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Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0807-8967

Diacrítica vol.27 no.3 Braga  2013

 

VIEIRA, Estela, Interiors and Narrative. The Spatial Poetics of Machado de Assis, Eça de Queirós and Leopoldo Alas, Plymouth: Bucknell University Press / Rowman: & Littlefield, 2013, 249 pp.

Orlando Grossegesse*

*Coordenador Ciências de Literatura CEHUM, Universidade do Minho, Braga, Portugal.

ogro@ilch.uminho.pt

 

No panorama anglo-saxónico internacionalizado da Ciência da Literatura, o estudo de Estela Vieira tem, desde já, o inegável mérito de despertar o interesse da comunidade científica para três autores e obras que, por razões da persistência do cânone literário ocidental, têm tido pouca oportunidade até à atualidade de serem ‘protagonistas’ de uma abordagem comparativa. O objetivo declarado são reflexões e definições aplicáveis à poética narrativa das últimas duas décadas do século XIX, prescindindo do ‘peso’ dos respetivos cânones nacionais de Brasil, Portugal e Espanha em que Machado, Eça e Clarín (Leopoldo Alas) se destacam, e partindo de analogias importantes na sua abordagem da escrita realista:

Their technique relies on a basic analogy between the novel and the interior space. In these novels the representation, context, and content of the domestic settings have meta-fictional qualities. In other words, for all three authors the furnishing and experiencing of an interior was something akin to the writing of the novel. (p. 3-4)

Indo além das considerações políticas que fizemos de entrada, e que ecoam no que a própria autora escreve (p. 3; 76), esta tese inicial centrada numa semelhança entre mobilar um espaço e escrever um romance não torna muito transparente o que motivou a escolha precisamente destes três autores e destas três obras, em várias ocasiões denominadas de clássicas ou poderosas. Por outras palavras: qual o contributo para a história literária, entre realismo / naturalismo e modernidade, em termos de representação e semantização simbólica do espaço portas adentro? Ao longo do estudo, o leitor procurará respostas em afirmações como: “If in The Maias there is an excess of divans and its derivates, and Quincas Borba is full of emblematic mirrors, La Regenta is obsessed with balconies” (p. 200), e ficará satisfeito, contudo não totalmente. Em diversas ocasiões, refere-se o denominador comum de romances de declínio, dissolução e fragmentação, evitando – com acerto – o foco em semelhanças narrativas, nomeadamente do adultério (vd. p. 49), para não se desnortear do objetivo. No entanto, não se chega a uma análise das representações de espaços repletos de objetos que espelham o Eu narcísico e que indiciam ao mesmo tempo uma rutura com o mundo exterior, em termos de decadentismo ou esteticismo, por estes serem conceitos ausentes deste estudo.

Surgem dúvidas se a dimensão metaficcional (tal como a intertextual ou intermedial) deve ser considerada per se indicadora de uma transcendência do paradigma realista-naturalista para “the modern search for an inner life” (p. 14). Na parte introdutória, dados biográficos, contextualizados em termos socio-históricos, são utilizados para definir qual o papel do espaço interior para e na escrita literária. Por exemplo, no caso de Machado, “the interior space acts as the point of departure for both the development of ideas and of the story” (p. 22). Esta abordagem biografista é sem dúvida a parte mais fraca, aliás pouco articulada com os três capítulos principais intitulados “Furnishing the Novel”, “Interiors and Interiority” e “Discourse of Interiors”. Perguntamos: como se pode comprovar um nexo mais específico entre a mobília dos lugares de criação literária e a representação de mobília, bem como a sua funcionalização simbólica no seio dos romances em questão? A repetição de “fiction meets reality, life greets death” (p. 14; p. 41) como frase final de subcapítulos pode ser vista como camuflagem retórica desta aporia, ainda diluída pela análise de três quadros (Vermeer, Lamson Henry, Ramón Casas: também na capa) que ilustram este nexo e que, por representarem mulheres, poderiam insinuar uma abordagem no âmbito dos gender studies. Inevitavelmente, a autora tinha de ter em conta o vasto património científico na esteira do Spatial Turn que diz respeito ao relacionamento entre espaço e sexo feminino na História após o Iluminismo; e que se tornaria especialmente relevante ao analisar o comportamento duma protagonista tão complexa como Ana Ozores no romance clariniano, centrada no seu dormitório, na sua cama (pp. 143-147). “Ana’s bed is the site where life greets death (…)” (p. 144) é uma frase que nos soa familiar... De facto, ela revela-se, noutro sentido do título, a Regenta do seu Room of One’s Own – nomeadamente na qualidade de sonhadora, leitora e até escritora.

Não se entende como este estudo despacha tão rapidamente a questão da organização espacial conforme o sexo (pp. 34-35, notas 11 e 24) sob o argumento de “Private dwelling becomes one’s main form of existence and self-identity regardless of gender, although it is first and primarily governed by feminine traditions” (p. 9), para enveredar a via benjaminiana de Passagenwerk / The Arcades Project, presente ao longo do estudo.[1] Somente muito mais adiante, a autora explora a releitura feminista dos romances oitocentistas sob invocação de Virginia Woolf, aplicada ao caso de Sofia em Quincas Borba (p. 178), continuando todavia a insistir na negação do “gender specific” (p. 177). Contudo, é neste mesmo estudo que se realça (partindo da análise de Rubião) a não-obediência das personagens masculinas à divisão tradicional de privacidade, ao se aproximarem de representações típicas de mulheres: “what strikes us about the male protagonists in that interior is how a sense of privacy pervades the way of thinking and feeling of these male characters” (p. 110). Por isso, em vez de defender o indivíduo moderno como “creature of the interior, regardless of gender” (p. 121), teria sido melhor situar-se decisivamente na linha dos gender studies pós-feministas, tal como, por exemplo, Milette Shamir (2006) em relação à narrativa americana do séc. XIX.[2] Deixando uma afirmação invertida do calibre “Sensitivity to decorate detail, apparently the duty of both narrator and dandy, is also a woman’s talent” (p. 135) meramente retórica (ao falar sobre Maria Eduarda e a Condessa Gouvarinho), significa desperdiçar a oportunidade de uma abordagem da escrita queirosiana no âmbito do dandismo (conceito não indexado neste estudo) e, com isto, a discussão sobre o discurso narrativo no caminho para a modernidade.

Se no início nos interrogámos sobre os motivos da escolha destes três autores e destas três obras, devemos, em segundo lugar, perguntar pelo critério da sequência: será a data de nascimento dos três autores, Machado (* 1839), Eça de Queirós (* 1845) e Alas (* 1852)? Curiosamente, as datas de publicação em livro das três obras escolhidas para análise vão justamente no sentido contrário: Quincas Borba (1891), Os Maias (1888) e La Regenta (1884-85). Colocar o autor brasileiro em primeiro lugar, depois o português e o espanhol por último terá tido o intuito de contrariar não só o eurocentrismo da filologia tradicional, persistente quando se trata de literatura oitocentista, mas também terá procurado, ao prescindir de um autor francês, mais especificamente, evitar o galocentrismo, cujo prestígio os próprios autores sentiram como condição muitas vezes incómoda da sua escrita. Seria um esforço inglório tentar escamotear o peso desta receção, emulativa ou produtiva, tanto de arquitetura, mobília, moda e, em geral, estilo de vida como da própria literatura vinda de Paris – Ville lumière tantas vezes elogiada, ironizada e repudiada como centro do mundo civilizado na segunda parte do século XIX. Inevitavelmente, esta relação de cultura ‘importada’ que se sobrepõe como ‘inautêntica’ às tradições da terra, não escapa à crítica de nenhum dos três autores. Neste sentido, a escolha de Quincas Borba como objeto de análise não poderia ter sido mais acertada (vd. p. 50). No entanto, uma vez que esta questão permeia as três grandes vertentes analíticas deste estudo, era de esperar que merecesse maior atenção e reflexo na sua própria estrutura.

Apesar de logo as primeiras notas se referirem a Balzac e Flaubert (ao lado de Henry James), este fenómeno de receção que inclui as próprias “realist and naturalist traditions” não é tema: pois, neste estudo, afirma-se perentoriamente um ‘excesso’ da funcionalização de “rooms and furnishings”, indo além de “their traditional functions of representing a symbolic background or an important extension of a character’s persona” (p. 39). A autora fica a dever a prova deste ‘excesso’, interpretável ou como signo de uma realização própria do realismo / naturalismo, ou como anúncio de modernidade (própria), sem com isto cairmos num discurso apologético que as historiografias literárias nacionais de Brasil, Portugal e Espanha repetiram até à exaustão. Também não reclamamos a necessidade de integrar na análise comparativa um autor / um romance francês da época. Mas as breves referências a Père Goriot (1854), guiadas por Auerbach e Genette (p. 101), tendem a esquematizar uma complexidade interna da praxis literária que, para o tema que aqui interessa, um romance como Pot-Bouille (1882) facilmente é capaz de demonstrar, até na dimensão meta-discursiva.[3]

É surpreendente como este estudo pode ignorar categorias da história material, cultural e intelectual tais como bibelot, que demonstra uma ‘mobilidade’ intrínseca ao longo do século XIX através de espaços aristocráticos, artísticos e burgueses[4], ou como o orientalismo (vd. n’Os Maias; cit.: p. 135) e, ainda, o diletantismo, tal como o dandismo, já referido, fulcral para o entendimento da época. Nomeadamente estes dois últimos conceitos teriam instruído com muito maior força a análise: veja-se o exemplo de Carlos da Maia e João da Ega que “consume themselves with interiors (…) and do not succeed in involving themselves with their reality or in contributing to the world around them” (p. 124). Percebe-se toda a (auto-)ironia de Ega, ao receber o seu “príncipe” por primeira vez no “humilde tugúrio do filósofo” (citando Herculano ao receber o Imperador D. Pedro II), na sua Villa Balzac, lugar de adultério chic com a esposa do banqueiro Cohen em vez de criação literária revolucionária, e quando proclama que “eu não tolero o bibelot, o bric-à-brac, (…), essas mobílias de arte… Que diabo, o móvel deve estar em harmonia com a ideia e com o sentir do homem que o usa!” (cit.: p. 132), reivindicando uma correspondência substancial entre o espaço e quem o habita que sabe irremediavelmente perdida. Por isso, não deixa de surpreender como o estudo pode prescindir da analogia entre mobília, vestuário e estilo de vida sob o sistema alienante da moda, para analisar a representação de espaços interiores “unable to separate themselves from the larger corrupt society and hence (…) not capable of affording a true sense of independence of the individual from the outside world” (p. 56). Nem uma única nota dedicada ao romance À Rebours (1884), chamado, num estudo recente, “la subversion systématique du discours des grammaires des arts décoratifs”, por se centrar numa encenação narcísica excessiva do Eu[5], uma encenação com a qual os aposentos parisienses de Jacinto supercivilizado, estranhamente ausentes deste estudo, entram em diálogo: a acumulação de todas as verdades, novidades e comodidades causam a maladie de la volonté (Paul Bourget) ou despertam aquela profunda Melancolia alegorizada na famosa gravura de Albrecht Dürer (curiosamente, um espaço interior, repleto de objetos e virado para fora). No epílogo, não teria sido uma melhor opção A Cidade e as Serras finissecular a contracenar com Candide, ou l’Optimisme de Voltaire? em vez de introduzir em duas escassas páginas D. Evaristo Feijoo, proveniente de outro universo narrativo de la literatura espanhola realista, o de Benito Pérez Galdós.

Concluindo, havia muitos pontos de referência para argumentar com maior critério, em vez de repetidamente invocar a modernidade destas narrativas “evident not only in the turn toward the individual’s search for interiority, but also in their contemporary sociological reading of the impossibility of separating the private from the public”, afirmando que estes romances “go beyond the realist talent of invading and making public the mundane private world of bourgeois characters” (p. 57). Não comparto esta certeza. Podemos continuar a perguntar, em que medida a passagem da poética do tempo para a poética do espaço, observada nomeadamente em Os Maias e La Regenta (vd. p. 199, com extensa nota 39), definem já uma passagem para a modernidade, como a autora repetidas vezes afirma, tal como questionámos a afirmação de “the modern search for an inner life” (p. 14). Falta aqui uma diferenciação da práxis realista-naturalista de tendência decadentista e esteticista que parte precisamente dos pequenos objetos em espaços interiores ou de transição entre fora e dentro, interligada com a procura duma nova linguagem da interioridade ou da aura perdida – daí uma escolha feliz dos alicerces teóricos centrados em Gaston Bachelard e Walter Benjamin. A marginalização de Bakthin, uma decisão legítima, teria de ser melhor explicada, nomeadamente quando há conceitos como “threshold” (soleira) em jogo, adquirindo – e com toda a justeza – um papel central, tal como as varandas ou sacadas, nomeadamente em La Regenta, romance analisado de forma mais integrada do que Os Maias por se entender Vetusta como “arquitectural whole in the sense that the entire city can be conceptualized as one interior” (p. 207). Não será isto também o caso do high life lisboeta, representado num circuito fechado (mesmo dentro da cidade) e reduzido a poucos lugares, parecido a um Big Brother dos Famosos?

A ideia de que Estela Vieira não está sozinha é comprovada pelo volume editado em 2011 por Subha Mukherji com um título Thinking on Thresholds: The Poetics of Transitive Spaces (Anthem Press), que também teria ficado bem a uma parte do seu Interiors and Narrative. É nomeadamente nesta dimensão analítica que se revela claramente a razão de ser deste estudo, não obstante os nossos comentários críticos. Talvez o aspeto mais forte seja a leitura da semantização colonial dos espaços interiores, a meu ver, pela primeira vez feita de uma forma comparativa entre romances de proveniência brasileira, portuguesa e espanhola: mantemos a sequência escolhida pela autora que sugere uma visão de Provincializing Europe. É só ao longo do estudo que o leitor se vai apercebendo, passando de Machado para Eça e Clarín (Leopoldo Alas), da boa escolha dos romances para serem analisados, pela sua riqueza de detalhes. O livro de Estela Vieira possui, indubitavelmente, a virtude de despertar a mente para a relevância dos espaços interiores, representados, imaginados e metaforizados nas arquiteturas narrativas do fim do século XIX.

 

Notas

[1] Cf. uma exploração semelhante em Julia Prewitt Brown (2008), The Bourgeois Interior: How the Middle Class Imagines Itself in Literature and Film. Charlottesville / London: University of Virginia Press (não referida em E. Vieira, 2013).

[2] Análise de Melville, Beecher-Stove, Hawthorne e Thoreau, em Milette Shamir (2006), Inexpressible Privacy: The Interior Life of Antebellum American Literature, Philadelphia: Univ. of Pennsylvania Press.

[3] Vd. o capítulo “Zola’s Restless House”, em Sharon Marcus (1999), Apartment Stories: City and Home in Nineteenth-century Paris and London. Berkeley / Los Angeles: Univ. of California Press, pp. 166-197. Em E. Vieira (2013), Zola está ausente.

[4] Cf. por exemplo, a análise diferenciada da passagem da poética de Balzac para Flaubert, Maupassant, Gautier, Huysmans, os Goncourts, Jean Lorrain e Proust, em Janell Watson (1999), Literature and material culture from Balzac to Proust: the collection and consumption of curiosities. Cambridge, UK: Cambridge University Press.

[5] Bertrand Bourgeois (2006), “À rebours des grammaires des arts décoratifs”, Image & Narrative, nº 16, referindo os livros de Charles Blanc, La grammaire des arts décoratifs. Décoration d’intérieur de la maison (Paris, 1882) e Henri Havard, L’art dans la maison. Grammaire de l’ameublement (Paris, 1884).