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Análise Social

versão impressa ISSN 0003-2573

Anál. Social  n.193 Lisboa out. 2009

 

Obituário

Claude Lévi-Strauss (1908-2009) O profeta da antropologia arcaica

 

Frederico Delgado Rosa*

* Departamento de Antropologia, FCSH, Universidade Nova de Lisboa, Av. de Berna, 26-C, 1069-061 Lisboa, Portugal. e-mail: fdelgadorosa@hotmail.com

 

Claude Lévi-Strauss morreu fora do seu tempo. Coberto em vida de todas as honras que o sistema francês é exímio a dispensar às grandes figuras da pátria, levou para o túmulo um certo amargo de boca: a percepção clara de que a maioria dos antropólogos da contemporaneidade não se revê na sua obra. Foi exactamente há um quarto de século, no ano do adeus à academia, que o monstro sagrado reconheceu que o estruturalismo estava fora de moda, já sem contar com os violentos ataques de que fora alvo nas décadas anteriores, sobretudo oriundos da ala marxista. A verdade é que manteve até ao fim, qual James Frazer gaulês, o seu inabalável solipsismo científico; com uma diferença porém acentuada em relação ao comparatista universal escocês. Enquanto este dizia que do ramo dourado só ficaria para a posteridade a compilação bruta de relatos etnográficos, e não a teoria nem o método, Lévi-Strauss estava profundamente convencido do valor perene dos seus próprios princípios. Sucede que a dimensão colossal da sua obra é indissociável do imenso oceano das etnografias de terceiros, em especial das duas Américas, no qual navegava com uma erudição sobre-humana. Muito simplesmente, Lévi-Strauss foi, de todos os grandes antropólogos do século xx, o que maior uso deu à própria história da disciplina enquanto arquivo de registos passados. Poucos foram aqueles que no seu tempo, e certamente ninguém depois dele, reconheceram de forma tão enfática a importância da etnografia de salvação como legado imorredoiro para a humanidade. Ora a sorte da sua empresa comparativa vai justamente agarrada a esse destino, não tanto por ser um veículo de compilação e, por conseguinte, de transmissão das fontes etnográficas, mas porque forma com elas uma Weltanschauung.

O mundo de Lévi-Strauss não podia ser mais contrário, numa série de pontos cruciais, à sensibilidade dominante na cena antropológica das últimas três décadas, marcada por uma deriva historicizante em torno das variações internas e dos poderes coloniais e pós-coloniais, quer a nível local, quer no plano macroscópico. Só mesmo na aparência é que a fractura dos conceitos de cultura e de sociedade dialoga com o investimento de Lévi-Strauss na comparação transversal de instituições mais ou menos subtraídas aos seus contextos de origem. O mesmo se pode dizer da sua manipulação das discrepâncias empíricas numa mesma sociedade, seja o incumprimento de uma regra de casamento ou a versão empobrecida de um mito. Para usarmos uma fórmula dramática, a globalização não representava para ele um novo mundo de oportunidades a explorar, mas uma condenação da etnografia a refugiar-se cada vez mais nos últimos confins selvagens do planeta. Sem dúvida que uma grande parte dos antropólogos do século xxi teria dificuldade em fazer com inteira convicção o elogio póstumo de um homem que depositou toda a sua energia na perpetuação dos povos “ditos primitivos” como objecto privilegiado da disciplina — inclusive se viesse a acontecer a derradeira extinção dos mesmos. Este cenário não era apenas hipotético para Lévi-Strauss, mas uma ameaça bem real. Nesse dia, a antropologia passaria a explorar, durante séculos, a enorme massa de materiais acumulados enquanto foi tempo. A ciência não perderia o seu objecto, mas perderia o trabalho de campo.

Como é que uma antropologia de propósito universalista, como era a sua, apostada em compreender os meandros da unidade psíquica do homem, veiculava ao mesmo tempo uma dicotomia tão flagrante entre a pureza exótica e a contaminação ocidental? Isto só poderá soar contraditório para quem persista em confundir a universalidade formal das relações com a recorrência de alguns termos, sobretudo mitológicos, em vastas áreas que Lévi-Strauss considerava pré-historicamente ligadas entre si, o que constitui, aliás, um erro frequente na leitura da sua obra. Ele próprio teve ocasião de precaver os incautos contra a ideia de que haveria, por exemplo, qualquer correspondência necessária entre a mulher e a natureza, ou entre o homem e a cultura. Se assim fosse, a crítica que dirigiu ao funcionalismo de Malinowski, de extraordinária pobreza nas conclusões, virar-se-ia contra si mesmo: para quê tantos milhares de páginas de colorida profusão etnográfica se culminavam numa boutadegeneralizadora? De facto, o estruturalismo valoriza tanto as formas como a variedade dos conteúdos, ou nunca teria gozado das audiências de que gozou fora do meio académico. É uma antropologia de mel e de cinzas, como símbolos profundos da ancestralidade do Novo Mundo.

Em 1952, convidado pela UNESCO a proferir a sua célebre conferência “Raça e história”, Lévi-Strauss enfureceu muita gente no momento em que afirmou a superioridade da civilização ocidental, uma superioridade constatada subjectivamente pelo afã de tantos povos em se lhe assemelharem, ou mesmo objectivamente através da desigualdade de forças, nos casos de falta de adesão espontânea ao processo de ocidentalização. Com um ímpeto iconoclasta que não se lhe conhecia, abalou o dogma do relativismo cultural ao evocar a rejeição moral da antropologia por parte das elites das jovens nações independentes, que desejavam encerrar no passado as tradições bárbaras dos seus avós para melhor abraçarem a modernidade. Com o passar do tempo, o escândalo amenizou-se e sobressaiu como cerne da mensagem de Lévi-Strauss a ideia de que a expansão cultural do Ocidente a uma escala planetária era um acontecimento perfeitamente inédito na história da humanidade. A intensificação do fenómeno parecia irreversível e tinha consequências muito graves para a diversidade de longa duração dos seis continentes. Da mesma forma que não lhe interessavam como objecto antropológico os fenómenos de aculturação ocidental do século xx — ou, nas suas palavras, a transformação dos indígenas em indigentes —, também os descurava nas fontes mais antigas. Embora pudesse identificar empréstimos europeus em tradições registadas pela etnografia de salvação oitocentista e das primeiras décadas do século xx, ou até por viajantes e missionários de outras eras, raramente eram de molde a prejudicar em bloco a validade da empresa de busca da autenticidade estrutural nativa.

É por de mais sabido que esta perspectiva levanta problemas especiais em relação a contextos de trepidante desintegração cultural, e é claro que os havia há muito nas duas Américas, para não falar da Austrália dos Kariera e dos Aranda. O facto é que na obra de Lévi-Strauss são raríssimas as ocasiões em que se consegue perceber a diferença ou em que procurou explicitamente demonstrar o prévio criticismo das fontes. O que impera de um livro para outro, chocando os leitores mais sensíveis, é sempre a majestática intemporalidade do presente etnográfico. Os sioux setentrionais vivem da caça ao bisonte, e não importa para o caso a dizimação da espécie no século xix nem o acantonamento dos índios em reservas. Clark Wissler, o simplório de Indiana, ao menos elegeu o cavalo de introdução espanhola como principal marca distintiva dos índios das planícies do período histórico até 1880. E conjugava todos os verbos no passado...

Devemos entretanto relembrar que, para Lévi-Strauss, o contacto com o ocidente não representou a entrada desses povos na história. Muito pelo contrário, sempre rejeitou com o maior vigor a ideia de que os “ditos primitivos” estivessem parados no tempo ou tivessem algo que ver com os genuínos arcaísmos descobertos pela arqueologia pré-histórica. Para os objectivos da sua antropologia, contudo, era muito diferente a história de um continente essencialmente fechado sobre si e a assimilação do mesmo por uma vaga crescente de colonizadores oriundos de uma civilização mecânica. A demonstração de que havia um fundo cultural comum aos diferentes povos autóctones das Américas não será a mais falada, mas é uma das mais espantosas do estruturalismo. Recordemos a imagem vibrante de uma Idade Média ameríndia que não tivera a sua Roma. As concordâncias entre as terras altas do Peru e do México e as terras baixas da Amazónia não se deviam à efectividade hegemónica dos impérios, mas a uma situação inicial que não era espelhada por nenhuma das partes conhecidas. Os seus nambikwara não eram arcaicos, mas sim pseudo-arcaicos, conservando vestígios da velha filigrana civilizacional, como o famoso veneno curare. Foi precisamente nas Mythologiques, com o objectivo, aliás, de rebater as acusações de idealismo, que Lévi-Strauss assumiu esses resultados concretos da análise comparativa. Não acalentava, note-se bem, quaisquer pretensões de reconstituição histórica exacta, ou simplesmente plausível, dos movimentos e das guerras e das trocas entre as gentes do mesmo substrato original; e, pelo contrário, considerava que os difusionismos se propunham alcançar o impossível. Até os resultados de Franz Boas lhe pareciam demasiado mitigados para justificarem tamanho esforço. Não restem porém quaisquer dúvidas de que Lévi-Strauss tinha uma Weltanschauung difusionista e em certa medida degeneracionista. Aos especialistas de outras regiões do mundo, igualmente vastas, lançava o repto de ousarem trazer à superfície as respectivas simbologias antigas.

É na relação peculiar entre a antropologia estrutural e a história que reside a chave do mistério do presente etnográfico de Lévi-Strauss e do estonteante à vontade com que nele se movia. A metáfora que utilizou foi a de Jano, o deus das duas faces. Se a história avançava na direcção do inconsciente, fazia-o de costas, recuando com os olhos sempre fixados no concreto que era o seu verdadeiro interesse, enquanto a antropologia marchava incauta e bem de frente para as estruturas, levando às costas a recheada bagagem das etnografias. Ao afirmar que a antropologia tinha justamente por tarefa eliminar dos fenómenos sociais tudo aquilo que deviam à reflexão e ao acontecimento, Lévi-Strauss estava a contribuir para o fosso que existe entre o seu pensamento e as práticas prevalecentes na comunidade antropológica da viragem do século xxi. Do seu ponto de vista, e admitindo que é possível uma perspectiva global das tendências em cena, aquilo que se faz hoje é basicamente história, e não antropologia. Ou, quando muito, é etnografia, o que vai dar ao mesmo, pois, no seu entender, esta constitui uma forma de história. É que, para Lévi-Strauss, que se dizia, afinal, um grande amigo de Heródoto, o que foi dito ontem é história e o que foi dito há um minuto também é história.

Neste ponto, a sua antropologia arcaica dá uma bofetada de luva branca a quem dela desdenha. Foi mergulhado em bibliotecas e arquivos que o ilustre e introvertido visitante francês passou a maior parte do seu tempo nas duas Américas e daí lhe ficou uma compreensão muito profunda da grandeza dos esforços etnográficos passados, de um Richard Mayne ou de um Marius Barbeau, de um Archie Phinney ou de um Thomas McIlwraith, de um George Dorsey ou de um William Hoffman e de tantos milhares de outros nomes e referências — quantas em português do Brasil! —, que não entram nos manuais ou sequer nos dicionários. Apesar de não pretender reconstituir o passado dos índios num sentido literal, exumou estoicamente toda essa bibliografia, num hino implícito à magnitude da mesma, sem a qual a sua própria obra não existiria. Porém, muitas das pessoas que hoje se dizem preocupadas com a história são capazes de ignorar impavidamente a etnografia de salvação, a pretexto de estudarem variações e mudanças contemporâneas, em detrimento de continuidades culturais — ou estruturais — julgadas demasiado abstractas. Lévi-Strauss suspeitava, e bem, que este procedimento de avestruz, além de ser paradoxal, tinha muito a ver com a tremenda dificuldade e a forçosa erudição do trabalho de sapa. De uma coisa ele estava seguro: os sioux nunca deixariam de caçar bisontes. Porque um dia os caçaram, mas sobretudo porque alguém os observou e descreveu nesse dia, continuariam para sempre a ser objecto de estudo — independentemente do reduzido lugar que ocupam no capítulo pós-moderno da história da antropologia. Do alto da sua grandeza, Claude Lévi-Strauss folheia-o de sorriso na boca, já sem o amargo da morte, pois sabe que partilha o mesmo destino que os “ditos primitivos”.

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