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Ex aequo

versão impressa ISSN 0874-5560

Ex aequo  no.43 Lisboa jun. 2021  Epub 30-Jun-2021

https://doi.org/10.22355/exaequo.2021.43.01 

Dossier

Apresentação: masculinidades em debate

Bakea Alonso Fernández de Avilés1 

Tatiana Moura2  3 

1 Área de Igualdad y no Discriminación de Fundación CEPAIM, C/ Nicolás Morales, 11, 3ºD - Madrid, CP 28019, España. pazalo01@ucm.es

2 Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, 3000-104 Coimbra, Portugal. tatiana@ces.uc.pt

3 Instituto Promundo, Brasília, DF 70711-903 - Brasil. t.moura@promundoglobal.org


O conceito de masculinidade, ou masculinidades, não é um conceito estático, e está em constante evolução, referindo-se às várias formas em que a masculinidade é socialmente definida através de contextos históricos e culturais, bem como às diferenças de poder existentes entre as diferentes versões de masculinidade. No entanto, são as consequências da definição de masculinidade - historicamente rígida e hegemónica - que levaram a que, nos últimos anos, tenham surgido novas abordagens e propostas da sua re-definição.

As análises iniciais sobre masculinidades tiveram como objecto central a crítica às estruturas rígidas do poder patriarcal, problematizando esta construção social enquanto fonte da opressão, obstáculo à liberdade de escolha e emancipação das mulheres. À medida que o campo de pesquisa se ampliou, no entanto, as perspectivas também se expandiram: deixaram de se centrar exclusivamente na opressão e violência contra as mulheres para passarem a reconhecer os efeitos negativos que a construção social da masculinidade patriarcal tem também em homens. Passaram, além disso, a incluir componentes intersecionais, reconhecendo que existe uma hierarquia profundamente enraizada em termos de privilégio masculino, em termos de raça, classe, nacionalidade, orientação sexual, etc.

Estas abordagens marcaram um ponto de viragem no movimento de luta pela igualdade de género, deixando de considerar os homens apenas como agressores e/ou estando num campo diametralmente oposto ao das mulheres, para se se passar a considerar os homens enquanto aliados que também podem ser prejudicados pelos papéis de género rígidos sem, contudo, esquecer os privilégios ainda ostentados pelo sexo masculino.

É importante considerar como a construção de masculinidade(s) varia através de diferentes culturas e fronteiras geopolíticas, bem como verificar como essas diferenças se refletem nas pesquisas globais e políticas públicas. Enquanto no Sul a prevenção de violência de género passou, durante um tempo, pela transformação de atitudes masculinas em relação à saúde sexual e reprodutiva, no Norte a prioridade passou pela promoção e alteração de políticas públicas sobre licença de paternidade, promovendo o cuidado e a não violência.

Pesquisas mais recentes, levadas a cabo ao longo das últimas duas décadas, reafirmam a multiplicidade e maleabilidade das masculinidades tanto no tempo quanto no espaço. São cruciais os esforços para compreender esta construção social, e reconhecer as suas pressões e consequências, que se manifestam tanto na vida de homens quanto de mulheres.

Atualmente, num contexto de crise global, torna-se evidente a centralidade do estudo das masculinidades e suas transformações para uma compreensão abrangente e rigorosa dos impactos de género da crise. E é-o ainda mais se analisarmos a forma como as atitudes, práticas e decisões políticas legitimadas por entendimentos patriarcais sobre masculinidades têm afetado recentemente o mundo, com expressões visíveis atualmente.

O objetivo central deste dossier temático é o de reunir as principais experiências, propostas e debates sobre o trabalho de transformação de masculinidades a partir de uma perspetiva interdisciplinar feminista e a partir do olhar e experiências de mulheres investigadoras e ativistas.

Consideramos a análise das masculinidades como um objetivo próprio dos estudos feministas. A partir dos estudos críticos das masculinidades (Hearn 2004) a análise da construção social das masculinidades caracteriza-se pela crença na necessidade de mudança de comportamentos masculinos, se queremos realmente construir uma sociedade mais democrática e menos violenta. Apesar de todos os avanços dos direitos das mulheres no mundo, é indispensável questionar e redefinir o que significa ser homem e a forma como a masculinidade se apresenta associada ao poder, à violência e ao controle dos homens sobre as mulheres. Mas não se trata apenas do privilégio masculino, de forma generalista. As diversas formas de masculinidade e como a categoria género se entrecruza com variáveis sociodemográficas (como classe social, origem étnica, orientação e identidade sexuais, …) devem ser temas de análise e reflexão a partir das teorias feministas. As identidades masculinas constroem-se não só em relação à feminilidade mas também a outros eixos e categorias que estabelecem hierarquias outras (Viveros 2007). É necessária, portanto, uma abordagem interseccional nos estudos sobre homens e masculinidades.

Este dossier temático é composto por sete textos escritos por investigadoras do Brasil, Espanha e Portugal, que abordam temas muito variados e que passamos a resumir.

Não é possível, atualmente, falarmos em masculinidades sem as relacionarmos com um dos desafios mais importantes que a humanidade tem pela frente: as alterações climáticas. O artigo “Antropoceno patriarcal, petro-masculinidades e masculinidades industriais: diálogos feministas sobre a crise climática”, de Mariana Riquito, analisa criticamente a forma como as elites políticas masculinas da ultradireita persistem em negar as alterações climáticas, uma estratégia político-discursiva de preservação do status quo do qual sempre beneficiaram. Servindo-se dos conceitos de “petro-masculinidade”, de “masculinidades industriais” e introduzindo o conceito de “Antropoceno patriarcal”, este trabalho argumenta que o negacionismo climático destes líderes políticos está inextricavelmente ligado às suas identidades masculinas. Neste sentido, estes discursos contribuem para (re)produzir masculinidades autoritárias e ecologicamente irresponsáveis.

Nerea Cuenca Orellana e Natalia Martínez Pérez analisam a representação da masculinidade em duas versões do filme A Bela e o Monstro, separadas por mais de 25 anos. O objetivo é observar a evolução psicológica da personagem do Monstro para analisar o modelo de masculinidade que representa e verificar as mudanças entre as duas versões. Com esta análise o artigo procura aferir que qualidades masculinas continuam presentes e como a evolução interior do personagem objeto do estudo está relacionada com a busca de uma masculinidade amável, emocional e sentimental como características que as mulheres procuram nos homens.

Assumindo que nenhuma das mudanças possíveis no campo das masculinidades se pode alcançar apenas no terreno individual, torna-se indispensável que as políticas públicas problematizem esta questão, desenhando estratégias para a sua transformação. Bakea Alonso propõe, no seu artigo, uma análise sobre os Planos Estratégicos para a Igualdade em Espanha, onde põe em evidência a ausência de uma perspetiva de género em relação aos homens no desenho de políticas de igualdade. Apesar de as agendas políticas internacionais apontarem a necessidade de se incorporarem reflexões sobre masculinidades nas estratégias de promoção da igualdade, em Espanha o processo é ainda lento e díspar. O artigo apresenta alguns dos debates, recomendações e desafios em torno da incorporação de homens e rapazes nas políticas de igualdade.

O artigo de Marta Fernandez, Tatiana Moura, Andréa Gil e Isabela Souza da Silva analisa possibilidades de construção e reconstruções de contornos de género com um olhar para as masculinidades a partir de intervenções artísticas levadas a cabo no Rio de Janeiro, Brasil. Partindo da violência estrutural e estruturante que marca as pós-colónias, questionam-se as dinâmicas de violências raciais-genderizadas que reproduzem as normas, padrões e pactos imbricados de masculinidades hegemónicas. Desta forma, propõe-se um diálogo com práticas artístico-culturais periferizadas que redimensionam como incorporamos tais idealizações de género. Para esse fim, o artigo centra-se na produção do espetáculo Na Manha - desenvolvido no âmbito da residência artística do projeto de pesquisa-ação GlobalGRACE (Género e Culturas Globais de Igualdade), com a Companhia de Dança Passinho Carioca e sob a direção do coletivo de dança Mulheres ao Vento no Rio de Janeiro.

Este dossier inclui dois artigos que se dedicam ao tema da prostituição, tema central e fraturante da agenda feminista ao longo de várias décadas. Nos últimos anos, contudo, os estudos colocam mais o foco na análise dos consumidores (homens) do que nas vítimas. O artigo da socióloga Beatriz Ranea Triviño apresenta o consumo da prostituição por parte dos homens como um espaço de ritual grupal da masculinidade. Através de uma análise qualitativa de 15 entrevistas em profundidade observa-se como o secretismo caracteriza, em parte, estas práticas, gerando, por sua vez, uma série de vínculos de homossocialidade. O artigo seguinte, de Águeda Gómez Suárez e Rosa Mª Verdugo Matés, analisa o comportamento dos clientes de prostituição durante os meses de confinamento na primavera de 2020 em Espanha, no início da crise de pandemia global causada pela COVID-19. Nesses meses, e apesar do risco para a saúde e para a vida das pessoas envolvidas, a procura por prostituição não desapareceu, em Espanha, como se depreende dos testemunhos das mulheres em situação de prostituição e dos conteúdos dos chats de “puteros”. Segundo as autoras, a masculinidade patriarcal confinada decidiu ser temerária, irresponsável, egoísta e pouco solidária.

Por fim, o artigo “(Des)construção de masculinidades de homens trans, entre Portugal e Brasil”, da autoria de Matilde Soares, Catarina Moreira, Liliana Rodrigues e Conceição Nogueira, pretende explorar as formas como homens trans constroem e desconstroem as suas masculinidades perante imposições para aderir a um tipo de masculinidade hegemónica. Os temas explorados e resultantes das entrevistas a 12 homens trans em Portugal e no Brasil demonstram a necessidade de reconhecer a diversidade de formas de “ser homem” e “ser masculino”, contribuindo para a promoção de vidas mais livres e espontâneas.

Sabemos que ficam muitos temas por explorar e que este dossier temático não espelha a riqueza dos debates existentes, nomeadamente o modo como os estudos sobre masculinidades se têm incorporado nos conteúdos programáticos das universidades e qual a sua relação com os estudos de género; paternidades e cuidados e práticas equitativas de masculinidades; modelos de intervenção social com homens que mostram evidências de mudança; o papel dos homens nos movimentos feministas; ou os vários impactos que a crise pandémica global teve e está a ter nas relações de género. Acreditamos, contudo, que este será um primeiro dossier de vários, na tentativa de contribuir para os diálogos feministas no campo das masculinidades.

Referências bibliográficas

Hearn, Jeff. 2004. “From hegemonic masculinity to the hegemony of men.” Feminist Theory 5(1): 49-72. DOI: https://doi.org/10.1177/1464700104040813 [ Links ]

Viveros, Mara. 2007. “Teorías feministas y estudios sobre varones y masculinidades. Dilemas y desafíos recientes.”La manzana de la discordia 2(2): 25-36. DOI: https://doi.org/10.25100/lamanzanadeladiscordia.v2i2.1399 [ Links ]

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