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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  no.27 Vila Franca de Xira  2013

 

Pereira, Maria do Mar (2012), Fazendo género no recreio. A negociação do género em espaço escolar, Lisboa, ICS – Instituto de Ciências Sociais, 231 páginas.

 

Sofia Almeida Santos

CIIE e FPCE/Universidade do Porto, Portugal

 

Acaba de ser lançado pelo Instituto de Ciências Sociais – Lisboa, o livro «Fazendo género no recreio» de Maria do Mar Pereira, como mais uma estimulante obra no panorama da Sociologia e dos Estudos sobre as Mulheres e, atrevo-me a dizer, da Educação em Portugal. Tomando como ponto de partida um intenso estudo etnográfico com jovens do 8º ano de uma escola lisboeta, explora-se a dimensão performativa de género no contexto escolar, isto é, os modos como as masculinidades e feminilidades são (re)construídas e negociadas na interação quotidiana.

Começando pela análise do próprio título, considero que este foi muito bem conseguido, pelo facto de nos situar desde logo na problemática que está em discussão. Não só nos permite antever que se trata de um estudo de género realizado numa escola, como ficamos a saber que este é perspetivado como algo que se vai fazendo e condicionando dentro dos muros e limites do recreio.

O livro organiza-se em 10 capítulos, que compõem 4 secções mais amplas. Os três capítulos iniciais posicionam a perspetiva da autora face aos debates teóricos da área, aos quais se seguem dois capítulos de apresentação metodológica e de contextualização da pesquisa. Os quatro capítulos seguintes dedicam-se à análise crítica dos discursos jovens, sendo que o capítulo final articula todas estas secções e lança pistas para (re)pensar género. É um livro de leitura fácil, que evidencia uma grande clareza em torno do argumento construído e no modo como os diferentes capítulos se encaixam e completam. O modo cativante como as questões são formuladas revela um olhar assumidamente pós-estruturalista, num caminho de questionamento constante, que nos acaba por despertar para uma outra reflexão face à investigação etnográfica com jovens em contextos escolares. Com este enfoque, proponho- me sublinhar os principais desafios que sobressaem da leitura desta obra.

O primeiro desafio é lançado e anunciado logo no prefácio, quando a autora assume a sua intensa vontade de «expandir as conversas sobre género dentro e fora da academia» e «estreitar diálogos entre cientistas sociais e as pessoas que fazem género todos os dias» (p. 16). O desejo de alargar a discussão a outros públicos orienta a escrita deste texto, segundo «dois mapas de navegação» e leitura, consoante o interesse do/a leitor/a seja saber mais sobre relações entre adolescentes nas escolas portuguesas (cap. 6, 7, 8 e 9) ou sobre as teorias de género e performatividade (cap. 1, 2 e 3). Esta originalidade e preocupação evidencia um forte compromisso ético com os/as participantes da pesquisa e com a procura de formas mais abrangentes de divulgar e produzir conhecimento.

Um segundo desafio emerge nos primeiros três capítulos, quando a autora questiona os recursos teóricos, metodológicos e discursivos usados pelas ciências sociais na construção do objeto de estudo de género, para reclamar o lugar da performatividade no debate. Para tal, o capítulo 1 apresenta uma sofisticada revisão das linhas orientadoras que têm estruturado a investigação de género nas últimas décadas, com predominância no espaço português e anglo-saxónico. É de salientar o cuidado e imparcialidade com que a autora reviu toda a produção nacional, mostrando um grande domínio das publicações e das pesquisas realizados de norte a sul do país. Realço ainda o rigor em atualizar a reflexão até à data da publicação do livro, com a inclusão de artigos que datam de Dezembro de 2012. Nesta parte, a autora não nega o valor que as perspetivas naturalistas e da socialização tiveram no avanço dos estudos sociológicos, mas alerta para as fragilidades destes discursos científicos e para as novas problemáticas de género. Na verdade, pensar-se género na contemporaneidade é pensar-se na pluralidade das masculinidades e feminilidades e libertar-se das amarras e limites que os olhares dualistas e deterministas tendem em manter. Sob este argumento, propõe a abordagem performativa no 2º capítulo como meio de explorar novas formas de pensar e escrever sobre género, enquanto algo que se negoceia, constrói e aprende nas interações quotidianas. Isto traz novos focos de análise, centrados na agência e criatividade dos sujeitos para criarem performances e brechas na estrutura social. A sustentar esta abordagem, destaca a proposta de reconceptualização performativa do género de Judith Butler, entre diversos/as autores/as, como marco histórico nos modos de pensar as masculinidades e feminilidades. Esta última questão é aprofundada no 3º capítulo, com particular destaque da escola como contexto dominante na construção das relações jovens.

Toda esta reflexão reconhece as limitações da perspetiva performativa para analisar aspetos essenciais das pesquisas de género, nomeadamente as dimensões estruturais e simbólicas. Por isso, estando atenta às relações de poder e às desigualdades que marcam os processos quotidianos, a autora salienta o potencial de se cruzar esta abordagem com outras dimensões analíticas, de modo a traçar novos rumos na investigação.

No capítulo 4 é explorada a pertinência da realização de uma «etnografia performativa» para captar o carácter de continuidade do objeto de estudo. Voltando à ideia inicial de que todos os dias fazemos género na forma como comunicamos, olhamos, tocamos e nos afirmamos publicamente enquanto mulheres e homens, a permanência do/a investigador/a, no tempo e no espaço, torna-se essencial para conhecer as nuances desses processos. Por isso, o objetivo da autora passa por observar in loco «os modos, em que contextos e com que objetivos é que as/os jovens marcam e demarcam, reforçam e contestam diferenças e semelhanças de género nas suas relações entre si na escola» (p. 74). Este posicionamento conduz-nos, no capítulo 5, ao trabalho de campo na «Escola Azul», bem como aos obstáculos e implicações no «ganhar acesso». Somos aqui apresentadas à escola pública de 2º e 3º ciclo e aos 23 alunos/as da turma de 8º ano que a autora acompanhou diariamente.

Esta secção, sustentada na reflexão anterior, levanta igualmente um desafio que merece atenção e que se liga à possibilidade de identificar performances de género no contexto escolar. Tendo em conta que a escola não é um campo neutro nem assexuado, esta é uma investigação vinculada a discursos e interações que ocorrem num «regime de género» com regras, estruturas e códigos próprios que, por si só, limitam o modo como as culturas sexuais e de género jovens se exprimem. Mas é exatamente nas limitações deste espaço que a pesquisa ganha riqueza, ao confrontar-se com as performances que rapazes e raparigas usam para manter ou transgredir os rótulos de «bom rapaz», «boa rapariga», «populares», «pitas» ou «normais». Nesse sentido, as reflexões desta etnografia desafiam a escola a questionar- se enquanto espaço de expressão, construção e influência social.

Esta discussão sobre a negociação coletiva e performativa de género torna- -se central nos quatro capítulos de análise empírica (6, 7, 8 e 9), cujo foco não é observar a vida da escola em função do eixo da diferença de género mas das suas semelhanças, bem como «dar conta da pluralidade de feminilidades e masculinidades que se fazem na escola e demonstrar a importância da marcação de diferenças entre pessoas do mesmo sexo» (p. 75). O capítulo 6 realça o modo como o eixo de diferenciação é frequentemente convocado pelos/as jovens, para justificar separações e desigualdades no acesso a recursos e espaços. Nomeadamente, a coscuvilhice e a retórica da imaturidade aparecem como exemplos de características genderizadas (a primeira associada às raparigas e a segunda aos rapazes), que ao longo do texto vão sendo desmistificadas e evidenciando proximidades de género. Contudo, a naturalização da diferença parece estar de tal modo enraizada, que as transgressões a estas «geografias de género» são constantemente desvalorizadas nos discursos, por processos de invisibilização das semelhanças.

Ao invés, nos capítulos 7 e 8, a autora procura destacar as fragilidades destas fronteiras e materializar as diferenças existentes dentro de cada sexo. Acaba assim por constatar que o carácter dinâmico e situacional das feminilidades e masculinidades aproxima jovens e desconstrói a ideia inicial de clara separação entre géneros. Ainda que esta referência às semelhanças de género não seja nova nos estudos portugueses, na minha opinião, torna visível uma outra dimensão de comparação entre sexos que relativiza a centralidade da diferença e requer uma análise cuidada. A fechar esta secção, o capítulo 9 explora os discursos jovens sobre género para perceber se reconhecem esta heterogeneidade e perfomatividade ou se continuam a falar de grupos opostos e homogéneos. De realçar a preocupação da autora no uso de uma linguagem mais acessível, que permite ao/a leitor/a entrar nas «conversas de recreio».

No fim deste percurso, as principais ideias aparecem reunidas e articuladas no capítulo final. Neste, a autora reafirma como os jogos de poder, as dinâmicas de auto e heteromonitorização e as incoerências presentes nos discursos jovens ilustram a dimensão (per)formativa enquanto «espaço de construção ativa e contínua dos discursos e identidade.» Resta-me afirmar que esta obra apresenta um diálogo a três vozes (entre jovens e comunidade científica), mediado e apropriado por Maria do Mar, que também desempenha uma performance enquanto investigadora que: ora se aproxima da intimidade do mundo adolescente, ora se afirma entre os seus pares no campo científico da especialidade. Fazendo minhas as suas palavras, este livro define-se como «um instrumento para formular novas questões e experimentar modos diferentes de pensar sobre velhas questões» (:60), cuja leitura vivamente aconselho.

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