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Revista Portuguesa de Ciências do Desporto

versão impressa ISSN 1645-0523

Rev. Port. Cien. Desp. v.10 n.1 Porto  2010

 

Hora de balanço [1]

 

Jorge Olímpio Bento

 

1. Este acto marca formalmente o termo de um ciclo da vida da Faculdade. Olhamos para trás e sentimos nostalgia e saudade. E porquê? Porque foi um período bom, de exemplar empenhamento, de inexcedível brio, de intensa dedicação e entrega, de transbordante paixão e, exactamente por isso, de extraordinário desenvolvimento.

Significa isto que encaramos o futuro com reservas? A resposta manda sopesar o presente, porque só há presentes. E intima-nos a dizer que estamos a viver um tempo de retrocesso civilizacional, de encolhimento espiritual e moral, de atropelo dos valores e ideais humanistas, de abandono da coesão social, de regressão do pensamento e da razão, de progressão do senso comum. Um tempo em que as pessoas de carácter, de rectidão e princípios têm a vida mais dificultada do que os espertos, oportunistas, trapaceiros e vigaristas.

Friedrich Nietzsche dizia da sua era, 1844-1900, o seguinte: “A nossa época, embora fale tanto de economia, é esbanjadora: esbanja o que é mais precioso, o espírito”.

O que dizer desta nossa época dessacralizada, do angustiante contexto de desesperança e devastação do espírito? Tudo é baba sem consistência; a falta de transcendência ética e estética turva as mentes e adensa o caos.

“Há um efectivo apagão intelectual em Portugal. Ou será que o país deixou de ter gente capaz de pensar para além da espuma da conjuntura?” – afirma e pergunta Leonel Moura. [2]

A isto responde João Pereira Coutinho com esta deprimente, mas justa acusação: “Tempos houve em que os intelectuais eram verdadeiros contra-poderes. Hoje (…), os intelectuais servem apenas para enfeitar os poderes”. [3]

Estas e outras citações de teor afim são trazidas diariamente à colação, na tentativa de nos acordarem de uma letargia excessivamente prolongada. De muitos lados surge um apelo, convidando a reagir “às últimas décadas de cultura anti-intelectual, onde a obsessão do fazer, da velocidade e da eficiência foi exibida no espaço público como antítese positiva da reflexão, do pensamento, das ideias. Uma assunção primária que dá que pensar, precisamente, pelo mundo que estamos a gerar. Talvez seja, então, chegada a hora de meditar antes de fazer. De não nos instalarmos. De pensar, caminhando”.[4]

Ou seja, este tempo e as circunstâncias, que o perfazem a ele e a nós, lembram-nos que a Universidade é o lugar, por excelência, da palavra, do dever de romper o silêncio e de tomar posições. É o lugar onde devemos apreciar a diferença e diversidade e sentir horror ao “gorduroso odor do estábulo”, tal como proclamava Nietzsche. E onde devemos agir segundo a definição de Jean Jacques Rousseau, 1712-1778: De todos os animais, o homem é aquele a quem mais custa viver em rebanho.

Sim, na acrópole da Universidade é mister que discursem homens livres, desalinhados e fugitivos, a sete pés, da irracionalidade e uniformidade da manada. Não por teimosia ou exibição, mas por inquietude e obrigação. É nela que o local, particular e singular incorporam o universal, abrangente e geral.

A observância deste mandamento começa por um olhar para dentro dela. Esse olhar apurado desperta a consciência para a necessidade de reflectir e inquirir leis, orientações, normas e regulamentos que afunilam e pervertem a missão da Universidade, assim como atentam contra os direitos e a dignidade dos que nela laboram.

Há que parar e questionar o frenesi reformista que por aí campeia como um culto fundamentalista. É altura de perguntar pelo que se está a ganhar e a perder. Ganhos vislumbram-se poucos; danos são muitos, substanciais e colaterais. Estão em perda, sobretudo, a credibilidade e a elevação moral.

Não haverá nisto pessimismo e criticismo a mais? Há, antes, recusa em alinhar com um optimismo que, como advertiu Voltaire (1694-1778), assenta na mania de sustentar que tudo está bem, quando está mal, que tudo está a ser feito para um fim melhor, quando está a servir intuitos inconfessos.

Mas… são de rejeitar as reformas? No mínimo não se pode pactuar com a deturpação do verbo ‘reformar’. Reformar não é destruir. Ao invés, é reavivar, melhorar, reforçar, aumentar e transmitir a herança recebida: o apego a princípios e valores, ao saber, à racionalidade e reflexão, ao debate e uso do pensamento, ao cultivo da liberdade, da justiça, decência e ética, ao avanço do bem comum, da solidariedade e do direito a uma vida digna em todas as idades, à avaliação e reconhecimento do mérito, à rejeição do fácil e falso, das ideias feitas, da manipulação e alienação, do populismo e demagogia.

A ênfase renovadora deve cuidar desta herança, de a aprimorar e não de a debilitar e sepultar. A Universidade tem uma longa história de farol da liberdade, ocupada e incumbida de clarear caminhos; não será agora que vai capitular e tornar-se cúmplice da escuridão e da passividade.

Para tanto é desejável que, nesta hora e antes de tudo, a Universidade não abdique de ser res publica, tenha autonomia e voz, reflicta acerca do que já é e do mais que quer ser, das ‘coisas’ intangíveis e da medida dos valores humanos e universais em que se revê. Que, em primeiro lugar, fale dos fins, da vocação e incumbência que lhe toca cumprir. Que não seja omissa na questão da qualidade dos quadros que lhe cumpre formar.

Deve elevar-se o estudante à altura do saber e da inteligência, da ética e da estética? Ou deve o ensino descer ao nível da ignorância e estupidez, da boçalidade e incivilidade, da rasura e indigência cultural?

As Universidades estão obrigadas a formar pessoas cultas, que se meçam e sobreponham ao seu tempo. A formar quadros realmente superiores: Ilustrados e iluminados para exceder a vulgaridade e a banalidade, hermeneutas capazes de inteligir a sua área e de a situar no plano da vida e no contexto sócio-cultural, à altura do seu tempo, disponíveis para viver a sua inteligência e para viver a partir da faculdade maravilhosa que é a de perceber a própria limitação.

 

2. A gente só enxerga o que está preparada para ver – diz e bem Bernardo Carvalho, escritor brasileiro. E Alvin Tofller adverte que é curial pensar nas coisas grandes, quando fazemos as pequenas.

Ora é duvidoso que o paradigma concebido por Bolonha prepare para ver para além do óbvio. É legítima a suspeita de que não ajuda a enxergar o mundo dominado pela obsessão da instantaneidade, pelo espectáculo do instantâneo. Está apostado em somar aprendizagens e conhecimentos, mas parece fazê-lo subtraindo a consciência.

Por este caminho, a formação desfigura-se em instrução, pior ainda, em má instrução. A formação, no conceito clássico, subentende a capacidade ou competência para diferenciar, distinguir, qualificar as coisas e os factos. A ‘instrução’ anestesia e mostra tudo igual, como um alcoólico a quem todas as bebidas sabem ao mesmo, conquanto tenham álcool. Nesta conformidade a massa bolonhesa torna os indivíduos gordos e obesos de conhecimentos, mas não repara que eles podem ficar magros e até esqueléticos em termos de ética, sabedoria, lucidez e humanidade.

A instrução em vigor, digamo-lo sem rodeios, inspira-se nos modelos de sucesso político, mediático e financeiro em alta, gera anorexia ética e moral, unilateralidade no pensamento e acção. Contribui para engrossar o caudal de uma conjuntura, rotulada por Hans Küng, da moral perdida ou desmoralização ou desorganização moral. E corre o risco de resvalar para a produção de um novo e inquietante tipo de sujeitos: instruídos, mas dependentes e timoratos, receosos, assustados, manipuláveis. Deste jeito o tipo de instrução oficialmente consagrado

•       Degrada a pessoa para capital humano,

•       Favorece a obediência cega,

•       Garante um certo entontecimento no interesse da funcionalidade.

É, pois, imperioso advogar uma ‘formação’ de sinal contrário. Que celebre matrimónio ou união de cumplicidade e reciprocidade com a cidadania e liberdade. Uma formação que não favoreça a indigência espiritual, que estimule o progresso intelectual e moral, que capacite a pessoa a

•       Ver o mundo com outros olhos,

•       Tomar decisões fundamentadas,

•       Agir com responsabilidade,

•       Questionar o sentido das coisas e dos factos,

•       Fomentar a empatia, solidariedade e preocupação com os outros,

•       Assumir a coragem para dizer NÃO,

•       Estabelecer uma ordem consigo e com o mundo.

 

3. É próprio da natureza das coisas que elas sejam diferentes umas das outras. No entanto para todas elas está a ser hoje recomendado o mesmo figurino. E assim surgem receitas para configurar a Universidade segundo os ditames de uma visão empresarial e gestão industrial, com alcance curto e distorcido. É patente a tentação de absolutizar nela o paradigma produtivista, de a querer proletarizar, de proletarizar e despir de estatuto intelectual os seus docentes. Se não tomarmos o devido cuidado, o SIADAP – Sistema Integrado de Gestão e Avaliação do Desempenho na Administração Pública que, com o seu inominável regime de cotas, trata os funcionários como objectos sem alma e sentimentos, sofrerá uma ligeira metamorfose para avaliar os docentes com uma parafernália de instrumentos que modificarão o cerne, a essência e o alvo do seu exercício profissional. Os enormes desperdícios de tempo e o concomitante desvio de energias para atender os requisitos da avaliação, vão irremediável e radicalmente alterar as funções e metas fulcrais dos professores.

Até agora vigorava um sistema de avaliação que, não sendo perfeito, se centrava no essencial da actividade e profissionalidade dos docentes, no ethos da sua autonomia e liberdade científicas e criadoras. Doravante espreita o perigo do periférico e do secundário passarem a central, com sequelas funestas para as dimensões intelectual, cultural, espiritual e humanista da docência universitária.

Face a este quadro impõe-se avivar no conjunto dos deveres o de dizer NÃO à adesão acrítica, demissionária, passiva e silenciosa a tudo quanto atente contra a dignidade das pessoas e o clima sadio das instituições, a tudo quanto promova a queda no absurdo.

O percurso dos docentes universitários está sobejamente balizado por avaliações. Pode ser melhorado, mas não precisa da introdução de obstáculos destinados a desviá-los do seu itinerário lógico e principal e a enredá-los em empecilhos desvirtuadores da sua condição. A não ser que se assuma explicitamente que o docente universitário deve ser pura e simplesmente equiparado ao operário ou proletário de uma linha de montagem, tendo que registar continuamente o número dos parafusos e artefactos produzidos. E que se defenda uma competição sem limites que roube o lugar à sedução pela beleza no relacionamento e trato humanos.

Ademais uma avaliação geradora de conflitualidade, animosidade, desconfiança e falta de lealdade não cria um bom ambiente. Logo atenta contra a dita e almejada produtividade, até porque há nela factores de sobra potenciadores de uma pluralidade de consequências graves em vários campos, a saber:

·      A saúde física e mental dos implicados,

·      O relacionamento e trato humanos,

·      O modo de nos vermos e contemplarmos os outros,

·      O funcionamento das instituições,

·      O significado e sentido da existência,

·      Os princípios e valores estruturantes da cultura, da sociedade e da pessoa,

·      A participação da Universidade na destruição do Humanismo e na instauração de um modo de vida assente no cinismo, na insanidade e no desvario infernal.

Não é de bom senso aderir a coisas que detestamos e reprovamos. Se elas nos suscitam depreciação é porque não são boas. O inferno, tanto quanto o concebemos, não é coisa boa; por isso mesmo não queremos ir para lá, tudo fazemos para evitar a queda nesse abismo.

 

4. Contudo hoje é um dia alegre, soalheiro, de avaliação justa. E portanto perfeito. Podemos citar com propriedade o Pe. António Vieira: “…descobrimos hoje mais, porque olhamos de mais alto; e distinguimos melhor, porque vemos mais de perto… A candeia está acesa e muito clara…”

O número de docentes, funcionários e estudantes que nesta ocasião enaltecemos e louvamos vale como amostra de um grupo maior, igualmente merecedor de encómio. Nesta casa o desempenho elevado constitui a regra e não a excepção. Por isso, no destaque concedido aos louvados inscrevemos o apreço pela generalidade dos que fazem a instituição. Tomamos como bitola o aviso de Samuel Johnson, 1709-1784: “A gratidão é um fruto de grande cultura; não se encontra entre gente vulgar”.

Isto contrasta com a conjuntura, que é estranha. É como se a mortalidade flutuasse no ar e vivêssemos um intervalo, num lugar que não mais nos reconhece. Como se a sabedoria, a decência e lucidez saíssem pela janela, à medida que a crise nos aperta. Todavia no fundo do nosso íntimo vive a convicção de que o homem volta sempre às suas necessidades de beleza, verdade e discernimento. Mais, cremos que no ensino e aprendizagem da vida só perdura aquilo que obedece a três critérios: esplendor ético e estético, força intelectual, sapiência.

Mantenhamos vivas as convicções ganhas num trajecto esforçado, suado e limpo. E continuemos a iluminar as noites e dias da dúvida com este clarão de Mário Quintana: “A vida são deveres que nós trouxemos para fazer em casa”. Para os guardar e cumprir.

Sei que eles caíram em desuso. Porém é mister que sigamos o rumo traçado, para não cairmos na farsa e mentira, para não parecermos, como disse Carlos Drummond de Andrade, “cortados ao meio”. Para passarmos de cara erguida, leves e orgulhosos, por entre a multidão desfigurada.

Não tenhamos medo senão da pequenez, “medo de ficar aquém do estalão por onde, desde que o mundo é mundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura”.[5]

Não deixemos que o silêncio dos melhores seja cúmplice do alarido e desvergonha dos piores! Não percamos a alma, nem a hipotequemos a nenhum poder, seja ele religioso ou profano. Não permitamos que nos roubem o direito de sonhar e de viver melhor! Não deixemos que venha o pesadelo a toldar a nossa visão e que da terra se levante uma cruz com este epitáfio: “Aqui jaz a ilusão de uma vida decente”.

Não se esqueçam de que só progredimos, se crescermos por dentro, se nos carregarmos de convicções, de princípios e deveres, se tirarmos o máximo possível das coisas mínimas em que realizamos a profissão e esgotamos a vida; se nos construirmos como uma grandeza balizada por matéria e espírito, pela matéria das nossas realizações conjuntas, pelo espírito dos ideais que nos animam e congregam. O estímulo tem que nos vir da grandeza que queremos alcançar, da obra que queremos edificar, do legado que ansiamos deixar. Porque a criatura é a imagem e a medida da dimensão do criador, sejamos uma incomensurável disponibilidade!

 

NOTAS

[1]Este editorial reproduz a intervenção feita na sessão comemorativa do Dia da Faculdade de Desporto, realizada em 10 de Março de 2010.

[2]Jornal de Negócios, Lisboa, 18.09.2009.

[3]Correio da Manhã, Lisboa, 25 de Julho de 2009.

[4] Vítor Belanciano, Crónica Mista, Jornal Público 2, p. 3, 17.02.2010.

[5] Torga, Miguel (2002): Ensaios e Discursos. Círculo de Leitores, Lisboa.