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Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.43 Lisboa jun. 2020

https://doi.org/10.34619/7vbc-sn12 

(AUTO-)RETRATO

Ana Coucello


 

 

 

O início desta história tem lugar em Lisboa - a ‘minha terra’ de horizontes líquidos e luminosidade incomparável -, no fim do ano de 1948, pela ciência e as mãos da médica-parteira[1] Humberta Areias[2], numa casa antiga, junto à Avenida, cujos tectos consentiam árvores de Natal deslumbrantes e os soalhos só rangiam quando alguém tentava passar despercebido. Tomei o nome da minha Avó, que tomara o dela da sua trisavó, uma americana de Filadélfia e origem irlandesa, de quem guardo alguns tesouros estimativos e que ainda hoje evocamos como a Avó Mary-Anne. Tive uma infância feliz, com uma Mãe e um Pai apaixonados entre si e pelos filhos - tenho um irmão -, e no meio de uma família a perder de vista onde as gerações passadas continuam presentes…

A minha instrução política começou muito cedo, em casa, à volta das imagens de dois cartapácios sobre a I Grande Guerra[3] e com as histórias sobre a II Guerra Mundial - as fugas através dos países ocupados pelos nazis e da Espanha franquista, a luta da resistência, a espionagem em Lisboa e a marcação do seu território pelos lados em conflito. Depois, as conversas mais dolorosas sobre os judeus, as perseguições, as atrocidades, o holocausto. E também, quando o meu Avô não estava presente, as histórias da sua prisão pela polícia política, por colaborar com a embaixada britânica no acolhimento de personalidades fugidas dos países ocupados. Estas conversas transmitiram-me o amor pelos valores da paz, liberdade, direitos humanos e democracia e também a repugnância intelectual e física pela guerra, a arbitrariedade, o despotismo, a opressão e a injustiça.

Completei a instrução primária entre o Príncipe Real e São Pedro de Alcântara, com uma exigente professora particular, a Senhora Dona Alzira Rezende, que nos premiava com lacinhos de cores, nos levava em visitas de estudo pelos arredores e nos evitava a arregimentação para a Mocidade Portuguesa. A ideia era a de que uma sólida formação inicial era essencial para o que se seguiria.

A morte precoce do meu Pai, quando tinha 38 anos e eu quase 10, veio abalar para sempre as minhas certezas infantis. Passou a haver “um antes” - tudo era alegre, fácil e adquirido - e “um depois” - tudo ficou triste, difícil e incerto. Foi um desgosto avassalador que se apaziguou, mas não se extinguiu.

Parte da minha adolescência foi passada no espaço protegido do Instituto de Odivelas - colégio interno, fundado em 1900 por oficiais do Exército para garantirem às suas filhas uma educação para a autonomia; foi extinto em 2015 por um despacho cego do ministro da Defesa. Era um ecossistema peculiar marcado por curiosas incongruências que continham em si a crítica da disciplina beata e salazarenta ali imposta. Proporcionou-me conhecimentos sólidos nas línguas vivas e nas ciências; fundamentais mas fastidiosos, em latim; estimulantes, em geografia e história mundiais; extravagantes, em tintura de tecidos… com cochinilha; e insólitos como instruções para escolher um marido! E proporcionou-me amigas que me acompanham há 60 anos.

Foi no colégio que primeiro me interroguei acerca da bondade da Igreja católica, quando me assustava com os gritos do capelão encolerizado, no confessionário, com a nossa perversidade de adolescentes… Foi também no colégio que a obrigação do exercício da virtude da caridade me levou a perceber a intolerável hipocrisia que é a caridade sem compaixão. Fui boa aluna e bem-comportada, não por ser uma “menina exemplar” da Condessa de Ségur mas para sair do colégio ao fim-de-semana o mais cedo possível. Mais tarde, uma mistura explosiva de imaturidade e sobranceria saldou-se por um inacabado curso de Química. Da Faculdade de Ciências recordo o choque com os arcaicos laboratórios - que não se comparavam aos do colégio e me levavam a “ver” o fantasma de Lavoisier a perscrutar-nos do alto do mezanino… Destes prodigiosos anos 60, relembro o desafio à inacção do regime que constituiu a mobilização dos estudantes para o socorro às vítimas das grandes inundações de 1967 - estive dois dias a limpar botões (!) numa retrosaria de Alenquer que tinha ficado submersa pela lama e regressei a casa com uma violenta gripe; a exaltação suscitada pelo Maio de 68; o ânimo incutido pelas lutas estudantis de 1969; o susto com o grande sismo, ainda em 1969; as minhas primeiras incursões pelo pensamento de feministas como Betty Friedan; o descanso recém-oferecido pela pílula; e a banda de Liverpool que ainda hoje alegra os meus dias e animava as nossas festas.

Arrastei-me penosamente pela Faculdade de Ciências até casar e ir para a guerra colonial, flagelo que reforçava a violência opressiva e arbitrária da ditadura - uma guerra no horizonte de uma geração é uma condenação a prazo que condiciona drasticamente decisões e expectativas. Havia um antes da guerra e, com sorte, um depois da guerra. África foi o verdadeiro início da minha vida adulta. Parti para seis meses de ociosidade no Leste de Angola e acabei, dois dias após a chegada, a dar aulas em substituição de uma professora com uma gravidez de risco. Vi-me assim, aos 23 anos, com a responsabilidade de motivar para o estudo da matemática e da biologia enormes turmas de adolescentes ruidosos que não perderam a oportunidade para pôr à prova uma professora pouco mais velha do que eles. Rapidamente, porém, percebemos que éramos feitos uns para os outros! Pela relação estabelecida com os meus alunos, os responsáveis pelo principal aldeamento compulsivo às portas da cidade abriram uma excepção à inexistência de celebrações - uma das formas de resistência à situação - e organizaram-me uma festa com muquíxis e danças. Tive à minha espera a respeitada anciã do aldeamento e um lugar ao seu lado. Foi uma recompensa pelo meu trabalho, que recordo como um prémio inigualável. Quando parti, descobri os meus alunos estrada fora, debaixo do Sol do meio-dia, a caminho do aeroporto para se despedirem de mim. Guardo-os no meu coração e comovo-me sempre que os recordo. Ainda hoje.

Em África confirmei o que em Portugal já suspeitava. Presenciei o vaivém dos helicópteros evacuando militares feridos. Revoltei-me com o sofrimento de crianças amputadas dentro dos próprios aldeamentos por minas de um movimento de guerrilha de cujos propósitos sempre desconfiei[4]. Comprovei as arbitrariedades que as populações suportavam, retiradas à força dos seus territórios ancestrais e concentradas em aldeamentos à margem das cidades em condições deploráveis, privadas tanto dos recursos das suas terras de origem como de infra-estruturas urbanas, e as estratégias humilhantes de sobrevivência a que muitas destas pessoas tinham de recorrer. Apercebi-me da hostilidade de muitos colonos às tropas portuguesas - os pilha-galinhas - e experimentei a estupefacção e o medo de acordar debaixo de fogo no meio de uma cidade.

Regressei de África com um sentimento de urgência e ainda mais segura das minhas convicções. Felizmente seis meses mais tarde, em Setembro de 1973, Évora é palco da primeira reunião dos militares na origem do Movimento das Forças Armadas (MFA) que haveria de derrubar a ditadura. Porque era uma oportunidade imperdível e as relações familiares o permitiam, fiz tudo o que estava ao meu alcance para o êxito da conspiração. Iniciei contactos úteis para o plano de operações, recolhi e transmiti informações e cheguei a andar fugida… pela Serra da Estrela, claro! Foi um período de grande ansiedade, bastante atrevimento e muitos sobressaltos.

O 25 de Abril foi o dia mais feliz da minha vida. Quem nunca viveu em ditadura dificilmente imaginará a imensa alegria e o enorme alívio que sentimos: era uma sinistra nuvem negra sempre presente substituída por uma promessa de bom tempo. Tive o privilégio de trabalhar no centro do turbilhão revolucionário, primeiro com o Secretário do Conselho de Estado e a Comissão Coordenadora do MFA e, por último, como adjunta do gabinete do Primeiro-ministro, general Vasco Gonçalves, para quem eu reunia as referências ideais: tinha andado comigo ao colo, era filha de um camarada da engenharia militar e estava casada com um militar revolucionário! Um dia disse-lhe que ele tinha tiques machistas e, a partir daí, dizia como blague que os que o acusavam de ser marxista estavam enganados, afinal ele era machista. Era um homem bom que foi implacavelmente trucidado. O estertor do regime teve aspectos de grande violência: eu própria recebia diariamente telefonemas com ameaças de morte. Vivi o 28 de Setembro e o 11 de Março no interior do poder revolucionário e pedi a exoneração em Abril de 1975 por discordar de algumas decisões.

Sou uma convicta europeísta por razões históricas e políticas, mais tarde confortadas pela experiência cívica europeia. Trabalhei durante 35 anos na área da integração europeia. Fui recrutada no início das negociações da adesão, para o recém-criado Secretariado para a Integração Europeia (SIE)[5], pela mais lúcida e competente dirigente da Administração Pública com quem trabalhei, Raquel de Bethencourt Ferreira. Em 1985 o SIE foi absorvido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, e vi-me integrada numa estrutura pesada e conservadora, onde, em 1986, ainda se encerravam processos com cordel no final de cada ano. Pelo meio, fui adjunta do Gabinete da Secretária de Estado do Comércio Externo e responsável pelo gabinete em Lisboa da Delegação do Partido Socialista (PS) ao Parlamento Europeu. A minha passagem pela política partidária iniciou-se com um curto capítulo na UDP, onde colaborei com a Voz do Povo, para a qual obtive uma das primeiras entrevistas de António Lobo Antunes e entrevistei um grupo londrino de jazz, o Feminist Improvising Group. Em 1985 integrei o MASP (Movimento de Apoio Soares à Presidência) e, em 1986, após a eleição presidencial, aderi a um PS recentemente saído de uma estrondosa derrota eleitoral. No PS, o primeiro encargo chegou-me através de um telefonema de António Guterres, a convidar-me para um grupo que seria o embrião do departamento nacional para os direitos das mulheres.

A experiência partidária foi simultaneamente proveitosa e decepcionante. Conheci novos cambiantes da cultura masculina e verifiquei que a negação da discriminação sistémica das mulheres e o escárnio do feminismo e das feministas tem campeões em lugares insuspeitos. Ao fim de sete anos de intensa actividade partidária em que tive a oportunidade de percorrer o País em campanhas eleitorais extenuantes e instrutivas e de dar o meu contributo a vários níveis, a vida partidária começou a parecer-me um jogo de sombras para o qual me faltava talento. Devo ao PS o ter conhecido Maria Alzira Lemos[6], companheira de 20 anos de lutas e uma querida Amiga de quem terei sempre saudades.

Nos anos 80 integro a secção não-governamental do Conselho Consultivo da Comissão da Condição Feminina, e aos poucos vou substituindo a militância político-partidária por uma militância política no universo das organizações não-governamentais[7] de direitos das mulheres, que, recordo, já em 1987 trabalhavam em parceria informal após subscreverem um documento designado Plataforma de Acção para a Igualdade. Com escassos recursos materiais mas generoso trabalho voluntário, foi possível realizar inúmeras iniciativas inovadoras que desbravaram caminhos, divulgaram novos conceitos e permitiram uma experiência de trabalho conjunto que contribuiria para a criação, em 2004, da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres (PpDM), que hoje reúne cerca de 30 associações e desenvolve uma importante e imprescindível intervenção neste vasto e complexo domínio.

Curiosamente, o meu feminismo nasceu de uma epifania infantil numa festa de casamento, quando os meus primos conspiraram para me excluírem das brincadeiras. Enxotadas as crianças para o jardim, eu debatia-me com um vestido comprido, feito à medida na Carochinha[8], que me estorvava as correrias. Para me libertar, rasguei a saia, e os meus primos precipitaram-se a denunciar-me à minha Mãe que, não gostando de “queixinhas”, menos gostou do sucedido, confinando-me dentro de casa até o fim da festa. Percebi então que, embora competissem alegremente entre si, os meus primos temiam a minha concorrência e não hesitariam em fazer batota para me expulsarem. Devia ter uns 5 anos, mas aprendi a lição e nunca mais deixei de combater a síndrome da Carochinha em todas as suas dimensões!

Embora não isenta de decepções e contrariedades, a minha experiência de feminista militante foi e continua a ser uma aprendizagem enriquecedora. Conheci mulheres inspiradoras, de grande coragem e tenacidade neste combate por um Mundo melhor - porque é disso que se trata quando se trata da luta pelos direitos das mulheres. Confrontei-me com outras visões do mundo e coloquei à prova a minha própria visão. E fui destinatária da confiança das companheiras deste combate que reconheceram o meu trabalho e me premiaram com… mais trabalho (!), elegendo-me para a presidência da AFEM - Association des Femmes de l’Europe Méridionale[9] (2000), a vice-presidência do EWL - European Women’s Lobby[10] (2002) e a presidência da PpDM (2006).

A reflexão suscitada pela intensa actividade que desenvolvi leva-me a considerar que, embora se tenham registado avanços assinaláveis, a lentidão na sua concretização e a sua frágil sustentabilidade estão longe de corresponder às expectativas sociais, às proclamações políticas e até às disposições legais em vigor. A violência masculina contra as mulheres continua a não ser eficazmente dissuadida e efectivamente punida; as mulheres continuam a não auferir salário igual para trabalho de igual valor; a participação das mulheres no poder e tomada de decisão em todos os domínios, da política à economia, continua longe da paridade; o acesso das mulheres aos recursos públicos continua a espelhar enormes desigualdades; a análise das decisões políticas em função do seu contributo para a igualdade continua a não estar garantida, consentindo decisões contraditórias e o consequente desperdício de recursos; as mulheres continuam a produzir a maioria do trabalho não-remunerado. E todavia… a promoção da igualdade entre homens e mulheres é uma tarefa fundamental do Estado[11].

Porém a minha experiência de intervenção política ensinou-me que em democracia nada é irreparável! A democracia oferece inúmeras fileiras de intervenção, e o grau de empoderamento de cada um/uma de nós não depende unicamente de factores socioeconómicos, depende também do modo como olhamos para nós próprios. Yes, we can! E também devemos porque a democracia é um sistema aberto e portanto vulnerável - como estes últimos anos demonstram - que merece todo o nosso cuidado. A democracia incentiva o desenvolvimento humano e é o único sistema de governo que admite aperfeiçoamentos. E continua a ser a pior das formas de governo, à excepção de todas as outras[12].

Tenho naturalmente outros interesses - os direitos dos animais, as questões relacionadas com o antropocentrismo, a biodiversidade, o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável, e também a música e a pintura - e espero manter viva a minha curiosidade e a minha apetência discente até ao último dos meus dias! Tempus fugit e não quero distrair-me! Foi porém a pintura, e a minha obstinação em me tornar proficiente no caprichoso meio que é a aguarela, que me ofereceu as ausências de que necessitava para recompor as energias físicas, emocionais e intelectuais necessárias ao longo combate feminista.

A última palavra para o meu actual companheiro de mais de quarenta anos nesta jornada democrática, europeísta e feminista: Obrigada!

E agora que esta difícil encomenda está despachada, vou pintar… se os meus gatos me deixarem.

 

[1] Designação então corrente para as obstetras.

[2] Fez parte de um pequeno grupo reunido por Adelaide Cabete para a constituição da Associação das Mulheres Universitárias Portuguesas segundo A Mulher em Portugal, publicação da Segurança Social em: http://www.seg-social.pt/documents/10152/18931/A+mulher+em+Portugal+volume+I.pdf

[3] “L’Album de la Guerre 1914-1919”, ed. L’Illustration, Paris, 1923.

[4] Refiro-me à UNITA.

[5] Órgão de apoio técnico à Comissão para a Integração Europeia, criada na Presidência do Conselho de Ministros para preparar e dirigir as negociações de adesão de Portugal às então Comunidades Europeias (DL n.º 306/77, de 3 de Agosto).

[6] Maria Alzira Lemos (1919-2005), feminista e militante antifascista, foi jurista do mecanismo nacional para a igualdade (CCF e CIDM). Era neta de Afonso Costa, estadista da I República. A PPDM deu o seu nome à sua sede.

[7] Isto é, as organizações da “sociedade civil” que tradicionalmente não tinham assento nos fóruns do diálogo social formal.

[8] A Carochinha era o nome de uma boutique para crianças que existiu em Lisboa.

[9] Com sede em Paris.

[10] Com sede em Bruxelas, é a maior organização europeia de direitos das mulheres.

[11] Art. 9.º da Constituição da República.

[12] Frase habitualmente atribuída a Winston Churchill; porém, parece que, quando a proferiu, em 1947, na Câmara dos Comuns, estaria ele próprio a citar um seu não-identificado antecessor.