomeado pelo Munic&iacute;pio do Porto, Minist&eacute;rio da Cultura e &Aacute;rea Metropolitana do Porto (2014-20). Foi o primeiro diretor do Teatro Nacional S. Jo&atilde;o (1992-95). Foi consultor do SBAL (Servi&ccedil;o de Bibliotecas e Apoio &agrave; Leitura) da Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian, foi jornalista profissional e integrou o painel de j&uacute;ris do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA). Autor de uma dezena de livros e mais de uma centena cat&aacute;logos e artigos no &acirc;mbito da est&eacute;tica, artes pl&aacute;sticas, cinema e an&aacute;lise dos m&eacute;dia. Comentador do Jornal 2 da RTP.</p>     <p>ORCID: <a href="https://orcid.org/0000-0002-3788-8459" target="_blank">https://orcid.org/0000-0002-3788-8459</a></p>     <p>Email: <a href="mailto:epb@ufp.edu.pt">epb@ufp.edu.pt</a></p>     <p>Morada: Universidade Fernando Pessoa, Pra&ccedil;a 9 de Abril, 349, 4249-004 Porto</p>     <p>Rui Estrada &eacute; doutor em Teoria da Literatura pela Faculdade de Letras de Lisboa. Professor catedr&aacute;tico da Universidade Fernando Pessoa. Investigador integrado do CITCEM (Faculdade de Letras da Universidade do Porto). Pr&eacute;mio Pen Club Ensaio 2002. Quatro livros publicados (dois em l&iacute;ngua inglesa), seis editados e v&aacute;rios ensaios e cap&iacute;tulos de livros publicados em revistas/obras nacionais e internacionais com arbitragem cient&iacute;fica.</p>     <p>ORCID: <a href="https://orcid.org/0000-0002-8076-6692" target="_blank">https://orcid.org/0000-0002-8076-6692</a></p>     <p>Email: <a href="mailto:restrada@ufp.edu.pt">restrada@ufp.edu.pt</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Morada: Universidade Fernando Pessoa, Pra&ccedil;a 9 de Abril, 349, 4249-004 Porto</p>     <p>Teresa Toldy &eacute; doutorada em Teologia pela Philosophisch-Theologische Hochschule Sankt Georgen (Frankfurt), Mestre em Teologia pela Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa, universidade onde se licenciou na mesma &aacute;rea. Possui um p&oacute;s-doutoramento em Estudos Sociais pela Universidade de Coimbra (Centro de Estudos Sociais). &Eacute; Professora Associada com Agrega&ccedil;&atilde;o em Estudos Sociais na Universidade Fernando Pessoa (Porto), onde ensina &Eacute;tica em v&aacute;rias &aacute;reas das Ci&ecirc;ncias Humanas e Sociais. &Eacute; investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra centrando-se a sua investiga&ccedil;&atilde;o nas quest&otilde;es do g&eacute;nero e da religi&atilde;o, &aacute;reas nas quais publica. Publica ainda na &aacute;rea da &eacute;tica.</p>     <p>ORCID: <a href="https://orcid.org/0000-0002-2299-3504" target="_blank">https://orcid.org/0000-0002-2299-3504</a></p>     <p>Email: <a href="mailto:toldy@ufp.edu.pt">toldy@ufp.edu.pt</a></p>     <p>Morada: Universidade Fernando Pessoa, Pra&ccedil;a 9 de Abril, 349, 4249-004 Porto</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Submetido: 14/01/2020</b></p>     <p><b>Aceite: 06/07/2020</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> &ldquo;A <i>hetaira </i>n&atilde;o era identificada como uma simples prostituta, mas como uma mulher de amores livres. Tinha uma vida muito mais independente do que a da esposa leg&iacute;tima e podia ser objecto de prest&iacute;gio&rdquo; (Curado, 2008, p. 380).</p>     <p><Sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></Sup> H&aacute; um longo artigo na Revista <i>Vanity Fair </i>do jornalista Ron Rosenbaum (2012), intitulado &ldquo;Hitler&rsquo;s doomed angel&rdquo;, que &eacute; um bom ponto de partida para perceber as in&uacute;meras especula&ccedil;&otilde;es acerca da morte de Geli e da rela&ccedil;&atilde;o que teria com o tio. Apenas algumas hip&oacute;teses de que fala o artigo: foi um acidente lament&aacute;vel, Geli n&atilde;o suportou as parafilias do tio, Geli estava gr&aacute;vida do tio ou de um professor judeu, era uma amea&ccedil;a para o partido, etc.</p>     <p><Sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></Sup> Para a fase de terror e a persegui&ccedil;&atilde;o de pessoas individuais ou grupos (como, por ex., m&eacute;dicos) ver as obras j&aacute; referidas.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> A mesma fotografia aparece na obra de Sullivan duas vezes: referindo-se &agrave; data em que foi tirada e ao destino, nos anos 40, de cada uma das pessoas que se encontram na mesma (Sullivan, 2016, pp. 7-131).</p>     <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> Embora a fotografia aqui apresentada seja, eventualmente, a mais conhecida, existem muitas outras imagens nas quais Trotsky &eacute; eliminado, assim como outras figuras que deixam de ser consideradas fi&eacute;is ao regime, melhor, fi&eacute;is a Estaline &ndash; a figura que definia o regime e tinha poder sobre a morte e a vida de algu&eacute;m. Basta pensar, por exemplo, na elimina&ccedil;&atilde;o de Nikolai Yezhov numa fotografia com Estaline (Gessen, 2018).</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> Para uma an&aacute;lise de uma outra forma de propaganda utilizada durante a ditadura de Estaline (nomeadamente, o cartaz), ver o estudo de Pisch (2016).</p>     <p><Sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></Sup> &ldquo;A fotografia, origin&aacute;ria da coopera&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia e de novas necessidades de express&otilde;es art&iacute;sticas, tornou-se logo &agrave; nascen&ccedil;a objeto de violentos lit&iacute;gios. Saber se a m&aacute;quina fotogr&aacute;fica era apenas um instrumento t&eacute;cnico, capaz de reproduzir de modo puramente mec&acirc;nico as apar&ecirc;ncias, ou se era preciso consider&aacute;-la como um verdadeiro meio para exprimir uma sensa&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica individual, inflamava os esp&iacute;ritos dos artistas, cr&iacute;ticos e fot&oacute;grafos&rdquo;. E a quest&atilde;o alastrou &agrave; esfera teol&oacute;gica com a Igreja a defender que nenhuma m&aacute;quina podia fixar a imagem do Homem criado &agrave; imagem e semelhan&ccedil;a de Deus (Freund, 1995, p. 79). Esta cita&ccedil;&atilde;o expressa de modo preciso o cerne da quest&atilde;o atual dos usos e das pr&aacute;ticas fotogr&aacute;ficas, numa &eacute;poca em que sujeitos an&oacute;nimos utilizando dispositivos massificados criam registos fotogr&aacute;ficos e videogr&aacute;ficos com pertin&ecirc;ncia e por vezes interesse est&eacute;tico. S&atilde;o justamente necessidades e acasos individuais de pessoas comuns que as aproximam agora de uma ideia de arte para todos que encontra o seu reverso, ou a sua proje&ccedil;&atilde;o especular, em pr&aacute;ticas de elites intelectuais e art&iacute;sticas. Estas ocupam os espa&ccedil;os sociais e culturais daquilo a que Danto designa por &ldquo;O Mundo da Arte&rdquo; (Danto, 1961). No mesmo sentido move-se a reflex&atilde;o dos pensadores da est&eacute;tica anal&iacute;tica (Danto, Jerome Stolnitz, Morris Weitz, George Dickie, Nelson Gooddman) ao convidarem a refletir na resposta &agrave; quest&atilde;o &ldquo;quando h&aacute; arte?&rdquo;, em vez de dirigirem uma interroga&ccedil;&atilde;o &agrave; ess&ecirc;ncia da arte repercutida na pergunta &ldquo;o que &eacute; arte?&rdquo;. Ver a prop&oacute;sito, entre outros, a antologia de Carmo d&rsquo;Orey (2007). Numa &eacute;poca em que tudo se confunde e uma fotografia num iPhone parece igual &agrave; de uma Leica disparada por um dos grandes fot&oacute;grafos da Magnum, decidir em que situa&ccedil;&atilde;o h&aacute; arte &eacute; determinante. As fotografias da Ag&ecirc;ncia Magnun (Robert Capa, Cartier Bresson, etc&hellip;) possuem o estatuto de obras de arte.</p>     <p><Sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></Sup> Entre fevereiro e junho de 2009, The national gallery, de Londres, organiza uma important&iacute;ssima exposi&ccedil;&atilde;o &ldquo;Picasso: challenging the past&rdquo;. Re&uacute;nem-se pela primeira e &uacute;nica vez obras do artista andaluz provenientes de diversas cole&ccedil;&otilde;es e museus subordinados ao di&aacute;logo com pe&ccedil;as da autoria de pintores que Picasso admirava particularmente e que o perturbavam criativamente. Para assinalar este acontecimento, o museu brit&acirc;nico publica um cat&aacute;logo com ensaios de v&aacute;rios especialistas e acad&eacute;micos, entre eles o de Elizabeth Cowling, &ldquo;Competition and collaboration: Picasso and the old masters&rdquo;.</p>     <p><Sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></Sup> Ver a prop&oacute;sito a edi&ccedil;&atilde;o Thomas Struth Photographs, 1978-2010 (2010), dispon&iacute;vel em <a href="http://www.thomasstruth32.com/smallsize/index.html" target="_blank">http://www.thomasstruth32.com/smallsize/index.html</a></p>     <p><Sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></Sup> Sobre Bacon foi publicado em 2016 em cinco volumes o cat&aacute;logo <i>raisonn&eacute;</i> da sua obra editado por Martin Harrison, edi&ccedil;&atilde;o <i>The Estate of Francis Bacon</i> (2016). O cat&aacute;logo <i>raisonn&eacute;</i> de Lucien Freud resulta da colabora&ccedil;&atilde;o entre David Dawson, diretor do Arquivo Lucien Freud, que trabalhou de forma muito direta com o pintor e foi seu modelo, o cr&iacute;tico Martin Gayford, e o editor Mark Holborn. A obra em dois volumes foi publicada pela Phaidon, Londres.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><Sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></Sup> Ver <a href="https://www.palazzograssi.it/en/about/collection/" target="_blank">https://www.palazzograssi.it/en/about/collection/</a></p>     <p><Sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></Sup> Ver a prop&oacute;sito o guia da visita com textos de Caroline Bourgeois dispon&iacute;vel em <a href="https://www.palazzograssi.it/site/assets/files/7599/guidina_la_pelle_tuymans_fra.pd" target="_blank">https://www.palazzograssi.it/site/assets/files/7599/guidina_la_pelle_tuymans_fra.pd</a>. Exposi&ccedil;&atilde;o patente ao p&uacute;blico entre 24/03/2019 e 06/01/2020, comissariada por Caroline Bourgeois e Marc Donnadieu; o cat&aacute;logo inclui textos, para al&eacute;m do deste &uacute;ltimo, de Jarrett Earnest e Patricia Falgui&egrave;res (2019). Ver tamb&eacute;m entre outras a recens&atilde;o cr&iacute;tica de Nuno Crespo (2019), &ldquo;Luc Tuymans: a persist&ecirc;ncia pol&iacute;tica da pintura&rdquo;.</p>     <p><Sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></Sup> Luc Tuymans &ldquo;Dusk/Penumbra&rdquo; patente ao p&uacute;blico entre 14/07/2006 e 14/10/2006 na Casa de Serralaves, Porto, Portugal, Museu de Arte Contempor&acirc;nea de Serralves. Ver especificamente o texto de apresenta&ccedil;&atilde;o do ent&atilde;o diretor do museu, Jo&atilde;o Fernandes, que salienta o confronto entre um lugar/espa&ccedil;o cujo significado n&atilde;o se apreende imediatamente e cujo sentido est&aacute; sempre na imin&ecirc;ncia de ser tra&iacute;do, na sua representa&ccedil;&atilde;o. A prop&oacute;sito desta situa&ccedil;&atilde;o recorde-se que Tuymans pretendeu levar e expor um conjunto de pinturas suas para o espa&ccedil;o onde a reuni&atilde;o nazi que definiu a &ldquo;solu&ccedil;&atilde;o final&rdquo;, presidida por Reinhard Heydrich (chefe das SS), teve lugar na Villa am Grossen Wannsee. Numa das pinturas v&ecirc;-se uma fotografia de Heydrich proveniente de uma antiga revista de propaganda nazi. Como notava Fernandes, &ldquo;a inten&ccedil;&atilde;o original de Tuymans ter&aacute; sido quebrar a cadeia de significantes e estabelecer um confronto violento das suas pinturas com um dos cen&aacute;rios originais de uma realidade que desafia a representa&ccedil;&atilde;o&rdquo; (cat&aacute;logo citado, s. p. Museu de Arte Contempor&acirc;nea de Serralves, Porto, 2006). Exposi&ccedil;&atilde;o comissariada por Hans Rudolf Reust que escreve no cat&aacute;logo aqui referido: &ldquo;o que resta &eacute; o fasc&iacute;nio sem palavras de pinturas singulares, que n&atilde;o deixam ningu&eacute;m tranquilo, porque o processo do pensamento, com as suas lacunas minuciosamente pintadas, n&atilde;o pode nunca ser encerrado&rdquo;. O inacabado, a Hist&oacute;ria &agrave; qual somos devolvidos, para preencher (outras dolorosas e tr&aacute;gicas) lacunas da mem&oacute;ria.</p>     <p><Sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></Sup> Ver cat&aacute;logo John Ford, dire&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria Jo&atilde;o B&eacute;nard da Costa, publicado por ocasi&atilde;o da apresenta&ccedil;&atilde;o pela Cinemateca Portuguesa e pela Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian (Lisboa, Portugal) do ciclo dedicado ao cineasta John Ford, com apoio e alto patroc&iacute;nio da Embaixada dos Estados Unidos da Am&eacute;rica em Lisboa, novembro/fevereiro de 1984. A refer&ecirc;ncia a Mizoguchi decorre especificamente do texto de Lu&iacute;s de Pina (1984) &ldquo;John Ford &ndash; a Luz e o Olhar&rdquo;, que aquele historiador do cinema, cr&iacute;tico e ex-diretor da Cinemateca Portuguesa, escreveu para o efeito.</p>      ]]></body><back>
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