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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.37 Lisboa jun. 2017

 

LEITURAS

UMAR, Construindo os feminismos, desafiando o futuro. Tavares, M. & Sales, T. (Coord.) (2016). Lisboa: Umar-União de Mulheres Alternativa e Resposta, 193 pp.

Natividade Monteiro*

* Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Instituto de História Contemporânea, Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais, Faces de Eva – Estudos sobre a Mulher, nati.monteiro@netcabo.pt


 

UMAR. Construindo os feminismos, desafiando o futuro é um livro comemorativo dos 40 anos de luta pelos direitos das mulheres, percorridos e celebrados pelas vozes de feministas que dão os seus testemunhos sobre o caminho trilhado, as lutas empreendidas, as conquistas e os novos desafios dos feminismos na contemporaneidade. São 41 mulheres de várias proveniências, formações, idades e profissões que partilham a sua reflexão sobre o momento em que o seu percurso de vida se entrelaça com a história, os projectos e a acção da UMAR.

O livro pode dividir-se em três partes. Na primeira parte, Manuela Tavares traça as linhas gerais das lutas empreendidas pelos direitos das mulheres e contra todas as discriminações, travadas nas últimas quatro décadas.

Colectividade nascida das movimentações de mulheres do 25 de Abril, a UMAR iniciou um percurso de activismo nas lutas sociais que se travavam no país pela educação, trabalho, habitação condigna e melhores condições de vida, abraçando depois a defesa de causas mais específicas, como o direito à contracepção e a despenalização do aborto, iniciativas contra o tráfico de mulheres, a violência doméstica, o assédio sexual nos locais de trabalho, a mutilação genital feminina e a discriminação das minorias LGBT.

A par da intervenção pioneira nas escolas com projectos educativos de sensibilização para a igualdade e a prevenção da violência e discriminação, a UMAR promoveu e realizou seminários, conferências, inquéritos e projectos de índole vária, visando a afirmação social, profissional e política das mulheres e a defesa dos seus direitos e dignidade. Com uma agenda feminista de velhas e novas causas, tem estabelecido parcerias com entidades públicas, associações de mulheres e centros de investigação e trabalhado em rede com organizações nacionais e internacionais, envolvendo activistas e académicas e conquistando simpatias das jovens gerações. Numa intervenção multifacetada, tem conjugado reflexão, activismo e acção política e promovido a partilha e divulgação da investigação nos domínios dos Estudos sobre as Mulheres, dos Feminismos e do Género.

Em parceria com outras entidades, promoveu a realização do Seminário Evocativo do I Congresso Feminista e da Educação, em 2004, e o Congresso Feminista de 2008, momentos altos de divulgação de conhecimento científico, de partilha de experiências, de afirmação de correntes de pensamento e de busca de novos campos de reflexão. Em parceria com Faces de Eva, desenvolveu outros projectos de igual relevância, como a publicação da Agenda Feminista 2010, As Mulheres e a República e Roteiros Feministas na Cidade de Lisboa (premiado pela Câmara Municipal de Lisboa), a realização do Congresso Evocativo do voto de Carolina Beatriz Ângelo e a sessão de homenagem a esta feminista na Assembleia da República, em 2011. De salientar ainda a criação do Centro de Documentação e Arquivo Feminista, do Centro de Cultura e Intervenção Feminista e da Biblioteca Ana de Castro Osório, o projecto ‘Memórias e Feminismos’ e a organização da Universidade Feminista, realizações que confirmam o dinamismo e a capacidade de diálogo para agregar vontades, gerar consensos, ampliar os campos de estudo e enfrentar novos desafios.

A segunda parte do livro é constituída pelos depoimentos das mulheres que estiveram na fundação da UMAR, das que por ela passaram e de todas aquelas que ainda continuam activistas. Ler esses testemunhos é ser contagiada por uma corrente de emoções, memórias, sentimentos, experiências e entusiasmos que avivam a crença de que os feminismos podem mudar as vidas, transformar as sociedades e melhorar o mundo. Os ideais do feminismo social e politicamente empenhado da UMAR são universais, partilhados e expressos pela Marcha Mundial das Mulheres, na defesa da liberdade, igualdade, solidariedade, justiça e paz. Desfiando memórias, todas recordam “o muito que se andou para aqui chegar” e como era difícil, há 40 anos, ser-se feminista e falar de violência doméstica, direitos sexuais e reprodutivos, paridade e assédio sexual. Muitas falam das suas vidas entrelaçadas com as lutas da UMAR e das aprendizagens individuais e colectivas que advieram da luta pela despenalização do aborto, bem como da convicção de que, juntando forças, é possível vencer pela inteligência e pela razão. Outras tantas relatam as motivações que as levaram a abraçar as causas da UMAR e a ficar ao lado das mulheres vítimas de violência doméstica, ajudando-as a reconstituir as suas vidas, exigindo mudanças legislativas e políticas públicas que reconhecessem este flagelo como crime e atentado aos direitos humanos. Na impossibilidade de referir todos os testemunhos, diria que a maioria expressa o grande orgulho de pertencer e de participar na caminhada empreendida pela UMAR, uma colectividade rebelde, autónoma e independente no combate social e político que assume o feminismo militante na construção de um futuro melhor.

A terceira e última parte contém uma colecção de imagens que atestam uma parte da intervenção pública contra o desemprego, os salários em atraso, a subida dos preços e a discriminação de género no emprego, na sociedade e na decisão política; as campanhas, manifestações e petições aos órgãos de soberania pela despenalização do aborto; acções de rua pela paz, contra a violência doméstica e o assédio sexual; e a participação na Marcha Mundial de Mulheres.

Ler este livro é percorrer a história da UMAR e um bom pedaço da história das mulheres que a protagonizaram, partilhando experiências e saberes, enriquecendo convivências e sociabilidades e fortalecendo laços de fraternidade e sentidos de pertença a uma comunidade que acredita que vale a pena lutar pelos valores universais da liberdade, da justiça e da igualdade.