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Análise Social

versão impressa ISSN 0003-2573

Anál. Social  no.235 Lisboa jun. 2020

https://doi.org/10.31447/AS00032573.2020235.11 

RECENSÃO

Elias, Norbert e Dunning, Eric

A busca da excitação: desporto e lazer no processo civilizacional, Lisboa, Edições 70, 2019, 624 pp.

ISBN 9789724421193

Rahul Kumar1
https://orcid.org/0000-0003-4799-149X

1Faculdade de Economia, Universidade de Coimbra. Av. Dr. Dias da Silva 165 - 3004-512 Coimbra, Portugal. rahul.m.kumar@gmail.com


 

A Busca da Excitação, Desporto e Lazer no Processo Civilizacional, de Norbert Elias e Eric Dunning, publicado originalmente em 1986, agora reeditado pelas Edições 70, constitui uma obra de referência no campo dos estudos sobre lazer, e em especial na sociologia e história do desporto. O volume desenvolve-se a partir de uma interrogação central: “que espécie de sociedade é esta onde cada vez mais pessoas utilizam parte do seu tempo de lazer na participação ou na assistência a estes confrontos não violentos de habilidades corporais a que chamamos «desporto»?” (p. 86). No quadro da sociologia figuracional elisiana, o desporto representa um terreno privilegiado para estudar a formação de uma série de instituições, práticas e grupos no âmbito dos quais “a nossa sociedade satisfaz a necessidade de experimentar em público a explosão de fortes emoções - um tipo de excitação que não perturba nem coloca em risco a relativa ordem da vida social” (p. 169). A manutenção de um quotidiano funcional nas sociedades modernas exige aos indivíduos um esforço constante de regularidade, estabilidade, previsibilidade e controlo emocional nas suas condutas. Num mundo organizado pelos ritmos e necessidades da esfera laboral, mas também numa série de outras atividades de tempo livre predominantemente centradas nos outros, os lazeres e os desportos constituem um “enclave socialmente consentido de concentração sobre si próprio” (p. 225) e de libertação emocional. Em síntese, para Elias e Dunning, “aquilo que as pessoas procuram nas suas actividades miméticas de lazer não é o atenuar das tensões mas, pelo contrário, um tipo específico de tensão” (p. 188), uma forma de excitação agradável que convoca um conjunto de emoções - o medo, a tristeza, a euforia, a ansiedade - que noutros contextos procurariam evitar.

O crescimento da esfera dos lazeres é assim interpretado como o contraponto a uma crescente rotinização de todas as esferas da vida e a uma racionalização das condutas. Do ponto de vista teórico, com esta leitura do desenvolvimento histórico do campo dos lazeres, que permite compreender o que se passa em regiões morais tão diferentes como o estádio de futebol, a sala de cinema ou a pista de dança, por exemplo, A Busca da Excitação opera uma dupla rutura. Por um lado, distingue-se das conceções funcionalistas que entendem os lazeres como tempo de descanso, como meio para proporcionar o relaxar das tensões e a recuperação das fadigas do trabalho. Por outro lado, distancia-se também de um certo marxismo, que tende a ver no desporto, e em especial no desporto comercializado e massificado, ora uma forma de reificação das ideologias meritocráticas e das lógicas concorrenciais do capitalismo, ora um dispositivo de produção de alienação e fragmentação das classes populares, sob a forma de nacionalismo, sectarismo e fanatismo.

Este argumento e o modelo teórico associado são trabalhados ao longo de dez capítulos, publicados originalmente entre o final dos anos 1960 e meados da década de 1980. Centrados no caso inglês, os textos problematizam a génese e o desenvolvimento histórico do desporto a partir de diferentes objetos, em diferentes cronologias, articulando o detalhe dos estudos micro com a análise macro de processos de longa duração. Os dois primeiros capítulos, “A busca da excitação no lazer” e “O lazer no espectro do tempo livre”, escritos por Elias e Dunning, são artigos de natureza essencialmente conceptual, nos quais são lançadas as bases de uma teoria processual dos lazeres. O desporto é, assim, pensado como um índice do processo civilizacional. Ou seja, o seu significado social e cultural é interpretado no quadro mais amplo das mudanças observadas nos padrões de comportamento e sensibilidade nas sociedades modernas ocidentais - que se deslocam estável e gradualmente, ainda que de forma não linear, no sentido de uma maior repressão da expressão de estados emocionais imediatos, de uma maior regulação interna das condutas e da instituição de limiares mais apertados de tolerância à violência. A reconfiguração destes padrões de sensibilidade encontra-se, por sua vez, relacionada com a extensão das cadeias de interdependências, que se materializam em processos como a industrialização, a urbanização ou a monetarização da economia, e com a consolidação do monopólio estatal do uso legítimo da força.

O terceiro capítulo, “A génese do desporto enquanto problema sociológico”, demonstra o poder heurístico da abordagem sociogenética. Dividido em duas partes, a segunda até aqui inédita em Portugal, o texto procura situar historicamente o desenvolvimento do desporto em Inglaterra e a sua transformação num movimento de lazer de dimensão mundial. A identificação dos modelos de regulamentação formal das práticas desportivas e a redução constante do grau de violência admissível nas provas desportivas a partir da segunda metade do século XIX permitem estabelecer um corte entre os passatempos e os jogos tradicionais, por um lado, e os desportos, por outro, e, em simultâneo, revelar a natureza particular destes últimos. O desporto é apresentado, de forma inequívoca, como um fenómeno moderno. Trabalhada teoricamente neste capítulo, a hipótese de uma diferença essencial entre os desportos modernos e os passatempos e jogos tradicionais é aprofundada no quinto capítulo, escrito com Eric Dunning. Sob o título “O futebol popular na Grã-Bretanha medieval e nos inícios dos tempos modernos” encontramos uma análise detalhada das descontinuidades e ruturas entre os jogos com bola da idade média e aquilo que chamamos desportos na contemporaneidade.

Para compreender a génese dos desportos, Elias propõe que se olhe para a configuração específica de forças no interior da sociedade inglesa: a fraqueza relativa do rei e da corte face às classes de proprietários rurais, a aristocracia, a gentry, e a própria burguesia comercial e o equilíbrio de forças entre estes grupos. Ao contrário de análises focadas em especificidades identitárias e culturais (o puritanismo britânico, por exemplo), é no confronto entre classes e no processo de formação do Estado e de monopolização da violência em Inglaterra, que o livro encontra a chave para interpretar a génese do processo de desportivização. No capítulo quarto, “Ensaio sobre o desporto e a violência”, é possível compreender como a caça à raposa na Inglaterra do século XIX se tornou um passatempo altamente especializado, com uma organização e convenções próprias. A evolução desta prática permite reconsiderar tanto a função social do lazer (a criação de tensões agradáveis) como a correlação entre a institucionalização das convenções e das convicções associadas ao parlamentarismo e as transformações observadas na estrutura de uma atividade de lazer. Desporto e parlamentarismo não se encontram aqui em oposição - de um lado o terreno das paixões e da violência, do outro o lugar do civismo e da racionalidade -, mas concorrem ambos para a construção gradual de uma série de mecanismos de resolução pacífica das diferenças entre grupos que disputam o poder.

O problema da violência no desporto, em especial no caso dos adeptos de futebol, será talvez o tema ao qual A Busca da Excitação e a sociologia do desporto de Norbert Elias e Eric Dunning estão mais associados. A esse facto não será certamente alheia a procura social e política por explicações para o holliganismo na Inglaterra dos anos 1980 e a exportação de muitas dessas ansiedades para outros contextos onde o futebol é um desporto popular. A questão é diretamente enfrentada nos três capítulos finais do livro - “As ligações sociais e a violência no desporto”, assinado por Eric Dunning, “A violência dos espectadores nos desafios de futebol: para uma explicação sociológica”, da autoria de Eric Dunning, Patrick Murphy e John Williams, e, finalmente, “O desporto como uma área masculina reservada: notas sobre os fundamentos sociais da identidade masculina e suas transformações”, também de Eric Dunning, e publicado pela primeira vez em língua portuguesa nesta edição. A explicação para a violência provocada pelos espetadores dos desafios de futebol encontra-se na estrutura e na organização comunitária das classes trabalhadoras britânicas, em especial nos setores mais rudes dessas classes trabalhadoras. De acordo com Dunning, entre elas predominariam as ligações segmentares, que poderemos descrever de forma sintética como fechamento comunitário de tipo tradicionalista. Afastados dos esquemas de integração social, económica e política associados ao crescimento das cadeias de interdependências, os membros dessas comunidades não teriam ainda internalizado muitos dos mecanismos que permitiram aos diferentes estratos das classes altas reduzir a sua angriffslust, “o que significa, literalmente, um declínio no intenso desejo de agressão, isto é, no desejo e na capacidade de as pessoas sentirem prazer pelo facto de agredirem as outras” (p. 453). Verifica-se, por conseguinte, sobretudo entre os membros masculinos dessas comunidades, a persistência de disposições para a violência, mais afetiva do que instrumental, típica de sociedades tradicionais e das suas normas de masculinidade.

Para além do tema da sociogénese dos desportos modernos, do problema da violência associada aos espetadores dos eventos desportivos, o terceiro grande tema que tornou A Busca da Exitação numa obra de referência para a sociologia do desporto e que ajudou a construir uma agenda de investigação comparativa internacional foi a análise e interpretação do problema histórico da passagem progressiva, lenta e conflituosa do amadorismo ao profissionalismo entre os praticantes desportivos. A transformação das práticas de lazer limitadas a determinados segmentos das elites em competições orientadas para os resultados teve como corolário inevitável a dissolução do ethos amador, a afirmação do profissionalismo e a popularização de alguns desportos, tanto do lado dos praticantes como dos espetadores. A transição do amadorismo ao profissionalismo é interpretada, de forma densa e complexa, num dos melhores capítulos do livro, da autoria de Eric Dunning, “A dinâmica do desporto moderno: notas sobre a luta pelos resultados e o significado social do desporto”. Neste texto, Dunning articula o fenómeno da profissionalização com o desenvolvimento do desporto enquanto um dos principais meios de identificação coletiva e representação comunitária, ao mesmo tempo que o relaciona com o processo de construção do Estado moderno, de uma economia industrial e das lutas entre diferentes grupos sociais pelo controlo das instituições e ideologias desportivas.

Vale ainda a pena destacar uma ideia transversal a todos os capítulos: a relevância do desporto como laboratório para a análise sociológica e não apenas como observatório para o estudo dos lazeres. Este argumento é trabalhado principalmente a partir de dois terrenos de pesquisa. Por um lado, a partir das análise das inter-relações funcionais entre atividades de lazer e não lazer, é possível afirmar que a variação e a diversidade nos processos de regulamentação dos desportos contribui para a “crítica de uma hipótese muito difundida na sociologia contemporânea, isto é, a presunção de que as normas de todas as sociedades são monolíticas e todas formando um só bloco… como se os seres humanos que formam a sociedade se regessem, em todas as suas atividades, por um único conjunto de normas” (p. 217). Por outro, o estudo da conexão entre as regras do jogo e outros sistemas normativos, bem como a ligação entre esses quadros normativos com o campo das práticas, permitem ainda explorar as dinâmicas relacionais das práticas e das configurações sociais. No sexto capítulo, “A dinâmica dos grupos desportivos - uma referência especial ao futebol”, a movimentação interdependente dos vários intervenientes num jogo é apresentada como um modelo para “compreender que é da configuração dinâmica dos próprios jogadores que, num dado momento, as decisões e os movimentos dos jogadores individuais dependem” (p. 405). Olhar para os padrões de jogo, ou seja, a interdependência dos movimentos dos jogadores de cada uma das equipas em relação aos movimentos dos jogadores da outra equipa e dos seus colegas, ou seja das figurações que caracterizam um jogo de futebol, pode servir para ultrapassar o individualismo metodológico do homo clausus, e o pensamento dicotómico que pensa a organização do social como se cooperação e conflito, grupo e indivíduo, constituíssem termos mutuamente exclusivos e não elementos interdependentes e inseparáveis.

Sendo uma obra fundamental no campo da sociologia do desporto, a relevância contemporânea de A Busca da Excitação não se limita, de modo algum, a esse sub-campo disciplinar. Face ao risco de fragmentação da sociologia num “amontoado de especializações profissionais sem ligação entre si” (p. 86), uma das questões fundamentais da teoria social contemporânea é precisamente a urgência de integrar diferentes temas, campos de pesquisa e dimensões da realidade social em quadros coerentes e unificadores, no interior dos quais os diferentes especialistas possam dialogar. Desse ponto de vista, A Busca da Excitação, encarada como terceiro volume do Processo Civilizacional, permanece, 30 anos após a sua primeira edição, uma obra única, de grande amplitude empírica, originalidade metodológica e fôlego teórico. Não obstante alguma redundância e repetição entre os textos e a qualidade desigual de alguns capítulos, que torna a leitura em alguns momentos menos excitante, encontramos ao longo do livro uma multiplicidade de temas, escalas temporais, fontes empíricas e ligações improváveis entre diferentes campos de pesquisa que vêm confirmar a relevância desta nova edição. O livro ganha um renovado interesse com a excelente introdução de Diogo Ramada Curto, Miguel Bandeira Jerónimo e Nuno Domingos, que permite situar de modo mais informado o lugar de A Busca da Excitação na obra de Norbert Elias, e identificar os debates que o trabalho de Elias continua a suscitar.

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