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Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0807-8967

Diacrítica vol.28 no.1 Braga  2014

 

Referências interculturais oitocentistas nas obras metalinguísticas em Português e Chinês do P.e Joaquim Gonçalves

Intercultural references in the nineteenth-century metalinguistic works in Portuguese and Chinese of Father Joaquim Gonçalves

 

Anabela Leal de Barros*

*Universidade do Minho, Portugal.

aldb@ilch.uminho.pt

 

RESUMO

Debruça-se este trabalho sobre três obras fundamentais do Padre Joaquim Afonso Gonçalves para o ensino-aprendizagem do chinês no Macau de inícios do século XIX: a Arte China, o Diccionario Portuguez-China e o Diccionario China-Portuguez. Entre línguas que veiculavam, e veiculam, culturas, mundividências, religiões e filosofias tão diversas, a preocupação de introduzir explicações interculturais está bem patente no tríptico didáctico do Padre lazarista do Real Colégio de S. José de Macau. Essas referências interculturais não são apenas do tipo directo, condenando a língua e a cultura à anquilosada e pouco operacional visão dicotómica que tem reinado na didáctica das línguas; existe informação intercultural a vários níveis, difusa, transportada pelos exemplos, pelos contextos, pelos apartes, pelas mais diversas vias a que um excelente professor pode deitar mão e a que um exímio lexicógrafo e gramático não tinha dificuldade em chegar.

Palavras chave: Historiografia linguística em português e chinês, História da Língua portuguesa em Macau, Estudos interculturais português-chinês.

 

ABSTRACT

This work focuses on three key works of Father Joaquim Afonso Gonçalves for the teaching and learning of Chinese in Macau early nineteenth century: the Arte China, the Diccionario Portuguez-China and the Diccionario China-Portuguez. Between two languages carrying cultures, worldviews, religions and philosophies as diverse as Portuguese and Chinese, the concern of introducing intercultural explanations is very present in the teaching triptych written by this Portuguese Father of the Royal College of St. Joseph in Macau. These cross-cultural references are not only the direct type, condemning the language and culture teaching and learning to the ankylosed dichotomous vision that has reigned in language pedagogy, with weak pedagogical results; intercultural references work at various levels, diffuse, transported by the examples, the contexts, the heckling, the notes, the various ways that a great teacher can lay hand and an expert grammarian and lexicographer had no difficulty in following or in which he knows how to lead their students.

Keywords: Linguistic Historiography in Portuguese and Chinese, History of the Portuguese Language in Macau, Portuguese-Chinese Intercultural Studies.

 

1. Introdução

Não é nosso objectivo neste trabalho demorarmo-nos sobre a biografia, a bibliografia ou o reconhecimento histórico dos méritos de Joaquim Afonso Gonçalves (1781-1841)[1], por um lado porque não cabe na economia de um estudo centrado num tema específico como aquele que nos motiva, quase três séculos depois ainda inexplorado, e que mais fácil e justamente os fará ressaltar, e por outro lado porque, desde 2012, o fizemos já em várias conferências plenárias e comunicações, cujos textos se acham em preparação, submetidos para publicação ou no prelo [2]; podemos, contudo, apontar resumidamente alguns dados preambulares.

Innocencio Francisco da Silva (1859: 57) oferece-nos a seguinte nota biobibliográfica acerca do seu contemporâneo, à data já falecido:

P. JOAQUIM AFFONSO GONÇALVES, Presbytero da Congregação da Missão, e Professor no collegio de S. Joseph de Macau, onde passou os ultimos trinta annos de sua vida. Além dos conhecimentos que possuia na Theologia e Mathematica, e na arte da Musica, foi tido por habil mestre, não só das linguas europeas, mas do intrincado e difficilimo idioma chinez, a cujo estudo se applicára ex professo, com incansavel trabalho, em beneficio das missões do seu instituto. Da sciencia que adquiriu por este estudo deu provas exuberantes nas obras que escreveu, e que vão descriptas no presente artigo. Foi Membro da Real Sociedade Asiatica, e eleito Socio Correspondente da Academia R. das Sciencias de Lisboa, em 18 de Novembro de 1840, cujo diploma não chegou a receber, bem como o de Cavalleiro da Ordem de N. S. da Conceição de Villa-viçosa, que o Governo lhe conferira em attenção ao seu merecimento. – Foi natural do Tojal, no concelho de Serva, da provincia de Traz-os-montes, e m. no sobredito collegio de Macau, de febre maligna, a 3 de Outubro de 1841. – A sua Necrologia sahiu no Diario do Governo, n.º 20, de 24 de Janeiro de 1842. – E.

1409) Grammatica latina, ad usum sinensium juvenum. Macau, in Collegio St. Joseph Typis mandata 1828. 12.º Diz Brunet, que este pequeno volume, não valendo alias 12 francos, fôra pago por 50 na venda da livraria de Klaproth.

1410) Arte china, constante de alphabeto e grammatica, comprehendendo modelos das differentes composições. Ibi, no mesmo Collegio 1829. 4.º de VIII-502-45 pag.

1411) Diccionario portuguez-china, no estylo vulgar mandarim, e classico geral. Ibi, no mesmo Collegio 1831. 4.º Foi, conforme Brunet, vendido por 60 francos um exemplar da referida livraria.

1412) Diccionario china-portuguez, no estilo vulgar mandarim e classico geral. Ibi, 1833. 4.º Tambem d’ este se vendeu um exemplar por 66 francos, na mesma occasião.

1413) Vocabularium latino-sinicum, pronuntiatione mandarina latini litteras. Ibi, 1837.

1414) Lexicon manuale latino-sinicum, continens omnia vocabula utilia et primitiva etiam scriptae sacrae. Ibi, 1839.

1415) Lexicon magnum latino-sinicum, ostendens etymologiam, prosodiam, et constructionem vocabulorum. Ibi, 1841.

1416) Versão do Novo Testamento em lingua china. – Inedita. 1417) Diccionario sinico-latino. – Tambem inedito.

De todas as referidas obras impressas vieram para Lisboa alguns exemplares, que estiveram em tempo á venda na loja do sr. Lavado, na rua Augusta.

A esta lista de obras impressas e manuscritas podemos acrescentar pelo menos mais um caderno manuscrito do autor, igualmente de carácter metalinguístico e didáctico, em português e chinês, com que travei conhecimento na Biblioteca Nacional de Portugal, e cuja edição crítica acabo de preparar para publicação, com a colaboração de Ana Ng Cen para a fixação do chinês e o esclarecimento de aspectos relativos a esta língua, no momento de dirimir certas dúvidas interlinguísticas na constituição do aparato crítico e na transcrição da romanização dos caracteres chineses. Quanto às obras acima mencionadas, foram em 2011 integradas, juntamente com outras, no projecto Tesouro Lexicográfico e Gramaticográfico do Oriente – Contributos portugueses para a descrição do chinês e de outras línguas asiáticas, que nessa data tive ocasião de propor a Carlos Assunção, investigador do Centro de Estudos em Letras da Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro, e que tem, para além dos dois responsáveis pela parte portuguesa das obras elencadas no projecto (que tratarão da edição crítica ou reedição dos manuscritos e impressos dos séculos XVI a XIX, dos seus estudos introdutórios e da orientação de estudos monográficos a elas respeitantes), responsáveis particulares para cada uma das línguas estrangeiras envolvidas. Nesse âmbito, e no tocante a Joaquim Gonçalves, efectuei até esta data a fixação do texto em português e preparei a reedição da Arte China e dos dois dicionários que compõem o seu tríptico didáctico para ensino do chinês, para além da edição crítica do caderno acima referido, todos a dar brevemente ao prelo. Tendo desde 2011 incluído no programa da disciplina de Gramática Aplicada II, do Mestrado em Estudos Interculturais Português-Chinês, para estudantes de língua materna chinesa, a apresentação e o estudo das obras metalinguísticas em língua portuguesa descritivas do chinês[3], tem igualmente dado frutos esse labor didáctico, tendo o primeiro deles sido a orientação da dissertação de Tao Yang (2013), corajosa mestranda que aceitou o desafio de tratar o tema por mim proposto, envolvendo português e chinês oitocentistas e um número elevado de fontes chinesas impressas que o Padre Gonçalves conhecia bem, e de que aproveitou eloquentes exemplos para a construção das suas obras, conforme veio a comprovar no seu trabalho pioneiro.

A acrescentar ao testemunho laudatório de Inocêncio da Silva (1859: 57), vários autores têm reconhecido a importância do trabalho de Gonçalves, logo desde a sua contemporaneidade. O britânico Thomas Francis Wade, autor de diversas obras no âmbito do ensino do chinês, todas posteriores às do padre lazarista, menciona-o por duas vezes – e como o melhor dos mestres cujas pisadas gostaria um dia de seguir – logo nas palavras proemiais ao primeiro dos seus manuais para o ensino daquele a que chama o “Peking dialect”, ??? The Hsin Ching Lu, or Book of Experiments; being the first of a series of contributions to the study of chinese, escritas em Hong-Kong a 13 de Maio de 1859:

...for all our respect for the labours of Morrison, Gonçalves, and other (...)

To the desired end our elementary means are few. The best is perhaps Gonçalves’ s Arte China, but it is written in Portuguese, a tongue few Englismen under age have cared to cultivate. If the writer’ s health ant strength be spared him it is his purpose one day to produce a Student’ s Manual somewhat in the style of the Arte. (Wade, 1859: [fl. 3 inumerado])

Jean-Pierre Abel-Rémusat, o fundador da Escola de Sinologia francesa, dedicou-lhe alguns parágrafos bastante elogiosos no Journal des Savans, em Setembro de 1831, colocando-o a par de precursores como Robert Morrison (1782-1834), o primeiro missionário protestante na China, de cujas obras em inglês e chinês o próprio Gonçalves (1831: i) se reconheceu devedor:

Le P. Gonçalvez, prêtre de la congrégation de Macao, et auteur du second ouvrage dont nous avons inscrit le titre au commencement de cet article [a primeira é a Notitia linguae sinicae, manuscrito de Prémare de 1828, editado em 1831], s’ est proposé le même objet en publiant en portugais son Arte china.

Pour donner aux étudians tous les moyens d’ entrer dans la connoissance pratique de la langue chinoise tant parlée qu’ écrite, il a cru nécessaire de composer trois différens volumes qui feront suite l’ un à l’ autre; une grammaire, un dictionnaire chinois-portugais, et un dictionnaire portugais-chinois (...) il seroit injuste de n’ y pas reconnoître l’ oeuvre d’ un littérateur très-versé dans le sujet qu’ il traite, bien qu’ on ait lieu de penser qu’ il ignore absolument l’ existence de tout travail antérieur relatif à ce sujet; et l’ on doit avouer que son premier volume, qui sera vraisemblablement suivi des deux autres qu’ il annonce, suffit pour lui assurer une place honorable à côté de Varo, de Prémare, et des docteurs Marsleman et Morrison. (Rémusat, 1831: 543-545)

Recentemente, António Aresta, que cita Rémusat numa tradução portuguesa com algumas liberdades (Aresta, 681-682), reconhece logo no início do seu breve mas eloquente artigo o valor de Gonçalves e a urgência de fazer justiça a este incontornável autor no Macau oitocentista, estudando, editando os seus manuscritos e reeditando as suas obras impressas:

Joaquim Afonso Gonçalves é uma figura de capital importância no contexto das relações culturais entre Portugal, Macau e a China no século XIX. Fora do círculo erudito da sinologia portuguesa, a memória da vida e da obra deste transmontano ilustre encontra-se injustamente esquecida, delida por um tempo apressado que cura pouco dos valores da espiritualidade e da cultura. Afora algumas referências circunstanciais (...), é tempo de esta personalidade ser convenientemente estudada.

No que mais de perto interessa a este trabalho, sublinha ainda o autor a admirável abertura de espírito de Gonçalves – bem patente em toda a sua obra, como adiante confirmaremos: “Será interessante reflectir no facto de um homem formado numa matriz civilizacional latina e cristã se abrir compreensivamente a uma mundivivência civilizacional outra, tão diferenciada e contrastiva, sem complexos eurocêntricos e etnocêntricos” (Aresta, 2000: 680).

Num artigo posterior, Joseph Abraham Levi (2007) anuncia de imediato o carácter inovador da obra portuguesa logo no título do seu trabalho, em seguida no seu resumo, e por último no corpo e conclusões do seu texto, que se detém a descrever detalhadamente a Arte, mas sem que se centre no assunto de que nos ocupamos no presente trabalho: “Padre Joaquim Afonso Gonçalves (1781-1834) and the Arte China (1829): an innovative linguistic approach to teaching chinese grammar”.

2. O tríptico metalinguístico e didáctico de Joaquim Gonçalves em português e chinês oitocentistas

De 1829 a 1833, o Padre Joaquim Afonso Gonçalves lançou ao prelo no Colégio de S. José, em Macau, onde residia e leccionava desde 1813, um tríptico para o ensino do chinês composto por uma gramática e dois dicionários que formavam um conjunto pedagógico indissociável e incontornável, nas suas 2596 páginas de estudo detalhado e contrastivo:

1. [4] Arte China / constante de / Alphabeto e Grammatica / Comprehendendo Modelos das Differentes Composiçoens (Gonçalves, 1829)

2. Diccionario / Portuguez-China / No estilo vulgar Mandarim e Classico Geral (Gonçalves, 1831)[5]

3. Diccionario / China-Portuguez (Gonçalves, 1833)

O próprio autor explica o seu método integrado no Pròlogo à Arte China (Gonçalves, 1829: I):

Sendo o meu intento dar ao Estudante da Lingua China todos os meios, para entrar no seu conhecimento, e pratica, tanto na falla, como na escrita; foi-me necessario fazer tres differentes volumes que devem andar juntos, por fazer hum todo combinado, e necessario: combinado, para não engrossar os volumes: necessario; porque ficão as suas partes dependentes, e o Estudante nam obtera o seu fim sem a posse de todas ellas: assim he, que a Arte he necessaria tanto por ensinar a ler, traduzir, e compor, como por dar ideas, que facilitam o uso, e intelligencia dos Diccionarios: o Diccionario China-Portuguez he necessario ao Portuguez-China para a pronuncia, e uso das letras neste indicadas.

Sendo obras reconhecidamente pioneiras no que toca a uma abordagem comunicativa e contrastiva do chinês como língua estrangeira (ainda que ancorada em muita tradução), atentas à adaptação contextual e à variação diafásica e diastrática na produção e recepção linguísticas, em estilo “vulgar” como em estilo “elevado”, nas vertentes coloquial e escrita, revelam um posicionamento intercultural não menos inovador. São frequentes e ricas as referências culturais que, transportadas pela própria língua que se explica (e não meramente evocadas pelo autor, ou pelo professor, como peças soltas retiradas de uma “arca” turística de factos de cultura e sociedade, numa anquilosada perspetiva dicotómica ainda hoje tão repisada de “língua e cultura”), desembocam na explicação breve das peculiaridades do mundo e do homem chinês, em contraste com o português e ocidental. Tais informações culturais, sem as quais a decodificação de uma língua nunca se faz em pleno, revelando-se hoje datadas, inscritas na história e em grande parte arredadas da contemporaneidade sino-portuguesa, continuam a valer pela visão que oferecem do outro e que revelam do próprio, enquanto indivíduo e enquanto representante de um povo.

Para além das referências interculturais directas, existe ainda outra dimensão notável e extremamente actual nestas obras, e em particular na Arte China: a introdução equilibrada de exemplos, textos, diálogos, representando a mundividência sínica ao lado da lusa, colocando em diálogo real as diferentes religiões, raças, mentalidades, filosofias, experiências e visões do mundo em presença no palco de conciliação que era (e é) Macau, às portas da China de oitocentos.

Nos últimos dois séculos, não tenho notícia de que algum investigador tenha recenseado, coligido e estudado essas referências, bem como as implicações e intenções pedagógicas e linguísticas desse harmonioso diálogo intercultural, em obras a tal ponto compendiosas e reflexivas que conjugam a linguística contrastiva com as culturas, literaturas, filosofias e religiões comparadas. E tudo isto num (simples) método de ensino-aprendizagem do chinês: o do Padre Joaquim Gonçalves, lazarista, sacerdote da Congregação da Missão, muito diretamente dirigido aos seus alunos, e precisamente por isso sem contar com as muitas explicações que certamente lhes forneceria no decurso das aulas, apesar da sua natureza enciclopédica e da notável organização e profundidade dos conteúdos gramaticais e lexicais.

2.1. Das referências interculturais na Arte China

Logo no início do Prólogo à Arte China, apresentando os principais méritos do seu método para aprendizagem tanto da língua escrita como da oral, Gonçalves introduz a comparação didáctica, interlinguística e cultural para explicar a peculiaridade da escrita chinesa, com recurso ao símile dos algarismos árabes (Gonçalves, 1829: I):

Sendo as suas letras na sua origem geroglificos, como ainda hoje muitas o mostrão v. g. c’ ou boca, men porta, indicam palavras, bem como os nossos algarismos, e sam, como elles igualmente entendidos, mas differentemente pronunciados nos differentes dialectos; mas poucas sam simplices como elles, sendo as mais compostas de elementos, como as nossas palavras o sam de letras, v. g. ven perguntar; sem com tudo sacar huma pronuncia composta da dos elementos; mas hum monosyllabo; e isto faz ver logo a maior difficuldade da escrita China, á semelhança das linguas, que se nam escrevem, como se pronunciam.

Ora, diante das dificuldades que entende oferecer, a nativos e a estrangeiros, a aprendizagem da língua chinesa, considera o próprio Gonçalves inovador e mais eficiente o seu método ao apresentar os caracteres chineses decompostos nos seus elementos mínimos, a contrapelo do método tradicional na China, de tratamento dos vocábulos como um todo:

Ainda que as letras sejam compostas de elementos, como temos visto, os Chinas principiam por ensinar a ler as palavras, que encontram em qualquer livro, sem ensinar os seus elementos, que vale o mesmo, que ensinar a ler, sem ensinar primeiro o A B C (1829: I)

Para justificar estas diferentes perspectivas didácticas, buscando-lhes raízes culturais e históricas, refere-se o P.e Joaquim Gonçalves ao carácter muito estruturado do pensamento chinês, no âmbito do qual já poucas novidades se considerava poderem vir a surgir, pois já tudo teria sido feito, e às qualidades (embora podendo redundar em defeito) da humildade, acomodação e obediência relativamente ao amplo legado tradicional e histórico com que não poderia deixar de contar-se, numa civilização de tamanha antiguidade (ibid.: I):

Tem-se dito com bastante razam, que os Chinas fizeram ponto em artes, e sciencias: ainda que presunçosos, estam geralmente persuadidos, que nada podem adiantar, ao que os seus maiores descobriram, e ainda se julgam mui avantajados, quando pensam ter chegado tam longe, como elles; daqui vem huma aversam (maiore que em outros paizes) que tem principalmente o Governo, a tudo, o que he mudança, sem examinar se he boa, ou ma. Bem conhecem elles a vantagem, por exemplo, da arte da navegaçam, e ainda se nam resolvem a aprende-la, aprendendo antes as linguas europeas, em que ella se ensina; porque he huma innovaçam.

Bem poderião tambem conhecer a falta de methodo nas escolas da propria lingua, e remedia-la: mas nam o fazem.

Todavia, existem igualmente, e com muito maior frequência, referências interculturais diluídas como exemplos no interior dos capítulos e secções. Se muitos desses contextos são tão consensuais, humanos e universais que dificilmente precisariam de provir de uma fonte escrita específica, chinesa ou portuguesa (por ex., “Em tôda a parte ha homens sisudos ”, ibid., 93, para contextualizar as frases vulgares de letras de sete rasgos), e se outra parte deles tem como principal intuito a simples e directa ilustração do aspecto linguístico em causa (“Dôze homens batêrão em vinte mulheres ”, ibid., 90, para exemplificar as frases de letras de cinco rasgos em estilo vulgar), outros há em que claramente o autor pretende, não só ilustrar o facto gramatical pretendido, mas ainda fornecer aos seus alunos, os seus primeiros leitores, maioritariamente ocidentais, informações socioculturais e históricas do país e das gentes cuja língua se dedicam a estudar. Veja-se um exemplo (Gonçalves, 1829: 90):

Os indígenas do paiz não podem passar sem amas de leite.

Esses contextos interculturais convivem muito equilibradamente no seu manual, que chega, não raro, a casar numa mesma frase culturas, religiões, histórias da China e de Portugal, da Europa, de Ocidente e Oriente. Em Joaquim Gonçalves parece sobressair mais o professor do que o padre, o humanista do que o evangelizador, o gramático e lexicógrafo curioso do que o religioso (ibid., 124):

 

 

Mas desde logo, uma visão justa e equilibrada do outro começa com o reconhecimento da sua diferença e o respeito do direito à mesma; a testemunhar a verificação destas condições nas obras de Joaquim Gonçalves, temos no Capítulo IV (Syntaxe) um dos exemplos de ablativo antes do verbo (ibid., 148):

 

 

É a aceitação dessas diferenças que leva este padre e evangelizador português na China a admitir ou mesmo criar para a sua gramática e dicionários inúmeros exemplos ou contextos que equilibradamente oferecem uma panorâmica igualitária e quase sempre imparcial tanto da cultura e da visão do mundo chinesas como das ocidentais e portuguesas, não edulcorando ou cerceando a História por motivos evangelizadores ou que poderiam até ser da ordem da sobrevivência pacífica em terras da China imperial (ibid., 95, entre os exemplos de frases vulgares de letras de 8 rasgos):

 

 

Os excertos discursivos que apresenta, coloquiais ou de fonte escrita, não se restringem ao que é católico, canónico, euro-centrado (ibid., 90):

A gente em todo o mundo pela maior parte he ma.

Isto embora, naturalmente, tampouco sejam incomuns os contextos ou exemplos mais morigeradores e mesmo catequizantes:

Reforma-te e reformaràs os mais. (ibid., 91, nos exemplos de frases sublimes de letras de 5 rasgos):

 

 

Muitas vezes, porém, essa catequização ou evangelização do leitor é delicada e segue um princípio de descentramento extremamente inteligente e humano, pois que feita através da selecção de textos e exemplos do outro – o autor prega princípios que são também os católicos ou cristãos, mas eleitos e citados de entre os clássicos da literatura, da filosofia, da religião e da cultura transportados pela língua estrangeira em estudo. Veja-se, por exemplo, no capítulo VIII, entre os modelos de composições, o início e o final daquele que se oferece como modelo da Segunda oraçaõ periodica (atente-se igualmente nas constantes explicações culturais e linguísticas por parte de Gonçalves, quer em nota de rodapé, quer no correr do texto de Mâncio, ibid., 441-445):

Segunda Oraçaõ Periodica. Por Iu-cham-ch’ am.
[6]
Naõ resistas ao marido. [a] Mom-çu.

[a] (He preceito dado por huma fi lga a sua fi que ia casar, referido por Mom-çu.)

A virtude da mulher he naõ resistir, grande preceito; mas huma mulher poderá resistir? quanto mais ao marido? tal he o preceito, que a mãi da a filha, o ponto consiste nisto, e em mais nada. Haverá quem diga, que nesta vida he infelicidade ser mulher; neste mundo o que custa mais a dizer, he o que pertence aos casados; o que he necessario, he esforçar-te a conservar a uniaõ, para naõ ficares para sempre mal comigo: agora que vas principiar a atar o cinto, (ornato da noiva,) usarei de reserva, e naõ te fallarei? Apartando-te de teus pais, e indo para tua casa, nenhum dos senhores parentes, te torna a ver; quem te importa, he so o marido, e mais ninguem (...) o homem naturalmente he altivo, e deixar-se-ha elle abater por muito tempo? naõ te fies no seu amor; fiando-te no amor, [tomarás liberdades,] perderas a graça; posto que o marido talvez releve, no principio releva por affecto, e depois se ira contra ti: o favor do homem he mui delicado, e naõ terás cuidado? este he o emprego de toda a tua vida: (...) tudo isto digo por propria experiencia, por isso ao puxar-te pela manga, e vestido, (para partir), fallo-te com miudeza: saõ chegados os coches, cantaõ os patos mandarins, vai, contenta o teu noivo, vivei como irmaõs, e naõ sejas a desgraça de teus pais.

Esse equilíbrio e imparcialidade nos temas e opiniões representados perdem-se raramente, mesmo em temas como o religioso, todavia, existem alguns testemunhos de tomada de posição em favor da doutrina cristã, por exemplo, na questão, célebre, dos ritos. O diálogo XLIV, Religiaõ ( ), entre um ocidental ou português e um chinês, presumivelmente, dá conta dessa convivência menos pacífica de religiões, quando se entra na dimensão quotidiana e prática (ibid., 299-301):

 

[7]

 

Em alguns excertos quase que podemos surpreender um instante de uma aula do P.e Joaquim Gonçalves, providencialmente dialógico, pois que saído do capítulo dos Diálogos, em contextos muito específi e quiçá se harmonizassem aqui as práticas magistrais do Ocidente ao Oriente (ibid., 231):

 

 

Um dos aspectos pioneiros da sua obra e do seu método de ensino-aprendizagem de uma língua estrangeira é a constante preocupação, de excelente professor que certamente seria, em representar tanto a língua oral como a escrita, quer a formal quer a informal, em ampla variedade de contextos, quando necessário, reais, e não somente de fontes literárias:

Sendo indespensavel, que o Estudante aprenda os dois estilos, de fallar, e escrever, e sendo geralmente as regras as mesmas; na Grammat[ic]a, posta a regra, ponho cada exemplo nos dois estilos, com o que abreviei, e com huma vista se nota facilmente a differença delles (p. inumerada, precedendo a 128)

Logo no Prólogo da parte relativa à Grammatica, o próprio autor alerta para a necessidade que teve de incluir quer diálogos, ou seja, fontes orais, contextos inventados ou reproduzidos (já que as fontes escritas não passariam de sucedâneos para o estudo da língua falada ou vulgar), quer igualmente exemplos históricos e literários, para ilustrar a vertente formal da língua, alguns de fontes escritas, mas outros certamente de sua autoria, já que referem circunstâncias da sua época e contexto social, geográfico e situacional:

Ainda que procurei incluir todos os torneios mais avessos a nossa lingua na Grammatica, foi necessario para o exercicio do estilo vulgar multiplicar os dialogos, pela falta de livros neste estilo; e para a intelligencia do sublime, dar noticia da Historia, e differentes Composições Chinas (p. inumerada anterior à 128)

Devido a esse facto, são muito abundantes, embora ocasionais, as referências históricas nos exemplos gramaticais e lexicográficos, capazes de conceder profundidade e pormenor ao espaço temporal e físico durante o qual e no qual o autor construiu as suas obras. No capítulo III, de morfologia, entre os exemplos de gerúndios, figura a primeira referência directa à cidade onde vivia, escrevia e aplicava os seus exercícios e livros (ibid., 139; 140):

Em Macao naõ ha arrôz para vender.

Sendo imperador Kia-Kim a religião Christã foi mui perseguida.

 

 

Abundam igualmente na sua Arte da Gramática valiosas referências às cidades chinesas tal como seriam na época, aos produtos comercializados, a episódios históricos mais ou menos importantes e passíveis ou não de se acharem registados ou mais directamente explicados em obras literárias chinesas (ibid., 121):

 

[8]

 

Em contextos culturais novos, também as palavras evidenciam a sua flexibilidade e continuam a adaptar-se semanticamente, como já acontecera também ao transitarem, no nosso caso, para a zona noroeste da Hispânia, onde vieram engrossar o caudal lexical da língua a que veio a chamar-se galego-português. Veja-se, a título ilustrativo, o caso de calamidade, etimologicamente um cataclismo económico, que afectava a sobrevivência, resultante da destruição dos caules (< calamum) do trigo, das searas, mas na China naturalmente aplicado à destruição dos casulos dos bichos da seda, nesse início do século XIX, algures na cidade de Xuntien; Gonçalves, o linguista, é um tradutor requintado, conhecedor de etimologia (ibid., 126):

 

 

Em todos os casos até agora referidos, as referências culturais e interculturais poderão ser da responsabilidade do autor ou apenas por ele admitidas e traduzidas de fontes chinesas, que deverão naturalmente ser primeiro identificadas e estudadas no seu conjunto, de forma que possamos avaliar que tipo de tratamento lhes deu o P.e Joaquim Gonçalves[9]. Existe, porém, outro tipo de referências que não é possível estudar do ponto de vista chinês, já que delas não existe versão chinesa nestas obras bilingues; trata-se de explicações contextuais, diante de um vocábulo, colocação, idiomatismo, exemplo ou versão portuguesa previsivelmente difíceis de compreender por estudantes ocidentais ainda pouco familiarizados com a China. Nestes casos, somente a identificação, colecção e categorização prévias de todas as referências, na Arte China, no Diccionario Portuguez-China e no Diccionario China-Portuguez, por parte de um investigador que conheça a língua portuguesa oitocentista, tornarão possível uma colaboração futura com investigadores da língua e cultura chinesas do século XIX a fim de tratar e analisar no seu conjunto essa informação, retirando conclusões históricas,sociais, culturais com interesse para o estudo das relações luso-chinesas, da linguística contrastiva e da didáctica das línguas estrangeiras (em particular da relação indissociável entre língua e cultura, pois achando-se a cultura já representada e imbricada na própria língua, é pouco produtivo, senão mesmo empobrecedor, o princípio do tradicional “ensino da cultura”, dissociada da própria linguística, que por vezes se pretende impor como medida positiva).

Vejam-se, por exemplo, as seguintes passagens da Arte China, a primeira representando o conjunto das eventuais traduções de fontes escritas chinesas, enquanto as restantes são parte de diálogos extremamente vívidos, imitativos ou colhidos em contexto real (ibid., 198; 241-242; 268):

Ja he dia claro, a sombra vem a travez da janella. (As casas Chinas olhão para o sul.)

 

 

Embora o P.e Gonçalves não forneça habitualmente amplas explicações e comentários descritivos na sua gramática e manual de ensino do chinês, já que ele mesmo se encarregaria de os fazer diante dos estudantes – os primeiros leitores a quem se destinavam os seus livros impressos (veja-se como se dirige ao aluno, tuteando-o sempre ao longo das três obras referidas, para o aconselhar a ir ler ou estudar alguma passagem de interesse) –, surgem por vezes esclarecimentos, que podem ser de natureza intercultural; leia-se, por exemplo, a nota informativa que acrescenta para justificar, no Capítulo V, a longa secção dos Provérbios (ibid., 308):

PROVERBIOS (a) (Pela leitura deste capitulo se formará huma idea da moral dos Chinas, que da sua Mythologia fallão pouco, segundo o exemplo, e conselho de Confucio.)

Quanto ao Capítulo VII da sua gramática e manual de Chinês, intitulado HISTORIA, E FABULA, a que frequentemente se allude no discurso, é na íntegra um riquíssimo acervo de informação cultural, importante para a compreensão global de uma língua de família tão diferente e de ubicação física e enraizamento sociocultural e histórico tão distantes da portuguesa.

Logo no seu início, a propósito das figuras dos reis chineses, anota (ibid., 327):

Fu-hi riscou os 8 diagrammas. (a) (A Historia China regeita, como fabuloso, tudo, o que se escreve, anterior a estes reis.)

Xen-num inventou o arado.

Hoam-ti inventou os barcos, e carros. 2696. A. C. (b) (Os annos antes de Christo mostraõ o principio da Dynastia, que serve de epoca: os Chinas naõ tem certeza desta data, e muito menos de outras antecedentes: ve...)

Mais adiante, no §. 11. Extractos da Historia, e Fabula, a que frequentemente se allude nas Composições Chinas (ibid., 343), alinham-se centenas de figuras habitualmente mencionadas nos textos em língua chinesa, e para os quais o estudante estrangeiro necessita de uma “chave intercultural”, fornecida pelo docente ou autor da gramática. Separando na primeira secção as figuras da História e na segunda as que costumam destacar-se como pertencendo ao domínio da fábula, Gonçalves vai acrescentando sintéticas indicações culturais:

HISTORIA. (a) (Ainda que huma parte he fabula, (como o Estudante poderá observar), naõ he tida por tal nos livros Chinas...)

No extracto ou explicação histórica número 23, em que se explicam as figuras que ficaram histórica e literariamente conhecidas como “Os bons sócios”, regista-se mais um caso de mediação intercultural (ibid., 348):

Os Bons socios: negociavaõ ambos, ainda que o primeiro gastava mais, por ser pobre: havendo revoluçaõ no reino, o primeiro fugiu com o infante, e o segundo com o principe; sendo estes procurados por morte de seu pai, voltaraõ ao reino, e encontrando-se, contenderaõ sobre a coroa: atirando o infante huma setta, que deo na pedra do cinto do principe, e encolhendo-se este, entendeo ter cahido morto; dormiu por tanto descançado aquella noite; mas sabendo pela manhã, que seu irmaõ estava rei, se retirou a hum reino visinho com Cuon Chum, seu guarda, como para logo o executar, mas realmente para empregar os seus talentos no seu serviço: voltado este, foi feito ao mesmo tempo ministro, e general, e a elle se deve naõ invadirem a China os barbaros de Noroeste, de cabello cortado, e aba do vestido para a esquerda: (o China abotoa da esquerda para a direita.)

O extracto número 128, em que a compreensão de um idiomatismo implica o conhecimento ou estudo de todo um episódio, lenda ou história factual, é um bom exemplo de como a aquisição integral de uma língua se acha dependente de factos da história e da cultura, como todo este capítulo aliás evidencia (ibid., 372):

Iam-hium-po O Semeador de perolas: encontrou hum desconhecido em hum caminho, o qual lhe deo humas sementes, que naõ conhecia, dizendo-lhe ao mesmo tempo, que as fosse semear na sua terra, por que lhe haviaõ de ser uteis; voltando elle, as semeou no seu campo Azul (?)[10] e pertendendo depois casar com huma bella menina, cuja mãi exigia por ella duas pedras preciosas, que elle naõ tinha, depois de pensar muito, foi cavar no campo Azul, e em lugar de duas achou dez, que deo pela menina; por isso hoje o passar as arras se chama semear pedras no campo Azul.

No extracto 188, mais uma referência cultural necessária ao entendimento ocidental da língua (ibid., 385):

O Saudoso morto: sendo dois condiscipulos mui intimos, nunca o primeiro soube, que o segundo era rapariga; se bem ella lhe dizia algumas gracinhas, naõ entendia: para se livrar de toques, por onde fosse conhecida, naõ queria brincar, e se brincavaõ com ella, propunha sempre algum jogo, em que se perdia papel de comprimento de hum homem, (a folha China he comprida,) o que os outros naõ queriaõ; acabados 3 annos de escola, recolhendo-se a casa, disse Chu-im-t’ ai ao companheiro, que fosse a sua casa, que lhe queria dar huma irmã em casamento; indo elle depois a sua casa, veio a saber, que a irmã promettida era ella mesma; mas que por desgraça, estava ja ajustada por sua mãi, para casar com outro; voltou por tanto para casa com grande sentimento, que cresceo tanto, que delle morreo; casada a menina, foi hum dia visitar a sepultura do seu condiscipulo, e a terra se abriu, e a enterrou com elle.

Em §. III. Alluso?s á Historia, e Fabula, o próprio autor apresenta numerosos contextos chineses, começando sempre pela tradução portuguesa, contendo cada qual uma referência histórica ou fabulosa contida nos extractos de História ou de Fábula anteriormente explicados; o mestre tornava assim evidente, portanto, a importância do seu conhecimento e estudo. Essa contextualização literária exige, em alguns casos, informação cultural suplementar, que o “tradutor” acrescenta no lugar apropriado, entre parênteses rectos, respeitando o original na sua tradução, embora não dê habitualmente conta das suas fontes nem refira estar a traduzir (ibid., 402):

 

 

No início do capítulo XVIII, dedicado às Composições Chinas, no seu §. I. Regras de Rhetorica, e Partes da Oraçaõ, o próprio mestre dá testemunho de como pretendia a sua Arte China bem enraizada, não esquecendo o contexto cultural, as referências literárias, históricas, folclóricas, sem as quais os elementos linguísticos isolados, as formas, não sobrevivem em língua alguma, ou seja, deixando clara a posição, muito inovadora, de que entre língua e cultura não existe qualquer divórcio (ibid., 422):

Devendo comprehender tantas materias em hum so volume, naõ me posso estender em todas ellas: neste artigo pois vou apresentar em resumo as leis, e ornatos Rhetoricos na ordem costumada dos Chinas...

Para os tempos modernos, recordarei um simples exemplo ilustrativo: um estudante de português como língua materna só compreenderá o que se pretende, no âmbito da cozinha, quando se pede um salazar caso conheça a história de Portugal e do ditador Oliveira Salazar, que, segundo a vox populi, terá rapado os bens ao povo do mesmo modo que esse raspador há-de arrancar os restos da massa do bolo agarrados à tigela. Não se trata de ensinar ou aprender História em partes estanques da aula em que se explora a “mala dos factos e tradições folclóricas dos países de língua portuguesa”, trata-se de estudar Linguística e língua, já que são sempre as próprias unidades e combinatórias lexicais a transportar no seu interior essa “bagagem de factos históricos e socioculturais”.

Os referidos modelos de composição chinesa encerram igualmente informações culturais de utilidade para o falante estrangeiro; veja-se o início do modelo de Edital (ibid., 467, a versão portuguesa; 468, o texto chinês):

A prohibir as mulheres de ir aos pagodes, a offerecer incensos. Por Hoam-leu-hum.

(Publica-se este) para prohibir a propagaçaõ da luxuria, e ruina da boa moral, e reformar os costumes. Consta, que he da recta razaõ, cuidarem as mulheres em estar recolhidas no seu repartimento, (as mulheres moraõ à parte)...

2.2. Das referências interculturais no Diccionario Portuguez-China

No Diccionario Portuguez-China (1831), Joaquim Gonçalves inclui entre as Advertencias essa noção de que os equivalentes linguísticos, enformados por distintas culturas e em diferentes pontos geográficos, não são, muitas vezes, coincidentes, mas apenas aproximados (Gonçalves, 1831, II):

8. Sendo as vezes em climas taõ distantes as coisas naturaes mui differentes das nossas, muito mais o saõ as instituições humanas; assim quando traduzo v. g. Rabeca naõ pense o estudante, que este instrumento China he inteiramente como o nosso.

9. Algumas coisas ha na Europa, que nem por semelhança ha na China, e as avessas; neste caso ponho algumas vezes o som da palavra Portugueza em letras Chinas, ou as avessas: outras vezes as omitto inteiramente: muitos destes sons estando ja corrompidos pelo uso, pensei melhor seguir o costume, e assim escrevi, v. g. Ginsaõ, se bem que em China Mandarim soa Jen xen: logo se conhece, que a palavra naõ he classica, quando tem a prenuncia tirada do China.

Ao referir a importância do estudo contextual do léxico (na estrutura, na frase) – contextualização que alarga, na gramática, à prática da língua em contextos reais, admiravelmente coloquiais no português do século XIX, quer formais quer informais ou vulgares –, bem como a relevância do seu enraizamento cultural (ideias inovadoras para a época num dicionário bilingue), o autor justifi ainda a sua isenção, ou intencionalidade linguística não judicativa, diante da inclusão, como faria qualquer lexicógrafo leigo, de entradas pouco “católicas” (por exemplo, abôrto, procurar abôrto, etc.):

10. Considerando, que ha grande difficuldade em traduzir muitas frases, e que o sentido, e uso de huma palavra se naõ pode algumas vezes exprimir bem senaõ por huma sentença; demais disto, que seria util algumas vezes mostrar a doutrina singular do China sobre algum assumpto (sem a approvar), sobrecarreguei (ao parecer) o Diccionario de frases. (ibidem)

Apresento de seguida o inventário de algumas das referências culturais mais relevantes oferecidas no Diccionario China-Portuguez (1831), cujo estudo futuro para determinação de eventuais fontes em ambas as línguas poderá trazer alguma luz sobre o material utilizado por Joaquim Gonçalves para a construção do seu método de ensino-aprendizagem do Chinês e sobre a bibliografia chinesa conhecida em Macau entre os missionários de oitocentos.

Frequentemente, ao fornecer um equivalente português para um lema, ou expressão que o contém, e diante da sua correspondência imperfeita ou indutora em erro, por não coincidência dos conceitos, o lexicógrafo alerta o utilizador através de informações socioculturais:

 

ABRAÇAR

-- pelo pescoço

-- pela cintura Naõ se pratica.

BOTAÕ

-- de pao dourado

Casa do – O China usa de Alamares

(...)

-- do barrete Ve INSIGNIA

RIO

(Rios da China) Amarello, e Kiam

3 deoses do –

Da outra banda do – Kiam

Para a parte de cima do –

Á direita, e esquerda do – Kiam

Á esquerda do – (O China volta-se segundo a corrente.)

SEMANA

De dez dias [11]

 

Como o próprio autor referia no início do seu trabalho, no tocante à lexicografia bilingue é comum não existirem perfeitos equivalentes; quando ocorre uma flagrante falta de correspondência, que pode atingir o inverso do termo “traduzido”, entra o autor com as suas explicações culturais:

 

CASTIÇAL

-- do candieiro

Boca do – O China espeta a vela em hum prego

DIREITA

Dar a – (na China he a esquerda)

ESPORA (usa-se chicote)

 

A informação fornecida no lema direita para aclarar o equivalente chinês é noutras entradas complementarmente oferecida no exemplo, como reforço didáctico, que é preocupação de qualquer bom professor:

HONRADO

Homem –

Na Europa a direita he a mais –

Em outros casos, a informação sociocultural e histórica é directamente transmitida pelos próprios exemplos seleccionados ou criados, e facilmente esta sua criação ou selecção pode dar informação sobre o autor e o(s) mundo(s) em que se move (um palco chinês onde se movimenta como português):

 

NAVIO

-- de guerra

-- de pôr fogo

-- cruzeiro

-- mercante

Os – mercantes saõ originalmente navios dos embaixadores occidentaes

PORTUGUÊZ

Os – vieraõ a China no reinado de Van-li da dynastia Mim

RECONHECER

(...)

Naõ reconheço senaõ o rei de Portugal

CABELLO

(...)

Do – fazem hum rabo de mais de hum covado para traz

NAÕ

(...)

Teria Confucio a Fó por santo? certamente --

MULTIPLICAÇAÕ

A --, e divisaõ principiou na figura Lo-xu

PORCELANA

Famosa fabrica de --, na villa Fu-Leam

RONDAR

O vigia da matraca ronda as ruas

DECENTE

Naõ nos he – correr na rua

PROHIBIR

(...)

As leis prohibem o vinho

RESPEITO

(...)

Isto escrevi com --, lavando as maõs

Isto escrevi com --, purificando o corpo

 

Ou então, surge na contextualização do lema, ou nas restrições e âmbitos de uso:

 

PRÉGÁR

-- o Decreto (instrucçaõ) imperial todos os mezes do 10 ate aos 16 da lua

--, os pobres fabulas na rua

 

Tendo em conta que a inscrição da língua numa cultura e num tempo histórico a condiciona directamente, o dicionário é um repositório de numerosos termos e combinatórias lexicais que já transportam e exigem semanticamente toda a informação cultural e histórica que o lexicógrafo se vê na necessidade de acrescentar, na forma de sub-entradas, as quais marcam necessariamente uma época, na qual estão ou estiveram vigentes exactamente desse modo. Se é muitas vezes preciso contar a história e traduzir a cultura que a língua exige, também é possível, inversamente, reunir e enriquecer a história com a informação muitas vezes contida nas palavras, em obras de natureza metalinguística. As de Gonçalves são obras enciclopédicas interculturais que impuseram certamente notável esforço de pesquisa e sistematização. Vejam-se as seguintes entradas:

 

ARTE

(...)

As seis –

(que saõ) Ritos, Musica, Arco, Coche, Escritura, e Arithmetica

CONSELHO

(...)

Os 6 conselhos

-- de estado

-- da fazenda <

-- dos ritos <

-- da guerra <

-- da justiça <

-- das fabricas <

-- grande (dos 6 presidentes, e 3 ministros)

-- privado da guerra

CRIME

(...)

Os 10 – irremissiveis

Ruina do throno

Ruina de coisas reaes

Deserçaõ

Parricidio

Extincçaõ de huma familia

Roubo de templo, ou paço, e Fazer sello, ou moeda falsa

Naõ honrar os pais

Desordem com os parentes

Morte de magistrado, e incesto

DESCANÇO

(...)

Tres tempos de --

Noite, Inverno, e Chuva

DRAMA

4 especies de --, Tragico, Comico, Repartido, e Unido

FALTA

(...)

As 4 faltas: de palavra, de paciencia, de honra, de moderaçaõ

INSÍGNIA

-- na maõ

Nota. A – da nobreza China, que na dynastia presente se reduz aos empregados, principalmente consiste no remate do barrete, como se segue

A primeira, e segunda ordem tem remate de pedra preciosa vermelha (o da segunda mais pequeno)

A terceira, e quarta de pedra azul

A quinta de cristal, ou vidro claro

A sexta de jaspe, ou vidro baço

A setima, oitava, e nona, de ouro lavrado

(em resumo)

JURAMENTO

(...)

(Formas de --) Hum raio me mate

Se engano, morra aqui

O ceo me mate, e a terra me aniquile

(Ceremonias de --) degollar gallinha

Tocar o dragaõ azul

-- a tigela[12] (No Norte naõ ha estas tres.)

Com sangue proprio nos beiços

POÉMA

6 especies de – (3 especies de assumpto, e 3 de estillo)

Povo, Rei, Pagode; Directo, Metaphorico, e Alusivo

POVO

(...)

4 classes de –

Estudante, Lavrador, Artista, Mercador

PRIVILÉGIO

Os 8 privilegios

(Que saõ:) – de infante, de valido, de benemerito, de virtude, de valor, de industria, de nobreza, de sangue real

PROVÍNCIA

As 18 provincias da China

PROVINCIAS DA CHINA, E SUAS METROPOLIS. [seguem-se os seus nomes]

SACRIFÍCIO

(4 sacrificios do imperador) Ao ceo, a terra, aos montes e rios, aos deoses do tempo e searas

-- a Ceo, e terra

-- de cha aos defunctos Ve FESTA

-- aos defunctos desamparados

(...)

Sacrificios humanos (pelos regulos de Sum, e Siam )

SÉITA Ve RELIGIAÕ

(...)

3 seitas (da China, approvadas)

-- dos Letrados, -- de Fó, -- de Tau.

-- (tollerada) Mehometana

-- (prohibidas:) A Religiaõ Christã, a seita dos Trez, a do Ceo e Terra, a da flor de Trate branca

SOCIAL Ve ORDEM

As 5 relações sociaes

Que saõ: Do rei e vassallo, do pai e filho, dos consortes, dos irmaõs, e dos amigos

 

Por vezes, a informação interlinguística parece coincidir, servindo a observação do lexicógrafo para chamar a atenção do utilizador ou estudante diante de discrepâncias pragmáticas (neste caso, o costume chinês torna o termo redundante):

INCLUSIVAMENTE

Desde a primeira ate a quarta Lua –

(O China sempre conta inclusivamente.)

Noutros casos, apenas se acrescenta informação histórica ou sociocultural que vem a propósito do lema e o completa, sem que esteja necessariamente implicada qualquer divergência de tipo linguístico entre o termo de partida e o seu equivalente e/ou significado.

 

ALGODAÕ (introduzido no seculo 13)

- bengalim

IMPRENSA

-- de apertar

Taboas da --, gravadas

(Auctor da – anno, 220)

(O ministro protector da –)

SÊLLO

-- de empregado

-- do imperio

Tirar os – dos edictos

Nota. O sello naõ consta senaõ do nome do[s] officiaes em letra antiga

TISANA (de que o China usa muito no veraõ)

 

Sendo um dicionário também, necessariamente, uma obra ideológica, existe por vezes nos exemplos apresentados curiosa informação datada, de valor filosófico, religioso e sociocultural, que somente através de uma aturada pesquisa de fontes se poderá determinar a que ambiente, código de conduta e língua diz respeito, numa obra bilingue ou multilingue:

 

DEMANDA

(...)

No mundo naõ ha coisa, que arruine mais a fazenda, e a casa, que crie mais inimigos, e queixas, do que as demandas

MINISTRO Ve MAGISTRADO

(...)

Fóm-tan foi – de cinco dynastias succesivas

A casa do – he a corte celeste do mundo

O – firme he recto, e o que condescende por temor, he lisongeiro (valido)

O rei he o ponteiro, e o – a sombra; move-se o ponteiro, e a sombra segue-o

SEVERO

A rainha de Cham era taõ severa, e prudente, que elrei de Leam (marido) tinha medo della

 

A proveniência de exemplos mais marcadamente literários, como é o caso destes últimos, suscita a curiosidade quanto às obras chinesas conhecidas e aproveitadas por Joaquim Gonçalves, e ainda quanto ao valor proverbial e idiomático de certas construções passíveis apenas de sofrer uma transposição explicativa na língua portuguesa, sem equivalente ou com equivalentes que não foram (ainda) determinados. Terão alguns contextos ou expressões fonte chinesa ou ocidental? É natural que, para o ensino do chinês como língua estrangeira, um professor não nativo e autor de obras metalinguísticas se socorra essencialmente de fontes autênticas e locais, maioritariamente escritas, clássicas e populares. Provirão outros do senso comum, farão parte das convicções portuguesas, chinesas ou especificamente de Macau? Considerem-se, por exemplo, os seguintes:

 

MIÓLOS

Naõ se devem comer os – dos animaes

MUNDO

(...)

Quem quer conhecer o --, deve ler a historia antiga

As coisas do – saõ mudaveis, e indignas de affeiçaõ

(...)

Este mundo he so huma hospedaria

(...)

O homem he hum pequeno –

NAMORAR

(...)

O – por palavras, e gestos he peccado de 50 graos

POESIA Ve a ARTE

A – move o Ceo, e a terra, e commove os espiritos

A – nasce do gosto, e a musica da poesia

Dar-se à --, para temperar o genio

REPUTAÇAÕ

(...)

A mulher, perdida a --, se enforca, e acaba

SERÊA

O osso de – he bom para parir[13]

SERPENTE

A – he agouro de rapariga

 

Um dos raros autores que se depreende facilmente haver constituído fonte dos seus trabalhos, e cuja obra não será estéril pesquisar (tendo em conta as vezes que o cita e a raridade com que menciona obras ou nomes de outros), é Confúcio:

RENUNCIAR

(...)

Confucio renunciava 4 coisas: a vontade, prevençaõ, teima, e egoismo

Falta igualmente determinar a que contexto específico (de Macau, da China continental?) se referem as explicações contextuais acrescentadas em certos lemas:

MOEDA

(Naõ ha senaõ a de cobre, que responde ao real: a prata se usa em barras com cunho) Ve PRATA

Em outros casos, a própria entrada ou combinatória lexical a ela subordinada oferecem de imediato informação histórica e sociocultural, que seria interessante desenvolver para fins didácticos – e com as quais o P.e Joaquim Gonçalves não tinha necessidade de engrossar as suas já monumentais obras, tendo em conta que, durante as suas aulas, poderia explicar, e certamente explicava, desenvolvidamente cada aspecto aos mesmos alunos para quem as tinha redigido ou publicado. Assim, por exemplo, após o lema Infante não existe uma entrada Infanticídio, mas sim, muito culturalmente marcada, a que a seguir se lê:

 

INFANTICÍDIO das meninas

ESCALER

(...)

-- de meretrizes

JALEIA[14]

-- de corno de veado

-- de vompite

MÃI

--, primeira mulher do pai

--, concubina do pai

NAVEGAR

-- por terra (brinco do imperador) [Suiyang]

NINHO

(...)

-- de passaro (comestivel)

SEPULTURA Ve GRADUAÇAÕ

(...)

Ficar sem --

Visita as – (a 5 de Abril) Ve FESTA

Por papeis nas –

TÔRRE

-- de 9 andares (dedicados a outros tantos deoses)

(...)

Ultimo andar da --, dedicado ao supremo

 

Uma nota curiosa nos suscita a existência dos lemas pataca e patacoada; as unidades monetárias, tal como as de peso e medida, podem caracterizar uma época e um lugar, e pataca remete de imediato para o território de Macau; contudo, patacoada revela um valor etimológico ainda sem a evolução semântica posteriormente verificada:

 

PATACA

A – vale 7 mazes, e 2 condrins

PATACOADA Ve OSTENTAÇAÕ

 

Algumas expressões sob um lema que não impõe(m) qualquer dificuldade ou discrepância lexical interlinguística podem simplesmente invocar informação histórica e cultural cuja investigação e aclaramento se deixam por completo à iniciativa do utilizador, e que será útil compilar e acrescentar a uma nova edição destas obras, devidamente modernizada e anotada para uso didáctico (projecto em curso):

 

FORCA

Praça da –

-- -- -- em Pekim

INTÉRPRETE

Junta dos 4 –

LAGO

Os 5 --

O – Po-iam

LIVRARIA

-- imperial

Catalogo das 4 – imperiaes

MÉDICO

(...)

(4 celebres --)

MONTE

Os 5 --

 

São abundantíssimos os exemplos e combinatórias lexicais capazes de suscitar a curiosidade do leitor ou do linguista, pela ausência de uma informação contextual que se faz necessária, mas que falta investigar. Veja-se este lema, a título de exemplo:

 

PEGAR Ve PRENDER

-- o vicio

--se-lhe o vicio

-- nelle

-- a orelha cortada

 

3. Conclusão

Aproveitando o projecto já em curso de reedição e edição crítica das obras do Padre Joaquim Gonçalves, tanto manuscritas como impressas (fora do mercado e com deficiências tipográficas várias), teria, a meu ver, especial interesse que investigadores especializados em estudos linguísticos e interculturais português-chinês, com amplo conhecimento da cultura e da história da China, em colaboração com investigadores do âmbito da História da Língua Portuguesa, da ecdótica e da historiografia linguística, aprofundassem o estudo destas referências e as completassem, determinando as suas fontes e enraizando-as na literatura chinesa, para uso contemporâneo no âmbito do ensino-aprendizagem do chinês por aprendentes estrangeiros, mas também do estudo contrastivo do português por estudantes de língua materna chinesa, já que esses serão aspectos susceptíveis de colocar entraves a uma aquisição ampla de qualquer um desses idiomas enquanto língua estrangeira ou segunda.

Por outro lado, constituem estas obras um campo de estudo riquíssimo do imaginário chinês e português em contacto, da construção da imagem do outro, da apreensão cruzada de culturas, das consequências quotidianas, locais, da experiência portuguesa dos Descobrimentos em terras orientais. Transcrevo, a encerrar este trabalho, e como símbolo do convívio harmonioso de línguas, culturas e povos, e do mais que nele se procurou significar, um dos diálogos didácticos de Joaquim Gonçalves (1829: 252-254), admirável no seu recorte coloquial, sublimemente enraizado no contexto de que se fala, a Macau oitocentista, e sempre acompanhado das explicações do mestre, para um melhor entendimento intercultural:

 

 

 

Referências

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Gonçalves, Joaquim (1829), ???? / Arte China / constante de / Alphabeto e Grammatica / Comprehendendo Modelos das Differentes Composiçoens / composta por J.[oaquim] A.[ffonso] Gonçalves / Sacerdote da Congregação da Missão. / Impressa com Licença Regia / No Real Collegio de S. Jose. / Macao. / Anno de 1829.         [ Links ]

Gonçalves, Joaquim (1831), ????? Diccionario / Portuguez-China / No estilo vulgar Mandarim e Classico Geral / Composto Por / J. A. Gonçalves. / Sacerdote da Congregaçaõ da Missaõ. / M.R.S.A. / Impresso Com Licença Regia No Real Collegio de S. Jose. / Macao. / Anno de 1831.         [ Links ]

Gonçalves, Joaquim (1833), ????? Diccionario / China-Portuguez / composto por J. A. Gonçalves. Sacerdote da Congregaçaõ da Missaõ. M.R.S.A. Impresso com Licença Regia no Real Collegio de S. Jose. Macao. Anno de 1833.         [ Links ]

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Zwartjies, Otto (2011), Portuguese Missionary Grammars in Asia, Africa and Brazil, 1550-1800, Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins.         [ Links ]

 

Notas

[1]Levi (2007: 211) e Zwartjies (2011: 290) referem o ano de 1834.

[2]“A edição de manuscritos e impressos antigos de natureza lexicográfica e gramaticográfica: desafios e objetivos”/”The edition of manuscripts and ancient printed works in the fields of the bilingual lexicography and gramaticography (Portuguese-Chinese, etc.): difficulties and challenges”, conferência plenária no Workshop O contributo português para a descrição do chinês e outras línguas do Oriente (sécs. XVI-XIX), Universidade de Macau, China, 3 de Maio de 2012; “A história da língua portuguesa através da lexicografia bilingue: lemas datados”. Sessão plenária nos XVI Encontros Internacionais de Reflexão e Investigação, Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro, 8-9 de Maio de 2012; “Referências interculturais oitocentistas nas obras metalinguísticas em português e chinês do P.e Joaquim Gonçalves”, XVII Encontro Internacional de Reflexão e Investigação (EIRI), Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro, Centro de Estudos em Letras, 17 de Abril de 2013. “Tesouro lexicográfico e gramaticogrático do Oriente (TLGO) Contributos portugueses para a descrição do chinês e outras línguas asiáticas: Obras metalinguísticas bilingues e multilingues dos séculos XVI a XIX em português e chinês”, Conferência plenária, Universidade de Estudos Estrangeiros de Xangai, China, 8 de Junho de 2013; “Tesouro Lexicográfico e Gramaticográfico do Oriente: Os estudos interculturais português-chinês”, Conferência plenária, Universidade de Pequim, China, 14 de Junho de 2013; “O estudo contrastivo português-chinês em obras lexicográficas e gramaticográficas dos séculos XVI a XIX”, Conferência plenária, Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim, China, 14 de Junho de 2013; “A inflexão erudita do português clássico segundo fontes gramaticográficas e lexicográficas monolingues e multilingues”, 19º Intercâmbio de Pesquisa em Linguística Aplicada/5º Seminário Internacional de Linguística (INPLA-SIL), Simpósio História e discurso: análise de instrumentos linguísticos, Universidade Cruzeiro do Sul, S. Paulo, Brasil, 11 de Outubro de 2013; “As obras metalinguísticas como fonte de material histórico (sécs. XVI-XIX)”, Curso de Formação Avançada Memória e Testemunho: Metodologias de Análise de Oralidade, de Escrita e de Imagem (II), Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga, 9 de Maio de 2014. O texto do presente artigo foi por mim redigido e apresentado no XVII Encontro Internacional de Reflexão e Investigação (EIRI) a 17 de Abril de 2013, com vista a servir de exemplo às mestrandas que motivara a realizar a sua dissertação sobre as fontes chinesas de Gonçalves. Embora tendo-lhes fornecido a transcrição portuguesa que efectuara de todo o texto da Arte China e dos dicionários de Gonçalves, com anotações minhas relativas a aspectos culturais a investigar, considerei de interesse fornecer alguns exemplos já organizados de contextos que convocam a contextualização intercultural, e que mais facilmente, aos olhos de um linguista ocidental, conduzem às fontes escritas a investigar.

[3]Desde o chamado Dicionário de Ricci e Ruggieri, obra quinhentista manuscrita de que, no século XXI, não existe ainda senão a edição facsimilada de Witek (mas cujo texto português, latino, italiano e romanização do chinês fixei já em 2011 para publicação em edição semidiplomática, tendo o Centro de Estudos em Letras, com Carlos Assunção, financiado a transcrição do chinês desta e das três obras de Gonçalves, por alguns estudantes chineses de Gramática Aplicada, unidade curricular de que sou responsável).

[4]No que toca à colocação dos caracteres chineses, é didáctica aquela que adopta o mestre lazarista, e não a tradicional, como ele mesmo explica nas advertências ao Diccionario Portuguez-China: “3. Escrevo as letras Chinas em linha horizontal para a direita, em conformidade com o Portuguez; porem a ordem natural dellas he em linhas verticaes, correndo para a esquerda; e quando em linha horizontal, tambem se tem para a esquerda: assim no frontispicio do Diccionario se lê primeiro , e logo ” (Gonçalves, 1831: I). Nos modelos de composições, na Arte China (Gonçalves, 1829: Cap. VIII), o autor reproduz, contudo, a orientação característica da escrita chinesa.

[5]Levi (2007: 213) e Zwartjies (2011: 290) referem o ano de 1821.

[6]Ao contrário do que acontece no restante texto chinês da Arte China, que por motivos didácticos surge escrito na horizontal e da esquerda para a direita, à semelhança do texto ocidental (já que a aprendentes portugueses e outros europeus se destina), os modelos de composições, de que este é o segundo, surgem com a apresentação clássica, na vertical e da direita para a esquerda. Devido ao corte da última linha (da costura, à esquerda) na reprodução do original consultada, não se reproduz o texto chinês, remetendo-se para o impresso (Gonçalves, 1829: 441-445).

[7]Por falta do carácter antigo presente no original, inclui-se a sua variante tradicional mais aproximada.

[8]No original figura um carácter antigo indisponível nos sistemas de escrita de imprensa chinesa.

[9]Para a realização deste estudo desafiei vários investigadores chineses, mas somente a supramencionada mestranda Tao Yang (2013) se atreveu a enfrentar a dificuldade da investigação em toda a literatura chinesa. Embora este meu trabalho seja anterior ao seu, que orientei, deixo aqui a nota, por ser de toda a justiça fazer-lhe menção.

[10]Forma ilegível, por apagamento da tinta no exemplar consultado e que se preparou para reedição.

[11]Sendo a semana um conceito ocidental, em chinês temos como correspondente sociolinguístico-cultural a unidade de dez dias, um mês a dividir por três: primeiros dez dias, segundos dez dias e terceiros dez dias.

[12]Existe em chinês o idiomatismo atirar a tigela, atiro a tigela, bebendo o vinho e partindo a tigela para selar o juramento e oferecer garantia daquilo que se jura.

[13]Neste caso, a frase em chinês desfaz a perplexidade e conduz o estudante à medicina tradicional chinesa: trata-se da cartilagem de cavalo-marinho.

[14]O autor inclui variantes fonéticas como lemas, podendo haver variação não só nos equivalentes, mas também nas colocações integradas em cada uma delas. Vd. Gonçalves, 1831, s.v. gelea e jaleia (este acima), em que o equivalente é um só e a segunda colocação surge unicamente sob o lema gelea:

GELEA

de corno de veado

de pe de vacca

de vompite