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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  no.43 Lisboa jun. 2021  Epub 30-Jun-2021

https://doi.org/10.22355/exaequo.2021.43.00 

Editorial

Editorial ex æquo

Virgínia Ferreira1  , Diretora da ex aequo
http://orcid.org/0000-0003-3838-054X

1 Diretora da ex aequo, Centro de Estudos Sociais, Univ Coimbra, 3000-995 Coimbra, Portugal.


Neste quadragésimo terceiro número da ex æquo dedicamos o dossier temático aos “Diálogos Feministas sobre Masculinidades: Experiências, Desafios e Horizontes”. A organização do dossier esteve a cargo de Bakea Alonso Fernández de Avilés e Tatiana Moura, que, além de investigadoras das problemáticas das masculinidades, têm uma outra característica que as uniu neste projeto - a intervenção social em prol de novos modelos de masculinidades mais igualitárias e aliadas no envolvimento em ações e polí ticas de promoção da igualdade de género. Bakea Avilés na fundação CEPAIM, em Espanha, e Tatiana Moura na organização não-governamental Promundo.

O sentido procurado na intervenção social em questões relativas aos modelos de masculinidade hegemónicos é o de desenvolvimento de identidades masculinas que rejeitam a dominação, e os seus traços associados, e abraçam valores de cuidado e inter dependência. A União Europeia tem apoiado medidas de política neste mesmo sentido e, a nível académico, a questão das masculinidades tem estado em foco em extensas agen das de investigação e debates teóricos. Encontramos na literatura abordagens relativa mente à problemática dos papéis atribuídos aos homens e os custos (físicos, mentais e emocionais) que para estes representa o esforço de corresponderem às expectativas aber tas por esses papéis; em paralelo surgiram concetualizações focadas na centralidade que o poder masculino tem na ordem de género e nas masculinidades hegemónicas; por fim, sob influência do pós-estruturalismo feminista, multiplicaram-se as demonstrações de como o sentido de masculinidade dominante é validado por meio de atos performativos discursivos sobre si mesma e a sua relação com poder (e resistência).

Em especial na última década tem surgido um campo de estudos interdisciplinares, designado de diversas maneiras na comunidade académica internacional, mas que pode mos de forma simplificada nomear como “Estudos sobre os Homens” (Men’s Studies). Neste contexto, são várias as designações propostas para masculinidades que se querem promo toras do engajamento e envolvimento dos homens na igualdade de género e da mudança nas relações sociais de género. O modelo da masculinidade cuidadora tem sido uma das concetualizações mais disseminadas, focadas nas transformações da vertente paternal da masculinidade, mas excluindo dos estudos empíricos muitas das suas vertentes.

Causou-nos alguma estranheza o facto de poucos textos terem sido submetidos ao dossier sobre as questões suscitadas pelas masculinidades cuidadoras (com muitas fragili dades dos submetidos, diga-se, não tendo sido aprovados pela revisão por pares). Seria bom perceber se o investimento em cuidado dos pais (homens) continua, tal como tem sido mostrado pelos estudos empíricos, a focar-se nas tarefas com as crianças que impli cam interação, mas não nas tarefas que, dizendo respeito a essas mesmas crianças, não envolvem a interação direta com elas - como seja o tratamento das roupas e a preparação de alimentos, por exemplo. Ou seja, investimento que não se traduz numa diminuição da carga mental das mães ou numa transformação das relações no casal. A continuar assim, não podemos afirmar que a masculinidade cuidadora é necessariamente igualitária, nem que caminhemos para o modelo da pessoa cuidadora universal a que aspira Nancy Fraser.

Será interessante até percebermos se a masculinidade cuidadora é já uma nova mas culinidade hegemónica. Na medida em que os homens cuidadores são tão notados e elo giados - até quando vão ao supermercado transportando o seu bebe - não será que eles se sentem como estando no bom caminho e que são os homens que praticam a masculinidade hegemónica convencional que constituem o problema? E quanto às mulheres? O que é que elas podem fazer de inovador, de igualitário, uma vez que os homens “iguali tários” agora fazem parte do que elas sempre fizeram? Será que as mulheres que prestam cuidados a crianças e jovens serão classificadas de “tradicionais” e os cuidados que pres tam desvalorizados? Ao ceder o seu papel aos pais, será inevitável que as mães se sintam num turbilhão emocional quanto aos ideais morais da maternidade? Como vemos, falar de masculinidades leva-nos longe… e o apelo ao surgimento de novas masculinidades continua nas agendas políticas e de debate, bem assim como o apelo reativo à defesa dos modelos convencionais de masculinidade. As questões da partilha do cuidado entre mulheres e homens é central no nosso viver da cidadania e constitui um domínio que, para ser captado no seu mais amplo significado, deve ser abordado numa perspetiva institucional, organizacional e pessoal, e interdisciplinar.

Prometemos voltar a esta temática, uma vez que se não se nasce mulher, também não se nasce homem e será interessante voltar a olhar para as “masculinities in the making” e analisar os impactos das crises pandémica, ambiental e do #MeToo# nas identidades mas culinas, perante a obrigatoriedade de usar máscara, ou de alterar a relação depredadora com a natureza ou de aprender a reconhecer o que é o consentimento afirmativo.

Este número da ex ӕquo aborda, porém, outras temáticas, trazidas a partir de várias origens. María de la Paz Pando Ballesteros traz-nos uma comparação entre “La I república portuguesa y la II república española en perspectiva de género”, sublinhando os aspetos comuns dos dois lados da fronteira - desde os perfis das protagonistas, à natureza das suas iniciativas, algumas delas em comum, até às reações dos governos republicanos assaltados pelos mesmos receios de que os ganhos civis e políticos das mulheres puses sem em causa os valores e os papéis tradicionais. Caterine Galaz, Catalina Álvarez Martínez-Conde e Rodolfo Morrison dão-nos conta das mudanças na abordagem das questões da população LGBTI+ no estudo sobre “Salud y población LGBTI+ en Chile: desde la invisibilidad a un enfoque identitario”, identificando a passagem da invisibili dade à sobre-especificação identitária nas políticas públicas de saúde. Por fim, Dulce Maria Passades Pereira dá-nos a conhecer uma intelectual de Moçambique “Joana Semião, homo oeconomicus e homo politicus: urdindo uma epistemologia ‘tolerante’ moçambicana”. Ficamos a conhecer um pouco da história desta mulher ausente dos espaços formais, obscurecida, no entender da autora, pela priorização dos discursos economicistas.

No capítulo das Recensões, Ermelinda Liberato apresenta-nos a sua leitura do clás sico de Judith Butler, finalmente traduzido para português, Problemas de género. Rosa Loureiro apresenta-nos o best-seller Mulheres Invisíveis. Como os dados configuram o mundo feito para os homens, de Caroline Criado Perez, cuja publicação para português tem forne cido o pretexto para denúncias de enviesamentos masculinos na conceção de produtos científicos, estatísticos e de design em variadíssimos campos de atividade. A coletânea sobre Bisexuality in Europe: Sexual Citizenship, Romantic Relationships, and Bi+ Identities é anotada por Mafalda Esteves. Dividido em três partes, a obra reúne contributos de inves tigadoras/es com trabalho desenvolvido em diferentes contextos geográficos europeus. Esperemos que a diversidade temática, geográfica e autoral deste número da ex ӕquo seja suficientemente aliciante para contarmos com o vosso interesse.

Referência

Ferreira, Virgínia. 2021. EDITORIAL EX ÆQUO. ex æquo 43: 5-6. [ Links ]

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