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Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0807-8967

Diacrítica vol.27 no.3 Braga  2013

 

Fronteira e contacto em O Meu Nome é Legião

Border and contact in O Meu Nome é Legião

Daniel Paiva*

*Universidade de Lisboa, Centro de Estudos Geográficos, Lisboa, Portugal.

daniel-paiva@live.com.pt

 

RESUMO

Este ensaio pretende rever as relações pós-coloniais presentes na obra O Meu Nome é Legião, de António Lobo Antunes, a partir de uma perspetiva geográfica. A narrativa polifónica de Lobo Antunes permite o sobrepor de diferentes representações sociais e espacialidades, construindo uma imagem complexa da condição pós-colonial lisboeta do Século XXI. Neste romance, é visível como as fronteiras mentais do colonialismo são transpostas para o espaço urbano metropolitano e moldam o mesmo. As relações sociais das personagens oscilam entre a alteridade e o hibridismo em espaços que são simultaneamente fronteira e heterotopia. Começaremos por debater estes quatro conceitos para, de seguida, refletirmos sobre algumas constantes na escrita de Lobo Antunes em relação às temáticas pós-coloniais. Numa segunda fase passar-se-á à análise do texto em si, caracterizando-se as representações sociais e geográficas das várias personagens da obra.

Palavras chave: Lobo Antunes; O Meu Nome é Legião; hibridismo; alteridade; fronteira; heterotopia.

 

ABSTRACT

This essay intends to review the postcolonial relationships present in António Lobo Antunes’s O Meu Nome é Legião. The polyphonic narrative of this work allows an overlapping of different social representations and spatialities, creating a complex image of the postcolonial condition in 21st century Lisbon. The novel shows how the mental borders of colonialism are transposed into the metropolitan urban space and how they shape it. The social relationships of the characters oscillate between alterity and hybridism in spaces that fluctuate between border and heterotopia. We will begin by discussing these four concepts and then proceed to reflect upon postcolonial aspects that are recurrent in Lobo Antunes’s writings. In the second part of the essay, we will focus on the novel itself, analysing the social and geographical representations of the characters.

Keywords: Lobo Antunes; O Meu Nome é Legião; hybridism; alterity; border; heterotopia.

 

Introdução

A cidade de Lisboa tem sido, desde a Revolução de Abril, recetora de imigrantes em larga escala. Esse foi um fenómeno novo dado que, antes dessa data, Portugal era essencialmente um país de emigrantes. À medida que os imigrantes se estabeleciam na cidade, foram-se formando vários enclaves étnicos, em especial nas zonas mais periféricas. Durante cerca de duas décadas, estes enclaves passaram despercebidos, devido à sua natureza periférica e fragmentária. Nesse período, a política nacional e local relativamente à imigração era inexistente ou numa base de laissez-faire (Beja Horta, 2008). Mais recentemente, estes enclaves começaram a ser vistos como um problema urbano e social. Na última década em particular, os media têm focado mais ou menos regularmente problemas sociais existentes, em especial aqueles que incluem criminalidade e violência, em bairros cuja população é imigrante (Fortes, 2009). A existência destes bairros e a sua associação à violência e criminalidade criaram novas fronteiras na cidade, dado que estes começaram a ser vistos como no-go zones.

É uma destas no-go zones que António Lobo Antunes apresenta no seu livro de 2007, O Meu Nome é Legião. Esta obra retrata difusamente um conjunto de vivências do Bairro 1º de Maio, um bairro de imigrantes que se situará numa zona periférica da cidade de Lisboa. Através de uma narrativa polifónica, o texto oferece-nos diferentes e contrastantes perspetivas sobre um espaço intrinsecamente pós-colonial. O que torna esta obra geograficamente interessante é o modo como se pode descobrir nela uma dualidade de representações sobre o espaço, a paisagem, as fronteiras e as territorialidades. O que se pretende apresentar neste ensaio são essas representações geográficas e sociais relativas ao Bairro 1º de Maio presentes em O Meu Nome é Legião, com especial foco para a questão da fronteira entre o interior e o exterior do bairro, e como essa marca uma dualidade patente na polifonia da obra.

O presente ensaio irá dividir-se em cinco partes distintas. A primeira irá referir-se à leitura crítica do pós-colonialismo e aos conceitos de geografia imaginária e de identidade híbrida. A segunda irá problematizar as questões da segregação e das fronteiras que existem na cidade pós-colonial. De seguida, apresentar-se-ão algumas perspetivas sobre os contornos da escrita de Lobo Antunes, com um foco particular nos temas do colonialismo e do pós-colonialismo. A secção seguinte centrar-se-á na análise e discussão das representações geográficas e sociais em O Meu Nome É Legião. Finalmente, concluir-se-á ao se expor como, nesta obra, a alteridade e o hibridismo coexistem, criando espaços que são simultaneamente fronteiras e heterotopias.

Alteridade e Hibridismo

Segundo Ryan (2004: 471), o pós-colonialismo, disciplina crítica que evoluiu a partir de autores como Said ou Bhabha, mas também Hall (2001) ou Spivak (1999), significa tanto a análise de “pessoas, estados e sociedades depois do colonialismo” como o facto de ser um “conjunto de teorias, ideias e práticas comprometidas com a luta anticolonial, com o mover-se para além do colonialismo”[1]. Na Geografia, a inclusão do pós-colonialismo tem pretendido “fornecer leituras críticas do poder, conhecimento e produção do espaço colonial, e os seus efeitos em moldar o mundo presente” (Blunt, 2005: 179). Blunt refere que o pós-colonialismo geográfico tem-se centrado em cinco temáticas: as geografias de encontro, conquista, colonização e estabelecimento; as geografias das representações coloniais em formas escritas e visuais; a produção do espaço em cidades coloniais e pós-coloniais em termos de forma urbana, paisagem e experiências do quotidiano; os espaços racializados e sexualidades do colonialismo; e as geografias das migrações, diáspora e transnacionalidade. Este estudo insere-se quase absolutamente na última. Segue-se a linha de pensamento de Ryan (2004: 479), que defende que fazer geografias pós-coloniais não é apenas uma questão de desconstruir representações culturais do poder imperial e colonial mas também explorar o quotidiano cultural e as resistências e negociações que subsistem nas zonas de contacto, “desde Londres até Lagos”. No nosso estudo, iremos abordar uma perspetiva literária sobre justamente uma dessas zonas de contacto, onde os aspetos geográficos têm um peso real no decorrer das relações pós-coloniais.

Da leitura crítica do pós-colonialismo, extraímos duas noções que são basilares para o quadro de análise da obra que aqui se trata. Estes são conceitos contrastantes mas, na ambígua realidade que a escrita que Lobo Antunes desvenda, são complementares e esclarecedores. Começamos por abordar o conceito de geografia imaginada de Said, que se usa aqui no sentido de haver uma geografia do Outro. Edward Said, na sua obra Orientalism (1978), fez uma análise seminal que introduziu o conceito de geografia imaginada. Tomando como objeto de estudo vários textos de países Ocidentais, principalmente romances, o autor mostra como foi construída ao longo do tempo uma determinada ideia do Oriente como o oposto do Ocidente. Se o Ocidente era visto como racional, civilizado e progressivo, o Oriente era exatamente o oposto: a terra da selvajaria. Para Said, esta ideia gera-se a partir da coerência narrativa do texto Ocidental, que é principalmente o Europeu, que forma uma geografia imaginada. Esta é a geografia do Outro enquanto tudo o que é oposto ao próprio. Numa perspetiva alargada, uma geografia imaginada forma-se quando uma narrativa se desenvolve de modo coerente durante algum tempo acerca de um lugar e dos seus habitantes que está para além de alguma fronteira ou com o qual simplesmente não se tem contacto direto. Esta narrativa, logicamente, apesar da sua coerência interna, não corresponde à realidade desse lugar. Para além disso, a partir da leitura de Said sobre o Ocidente e Oriente, verifica-se como a divisão entre o Eu e o Outro acaba por corresponder a uma divisão entre o civilizado e o selvagem, ou se quisermos, entre o bom e o mau. A dualidade cultural é construída enquanto dualidade ética.

Bhabha (1994), por outro lado, apresenta o conceito de híbrido. Este conceito, não sendo completamente contrastante em relação ao conceito de Said, pressupõe uma dinâmica diferente no encontro entre diferentes culturas. O híbrido é aquilo que resulta de um longo contacto entre duas culturas, e reflete aspetos de ambas. Reflete principalmente as ambiguidades e tensões presentes nesse encontro. Para este autor, a colonização não foi uma relação pura de dominador/ dominado, e possibilitou uma negociação cultural, de onde surgiram novas identidades híbridas. Este conceito aplica-se a cenários de contacto direto entre culturas, ao contrário da geografia imaginária, que emerge de uma produção cultural realizada em grande parte à distância. Este conceito de identidade híbrida pode ser aplicado ao caso da obra de Lobo Antunes, como se verá, apesar de a dualidade e a alteridade do conceito de Said nunca ser posta em segundo plano. De facto, o híbrido e a dualidade entram em duelo permanentemente em O Meu Nome É Legião.

Fronteira e Heterotopia

Segundo Escallier (2006: 79), a cidade, enquanto lugar de civilização, organização social e governo, é “fundadora de uma cidadania e de uma identidade”. No entanto, por ser um espaço aberto e lugar de mudança e sociabilidade, ela cria diversidade, fundando-se nela outras formas de urbanidade. Assim, a cidade é invariavelmente um espaço de pluralidade, que tem de equilibrar a sua identidade própria com as suas identidades interiores.

A pluralidade urbana acentua-se no presente panorama de globalização. O conceito de cidade global (Sassen, 2001) está hoje bem estabelecido e a influência dos fluxos globais nas relações locais, em processos de glocalização (Swyngedouw, 2004), é indiscutível. Nas cidades europeias, após o fim do período colonial, a metrópole torna-se recetora de pessoas que vêm das ex-colónias. Em Lisboa, depois do 25 de Abril, a cidade acolhe um grande número de retornados, Portugueses brancos que voltam das ex-colónias. Ao longo dos anos 80 e 90, a imigração africana cresce e vai-se ancorar principalmente nos concelhos periféricos à cidade de Lisboa, verificando-se alguma segregação espacial (Malheiros, 1998). De facto, clusters (ou ghettos, consoante a valorização) de migrantes começaram-se a formar em muitas das cidades europeias.

Neste contexto, a existência de fronteiras na cidade parece inevitável. Escallier (2006: 81) refere que os conceitos de cidade e fronteira aparentam ser diametralmente opostos, dado que o primeiro implica abertura, movimento e unidade e o segundo impõe confinamento, divisão e oposição ao movimento. No entanto, numa cidade composta por diferentes grupos, surgem fronteiras internas, fruto tanto de processos de apropriação territorial de um desses grupos como de confinamento de um desses grupos pelo poder hegemónico da cidade que o pretende controlar.

De facto, van Kempen (1994: 995) refere-se à cidade contemporânea como uma cidade dual. Esta cidade dual é uma em que se verifica uma segregação espacial entre dois pólos sociais: um de opulência económica e outro de pobreza crónica. Segundo a autora, isto acontece devido à reestruturação económica que teve efeitos no mercado de trabalho, em relação à desindustrialização e ao aumento do sector terciário na percentagem de emprego urbano e na sua bifurcação em termos de acesso – distingue-se o emprego altamente qualificado e o emprego não-qualificado. Geram-se diferentes realidades sociais na cidade. Espacialmente, o resultado é a existência de enclaves de pobreza que minam a capacidade de mobilidade social das pessoas que lá habitam, em função de terem menos oportunidades de vida. Esses enclaves de pobreza geram menos oportunidades dessas devido a vários factores: o peso da normatividade da pertença local na pessoa inserida, que a faz considerar que é natural viver ali; o capital social que a pessoa tem, que não lhe permite muitas alternativas na vida; o provisionamento que tem nesse enclave em termos de acesso a serviços como educação ou serviços governamentais; e a estigmatização que pode levar à pessoa ser rejeitada noutros ambientes devido à sua origem.

Embora van Kempen não se refira a questões étnicas, o facto é que a etnicidade é um factor preponderante na divisão social na cidade (Anthias, 2001). E a diversidade étnica em muitas das cidades europeias, incluindo Lisboa, provém das correntes de imigrantes após as descolonizações. Ainda assim, há que ter em conta que as divisões existentes e fronteiras resultantes não implicam quebra total dos fluxos na cidade. As diversas partes continuam interdependentes em variados aspetos e os processos de hibridação que Bhabha encontra na cidade colonial tropical prosseguem na cidade pós-colonial europeia.

Deste modo, deve-se ver a cidade como um lugar dinâmico e não estático. Os elementos que as compõem, apesar de duais, relacionam-se entre si com mais ou menos tensão. Massey (1994: 155) refere que os lugares hoje não têm fronteiras claras e identidades únicas. As fronteiras, apesar de existirem, são frágeis e permeáveis. Os lugares estão cheios de contradições interiores que impedem um discurso ao mesmo tempo coerente e abrangente sobre o que são. Assim, a noção de lugar urbano tem que ser a de um espaço aberto, atravessado por diferentes fluxos compostos por diferentes culturas. No entanto, as fronteiras permanecem, fruto das dualidades da cidade moderna.

Escallier (2006: 88) distingue três tipos de fronteiras que surgem no espaço urbano: as fronteiras impostas pelos poderes políticos através da planificação e do espaço construído, as fronteiras criadas por mecanismos de segregação económica e social; e fronteiras mentais, imaginárias e imateriais. O que interessa em especial nesta análise ao texto de Lobo Antunes é o último tipo, embora as duas primeiras tenham obviamente importância. O autor analisa o primeiro tipo de fronteiras principalmente com base nas cidades coloniais e na diferenciação que havia nestas entre o espaço dos colonizadores e o espaço dos colonizados e a implicação étnica e relação de poder que daí resultava. No texto de Lobo Antunes, ver-se-á como o que existe é ainda consequência desse processo, embora surja na cidade de Lisboa com uma lógica invertida. Estas fronteiras no espaço urbano, em particular as mentais, têm a característica de estarem pouco materializadas. Dado isso, acabam por se tornar móveis. A fronteira acaba por existir onde existe o contacto com o outro. Deste modo, o lugar urbano torna-se numa heterotopia. Foucault (1984) caracteriza as heterotopias como uma justaposição de vários espaços e tempos marcados pela diversidade. Estes são lugares de contacto com o Outro que potenciam a visibilidade dessa diversidade. Assim, são lugares de permanente negociação e contestação de identidades. No texto de Lobo Antunes, a fronteira irá exatamente diluir-se numa heterotopia com estas características.

Em relação à questão da fronteira no caso que se estuda aqui, é pertinente tomar atenção à crítica de Boaventura de Sousa Santos (2002). O autor argumenta que no colonialismo Português não existe uma fronteira inequívoca entre colonizador e colonizado. Isto acontece porque este processo de colonização foi periférico. A empresa colonizadora de Portugal baseou-se em tornar o país no centro dos territórios que são periféricos às colónias de outros países europeus. Segundo o autor, isto explica o a-centrismo da cultura portuguesa e a sua dificuldade de diferenciação face ao exterior. Esta leitura encontra um eco na forma como o processo de descolonização em Lobo Antunes se associa a uma escrita da perda. Pode-se entender que, pela diluição da cultura Portuguesa nas suas colónias, a perda destas foi uma perda da sua identidade própria.

Lobo Antunes numa Perspetiva Pós-colonial

O tema da Guerra Colonial e do processo de descolonização são recorrentes na obra de Lobo Antunes. Seixo (2002: 499) refere que a temática colonial existe em Lobo Antunes como motivação pretextual da escrita, dada a experiência pessoal do autor na Guerra Colonial Portuguesa. Eunice Cabral (2003: 363) escreve: “Os romances de Lobo Antunes até hoje publicados (…) têm sempre como núcleo da matéria efabulada uma perda. A perda é a de um lugar próprio do indivíduo do mundo (…)”. Este tema da perda, nas obras que refletem sobre o colonialismo ou o pós-colonialismo português, reflete-se em primeira instância no plano humano. Seja o ex-combatente que regressa e já não encontra o país em que vivia quando partiu (Os Cus de Judas), seja o retornado que perdeu o país onde vivia (As Naus), ou o imigrante que perdeu o seu país de origem (O Meu Nome é Legião), o que está em causa é a perda do lugar que a pessoa tinha no mundo. Num plano mais abstrato, pode-se aqui encontrar a já referida ideia de Santos (2002) de que a perda das suas colónias foi para o país uma perda de parte de si devido à sua dificuldade de se diferenciar face ao exterior. Ainda assim, é de salientar a posição de Seixo que refere que a problemática dos romances de António Lobo Antunes não é meramente a crítica do Salazarismo, do imperialismo ou da Guerra Colonial, apesar da presença desses elementos, mas sim a apresentação de “um complexo de atitudes que envolve a desgraça do colonizado tanto como a do colonizador” (Seixo, 2002: 501).

Para além da dimensão da perda, a alteridade é uma questão fundamental no tratamento do colonial e do pós-colonial em Lobo Antunes. Seixo (2002: 510), baseando a sua análise na obra O Conhecimento do Inferno, argumenta que é o conhecimento do outro, seja da outra terra ou do outro habitante mas sempre na sua relação de diferença e oposição ao europeu, que leva ao reconhecimento da sua alienação. Deste reconhecimento de alienação resulta o sentimento de estranheza que invade as personagens de Lobo Antunes. Martins (2003: 115); analisando As Naus, destaca o estranhamento e a não-pertença dos retornados em Lisboa como um tema central. Nesta obra, o retornado é o Outro da sociedade Portuguesa. Na obra que analisaremos, é o imigrante que surge como o Outro, e o estranhamento, apesar de subsistir no imigrante, existe também e principalmente na sociedade recetora. Fonseca (2003: 286-287), analisando a obra O Esplendor de Portugal, refere que apesar da representação binária da cultura (no sentido que Said concetualizou, apesar de neste caso a dicotomia ser o branco\ negro), os temas de hibridação, transculturalidade e mestiçagem (na senda de Bhabha) são centrais. O mesmo se aplica à obra que aqui se analisa. Seixo (2002: 507) destaca o caráter heterotópico dos lugares que Lobo Antunes descreve, dado serem pontos de comunicação entre os dois pólos culturais do contexto colonial. O conceito de heterotopia, já referido, pode ser aplicado aos lugares apresentados por Lobo Antunes, pois estes são sítios de encontro e conflito entre Outros, ainda que tal não implique a inexistência de fronteiras, como se verá. No entanto, parece inevitável a fronteira ser quebrada em O Meu Nome é Legião, como talvez em qualquer outra fronteira.

Um outro aspeto a ser referenciado em relação ao contexto pós-colonial em Lobo Antunes é a transposição que confere continuidade de uma guerra colonial para uma pós-colonial. Cardoso (2009: 4) refere que em O Meu Nome é Legião se vêem as guerras humanas, a guerra colonial portuguesa e a guerra civil angolana, na forma de guerras interiores das personagens, através das identidades e integração social. O autor encontra na própria obra de Lobo Antunes a ponte entre a guerra colonial portuguesa, no livro Os Cus de Judas, e as guerras interiores de O Meu Nome é Legião, referindo que é a mesma guerra, apesar de já não ter lugar nos “cus de Judas”[2], pois foi “des-locada”, i.e., mudou de lugar e os actores perderam as suas raízes. Assim, a fronteira colonial não desapareceu, mas transferiu-se para o interior da metrópole. Também Cabral (2003: 377) refere que “[d]a guerra colonial fracassada passa-se para a guerra que é das existências que se movem por inércia e que se encontram destituídas de qualquer tipo de finalidade”. Assim, a noção de que o que existe na cidade pós-colonial é ainda parte da configuração da cidade colonial está presente na obra de Lobo Antunes. Seixo (2002) defende que a travessia no tempo e o envolvimento na História não são elementos presentes na obra de Lobo Antunes, apenas para o exercício da reflexão, mas para apresentar a experiência do lugar e dos atos que perfazem o colonialismo/ pós-colonialismo.

Uma nota final para a escrita polifónica de Lobo Antunes, que é importante perceber para compreender as contraposições que surgem em O Meu Nome é Legião. A polifonia exprime-se através da quebra da continuidade narrativa através da mudança da voz que discursa. Através desta quebra, os enredos deixam de “obedecer ao princípio de linearidade” (Petrov, 2003: 231). A narrativa mantém a sua coesão apenas pela temática principal que se manifesta ao longo da obra, como Cabral (2003: 370) o refere em relação ao Auto dos Danados. Constrói-se, então, uma representação da realidade a partir de diversos relatos, e o texto é formado por “histórias e tempos que engordam” (Arnaut, 2011: 78). Ou seja, em vez de seguir uma linha contínua clara, o texto vai-se preenchendo gradualmente por relatos e experiências das personagens. Outro aspeto que a polifonia permite é a descoberta da alteridade. Cabral (2003: 376) argumenta que em Lobo Antunes a identidade provém do confronto com o discurso do Outro. Ainda assim, segundo a autora, o conflito e o antagonismo estão ausentes da obra de Lobo Antunes. Seixo (2002) partilha essa noção de que não há um conflito frontal entre as várias perspetivas das personagens. Em O Meu Nome é Legião, não se pode considerar uma ausência absoluta do conflito, apesar da ausência do confronto direto. Ainda que se possam encontrar similaridades entre os discursos de algumas personagens[3], os pontos de vista são claramente antagónicos entre os habitantes do bairro e os que vêm do exterior. Existe uma dualidade visível nas representações do bairro. Neste sentido, Monteiro et al. (2011: 5) referem como as “descrições de narradores próximos aos jovens trazem um contraponto à tentativa de desumanização dos chamados ‘transgressores’ da lei”. Ao mesmo tempo, estes contrapontos vão expor os contactos e as negociações que perfazem os processos de hibridação e transculturalidade sempre presentes.

Em suma, identificámos aqui três dimensões centrais do colonialismo/ pós-colonialismo em Lobo Antunes: a da perda, a da tensão entre o binário cultural e a hibridação, e a da continuidade (ou transposição de elementos) entre o colonial e o pós-colonial. Destas, será a tensão entre o binário cultural e a hibridação que mais se desenvolverá na análise a O Meu Nome é Legião, embora os outros aspetos não sejam afastados. Neste sentido, e em particular nesta obra, a polifonia é o meio estilístico através do qual nos chega a alteridade que cria uma fronteira efetiva na cidade.

O Meu Nome é Legião: Representações Geográficas e Sociais

O romance tem como ponto de partida a noite em que oito jovens do Bairro 1º de Maio efetuaram uma série de assaltos na região de Lisboa. A narrativa começa por ser um relatório policial em que um agente descreve formalmente os atos dos jovens, intercalando com devaneios de memórias passadas. A partir do quarto capítulo, a narrativa passa para o relato pessoal de pessoas do bairro, entrevistadas pela polícia para obter informações sobre a área e o grupo de jovens. No antepenúltimo capítulo, regressa o modo de relatório policial, em que o primeiro narrador tenta fazer algum sentido a partir dos relatos dos habitantes, de modo a obter informações para proceder à captura dos jovens. O livro termina com o relato pessoal de um dos jovens do grupo da vivência do Bairro 1º de Maio e da noite em que a história se centra.

Ao longo da obra temos várias representações do Bairro 1º de Maio, tanto exteriores, por parte do narrador polícia que escreve o relatório e de uma habitante que foi viver para o bairro já com cinquenta anos, como interiores, por parte de habitantes de longa duração. As representações exteriores e interiores diferem largamente entre si, como se verá. Para além das representações sobre o bairro, também os limites deste são referidos, existindo elementos tanto naturais como humanos que servem de fronteira. Por último, é de referir a existência de fronteiras mentais, menos palpáveis: o branco/ negro, o rico/ pobre e a luz/ escuridão, esta última presente num só personagem.

A primeira perspetiva sobre o Bairro 1º de Maio que nos é apresentada é a do narrador polícia que escreve o relatório sobre os crimes cometidos pelo grupo de jovens. Aqui, para além de localizar o bairro na “região noroeste da capital” (Lobo Antunes, 2007: 13), o narrador descreve o bairro alternando entre tentativas de ser objetivo e a sua opinião pessoal. Descreve-o inicialmente como:

(…) conhecido pela sua degradação física e inerentes problemas sociais (…) (Ibidem)
(…) conhecido pela sua degradação física e inerentes problemas raciais isto é um pudim de edifícios de matérias não nobres, fragmentos de andaime, restos de alumínio, canas e habitado por gente de Angola, criaturas mestiças ou negras e portanto propensos à crueldade e à violência o que leva o signatário a questionar-se de novo preocupado à margem do presente relatório sobre a justeza da política de imigração (…) (Idem, 30)

Não só o bairro é caraterizado primeiramente pela sua degradação e materiais de baixa qualidade, como os problemas raciais e sociais são associados ao local, naturalizando-os. O discurso de naturalidade dos comportamentos estende-se também à propensão para a crueldade e violência dos negros. O bairro em si é visto como o lugar dos Angolanos. Mais à frente, é referido como uma “criatura de raça inferior” rumou “ao Bairro 1º de Maio onde talvez o protegessem ” (Idem, 69). O Bairro 1º de Maio, portanto, é visto como o lugar de habitação, abrigo e proteção de uma população que não é a mesma, é o Outro. E esse Outro torna-se para o polícia um “estigma social que não há modo de os diferentes poderes (…) solucionarem” (Idem, 65). Sendo o Outro, o bairro e a sua população tornam-se ilegíveis para o polícia narrador:

o mapa do Bairro 1º de Maio que as Informações me entregaram uma anarquia de riscos, locais de pernoita, sítios de encontro e trajectos preferidos (…) (Idem, 35)
o mapa e retratos todos idênticos dos sujeitos (Idem, 36)

Dentro do bairro, a paisagem e as suas pessoas aparentavam ser incompreensíveis, e portanto era necessário estudá-los:

estudava os riscos do Bairro 1º de Maio substituindo-os por cabanas, azinhagas, travessas, zonas
(…)
onde vendiam ouro, electrodomésticos e droga e onde de vez em quando um cadáver a que ninguém atendia salvo para lhe despir uma peça até o abandonarem nu ou com uma bota que não saía do pé à entrada da Amadora (Idem, 36-37)

Apesar das tentativas, o polícia acaba por chegar à conclusão que, mesmo quebrando a fronteira[4] e passando para o outro lado, não é possível compreender o local, e o bairro nunca deixa de ser o Outro:

necessitávamos de alguém no interior
(…)
do Bairro que nos permitisse um mais eficaz planeamento da acção interventiva através de informações precisas
(mais ou menos precisas)
acerca da geografia do lugar
(para ser sincero muito pouco precisas)
como se alguém conseguisse informações precisas de um rodopio
(aí está)
de desperdícios e miséria a que constantemente se acrescentavam novas barracas, novas cabanas e novos becos (…) (Idem, 323)

O polícia é talvez a personagem em que a representação binária melhor se identifica. Para esta personagem, o bairro é sempre estranho e incompreensível. É o lugar do Outro, sendo esse outro os Angolanos. A imagem do polícia (a autoridade) a olhar e tentar decifrar um território dos Angolanos (os subalternos) não está muito distante da imagem do colonizador em África, tentando dominar esse território. Identifica-se aqui uma transposição da lógica colonial para um ambiente pós-colonial, tal como Cabral (2003) e Cardozo (2009) o fizeram. Também o modo como o polícia tenta compreender o bairro – através de relatos e narrativas – é típico da construção de uma geografia imaginada, como Said (1978) o conceptualizou. Não obstante, o polícia não passa deste plano de alteridade, pois não consegue quebrar a sua fronteira mental com o bairro, apesar de quebrar a física.

Outra personagem, no entanto, consegue quebrar as duas fronteiras, através da vivência prolongada do bairro. Trata-se de uma mulher de cinquenta anos que vai viver para o bairro com um homem de dezoito anos. Este não se importa com a idade dela, porque ela é branca e ele negro (Idem, 73).

A representação que esta mulher tem do bairro muda ao longo da sua vida, e acaba também por mudar o modo como ela se vê a si própria. Antes de ir viver para o bairro, não sabe muito bem do que se trata ou onde fica:

(…) morava num Bairro entre Lisboa e Amadora que não sei onde fica (…) (Idem, 77)
num Bairro de pobres que não sei onde fica nem lhe entendi o nome (…) (Idem, 86)
Ao chegar lá, não aprecia o lugar. No seu discurso, refere que nunca gostou do bairro e que passou o tempo a dizer a si própria que se ia embora (Idem, 91). Ainda assim, o lugar muda-a. No início ainda se sente branca:
sou branca
não tenho um colchão em que deitar-me mas sou melhor que tu sou branca (Idem, 84)

Mas com o passar do tempo a viver no bairro, perde essa representação de si própria:

ao tempo que sou preta, há momentos em que não concebo haver tido outra cor (Idem, 104)
Ao mesmo tempo, sonha ainda com viver noutro lugar:
uma vivenda em Sintra em janeiro, flores escarlates e lilases, derramadas dos muros e nós não mestiços nem pretos (Idem, 99)

Esta mulher conseguiu passar não só a fronteira física com o bairro, mas também a fronteira mental. Quando chegou, tinha orgulho no facto de ser “branca”. No entanto, ser do bairro estava demasiado associado ao ser negro e, ao ganhar uma ligação ao lugar, perdeu parte da sua identidade pessoal e tornou-se “preta”. Destaque-se aqui a importância do tempo na formação da ligação do lugar, que não existiu no polícia. O processo de se tornar “preta” ou “mestiça” por viver no bairro é claramente um processo de hibridação (Bhabha, 1994), proporcionado pela vivência prolongada do espaço do Outro.

Noutra passagem, a personagem diz que, em Sintra onde sonha viver, ela própria já não seria branca nem negra, mas sim escarlate e lilás como as flores. Este desejo de partir para outro lugar parece poder ser entendido como um desejo de deixar para trás a hegemonia do binómio branco\ negro. Sintra surge como um lugar distinto dos outros lugares em O Meu Nome é Legião, pois, no imaginário desta personagem, essa cidade é caracterizada pelas cores das suas flores, e não pelas cores das pessoas que a habitam.

Oposta às representações exteriores do Bairro 1º de Maio estão as dos habitantes de longa data. Tomemos como exemplo o discurso de um dos habitantes:

não é o Bairro que me complica com os nervos, habituaram-me desde o princípio a lugares assim (…) (Idem, 127)
(…) um ou outro grito no escuro lá fora derivado a um tiro ou ao vento e não é o Bairro que me complica com os nervos, nunca vivi melhor que isto, é o meu enteado horas a fio a passar-me rente à cara um avião de lata (…) (Idem, 128)
e tudo calmo à volta, troncos e ervas, nem um repique de sinos, não é o Bairro que me complica com os nervos, é a polícia a espiar-nos de vez em quando (…) (Idem, 132)
o sossego do Bairro, não é o Bairro que me complica com os nervos (Idem, 145)

Aqui, um habitante que sempre viveu no bairro está à vontade com o mesmo, pois é o melhor lugar onde já viveu. Apesar de gritos no escuro e tiros ocasionais, considera o lugar sossegado e calmo, e o que o afeta são ou coisas do quotidiano, como o enteado, ou a ação delimitadora da polícia. É também importante aqui a dimensão temporal, pois na representação do polícia emergem relatos da violência como norma ao contrário das representações dos habitantes em que a violência é um elemento que rompe a paz habitual.

Nas representações dos habitantes, é de assinalar a importância que têm os limites do bairro, onde existe claramente uma fronteira física interior/ exterior. Essa fronteira é delimitada por vários elementos físicos, principalmente, vegetação, mas também pela ação humana, em particular da polícia que parece ser percebida como um agente observador quase constante. Estes elementos duplos que formam a fronteira tanto coexistem que parecem fundir-se: os “polícias nas figueiras bravas” (Idem, 137) tanto lá estão que se acabam por gerar processos de metamorfose: “Se a Polícia permitisse e as figueiras bravas não se transformassem em homens que disparam até esquecer o meu nome” (Idem, 372). É a presença policial principalmente que é sentida como a força do confinamento do Bairro 1º de Maio pelos habitantes. A existência desta fronteira entre o bairro e o exterior chega mesmo a condicionar o comportamento dos habitantes e a criar medo neles:

e eu à espera do meu pai mesmo assim certo que havia de encontrar o caminho do Bairro não pelo lado das figueiras bravas e dos cactos, por cima o eucaliptal e a pedreira mas quem me garante que a polícia não na pedreira, no parque de campismo à saída da Amadora ou na auto-estrada com raparigas nos marcos quilométricos a acenarem à gente vindas de África no acabar da guerra (Idem, 133)
a gente saía do Bairro sozinhos derivado à Polícia, um pelo parque de campismo, outro pelas figueiras bravas, outro pelo lado de Sintra (…) (Idem, 283)

Esta fronteira que delimita o interior do bairro pobre dos Angolanos e o exterior da cidade dos brancos é a materialização física da separação entre duas culturas. No entanto, ela é várias vezes quebrada. Como já se viu, a entrada da polícia no bairro é considerada como disruptiva da paz. Uma habitante chega mesmo a referir: “sei que não saio do Bairro mesmo que a Polícia ou os restantes brancos nos matem todos” (Idem, 170). De facto, a cidade para além das fronteiras do bairro é vista como o território dos brancos. Uma habitante, falando do seu namorado branco, indica que ele não morava no bairro, e que provavelmente morava “em Lisboa (…) como os ricos” (Idem, 175). A fronteira física entre o interior e o exterior do bairro comporta consigo portanto outras fronteiras mentais (rico / pobre; branco / negro). Estas são transportadas pelas personagens habitantes do bairro mesmo quando estão fora dele. Mesmo entre aqueles que passam regularmente a fronteira física do bairro, permanece no seu modo de ver o mundo a diferenciação branco / preto, que molda todas as suas relações sociais.

Existem portanto dois níveis diferentes de fronteira no texto de Lobo Antunes, a física entre o interior e o exterior do bairro, e a mental entre o que é associado ao bairro (o ser Africano, o ser pobre) e o que é associado à metrópole[5] (o ser branco, o ser rico). Cardoso (2009: 8) refere que o bairro representa a comunidade, por agir “como um todo (…) autoprotetor”, e que é a política que “delimita o bairro, estabelecendo as fronteiras entre quem tem acesso e quem não o tem”. Estas fronteiras são de todo modo permeáveis. As personagens atravessam-nas e contactam o outro lado. Isto vem de encontro à ideia de Massey (1994) que os lugares deixaram de ter fronteiras claras e se tornaram espaços abertos. Deste modo, o bairro mostra-se também enquanto heterotopia (Foucault, 1984). Olhando O Meu Nome é Legião no seu conjunto, torna-se claro como o bairro 1º de Maio é o centro onde os dois lados do binómio se vêm encontrar. Ele é o palco de contacto entre o branco e o negro, o rico e o pobre. O bairro é o elemento em comum entre as diferentes micro-narrativas de contactos entre os negros do bairro e os brancos de Lisboa, tendo portanto um caráter intrinsecamente heterotópico.

A um nível mais simbólico e menos notório, é de referir também a fronteira luz/sombra que Lobo Antunes inclui na obra. Esta está presente no discurso do polícia nos três primeiros capítulos e também no último capítulo, narradora por um dos jovens do grupo. Esta fronteira, que existe apenas à noite, distingue dois territórios. A sombra é o território do clandestino, onde a invisibilidade concedida protege os atos proibidos. Já a luz surge como um resquício do dia ou de uma memória, uma intermitência na noite que funciona como uma janela de onde se pode observar um outro lugar, noutro tempo. Em relação à fronteira da sombra podemos tomar como exemplo um excerto do início do relatório do polícia:

2 (duas) viaturas particulares de média potência estacionadas nas imediações da igreja a curta distância um da outra e no lado da rua em que os candeeiros fundidos
(vandalismo ou situação natural?)
permitiam actuar com maior discrição (…) (Lobo Antunes, 2007: 13)

Nesta passagem, é visível como a sombra é o território do clandestino, o lugar seguro para se cometer as ilegalidades fora da vista dos outros. Por outro lado, a luz surge no sentido oposto. “[A]s estações de serviço à noite iluminadas na beira do caminho” fazem o narrador polícia sentir-se “menos desditoso” e ele afirma que “se avizinham da noção de felicidade” que há tanto tempo procura (Idem, 15). Páginas depois, esta fronteira é aplicada à fronteira entre o interior e o exterior do bairro, no momento em que os polícias cercam o bairro e vêem apenas alguns metros à sua frente. Quando um dos jovens do grupo se aproxima, o polícia narra:

apercebi-me da inequívoca aproximação vinda do Bairro 1º de Maio
(…)
difícil de distinguir nas trevas com os telhados a subirem e a baixarem cada qual na sua cadência (…) (Idem, 63)

Aqui, temos o interior do bairro como a sombra, o invisível que surge como proteção ao clandestino. Do lado de fora, está a visibilidade que se entrenubla na fronteira do bairro. Um dos polícias que está a ajudar na investigação chega mesmo a sugerir que se apanhem os suspeitos individualmente fora do bairro (Idem, 38), de modo a ser mais eficaz, sinal da impercetibilidade que a pessoa exterior tem ao bairro.

Uma referência à escuridão vinda do interior do bairro é feita no último capítulo. Um dos jovens do grupo refere:

Às escuras o pátio do recreio dava a ideia que grande. Como o Bairro dava a ideia que grande. Ou o parque de campismo. Ou a Amadora. E na realidade acanhados. Cheios de sombras vazias e de gritos contra os quais chocamos não descobrindo a saída. (Idem, 371-372)

Nesta personagem, a escuridão existe ainda num sentido do território do marginal na escrita de Lobo Antunes. No interior do bairro, a escuridão já não é entendida como o impercetível, mas por outro lado faz esquecer o confinamento e dá uma sensação de imensidão. No entanto, surge como um espaço de paz e sossego, ao invés da possibilidade de realizar atos ilegais que o polícia vê nela. Destaca-se de qualquer modo como nesta personagem a escuridão se estende a toda a Amadora e não só ao Bairro 1º de Maio ou às zonas sem iluminação, como na perspetiva do polícia. Esta fronteira entre luz / sombra, sendo simbólica, também se torna mais móvel, mais suscetível de flutuações conforme a subjectividade.

Conclusão

O primeiro aspeto que se evidencia nesta obra é a dualidade nas representações do Bairro. Para os de fora, numa geografia principalmente imaginada, no interior do bairro está a degradação e o impercetível. É o lugar do Angolano e o território que abriga o marginal. Para os habitantes, a descrição é mais plácida e são as ingerências do exterior, especialmente da polícia, que trazem a instabilidade consigo. De destacar a experiência da mulher de cinquenta anos que fora do bairro se sentia branca, e ao viver no bairro, como que passou para o outro lado e perdeu a sua identidade inicial e tornou-se negra. Aqui, está patente a ideia de que o lugar determina a pessoa. Quem está dentro é negro e pobre, quem está fora é branco e rico. De qualquer modo, quem estiver do outro lado é o Outro.

O que nos leva ao segundo aspeto de importância, que é a questão da fronteira. Esta, como se viu, é delimitada tanto por elementos naturais como humanos, sendo a presença dos polícias vista como uma força de confinamento. Esta fronteira molda comportamentos e é a materialização da dualidade que se destacou como primeiro aspeto. No entanto, para além da fronteira física, a fronteira entre o interior do bairro e o exterior parece permanecer nas personagens em qualquer lugar, através das distinções negro\ branco ou pobre\ rico. Na sociedade, é principalmente a origem, através da etnia, que funciona como o elemento que distingue o lugar da pessoa em qual dos lados da fronteira.

Apesar da presença desta fronteira, a comunicação existe entre os dois lados, sempre marcada pela tensão da representação binária da cultura. Este contacto é marcado pelo lado mais humano da obra, particularmente as relações de amor. Isto faz com que, num plano maior que o Bairro 1º de Maio, seja também Lisboa apresentada como uma heterotopia, onde se conflituam e negoceiam duas culturas que se opõem como o Outro de si. Este processo pode ser entendido como um processo de hibridismo, no sentido de Bhabha, que prossegue apesar da segregação e das tensões raciais inerentes nas relações humanas.

Portanto, temos dois níveis de relações presentes na obra. A nível social, observa-se a alteridade na representação cultural binária. Ao mesmo tempo, existe uma dinâmica de relações humanas entre o Eu e o Outro que cria processos de hibridação que coexistem com essa representação binária. Daí nasce o conflito. A nível espacial, estas representações traduzem-se na existência de fronteiras, praticamente apenas mentais. No entanto, estas fronteiras, se forem compreendidas como lugares de contacto, são também heterotopias – o lugar de coexistência com o outro. É este o quadro de relacionamento de onde surge o conflito na obra de Lobo Antunes, arrastado das relações coloniais ultramarinas até aos subúrbios do Século XXI.

 

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[Recebido em 8 de maio de 2013 e aceite para publicação em 4 de outubro de 2013]

 

Notas

[1] Itálico no original. Tradução nossa.

[2] Expressão coloquial para lugar longínquo.

[3] Similaridades estas que vão ao encontro de aspetos em comum ao longo de toda a obra de Lobo Antunes.

[4] Voltar-se-á a esta quebra da fronteira adiante.

[5] Pode-se aqui aperceber este termo no seu duplo sentido.