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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.3 no.5 Lisboa jun. 2012

 

INTENTO

Corpo-joia: reflexões a partir da série Longing for the Body

Jewel-body: thinking on the series 'Longing for the Body'

 

Ana Paula de Campos*

*Brasil, artista joalheira. Doutorado em Artes / UNICAMP. Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura / Universidade Mackenzie. Graduação: bacharelado em Desenho Industrial / Universidade Mackenzie.

Endereço para correspondência

 

 

RESUMO
Este artigo propõe uma reflexão sobre a série "Longing for the Body", da artista brasileira Mirla Fernandes (São Paulo, 1969), cuja poética abre espaço para discutir as relações entre o corpo e joia. A importância do corpo na arte-joalheria é apresentada através das obras escolhidas, problematizando as relações entre o corpo que faz e o corpo que veste. Esses conteúdos permitem pensar a noção de 'Corpo sem Orgãos'(CsO) de Deleuze e Guattari.

Palavras chave: Mirla Fernandes, corpo, arte-joalheria, 'corpo sem órgãos' (CsO)

 

 

ABSTRACT
This article proposes a reflection from the series 'Longing for the Body,'by Brazilian artist Mirla Fernandes (São Paulo, 1969), whose poetic discusses the relations between body and jewel. The importance of the body in art jewelry is presented through the works chosen, questioning the relationship between the body that makes and the body who wear. These contents allow us to think the notion of 'Body without Organs' (BwO) by Deleuze and Guattari.

Keywords: Mirla Fernandes, body, art-jewelry. "Body without Organs" (BwO)

 

 

Introdução

Quando se pensa em joia, a primeira imagem que vem a mente está ligada à joalheria tradicional, de caráter ornamental, com gemas e metais preciosos. Entretanto, paralelamente a essa produção comercial, uma outra abordagem de caráter conceitual vem se desenvolvendo ao longo dos últimos 40 anos: a arte-joalheria. Trata-se de uma produção que abarca manifestações artísticas que se valem do corpo como suporte para as obras e cuja ênfase está na elaboração de um discurso poético sobre o universo da joalheria e/ou do objeto-joia em todos os seus desdobramentos simbólicos e conceituais. Assim a joia não é entendida por sua materialidade preciosa ou função decorativa, mas por sua essência enquanto objeto simbólico dado à visibilidade, como um veículo de expressão do sujeito e de seu tempo. Para além do objeto em si, a joia define-se mais como uma plataforma de manifestação dos desejos individuais e coletivos que, ao ser produzida no campo da arte, almeja destacar-se como um meio de problematização do sujeito contemporâneo e de seu contexto.

É sobre esse território que se desenvolve o trabalho de Mirla Fernandes, que se graduou em Bioquímica (1991) e Artes Plásticas (1998) no Brasil, antes de estudar arte-joalheria na Alemanha (Pforzheim, entre 1999 e 2000). Em 2006 teve sua primeira exposição individual na Galerie Biro (Munique) com a série Longing for the Body, cujo título traz explícita referencia à obra de Ligia Clark na medida em que os trabalhos necessitam claramente de um corpo para completarem seu sentido no mundo.

A proposta desse artigo, que nasce como um desdobramento das pesquisas realizadas durante o desenvolvimento da tese de doutorado Arte-Joalheria: uma cartografia pessoal (Unicamp, 2011), é abordar o papel do corpo na arte-joalheria através das obras da artista e, posteriormente, criar conexões entre esse campo e a concepção de 'Corpo sem Orgãos' proposta por Deleuze e Guattari.

 

1. Corpo-Joia

Num primeiro momento é preciso pensar no papel do corpo quando se trata da arte-joalheria, pois este se configura como um elemento definidor desta prática distinguindo-a da escultura ou de outras formas de arte. Isso porque, ainda que não se restrinja à necessidade de construção e/ou uso de um objeto-joia, essa produção é sempre pensada em função de uma ideia de corpo inerente à própria concepção da joia, e que abarca o corpo daquele que faz, daquele que veste e daquele que vê.

Portanto, a relação com o corpo na joalheria se manifesta como algo a priori e não como uma escolha do artista. O corpo do outro aqui é pré-requisito, é elemento intrínseco ao pensamento poético da disciplina, o que não deve ser confundido com usabilidade e conforto.

A abordagem mais comum da relação corpo-joia consiste em entender o corpo como suporte, uma vitrine ambulante à qual se soma a possibilidade de ir ao encontro do outro. Entretanto, nas primeiras manifestações da arte-joalheria na década de 70, o corpo deixava de ser meio de exposição para se transformar em meio de atuação. Nesse período, a ideia que mais influenciou essa produção na Europa Ocidental era a de que o objeto tinha que funcionar com o corpo (Dormer e Turner, 1985). O interesse e a potencia dessa prática também recaía sobre o caráter portável e portátil da joia, um objeto nômade que conferia a obra uma mobilidade singular, somada à possibilidade de estar no mundo junto do sujeito e sendo vista por seus pares.

Outra característica inerente ao campo da joalheria é que, em sua escala, a joia evoca inevitavelmente a ideia de intimidade. É claro que a joia é um objeto que remete ao público, dado seu inconteste papel simbólico de construir visibilidade social. Entretanto o que ela quer colocar à vista é sempre da ordem do íntimo, daquilo de mais profundo, interior, que pertence ao sujeito em sua forma mais pessoal, próxima ao que se passa dentro de nós. Nessa perspectiva compreende-se que ela tem potência de materializar e de dar a ver algo que é valor para o sujeito.

Ao materializar esse aspecto do íntimo, a joia ganha um forte aliado: o tato, que pressupõe participação, interação. Ele é o sentido do ser por excelência. " O mais profundo é a pele" (Valery apud Machado, 2009: 35). Sua presença sobre o corpo pode adquirir tamanha potência a ponto de o objeto tornar-se uma extensão do sujeito. Sobre o corpo, na pele, a joia se torna emblemático signo da existência.

Por fim, outro aspecto que deve ser considerado na importância do corpo na arte-joalheria remete a toda prática artística e consiste em entendê-lo como veículo para o processo criativo. Nesse sentido, o corpo do artista é ponto de partida e destino da joia revelando sua capacidade de falar com, sobre e para o corpo.

 

2. Corpo que faz / Corpo que veste

A importância do corpo ganha contornos específicos na obra de Mirla Fernandes como, por exemplo, em Eu sou a medida (2000) na qual a artista começa a usar o próprio corpo como molde ao invés dos instrumentos usados pelos ourives. Em Longing for the Body (2005) sua intenção foi explorar, a partir da escolha do látex como material, uma gestualidade semelhante à da pintura. Em termos técnicos tratava-se de um líquido que aceitava bem pigmentos, uma espécie de tinta que se solidificava e podia estar sobre o corpo. Dessa escolha veio o interesse nas relações entre a ampla gama de cores que o material permitia trazer às peças (o que não acontece na ourivesaria tradicional) e as relações inesperadas nas futuras composições com as roupas das pessoas. Para ela isso serviu para extender a compreensão da interação corpo-joia e tomar consciencia do descontrole que haveria sobre a obra. Esses aspectos foram as diretrizes na criação da série e se apresentam tanto em sua forma de produção quanto no resultado final (Fernandes, 2011).

No fazer, o incontrolável e o acaso foram desejados e incoporados à medida que o material escapava e saia pela borda dos moldes (Figura 1), uma prática que se construiu de modo oposto à criação vinculada aos processos e técnicas de metalurgia, nos quais as ações têm de ser mais controladas.

Nessas peças há o gesto expresso nos acidentes que ocorreram ao longo do processo de derramar o látex sobre a superfície plana (vidro) e o gesso (molde aberto feito a partir de modelagem em argila e sulcagem direta sobre o gesso). As minhas peças saem diretamente da ação da minha mão sobre o material.Escolhi trabalhar com um mínimo de ferramentas, enfatizando a ação do corpo sobre os materiais. Assim eu deixo traços dessa ação aparecerem nas peças,cada uma revela um momento de ação muito específico. (Mirla Fernandes, comunicação pessoal).

 

 

Ao longo dessa experimentação os resultados estavam distantes dos tamanhos padrões, das dimensões típicas e das soluções tradicionais da joalheria. Aquelas peças não constituíam uma definição fechada de anel, pulseira ou colar (Figura 2 e Figura 3). Embora fossem aros, eram aros para que parte do corpo?

 

 

 

Enquanto a própria artista questionava esses resultados ela percebeu que o outro é quem deveria responder. Cada peça era uma pergunta dirigida àquele que a vestiria. Ao corpo que veste se apresentavam múltiplas possibilidades e instaurava-se o acaso (Figura 4 e Figura 5).

 

 

As peças dessa série são convites para um descobrimento, abrindo possibilidades de ocupar lugares no corpo que não estão pré-determinados e comportando ainda um uso coletivo de algumas peças (Figura 6 e Figura 7). Seu título é uma homenagem a Ligia Clark.

 

 

 

 

3. Corpo sem Orgãos (CsO)

Ainda que a primeira imagem que venha a mente seja a de um corpo oco, uma casca, desprovido de funcionalidade, o Corpo sem Orgão descrito por Deleuze e Guattari (1996) não consiste na ideia de eliminação dos orgãos. "O CsO não se opõe aos orgãos, mas a essa organização dos orgãos que se chama organismo" (Deleuze e Guattari, 1996:21). Para os autores o organismo não é o corpo e sim um sistema composto por formas, funções, ligações e organizações dominantes e hierarquizadas que se impoem sobre o corpo.

Na matriz da proposição de um CsO está o desejo de que a determinação funcional implicita na organização fisiológica do corpo pode e deve ser desmanchada, de modo que qualquer 'maquina' possa se espandir para além de um programção pre-determinada.

Criar para si um CsO consiste na vital possibilidade de desorganizar, escapar da ordem e abrir o corpo a outras conexões, agenciamentos e limiares incritos numa espécie de protocolo de experiencias. "Porque não caminhar com a cabeça, cantar com o sinus, ver com a pele, respirar com o ventre, Coisa simples […]" (Deleuze e Guattari, 1996:11).

Nesse sentido um CsO se define mais como uma prática do que como um conceito, um conjunto de práticas necessárias para possibilitar uma libertação das estruturas inerentes à ideia de organismo. Esse conceito deve ser entendido para além da concepção de um corpo físico, abrangendo uma noção de corpo menos literal (ex: corpo docente, um governo, a fábrica, a cidade, etc..). Assim sendo, é dos limites da organização, das amarras de qualquer sistema que um corpo deve escapar para permitir "ter sempre um pequeno pedaço de uma nova terra" para habitar (Deleuze e Guatari, 1996: 24).

A concepção dos autores serve aqui para pensar no papel da joia e do corpo transformados pela disciplina da arte-joalheria, o que pode ser exemplificado no trabalho de Mirla Fernandes. Sua série Longing for the body se configura como uma experimentação que desorganiza a materialidade e o modo de fazer a joia, afastando-se de técnicas, práticas e tipologias pré-determinadas. Ao incorporar a gestualidade, o acaso, o descontrole, ela constrói para si um CsO, um campo de imanencia do desejo que resulta em objetos-joia capazes de transformar o sujeito que usa e o que vê em espectadores-ativos, refletindo inclusive a essencia coletiva inerente à propria condição da joia. Nesse sentido as peças potencializam ainda a construção de outros CsO pois transformam usuários e espectadores em espaços de produção coletiva de novas possibilidades de interação corpo-joia, desorganizando as estruturas tradicionais de ocupação do corpo e uso da joia.

 

Conclusão

Em Longing for the body Mirla Fernandes evidencia um interesse nas relações entre sujeito e objeto, relações que se constroem para além do controle ou intencionalidade da artista. Por meio de formas que extrapolam a tipologia da joalheria tradicional suas peças se oferecem como possibilidades, convites para a exploração de lugares no corpo e de relações com outros corpos na forma de uso coletivo.

Seu trabalho permite compreender os propósitos da disciplina da arte-joalheria em sua proposta de questionar os valores e significados das joias, banalizados por seu entendimento vinculado apenas a ideia de decoração e status. Em sua essencia tanto a arte-joalheria como a serie Longing for the body explicitam desejos de desorganização das convençoes sociais, servindo de exemplo prático de construção de um CsO.

 

Referências

Deleuze, Gilles; Guattari, Félix (1996) Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 3 – São Paulo: Editora 34. ISBN: 978-85-7326-017-3         [ Links ]

Dormer, Peter; Turner, Ralph (1985) The New Jewelry: Trends + Traditions. Londres: Thames and Hudson. ISBN: 978-0-500-27434-7         [ Links ]

Fernandes, Mirla (site) [Consult. 2011-12-07] Disponível em http://www.mirlafernandes.com         [ Links ]

Fernandes, Mirla (2011) Corpo Presente. São Paulo: Nova Joia. ISBN: n.c.         [ Links ]

Machado, Roberto (2009) Deleuze, a arte e a filosofia. Rio de Janeiro: Zahar. ISBN: 978-85-378-0165-9         [ Links ]

 

 

Artigo completo submetido em 20 de janeiro e aprovado em 8 de fevereiro de 2012.

 

Endereço para correspondência

Correio eletrónico: dcampos.anapaula@gmail.com (Ana Paula de Campos).

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