Parecem-nos escassas as páginas que Miguel Cardina dedica ao seu livroO Atrito da Memória, editado em 2023 pela Tinta-da-china. O livro tem o subtítuloColonialismo, Guerra e Descolonização no Portugal Contemporâneoe propõe-se a analisar as características da construção da memória coletiva do país face à experiência colonial, num momento em que nos aproximamos, a alta velocidade, do cinquentenário do 25 de Abril de 1974 e da descolonização formal das antigas colónias portuguesas.
O historiador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra propõe-se a analisar a memória colonial no Portugal contemporâneo, com particular enfoque na Guerra Colonial. Para tal,Atrito da Memóriaparticipa e contribui para debates cada vez mais recorrentes na historiografia portuguesa (tal como nas restantes ciências sociais) sobre as políticas de memória, os usos públicos e políticos da História1 ou o papel social do historiador.
A obra encontra-se divida em duas partes (cada uma com quatro capítulos) e a segunda parte é exatamente sobre a memória pública da guerra. A primeira, por sua vez, dedica-se a uma análise da presença mais abrangente da experiência colonial no espaço público, rastreando os diferentes discursos que, ao longo do tempo, foram emergindo de forma a legitimar o projeto colonial-imperial português.
Com uma linguagem escolhida de forma a ser possível chegar a vários públicos2 e sumarizando a discussão do profundo aparato teórico-metodológico que sustenta a investigação (pp. 7-10), a escrita do autor vai surgindo do mesmo modo que a memória pública acaba por ser construída: entre o passado que se recorda e os diversos presentes em que a memória é construída, invocada, reconstruída ou ignorada - opção mais visível durante a primeira parte da obra.
Vários atores deste processo vão sendo alvo da análise: as elites políticas e culturais, os historiadores e outros cientistas sociais, a comunicação social ou grupos sociais cuja memória individual foi marcada pelo colonialismo (os ex-combatentes, asmadrinhas de guerra, os chamadosretornados, os dissidentes da guerra, os movimentos anticoloniais/antirracistas). As fontes históricas são particularmente diversas (em forma e conteúdo) e vão sendo discutidas com base numa literatura vasta e que convoca os principais autores que têm trabalhado as questões da memória, da identidade e do passado colonial. Cardina optou por uma análise focada em casos específicos, testemunhos de tendências mais gerais: esta escolha funciona de uma forma interessante para um leitor apartado destas temáticas, mas com a mínima atenção aos debates públicos. Todavia, seria interessante alargar o debate encetado na obra: não só aumentando o enquadramento teórico, como também discutindo os resultados face a tendências mais globais, como sugere Carlos Maurício3.
O argumento é simples e já fora explorado pelo autor4: a memória do passado colonial constitui um atrito desconfortável na forma como se pensa historicamente Portugal. Este atrito está particularmente ligado ao intricado conjunto de relações entre o fim da dominação colonial (com uma longa guerra) e o processo de instauração democrática (e consequente descolonização). Central é também o conceito de afasia colonial5, isto é, a ideia de que não ocorreu um ocaso total do elemento colonial do imaginário coletivo, tendo apenas sido apagada a profunda violência associada a essa mesma experiência colonial.
No primeiro capítulo da obra, o autor sistematiza a evolução dos quadros ideológicos que ao longo do tempo enquadraram os diferentes momentos da experiência colonial-imperial portuguesa, dando também particular atenção às diversas formas de violência que coexistiram historicamente sob a dominação colonial portuguesa. O regime do Estado Novo é apresentado como tendo tido um papel central no aprofundamento da mística imperial e a sua penetração ideológica, política, cultural e económica na sociedade portuguesa (pp. 19-22).
O segundo capítulo acompanha a perpetuação destes imaginários depois da descolonização formal, rastreando os papéis que ocuparam, interagindo com outros repertórios identitários emergentes, como o europeísmo, ou mesmo com o revisionismo da mitologia colonial, operada principalmente a partir da Expo’98 - Cardina destaca a ausência da violência colonial e das resistências anticolonial e antirracista (p. 41). Esta discussão continua no terceiro capítulo, em que o autor percorre os expedientes de oficialização/institucionalização desta memória colonial que recusa a dimensão violenta da opressão colonial: caso paradigmático será o reaproveitamento do Dia da Raça.
Por fim, o capítulo 4 analisa diferentes momentos de natureza sociopolítica que potenciaram o pronunciamento das elites sociais, culturais e políticas, mas também a discussão pública entre historiadores.
O autor sinaliza a recente politização das questões da memória, das relações entre memória e identidade nacional, evidenciando a emergência de vozes que solicitam uma ampliação do direito à memória pública e consequente desmoronamento dos mitos mnemónicos que legitimam a memória dominante, ofuscadora de violências.
Este contexto mais geral abre a porta à segunda parte, dedicada à memória da guerra colonial. Deste modo, o capítulo 5 introduz o contexto histórico genérico do fenómeno da guerra colonial, evidenciando dois constrangimentos históricos à construção da memória da guerra: os militares que fizeram a guerra são os mesmos que possibilitam a instalação democrática e a descolonização é um processo dependente dos movimentos de libertação. O sexto capítulo centra-se na organização da afasia colonial portuguesa - o processo simultâneo de memorializar a guerra enquanto evento bélico e de organizar o esquecimento da violência colonial intrinsecamente ligada. Miguel Cardina destaca os vários contextos que permitiram a organização da afasia colonial, contextos esses que, sendo discutidos na obra, merecem (cada um por si só) um exercício de reflexão, sendo tão diversos como a centralidade da experiência colonial na identidade nacional portuguesa ou o desalinhamento entre a territorialidade da guerra e o espaço geográfico onde se operacionaliza a memória (na antiga metrópole).
Será então no sétimo capítulo que se propõe a desenvolver uma história da memória da guerra. Percorrendo a produção mediática, académica e cultural, o autor assinala a forma como as elites políticas e militares tiveram dificuldade em lidar com a denúncia das atrocidades da guerra já em democracia. Como tal, a memorialização ocorre de forma subalterna, num processo que Cardina descreve como o «estilhaçamento do silêncio público através da arte e da cultura» (p. 127). Efetivamente, a questão da guerra e da sua memória ganha mais espaço na esfera pública a partir da década de 1990, a par com a normalização da higienização pública do passado colonial: paradigmática será a incorporação do «Monumento aos Combatentes do Ultramar» no já por si intrigante complexo monumental de Belém. No final do capítulo, Cardina elenca também quais os desafios que se colocam no futuro à memória da guerra. O último capítulo dedica-se à análise de uma contramemória face a esta memória dominante, representação do combatente como ideal de masculinidade patriótica. É, portanto, o caso da memória dos desertores e refratários da guerra, memória essa que pode ser entendida como uma memória fraca, que questiona a dominante. Deste modo, questiona a diferenciação entre a ditadura que promoveu a guerra e os militares que a travaram, mas também a representação dos ex-combatentes como ideais de exemplaridade patriótica, honrada e masculinizada.
Como já acontecera no capítulo 7, a obra termina com um desafio ao leitor, que evidencia a opção por uma escrita socialmente comprometida. Mais do que uma obra de divulgação, o epílogo lança algumas ideias sobre a sua pertinência no Portugal contemporâneo: reconhecendo o colonialismo como uma dimensão viva da sociedade portuguesa, Miguel Cardina termina com uma nota que o posiciona no debate que analisou: ao contrário daqueles que se mostram relutantes em discutir passados, memórias e identidades naturalizadas e reificadas, para o autor «importa discutir este passado para que se possa abrir espaço para outros futuros» (p. 166). A obra de Cardina faz-nos, assim, questionar, enquanto cientistas sociais e cidadãos, discursos e narrativas que temos como naturalizados, convergindo para o debate cada vez mais relevante sobre o papel da produção científica para o debate público em Portugal. Destacamos, como tal, três linhas de raciocínio centrais à obra. Primeiramente, a memória colonial hegemónica é marcada pela afasia colonial, ou seja, pela separação entre a memória da guerra (e do empreendimento colonial no geral) e da violência que lhe está intrinsecamente associada. Este processo é abordado por outros autores, sendo denominado também de higienização do passado colonial6.
Em segundo, o imaginário estado-novista continua a estar intensamente presente (e naturalizado) nos lugares-comuns das histórias públicas, da identidade e da memória coletiva portuguesas. Por fim, o impacto sócio-identitário, mnemónico e político da intrínseca ligação entre os militares que operacionalizaram o golpe militar e tutelaram a transição para a democracia (até 1982) e o seu envolvimento na guerra colonial.
Em suma, sendo um livro sobre memória, é também um livro sobre cinquenta anos da manutenção do colonialismo na sociedade portuguesa que insta à discussão e à procura de novos rumos, informados pelo conhecimento crítico do passado.












