<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>2183-3575</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Comunicação e Sociedade]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Comunicação e Sociedade]]></abbrev-journal-title>
<issn>2183-3575</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade - Universidade do Minho]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S2183-35752020000200013</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.17231/comsoc.38(2020).2596</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A despesa improdutiva e a mercadoria espetacular]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Unproductive expenditure and spectacular merchandise]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Susca]]></surname>
<given-names><![CDATA[Vincenzo]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A1"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="AA1">
<institution><![CDATA[,Université Paul-Valéry Montpellier Institut de Recherche en Sociologie et Anthropologie Laboratoire d'études et de recherches en Sociologie et en Ethnologie de Montpellier]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
<country>França</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2020</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2020</year>
</pub-date>
<volume>38</volume>
<fpage>243</fpage>
<lpage>254</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S2183-35752020000200013&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S2183-35752020000200013&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S2183-35752020000200013&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Para apreender corretamente o espírito de nosso tempo, é necessário analisar em profundidade e na superfície a correspondência contemporânea entre o espetáculo e o consumo: consumo espetacular e espetáculo de consumo. A cadeia das mercadorias-signos (Baudrillard, 1968), meio e veículo de adesão ao sistema produtivo e político, assume um valor extraordinário a partir do momento em que acolhe tudo o que é não-racional numa sociedade racionalizada, bem como o aspeto anti-utilitarista de um social focado, precisamente, na lógica do utilitarismo. Nesse sentido, o ciclo dos consumos espetaculares coincide com o consumo da individualidade burguesa, enquanto a massa que se tornou público se torna a matriz na qual o sujeito se perde para amortecer o peso das mudanças e exprimir as pulsões marginalizadas pelo sistema social.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In order to fully grasp the spirit of our times, we need to analyse fully the contemporary relationship between spectacle and consumption: spectacular consumption and the spectacle of consumption. The chain of sign merchandise (Baudrillard, 1968) is simultaneously a mean and a vehicle of adherence to the productive and political system. It takes on extraordinary value from the moment it welcomes all that is non-rational in a rationalised society, as well as it embodies the anti-utilitarian aspect of a social system based solely on the logic of utilitarianism. In this sense, the cycle of spectacular consumption coincides with the consumption of bourgeois individuality, while the mass that has become public becomes the matrix in which the subject loses itself and cushions the weight of change in a way to express the impulses marginalized by the social system.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[espetáculo]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[imaginário]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[consumo]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[spectacle]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[imaginary]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[consumption]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>VARIA</b></p>     <p><b>A despesa improdutiva e a mercadoria espetacular</b></p>     <p><b>Unproductive expenditure and spectacular merchandise</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Vincenzo Susca</b></p>     <p><img src="/img/revistas/id_orcid.gif"> <a href="https://orcid.org/0000-0002-5489-6514" target="_blank">https://orcid.org/0000-0002-5489-6514</a></p>     
<p>Lersem - Laboratoire d&rsquo;&eacute;tudes et de recherches en Sociologie et en Ethnologie de Montpellier, Institut de Recherche en Sociologie et Anthropologie, Universit&eacute; Paul-Val&eacute;ry Montpellier, Fran&ccedil;a</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Para apreender corretamente o esp&iacute;rito de nosso tempo, &eacute; necess&aacute;rio analisar em profundidade e na superf&iacute;cie a correspond&ecirc;ncia contempor&acirc;nea entre o espet&aacute;culo e o consumo: consumo espetacular e espet&aacute;culo de consumo. A cadeia das mercadorias-signos (Baudrillard, 1968), meio e ve&iacute;culo de ades&atilde;o ao sistema produtivo e pol&iacute;tico, assume um valor extraordin&aacute;rio a partir do momento em que acolhe tudo o que &eacute; n&atilde;o-racional numa sociedade racionalizada, bem como o aspeto anti-utilitarista de um social focado, precisamente, na l&oacute;gica do utilitarismo. Nesse sentido, o ciclo dos consumos espetaculares coincide com o consumo da individualidade burguesa, enquanto a massa que se tornou p&uacute;blico se torna a matriz na qual o sujeito se perde para amortecer o peso das mudan&ccedil;as e exprimir as puls&otilde;es marginalizadas pelo sistema social.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Palavras-chave</b>: espet&aacute;culo; imagin&aacute;rio; consumo</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>In order to fully grasp the spirit of our times, we need to analyse fully the contemporary relationship between spectacle and consumption: spectacular consumption and the spectacle of consumption. The chain of sign merchandise (Baudrillard, 1968) is simultaneously a mean and a vehicle of adherence to the productive and political system. It takes on extraordinary value from the moment it welcomes all that is non-rational in a rationalised society, as well as it embodies the anti-utilitarian aspect of a social system based solely on the logic of utilitarianism. In this sense, the cycle of spectacular consumption coincides with the consumption of bourgeois individuality, while the mass that has become public becomes the matrix in which the subject loses itself and cushions the weight of change in a way to express the impulses marginalized by the social system.</p>     <p><b>Keywords.&nbsp;</b>spectacle; imaginary; consumption</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A mercadoria espectacular</b></p>     <p>O espet&aacute;culo apresenta-se ao citadino como uma distra&ccedil;&atilde;o da aliena&ccedil;&atilde;o para a qual &eacute; for&ccedil;ado a produzir mercadorias; no entanto, &eacute; somente a partir do momento em que se vincula &agrave; atividade produtiva e &agrave;s suas exig&ecirc;ncias que ele consegue uma liga&ccedil;&atilde;o perfeita entre tempo de trabalho e lazer, o segundo a tornar-se a linfa vital do primeiro. Quando uma tal rede de correspond&ecirc;ncias rec&iacute;procas &eacute; instaurada, todo o espet&aacute;culo &eacute; mercantilizado e toda a mercadoria &eacute; espetacularizada. O valor de uso ou de troca do objeto perde a centralidade e torna-se o apan&aacute;gio do valor simb&oacute;lico e, mais exatamente, em virtude da possibilidade de encenar, por meio de diferentes ferramentas ou ecr&atilde;s, a natureza do corpo social, dos seus relacionamentos, dos seus sonhos e at&eacute; das suas alucina&ccedil;&otilde;es. &Eacute; por essa raz&atilde;o que o cinema representa o momento fundamental em que se realiza a confus&atilde;o entre mercadoria e espet&aacute;culo, a primeira a tornar-se o objeto do segundo e vice-versa, mas acima de tudo, os dois a funcionar como os recipientes de um conte&uacute;do social: o p&uacute;blico.</p>     <p>A hist&oacute;ria da ind&uacute;stria cultural sobrep&otilde;e-se assim &agrave; hist&oacute;ria, a partir do momento em que o corpo social encontra no bin&oacute;mio consumo-espet&aacute;culo o eixo sobre o qual orientar o estar-juntos, para al&eacute;m dos imperativos promovidos pela ordem institu&iacute;da. Os turbilh&otilde;es de comunica&ccedil;&atilde;o que a fantasmagoria da mercadoria espetacular inaugura, se, por um lado, fazem com que o citadino se distraia da condi&ccedil;&atilde;o alienada na qual se encontra e para a qual &eacute;, por&eacute;m, for&ccedil;ado, por outro lado, confortam os esp&iacute;ritos mais baixos, materiais-corporais (Bakhtine, 1965/1998), portanto, antissociais, das massas, tecendo novas redes de solidariedade horizontal entre os grupos sociais e relativizando os valores em que o sistema encontra a sua base. E o primeiro de entre todos, &eacute; o princ&iacute;pio de utilidade.</p>     <p>O que acreditamos ser poss&iacute;vel, pelo menos em princ&iacute;pio, &eacute; que se torne funcional a dimens&atilde;o do espet&aacute;culo e do consumo que a utilidade promove, na ordem produtiva e nas suas exig&ecirc;ncias econ&oacute;micas, pol&iacute;ticas e morais; mais ainda, esse campo deve permanecer uma refer&ecirc;ncia constante do valor do trabalho e das suas necessidades, permanecendo uma esp&eacute;cie de par&ecirc;ntese que remete sempre para Prometeu. Toda a energia social deve tender e ser projetada para esse objetivo e suas raz&otilde;es. Como verificamos, &eacute; por essa raz&atilde;o que o cinema se apresenta como &ldquo;arte de f&aacute;brica&rdquo; (Abruzzese, 1973/2001). De acordo com essa mesma l&oacute;gica, o p&uacute;blico da ind&uacute;stria cultural &eacute; prefigurado no cen&aacute;rio das grandes exposi&ccedil;&otilde;es universais, l&aacute; onde as massas s&atilde;o chamadas a virar-se com espanto e admira&ccedil;&atilde;o para os prod&iacute;gios da t&eacute;cnica, isto &eacute;, do seu trabalho alienado.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; nesta base que se nutre o fetichismo da mercadoria, dirigido, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia e em m&uacute;ltiplos aspetos, ao corpo do seu produtor, &agrave;quele que constitui a sua fonte. Acabamos, assim, mais ou menos diretamente, a adorar o que fazemos. Nesse sentido, as redes sociais &ndash; atrav&eacute;s das quais acabamos por adorar o que somos &ndash; s&atilde;o apenas a realiza&ccedil;&atilde;o de um longo processo destinado a tornar o usu&aacute;rio no verdadeiro fetiche do ambiente social. Esta hist&oacute;ria representa constantemente, ontem como hoje, um elemento contradit&oacute;rio, perigoso para a ordem que o gera. Se &eacute; verdade que a cadeia da mercadoria fortalece a ind&uacute;stria a que preside, as suas fantasmagorias, em particular a partir do momento em que se ligam aos dispositivos on&iacute;ricos do espet&aacute;culo, desencadeiam ao mesmo tempo desejos e necessidades nos quais a felicidade do corpo social tende a transcender as fronteiras da f&aacute;brica, a projetar-se em mundos imagin&aacute;rios em que todo o objeto n&atilde;o &eacute; mais uma refer&ecirc;ncia ao seu valor mercantil, mas uma emo&ccedil;&atilde;o, no corpo que o interioriza e integra. No entanto, a pr&oacute;pria origem da sua supera&ccedil;&atilde;o est&aacute; inscrita na ind&uacute;stria cultural e na sociedade de consumo. Apesar disso, aqueles que tratam de promover a estrutura pol&iacute;tico-produtiva aproveitam-se arduamente do mito produtivista, censurando os prazeres dissolvidos aos quais os excessos espetaculares d&atilde;o acesso. A tal ponto que</p>     <p>     <blockquote>qualquer ju&iacute;zo geral sobre a atividade social subentende o princ&iacute;pio de que todo o esfor&ccedil;o particular deve ser redut&iacute;vel, para ser v&aacute;lido, &agrave;s necessidades fundamentais da produ&ccedil;&atilde;o e da conserva&ccedil;&atilde;o. O prazer, quer se trate de arte, de deboche admitido ou de jogo, &eacute; reduzido, nas representa&ccedil;&otilde;es intelectuais que est&atilde;o em vigor, a uma concess&atilde;o, isto &eacute;, a um abandono, cujo papel seria subsidi&aacute;rio. A parte mais apreci&aacute;vel da vida &eacute; dada como a condi&ccedil;&atilde;o &ndash; e at&eacute; mesmo como a condi&ccedil;&atilde;o lament&aacute;vel &ndash; da atividade social produtiva. (Bataille, 1949/2003, p. 26)         <p></p> </blockquote>     <p>O trabalho e a raz&atilde;o devem, de fato, ser os fundamentos de um estar-juntos, inscrito no quadro de um projeto abstrato baseado na produ&ccedil;&atilde;o e no sacrif&iacute;cio, tendo a sua proje&ccedil;&atilde;o no futuro e o seu substrato identit&aacute;rio numa ideologia. A cadeia dos objetos produzidos serve para estabelecer rela&ccedil;&otilde;es entre &ldquo;indiv&iacute;duos&rdquo;, numa refer&ecirc;ncia cont&iacute;nua a princ&iacute;pios que os transcendem: o contrato social, a ordem pol&iacute;tico-produtiva das na&ccedil;&otilde;es, a sociedade perfeita&hellip; Dessa forma, a potencialidade do social, que consiste em fazer corpo e em descobrir-se como um corpo comum, bem como as puls&otilde;es que o habitam e que constituem o seu imagin&aacute;rio profundo, ficam entorpecidas e sempre mantidas &agrave; dist&acirc;ncia desejada. Com a concretiza&ccedil;&atilde;o da modernidade, fica assim inaugurada, como grande novidade hist&oacute;rica, uma maneira de nos relacionarmos com os objetos e as pessoas, uma maneira racionalizada, utilitarista e projetada em dire&ccedil;&atilde;o a uma finalidade superior, comparativamente com o &ldquo;habitar&rdquo; do corpo social.</p>     <p>     <blockquote>Nas economias e nos direitos que precederam os nossos, quase nunca observamos simples trocas de bens, de riquezas e de produtos no curso de uma transa&ccedil;&atilde;o feita entre indiv&iacute;duos. Primeiro, n&atilde;o s&atilde;o indiv&iacute;duos, mas comunidades que se obrigam mutuamente, que trocam e contratam. (&hellip;) Al&eacute;m disso, o que eles trocam n&atilde;o s&atilde;o exclusivamente bens e riquezas (&hellip;). S&atilde;o antes de mais cortesias, festins, rituais, presta&ccedil;&otilde;es militares, mulheres, crian&ccedil;as, dan&ccedil;as, festas, feiras, relativamente aos quais o mercado constitui apenas um dos termos de um contrato muito mais geral e muito mais permanente. (Mauss, 1934/2004, pp. 150-151)         <p></p> </blockquote>     <p>A troca de bens, no contexto ocidental, torna-se o meio e o fim para obter uma m&aacute;quina capaz de separar indiv&iacute;duos, para uni-los apenas quando usados na perpetua&ccedil;&atilde;o da estrutura. As dan&ccedil;as, os espet&aacute;culos, as feiras e todas essas institui&ccedil;&otilde;es que, na era pr&eacute;-moderna, refor&ccedil;avam o estar-juntos de um corpo social (Durkheim, 1912/2005), s&atilde;o relativizadas e dobradas para serem colocados ao servi&ccedil;o da marcha triunfal da raz&atilde;o e do progresso. Todos os discursos proferidos pelo sistema pol&iacute;tico e pelos seus funcion&aacute;rios tendem a nomear e, portanto, a construir uma realidade social em conformidade com um crit&eacute;rio de equil&iacute;brio e de utilidade, que faz abstra&ccedil;&atilde;o de qualquer desperd&iacute;cio, n&atilde;o atividade ou excesso, que possam prejudicar as institui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;tico-produtivas. Trata-se de instintos que sempre constitu&iacute;ram a maneira pela qual o corpo social se fundiu e, atrav&eacute;s do transe, da festa ou do desperd&iacute;cio, deu vida a esse vai e vem entre si e o outro (a divindade, a natureza, o estrangeiro).</p>     <p>O n&uacute;cleo duro da cultura moderna domina esses instintos de base, funde a sua pr&oacute;pria moral nesta domina&ccedil;&atilde;o e, atrav&eacute;s do exerc&iacute;cio de seu poder/saber, constr&oacute;i discursos, estigmatizando todo o desperd&iacute;cio improdutivo. Por outro lado,</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>     <blockquote>&eacute; verdade que a experi&ecirc;ncia pessoal, se se tratar de um homem jovem, capaz de desperdi&ccedil;ar e de destruir sem raz&atilde;o, desmente uma vez e outra essa conce&ccedil;&atilde;o miser&aacute;vel. Mas, assim como ele esbanja e destr&oacute;i sem prestar a m&iacute;nima aten&ccedil;&atilde;o a isso, o mais l&uacute;cido ignora o porqu&ecirc;, ou imagina-se doente; &eacute; incapaz de justificar de forma utilit&aacute;ria a sua conduta e n&atilde;o lhe ocorre a ideia de que uma sociedade humana possa ter um interesse, tal como ele pr&oacute;prio, nas perdas consider&aacute;veis, nas cat&aacute;strofes que provocam, de acordo com necessidades definidas, depress&otilde;es tumultuadas, crises de ansiedade e, em &uacute;ltima an&aacute;lise, um certo estado orgi&aacute;stico. (Bataille, 1949/2003, p. 26)         <p></p> </blockquote>     <p>A ind&uacute;stria cultural serve para ligar as puls&otilde;es das massas que v&atilde;o al&eacute;m da ordem burguesa ao n&iacute;vel do seu sistema produtivo e moral, permitindo ao social viver certas paix&otilde;es potencialmente desenfreadas com modera&ccedil;&atilde;o, e mesmo com comedimento, simulando uma despesa imposs&iacute;vel de experimentar concretamente, porque dotada de uma alma destrutiva em rela&ccedil;&atilde;o aos textos e contextos da vida moderna.</p>     <p>     <blockquote>&Eacute; prov&aacute;vel que o Partido tenha incentivado a prostitui&ccedil;&atilde;o como uma v&aacute;lvula de seguran&ccedil;a para instintos que s&atilde;o imposs&iacute;veis de reprimir completamente. Um pouco de deboche n&atilde;o significa grande coisa, desde que seja praticado em segredo e sem alegria. (Orwell, 2008, p. 70)         <p></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A multid&atilde;o torna-se <i>medium</i></b></p>     <p>O amontoado das massas nas metr&oacute;poles, a intensifica&ccedil;&atilde;o dos fluxos de comunica&ccedil;&atilde;o e dos corpos &ndash; em particular na dimens&atilde;o noturna e fora do trabalho &ndash; desencadearam pr&aacute;ticas que tendem a relativizar os imperativos categ&oacute;ricos, a desarticular o sistema utilit&aacute;rio e com ele a espinha dorsal da ordem pol&iacute;tica. Sempre que esses agrupamentos acontecem, o imagin&aacute;rio enche-se de figuras que aludem constantemente ao desperd&iacute;cio, &agrave; dissolu&ccedil;&atilde;o, &agrave; morte ou a qualquer ato que carrega consigo a sabotagem do sistema. &Eacute; assim que proliferam as lendas metropolitanas que tecem o elogio dos grandes delinquentes e das prostitutas, aumentando o fasc&iacute;nio e o medo ao estrangeiro, bem como o desejo de sair de si para perder-se em algo maior que o eu.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A partir do momento em que o estilo de vida metropolitano, bem como a sua extens&atilde;o nos territ&oacute;rios do imagin&aacute;rio coletivo, geram efervesc&ecirc;ncias urbanas e eletr&oacute;nicas, que fazem vibrar as massas, cobrindo com emo&ccedil;&otilde;es a moral institu&iacute;da e as suas economias, quando a ind&uacute;stria cultural assume o desafio de cristalizar os agentes do imagin&aacute;rio noturno, o indiv&iacute;duo que, segundo Bataille (1949/2003), n&atilde;o era capaz de imaginar uma ordem que n&atilde;o fosse utilit&aacute;ria e racionalista, come&ccedil;a a desvendar todas as potencialidades imanentes ao seu ser-a&iacute;, na massa. A fantasmagoria da mercadoria espetacular consegue, assim, por um lado, acompanhar os sonhos do indiv&iacute;duo, projetando-o para al&eacute;m da gaiola identit&aacute;ria em que est&aacute; preso e, por outro lado, confere um novo esplendor, uma outra vida, para al&eacute;m da economia, &agrave; cadeia dos objetos industriais. Era necess&aacute;rio dotar os objetos produzidos pela f&aacute;brica com uma aura capaz de acolher o corpo das massas, de ativar nele um jogo de trocas, de excita&ccedil;&otilde;es apaixonadas e de nostalgias.</p>     <p>Somente a dimens&atilde;o do espet&aacute;culo tornar&aacute; poss&iacute;vel essa conjun&ccedil;&atilde;o. A multid&atilde;o torna-se, assim, o <i>medium </i>(Rafele, 2010) para o qual todos os objetos e imagens devem remeter. Estes t&ecirc;m a miss&atilde;o de transmitir uma ordem simb&oacute;lica mais completa e densa, em compara&ccedil;&atilde;o com aquela que est&aacute; em vigor nas f&aacute;bricas, onde o indiv&iacute;duo prevalece sobre a massa. &Eacute; essa passagem delicada que lhe permite aceder a uma subjetividade diferente, a partir da qual o piv&ocirc; da estrutura pol&iacute;tico-social v&ecirc; as suas bases modificadas. Quando o deambulador, ou o desiludido entra na massa e desfruta da sua plenitude emocional (Benjamin, 1989/2006), toda a ordem do Leviat&atilde; &eacute; relativizada (Marramao, 2000) pela subjetividade que deveria submeter-se, de maneira ordenada, &agrave; sua pr&oacute;pria representa&ccedil;&atilde;o. O indiv&iacute;duo deixa de estar isolado, o contrato social que o une aos outros, apenas na medida em que se projetam juntos na transcend&ecirc;ncia do corpo soberano, &eacute; substitu&iacute;do por um cont&aacute;gio afetivo, que prevalece sobre tudo e sobre o &ldquo;todo&rdquo;.</p>     <p>     <blockquote>O deambulador encontra-se no limite, tanto da metr&oacute;pole como da burguesia. Nenhum dos dois venceu por enquanto; ele n&atilde;o se sente &agrave; vontade, nem numa nem noutra e refugia-se na multid&atilde;o. (&hellip;) A multid&atilde;o &eacute; o v&eacute;u atrav&eacute;s do qual a cidade bem conhecida aparece para o deambulador como uma fantasmagoria. Nesta fantasmagoria, a cidade &eacute; &agrave;s vezes paisagem e &agrave;s vezes quarto. (Benjamin 1955/2000, p. 155)         <p></p> </blockquote>     <p>O ciclo dos consumos espetaculares coincide com a consuma&ccedil;&atilde;o da individualidade burguesa, enquanto que a massa que se fez p&uacute;blico se torna a matriz em que o sujeito se perde para absorver o peso das mudan&ccedil;as e expressar as puls&otilde;es marginalizadas pelo sistema social. Se &eacute; verdade que a mercadoria espetacular se torna a sublima&ccedil;&atilde;o da mercadoria, n&atilde;o podemos ignorar o corol&aacute;rio de um deslize t&atilde;o radical: o deslocamento de planos que canalizam a energia societal em dire&ccedil;&atilde;o a ilus&otilde;es desencadeadas pelas imagens e pelos objetos, em vez de se refletir na catedral da f&aacute;brica ou da c&acirc;mara. Quando Debord (1988) escreve perspicazmente que &ldquo;o humanismo da mercadoria assume &lsquo;os prazeres e a humanidade&rsquo; do trabalhador, simplesmente porque a economia pol&iacute;tica pode e deve agora dominar essas esferas enquanto economia pol&iacute;tica&rdquo; (p. 71), esquece-se de acrescentar que &ldquo;o humanismo da mercadoria&rdquo; n&atilde;o segue apenas o sentido do sistema social, pelo contr&aacute;rio, torna-se capaz de mover novas peregrina&ccedil;&otilde;es inici&aacute;ticas por parte das massas, justamente porque lhes d&aacute;, embora na forma de uma simples ilus&atilde;o, a possibilidade de viver uma experi&ecirc;ncia diferente da dos sistemas sociais estabelecidos. D&aacute; vontade de ter f&eacute;rias, de ter estremecimentos apaixonados e sonhos, que n&atilde;o sejam redut&iacute;veis aos fins pol&iacute;ticos e produtivos institu&iacute;dos. Que sociedade, ali&aacute;s, n&atilde;o ficaria abalada e sacudida em profundidade pela prolifera&ccedil;&atilde;o de &ldquo;ilus&otilde;es&rdquo;?</p>     <p>Apesar da propaga&ccedil;&atilde;o mais inflex&iacute;vel e sistem&aacute;tica de imagens e mensagens vindas de cima, nenhum paradigma social, mesmo totalit&aacute;rio, conseguiu alguma vez impor um sentido privilegiado a tais alucina&ccedil;&otilde;es, prazeres e desvios simb&oacute;licos. O consumo e o espet&aacute;culo, portanto, servem o sistema apenas na medida em que sustentam a sua ordem econ&oacute;mica, enquanto que, no que se refere ao imagin&aacute;rio, tendem a constituir uma subjetividade, uma placenta intang&iacute;vel e idiossincr&aacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; moral institu&iacute;da. Aqui, a massa, com a sua fragmenta&ccedil;&atilde;o em tribos, redes ou grupos, prevalece sobre o indiv&iacute;duo, a pot&ecirc;ncia sobre o poder, a &eacute;tica da est&eacute;tica sobre a ideologia, a despesa improdutiva sobre o utilitarismo controlado (Joron, 2009). Por outro lado, o <i>homo </i>&oelig;co<i>nomicus </i>&eacute; tanto uma novidade na hist&oacute;ria quanto um sujeito ideal-t&iacute;pico, antes mesmo de se tornar efetivo. De acordo com Mauss, com efeito,</p>     <p>     <blockquote>s&atilde;o as nossas sociedades do Ocidente que, muito recentemente, fizeram do homem um &ldquo;animal econ&oacute;mico&rdquo;. Mas ainda n&atilde;o somos todos seres dessa &iacute;ndole. Nas nossas massas e nas nossas elites, a despesa pura e irracional &eacute; uma pr&aacute;tica comum; ainda &eacute; caracter&iacute;stica de alguns dos f&oacute;sseis da nossa nobreza. O <i>homo &oelig;conomicus</i> n&atilde;o est&aacute; atr&aacute;s de n&oacute;s, est&aacute; diante de n&oacute;s; tal como o homem da moral e do dever; tal como o homem da ci&ecirc;ncia e da raz&atilde;o. Durante muito tempo, o homem tem sido outra coisa; e &eacute; desde h&aacute; bem pouco tempo que &eacute; uma m&aacute;quina, dotado, para al&eacute;m disto, de uma m&aacute;quina de calcular. Ali&aacute;s, felizmente, ainda andamos afastados deste c&aacute;lculo utilit&aacute;rio constante e glacial. (Mauss, 1934/2004, p. 271)         <p></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O advento da ind&uacute;stria cultural coincide com o rompimento, nas profundezas da vida coletiva, da ades&atilde;o &agrave; ordem de valores da sociedade baseada no <i>leitmotiv </i>do progresso, do utilitarismo e da raz&atilde;o abstrata. A devassid&atilde;o que escapa dos recantos mais sombrios da metr&oacute;pole faz corpo com a massifica&ccedil;&atilde;o da sociedade e torna-se, de certo modo, o seu <i>incipit</i>, o seu fio condutor secreto. As emo&ccedil;&otilde;es descontroladas, os espet&aacute;culos, as alucina&ccedil;&otilde;es e as fantasmagorias tornam-se o p&atilde;o quotidiano das massas (Auclair, 1970), a ponto de levar os sistemas sociais a transigir ou a tentar manipul&aacute;-las. Ali&aacute;s, &eacute; interessante verificar os diferentes caminhos adotados pelos Estados Unidos e pela Europa: enquanto, no primeiro caso, o discurso da mercadoria e do espet&aacute;culo se torna a media&ccedil;&atilde;o e o motor do relacionamento entre o p&uacute;blico e os poderes, no segundo caso, &eacute; diretamente o pol&iacute;tico &ndash; nas suas vers&otilde;es totalit&aacute;rias &ndash; que incorpora, da maneira mais exacerbada, o princ&iacute;pio do espet&aacute;culo e da sua emotividade. Se, nos Estados Unidos, o discurso da mercadoria se torna o elo, embora prec&aacute;rio, entre massa e pol&iacute;tica, na It&aacute;lia, na Alemanha e na ex-Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, a pol&iacute;tica refreia a necessidade de extravasamento emocional e de banho imagin&aacute;rio, sentida pela massa, que se tornou p&uacute;blico. Assim como a mercadoria na Am&eacute;rica, o pol&iacute;tico na Europa transforma-se, deste modo, no fetiche em que descobrimos a natureza monstruosa das massas. Aqui &eacute; in&uacute;til insistir nas raz&otilde;es desse investimento e nos efeitos que ele causa, j&aacute; que seria mais pertinente, no contexto de nosso discurso, mostrar como, num caso como no outro, o surgimento das massas coincide com a manifesta&ccedil;&atilde;o tr&aacute;gica de sacrif&iacute;cios, consuma&ccedil;&otilde;es e destrui&ccedil;&otilde;es de estruturas preexistentes. O humanismo da mercadoria espetacular sair&aacute; vitorioso apenas porque &eacute; o mais apto a corresponder &agrave; natureza do corpo social e ao seu imagin&aacute;rio l&uacute;dico e festivo, &agrave;s suas indispens&aacute;veis fantasias, sempre tra&iacute;das por regimes pol&iacute;ticos focados nas ideologias hist&oacute;ricas. Al&eacute;m disso, o espet&aacute;culo da mercadoria e a mercadoria do espet&aacute;culo est&atilde;o intimamente ligados, de um ponto de vista prox&eacute;mico e enf&aacute;tico, ao espa&ccedil;o-tempo da vida quotidiana. Deixam-se absorver pelo seu ventre, ao mesmo tempo que os absorvem no seu pr&oacute;prio ventre.</p>     <p>Na esteira da mudan&ccedil;a de paradigma, imposta pela sociedade espetacular, a partir da segunda metade do s&eacute;culo XX, o princ&iacute;pio de realidade no qual os sistemas sociais se baseavam &eacute; sacudido e abalado, apesar das inten&ccedil;&otilde;es dos seus produtores. A l&oacute;gica da consuma&ccedil;&atilde;o espetacular, baseada na preponder&acirc;ncia do imagin&aacute;rio, das ilus&otilde;es e de um prazer irrestrito, manifesta-se como sendo sempre menos control&aacute;vel no &acirc;mbito dos esquemas que pretendem prescrever-lhe uma ordem. &ldquo;O consumidor real torna-se consumidor de ilus&otilde;es. A mercadoria &eacute; essa ilus&atilde;o efetivamente real, e o espet&aacute;culo &eacute; a sua manifesta&ccedil;&atilde;o geral&rdquo; (Debord, 1988, p. 72).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Distor&ccedil;&atilde;o e convalescen&ccedil;a</b></p>     <p>O dispositivo espetacular intensifica a faculdade imaginativa do p&uacute;blico e difunde interpreta&ccedil;&otilde;es, sonhos e experi&ecirc;ncias da realidade que corroem o pedestal monol&iacute;tico sobre o qual a nossa civiliza&ccedil;&atilde;o foi constru&iacute;da. A dissemina&ccedil;&atilde;o de imagens e distra&ccedil;&otilde;es n&atilde;o pode cingir-se ao interior do arcabou&ccedil;o intencional dos produtores, pois, por um lado, o consumo est&aacute; sempre localizado socialmente e, por outro, a bacia sem&acirc;ntica em que a transfigura&ccedil;&atilde;o do real acontece &eacute; o corpo sonhador das massas. Produz-se, assim, um processo de enfraquecimento do &ldquo;ser&rdquo;, que desfaz a identidade e os processos de identifica&ccedil;&atilde;o prefigurados pelo sistema para se manter, e que desvenda todos os seus limites, bem como a sua artificialidade. Assim, a realiza&ccedil;&atilde;o do sistema tecnol&oacute;gico &ndash; circula&ccedil;&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o de objetos, de imagens e de espet&aacute;culos &ndash; traz consigo a realiza&ccedil;&atilde;o e o princ&iacute;pio da dissolu&ccedil;&atilde;o da metaf&iacute;sica.</p>     <p>Com efeito, de acordo com Martin Heidegger, a imposi&ccedil;&atilde;o do mundo da tecnologia moderna, o <i>Ge-stell</i>, n&atilde;o &eacute; apenas o momento em que a metaf&iacute;sica atinge o seu auge, mas tamb&eacute;m, e por essa mesma raz&atilde;o, &ldquo;uma primeira centelha do <i>Ereignis</i>&rdquo; (Vattimo, 1987, p. 180). Isso significa que existe algo que &eacute; intr&iacute;nseco ao mundo da t&eacute;cnica, qualquer coisa que lhe escapa, que n&atilde;o &eacute; apenas &ldquo;t&eacute;cnico&rdquo;. &Eacute; somente atrav&eacute;s de uma <i>Verwindung </i>do <i>Ge-stell</i><i>, </i>que &eacute; inaugurada a possibilidade de um <i>Ereignis </i>(acontecimento, apropria&ccedil;&atilde;o). O primeiro termo refere-se a uma aceita&ccedil;&atilde;o tr&aacute;gica, que tamb&eacute;m &eacute; em si mesma supera&ccedil;&atilde;o, distor&ccedil;&atilde;o e convalescen&ccedil;a. &Eacute; essa, segundo Vattimo (1987), a ess&ecirc;ncia da p&oacute;s-modernidade filos&oacute;fica: a dissolu&ccedil;&atilde;o da modernidade, da sua t&eacute;cnica e da sua metaf&iacute;sica, coincide, assim, com a radicaliza&ccedil;&atilde;o das tend&ecirc;ncias que a constituem desde a origem. A partir do momento em que os sistemas pol&iacute;tico-econ&oacute;micos deslocam o desafio do plano da ordem simb&oacute;lica das mercadorias e dos espet&aacute;culos, empurrando a alian&ccedil;a desses elementos para a confirma&ccedil;&atilde;o da sua pr&oacute;pria ordem, eles exp&otilde;em-se tamb&eacute;m &agrave; sua pr&oacute;pria distor&ccedil;&atilde;o, uma vez que defender um imagin&aacute;rio coletivo excitado no corpo a corpo dos consumos e das distra&ccedil;&otilde;es se torna cada vez mais &aacute;rduo.</p>     <p>Neste dom&iacute;nio, a possibilidade de colocar em discurso (Foucault, 1976) as subst&acirc;ncias mais obscuras, destrutivas e voluptuosas, apresenta-se como um empreendimento penoso, embora constantemente perseguido pela ordem produtiva e pelo saber/ poder cient&iacute;fico. A a&ccedil;&atilde;o societal abandonada &agrave; matriz do consumo espetacular &eacute;, em si, portadora de uma cadeia de jogos lingu&iacute;sticos, de interpreta&ccedil;&otilde;es, de distor&ccedil;&otilde;es e de destrui&ccedil;&otilde;es criativas, que corroem os fundamentos dos sistemas sociais, substituindo-os por pequenas mitologias, por sacraliza&ccedil;&otilde;es do que &eacute; profano na origem, por universos de sentidos constitu&iacute;dos por micronarrativas, tribais ou locais, por tudo o que leva a uma reapropria&ccedil;&atilde;o-distor&ccedil;&atilde;o da t&eacute;cnica, a uma desrealiza&ccedil;&atilde;o do real (Vattimo, 1987). &Eacute; assim que o &ldquo;mundo real&rdquo;, a &ldquo;hist&oacute;ria de um erro&rdquo;, &ldquo;acaba por se tornar numa f&aacute;bula&rdquo;.</p>     <p>     <blockquote>O mundo real, acess&iacute;vel ao homem s&aacute;bio, piedoso e virtuoso &ndash; ele vive nele, <i>ele &eacute; este mundo</i>.         <p></p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O mundo real, inacess&iacute;vel agora, mas prometido ao homem s&aacute;bio, piedoso e virtuoso (ao &ldquo;pecador que faz penit&ecirc;ncia&rdquo;).</p>         <p>O mundo real e inacess&iacute;vel, que n&atilde;o pode ser alcan&ccedil;ado, nem provado, nem prometido, mas que, pelo mero fato de que &eacute; pensado, &eacute; consola&ccedil;&atilde;o, empenhamento, imperativo.</p>         <p>O mundo real &ndash; inacess&iacute;vel? De qualquer forma, ainda n&atilde;o alcan&ccedil;ado. E, desde que n&atilde;o alcan&ccedil;ado, <i>desconhecido</i>. Portanto, nem constitui uma consola&ccedil;&atilde;o, nem uma salva&ccedil;&atilde;o, nem uma obriga&ccedil;&atilde;o: como nos podemos envolver em algo que n&atilde;o conhecemos?</p>         <p>O &ldquo;mundo real&rdquo;, uma ideia que j&aacute; n&atilde;o serve para nada, que n&atilde;o nos obriga a mais nada &ndash; uma ideia in&uacute;til, sup&eacute;rflua, <i>por conseguinte</i>, uma ideia refutada: abulamo-la.</p>         <p>Abolimos o mundo real: que mundo restava? Talvez o da apar&ecirc;ncia? &hellip; Mas n&atilde;o! <i>A</i>o mesmo tempo que o mundo real, tamb&eacute;m abolimos o mundo das apar&ecirc;ncias! (Nietzsche, 1889/2001, pp. 46-47)</p> </blockquote>     <p>Interpretar o advento da sociedade da comunica&ccedil;&atilde;o e a l&oacute;gica do consumo espetacular que dela decorre, &agrave; luz da converg&ecirc;ncia entre as filosofias de Heidegger (citado em Vattimo, 1987) e de Friedrich Nietzsche (1889/2001), leva a descobrir as falhas da modernidade, bem como a ler, por tr&aacute;s da desordem, as reapropria&ccedil;&otilde;es sociais e o lado sombrio levantados pelo imagin&aacute;rio coletivo, a elabora&ccedil;&atilde;o de uma outra ordem diferente daquela que &eacute; pensada e constru&iacute;da pela longa par&aacute;bola do progresso. Toda a ilus&atilde;o fomentada pelos dispositivos espetaculares gera uma forma de encantamento do corpo social, uma s&eacute;rie incontrol&aacute;vel de sonhos e, ainda assim, sempre bem fundamentada na natureza da vida quotidiana e dos seus aspetos mais tr&aacute;gicos e banais. Dessa maneira, a ideologia da felicidade deixa de servir para a Hist&oacute;ria e &eacute; incorporada nas pr&aacute;ticas dos sujeitos sociais &ndash; no ser-a&iacute; &ndash; de modo a incitar o indiv&iacute;duo a &ldquo;abandonar o ser como fundamento&rdquo; (Heidegger, citado em Vattimo, 1987, p. 126).</p>     <p>As imagens e os espet&aacute;culos promovidos pelo real e lan&ccedil;ados nas v&iacute;sceras do consumo, no cora&ccedil;&atilde;o da socialidade, favorecem a atualiza&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios mundos, al&eacute;m e aqu&eacute;m do social, cada um com um sentido diferente. Nesse entendimento, o advento da p&oacute;s-modernidade, que se manifestou por completo, com as centelhas libertadas pela sociedade do espet&aacute;culo, pode ser lido como &ldquo;morte de Deus&rdquo;, ou niilismo (Nietzsche, 1882/1998, p. 202), enquanto condi&ccedil;&atilde;o em que o homem reconhece explicitamente a aus&ecirc;ncia de fundamento como constitutiva da sua realidade. O que significa a eros&atilde;o de todo o universalismo e a prolifera&ccedil;&atilde;o de fragmentos, estilha&ccedil;os, de micronarrativas e at&eacute; de tudo o que &eacute; tanto ca&oacute;tico como vital, que perturba a assepsia generalizada a que o social foi reduzido, enquanto racionaliza&ccedil;&atilde;o geral da exist&ecirc;ncia (Weber, 1904/1964). Podemos argumentar que as possibilidades da supera&ccedil;&atilde;o/distor&ccedil;&atilde;o (<i>verwindung</i>) do social est&atilde;o no pr&oacute;prio sistema e, por conseguinte, &eacute; no preciso momento em que a ordem moderna atinge o seu estado florescente, e aparentemente mais resplandecente, que ela abre caminho para o decl&iacute;nio. Quando a ideologia se apresenta nas vestes da ideologia da felicidade, quando a pan&oacute;plia de objetos fetiches, produzidos pela ind&uacute;stria, se desmaterializa nas fantasmagorias espetaculares, a ordem social fica sobre-estimulada nas suas produ&ccedil;&otilde;es e cria&ccedil;&otilde;es simb&oacute;licas, confortada no estar-juntos, como pura corporalidade sens&iacute;vel, excitada por uma energia que vai al&eacute;m da ordem racional de que nasceu.</p>     <p>O real desrealiza-se, consuma-se fatalmente, atrav&eacute;s dos jogos experimentados na dimens&atilde;o soberana do imagin&aacute;rio, l&aacute; onde cada sentido &eacute; reduzido a um espet&aacute;culo e cada espet&aacute;culo fica vinculado &agrave;s sensa&ccedil;&otilde;es de um ou mais corpos apaixonados e reencantados. &Eacute; por isso que o <i>Ge-stell</i>, na sua natureza anf&iacute;bia, arma do Social e, ao mesmo tempo, ordem nas m&atilde;os da vida quotidiana, carrega dentro de si, no momento da sua m&aacute;xima exibi&ccedil;&atilde;o, a realiza&ccedil;&atilde;o do &ldquo;todo&rdquo; e o seu afundamento. A hibrida&ccedil;&atilde;o e o enxerto rec&iacute;proco que a vida quotidiana realiza com o sistema de objetos e, de maneira mais geral, com a ecologia do espet&aacute;culo, causam o desmoronamento da arquitetura em que foi constru&iacute;do o real elaborado pelo moderno. As distin&ccedil;&otilde;es que nele serviram de base &ndash; objeto/sujeito, real/irreal, elite/massas &ndash; confundem-se e geram um caos no cora&ccedil;&atilde;o da vida coletiva.</p>     <p>     <blockquote>Ao perder essas determina&ccedil;&otilde;es, o homem e o ser entram num dom&iacute;nio <i>schwingend</i>, oscilante, que, na minha opini&atilde;o, deve ser imaginado como o mundo de uma realidade &ldquo;aligeirada&rdquo;, que se torna mais leve porque menos nitidamente dividida entre a verdade e a fic&ccedil;&atilde;o, a informa&ccedil;&atilde;o, a imagem: o mundo da mediatiza&ccedil;&atilde;o total da nossa experi&ecirc;ncia, no qual j&aacute; nos encontramos em grande parte. (Vattimo, 1987, p. 189)         ]]></body>
<body><![CDATA[<p></p> </blockquote>     <p>Numa realidade assim &ldquo;aligeirada&rdquo;, na qual o conte&uacute;do da vida real &eacute; desmaterializado nos fluxos dos espet&aacute;culos e das comunica&ccedil;&otilde;es, nas centelhas abanadas pelas est&eacute;ticas societais do Instagram, Tumblr ou Snapchat, na relativiza&ccedil;&atilde;o do pol&iacute;tico que da&iacute; decorre, se sobrep&otilde;e o surgimento de uma socialidade an&oacute;mica, de toda essa massa previamente separada em indiv&iacute;duos prontos para o trabalho. A sua apari&ccedil;&atilde;o no palco, de uma maneira ou de outra, <i>volens nolens</i>, representa um <i>jamming </i>cont&iacute;nuo no motor oficial da Hist&oacute;ria.</p>     <p>A l&oacute;gica do consumo espetacular, matriz da experi&ecirc;ncia do vivido coletivo, a partir da segunda metade do s&eacute;culo XX, &eacute; animada pela converg&ecirc;ncia da iconofilia e do neopaganismo, sensibilidades de natureza polim&oacute;rfica no sentido em que se baseiam na riqueza interpretativa da imagina&ccedil;&atilde;o, na polissemia do imagin&aacute;rio e na venera&ccedil;&atilde;o de diferentes objetos, lugares, imagens, minando sempre os fundamentos de todo o universalismo e de toda a transcend&ecirc;ncia. A perda de si, na consuma&ccedil;&atilde;o que constitui a bacia arquet&iacute;pica do consumo desenfreado, a fus&atilde;o com o outro que se realiza no momento em que se partilha uma excita&ccedil;&atilde;o ext&aacute;tica para um produto, para um espet&aacute;culo ou para qualquer elemento que remete para a rela&ccedil;&atilde;o com o outro, trazem para o palco as perdas, os excessos e a <i>despesa </i>improdutiva, da qual o ser humano n&atilde;o pode prescindir, para contrariar os limites do princ&iacute;pio de realidade a que se encontra sujeito. Como Bataille observou, com efeito</p>     <p>     <blockquote>a vida humana, distinta da exist&ecirc;ncia jur&iacute;dica e tal como tem lugar, de facto, num globo isolado no espa&ccedil;o celeste, do dia para a noite, de uma regi&atilde;o para outra, a vida humana n&atilde;o pode em <i>caso </i>algum estar limitada aos sistemas fechados que lhe s&atilde;o impostos nas conce&ccedil;&otilde;es razo&aacute;veis. O imenso trabalho de abandono, de escoamento e de tempestade, que a constitui, poderia ser expresso, dizendo que ela s&oacute; come&ccedil;a com o d&eacute;fice desses sistemas: pelo menos o que ela admite em mat&eacute;ria de ordem e de reserva s&oacute; faz sentido a partir do momento em que as for&ccedil;as ordenadas e reservadas se libertem e se percam, para fins em que n&atilde;o possam estar sujeitas a nada em que seja poss&iacute;vel prestar contas. &Eacute; somente atrav&eacute;s de uma tal insubordina&ccedil;&atilde;o, mesmo miser&aacute;vel, que a esp&eacute;cie humana deixa de estar isolada no esplendor sem condi&ccedil;&atilde;o das coisas materiais. (Bataille, 1949/2003, pp. 44-45).         <p></p> </blockquote>     <p>Tradu&ccedil;&atilde;o: Jean-Martin Rabot</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Abruzzese, A. (1973/2001). <i>Forme estetiche e societ&agrave; di massa</i>. Veneza: Marsilio.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024556&pid=S2183-3575202000020001300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Auclair, G. (1970). <i>Le mana quotidien. Structures et fonctions de la chronique de faits divers.</i> Paris: &Eacute;ditions Anthropos.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024558&pid=S2183-3575202000020001300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Baudrillard, J. (1968). <i>Le syst&egrave;me des objets.</i> Paris: Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024560&pid=S2183-3575202000020001300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Bakhtine, M. (1965/1998). <i>L&rsquo;&oelig;uvre de Fran&ccedil;ois Rabelais et la culture populaire au moyen-&acirc;ge et sous la renaissance. </i>Paris: Gallimard.</p>     <!-- ref --><p>Bataille, G. (1949/2003). <i>La part maudite. Pr&eacute;c&eacute;d&eacute; par la notion de d&eacute;pense</i>. Paris: Les &Eacute;ditions de Minuit.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024563&pid=S2183-3575202000020001300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Benjamin, W. (1955/2000). Paris. La capitale del XIX secolo. In <i>Angelus novus. Saggi e frammenti. </i>Turin: Einaudi.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024565&pid=S2183-3575202000020001300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Benjamin, W. (1989/2006). <i>Le livre des passages</i>. Paris: Les &Eacute;ditions du Cerf .    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024567&pid=S2183-3575202000020001300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Debord, G. (1988). <i>Commentaires sur la soci&eacute;t&eacute; du spectacle</i>. Paris: &Eacute;ditions G&eacute;rard Lebovici.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024569&pid=S2183-3575202000020001300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Durkheim, &Eacute;. (1912/2005). L<i>es formes &eacute;l&eacute;mentaires de la vie religieuse</i>. Paris: PUF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024571&pid=S2183-3575202000020001300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Foucault, M. (1976). <i>Histoire de la sexualit&eacute;. La volont&eacute; de savoir</i>. Paris: Gallimard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024573&pid=S2183-3575202000020001300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Joron, P. (2009). <i>La vie improductive. Georges Bataille et l&rsquo;h&eacute;t&eacute;rologie sociologique.</i> Montpellier: PLUM.</p>     <!-- ref --><p>Marramao, G. (2000). <i>Dopo il leviatano. Individuo e comunit&agrave;</i>. Turin: Bollati Boringhieri.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024576&pid=S2183-3575202000020001300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Mauss, M. (1934/2004). Les techniques du corps. In M. Mauss (Ed.),<i> Sociologie et Anthropologie</i>. Paris: PUF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024578&pid=S2183-3575202000020001300013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Nietzsche, F.(1882/1998). <i>Le gai savoir. </i>Paris: Flammarion.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024580&pid=S2183-3575202000020001300014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Nietzsche, F.(1889/2001). <i>Cr&eacute;puscule des idoles</i>. Paris: Hatier.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024582&pid=S2183-3575202000020001300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Orwell, G. (1949/2013). <i>1984</i>. Nova Iorque: Penguin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024584&pid=S2183-3575202000020001300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Rafele, A. (2010). <i>La m&eacute;tropole. Benjamin et Simmel.</i> Paris: CNRS &Eacute;ditions.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024586&pid=S2183-3575202000020001300017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Vattimo, G. (1987). L<i>a fin de la modernit&eacute;. Nihilisme et herm&eacute;netique dans la culture post-moderne</i>. Paris: &Eacute;ditions du Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2024588&pid=S2183-3575202000020001300018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Weber, M. (1904/1964). <i>L&rsquo;&eacute;thique protestante et l&rsquo;esprit du capitalisme.</i> Paris: Plon.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Nota biogr&aacute;gica</b></p>     <p>Vincenzo Susca &eacute; Professor Associado de Sociologia na Universidade Paul-Val&eacute;ry de Montpellier. Membro do laborat&oacute;rio Lersem-Irsa (Montpellier), McLuhan Fellow na Universidade de Toronto, &eacute; o diretor editorial dos <i>Cahiers europ&eacute;ens de l&rsquo;imaginaire </i>(CNRS Editions). Publicou diversos livros sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre os m&eacute;dia, o imagin&aacute;rio e o quotidiano, incluindo: <i>Gioia tragica. Le forme elementari della vita elettronica </i>(Mil&atilde;o, 2010; Paris, 2011; Barcelona 2012); <i>Les affinit&eacute;s connectives. Sociologie de la culture num&eacute;rique </i>(Paris, 2016; Porto Alegre, 2019) e <i>Un oscuro riflettere. Black Mirror e l&rsquo;aurora digitale </i>(Mil&atilde;o, 2020; Montreal, 2020), com C. Attimonelli.</p>     <p>ORCID: <a href="https://orcid.org/0000-0002-5489-6514" target="_blank">https://orcid.org/0000-0002-5489-6514</a></p>     <p>Email: <a href="mailto:vincenzo.susca@univ-montp3.fr">vincenzo.susca@univ-montp3.fr</a></p>     <p>Morada: 5 Place de la Comedie, Montpellier 34000, France</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Submetido: 14/04/2020</b></p>     <p><b>Aceite: 07/07/2020</b></p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Abruzzese]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Forme estetiche e società di massa]]></source>
<year>1973</year>
<publisher-loc><![CDATA[Veneza ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Marsilio]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Auclair]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Le mana quotidien. Structures et fonctions de la chronique de faits divers]]></source>
<year>1970</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Éditions Anthropos]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Baudrillard]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Le système des objets]]></source>
<year>1968</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Gallimard]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bakhtine]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[L'œuvre de François Rabelais et la culture populaire au moyen-âge et sous la renaissance]]></source>
<year>1965</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Gallimard]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bataille]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[La part maudite. Précédé par la notion de dépense]]></source>
<year>1949</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Les Éditions de Minuit]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Benjamin]]></surname>
<given-names><![CDATA[W.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="it"><![CDATA[Paris. La capitale del XIX secolo]]></article-title>
<source><![CDATA[Angelus novus. Saggi e frammenti]]></source>
<year>1955</year>
<publisher-loc><![CDATA[Turin ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Einaudi]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Benjamin]]></surname>
<given-names><![CDATA[W.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Le livre des passages]]></source>
<year>1989</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Les Éditions du Cerf]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Debord]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Commentaires sur la société du spectacle]]></source>
<year>1988</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Éditions Gérard Lebovici]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Durkheim]]></surname>
<given-names><![CDATA[É.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Les formes élémentaires de la vie religieuse]]></source>
<year>1912</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[PUF]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B10">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Foucault]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Histoire de la sexualité. La volonté de savoir]]></source>
<year>1976</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Gallimard]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B11">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Joron]]></surname>
<given-names><![CDATA[P.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[La vie improductive. Georges Bataille et l'hétérologie sociologique]]></source>
<year>2009</year>
<publisher-loc><![CDATA[Montpellier ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[PLUM]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B12">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Marramao]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Dopo il leviatano. Individuo e comunità]]></source>
<year>2000</year>
<publisher-loc><![CDATA[Turin ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Bollati Boringhieri]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B13">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Mauss]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[Les techniques du corps]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Mauss]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Sociologie et Anthropologie]]></source>
<year>1934</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[PUF]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B14">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Nietzsche]]></surname>
<given-names><![CDATA[F.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Le gai savoir]]></source>
<year>1882</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Flammarion]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B15">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Nietzsche]]></surname>
<given-names><![CDATA[F.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Crépuscule des idoles]]></source>
<year>1889</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Hatier]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B16">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Orwell]]></surname>
<given-names><![CDATA[G.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[1984]]></source>
<year>1949</year>
<publisher-loc><![CDATA[Nova Iorque ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Penguin]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B17">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Rafele]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[La métropole. Benjamin et Simmel]]></source>
<year>2010</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[CNRS Éditions]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B18">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Vattimo]]></surname>
<given-names><![CDATA[G]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[La fin de la modernité. Nihilisme et herménetique dans la culture post-moderne]]></source>
<year>1987</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Éditions du Seuil]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B19">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Weber]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[L'éthique protestante et l'esprit du capitalisme]]></source>
<year>1904</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Plon]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
