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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.5 no.9 Lisboa jun. 2014

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

Berna Reale: a importância do choque e do silêncio na performance

Berna Reale: the importance of shock and silence on performance

 

Susana de Noronha Vasconcelos Teixeira da Rocha*

 

*Portugal, artista plástica. Licenciada em Pintura – Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL); Mestre em Pintura FBAUL).

AFILIAÇÃO: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investigação e Estudos em Belas-Artes. Largo da Academia Nacional de Belas-Artes,1249-058 Lisboa, Portugal.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

O presente artigo dá a conhecer o trabalho da artista contemporânea Berna Reale, incidindo particularmente na sua obra performativa. Destacam-se nesse contexto duas características marcantes nas suas performances: o choque como meio de comunicação, e o silêncio perante a violência.

Palavras chave: Berna Reale / performance / choque / silêncio / arte contemporânea.

 

ABSTRACT

This article presents the work of the contemporary artist Berna Reale, focusing particularly her performative pieces. In that context two striking features are analysed: the shock as a means of communication, and silent in the presence of violence.

Keywords: Berna Reale / performance / shock / silence / contemporary art.

 

Introdução

Com a chegada do novo milénio muitas foram as inovações disseminadas pela Europa, com novas economias emergentes que se têm vindo a afirmar no mundo da arte. O multiculturalismo, realidade mais presente em estudos académicos que no panorama artístico maioritariamente ocidental, se recuarmos poucas décadas, é cada vez mais notório, cruzando contextos artísticos distintos e informando um público especializado, que não mais aceita estereótipos estéticos.

A performance, "[…] meio ideal para transmitir a miríade de ideias que emanava de sítios tão diferentes" (Goldberg, 2012: 288), ganhou nova projecção e, "por ser predominantemente visual, a tradução não constituía um problema; por ser efémera, apresentava-se como instrumento perfeito para fugir ao controlo dos governos em países onde a actividade artística era considerada politicamente subversiva" (Goldberg, 2012: 288). Nasceu assim uma nova cena artística florescente: quer fosse na Rússia, na China, na Índia ou no Brasil, as performances criaram impacto do outro lado do mundo; e continuam a criar.

Em diversas expressões da arte contemporânea, o choque como instrumento de comunicação tem-se revelado uma mais-valia na captação de atenção do público, seja este especializado ou sem ligação particular ao universo artístico. Contudo, na obra performativa de vários artistas actuais, o choque não é usado apenas como sedução do olhar e da atenção. O enquadramento político ou social de muitas das performances que temos vindo a assistir, oferece-lhes a justa validade na acção de chocar, pois revela-se como uma aproximação à realidade ou a criação de uma metáfora legítima. O trabalho da artista contemporânea Berna Reale nasce no seio desta conjuntura.

Ao longo do presente texto será referido o contexto particular da obra de Reale, artista brasileira que reside e trabalha em Belém do Pará (Brasil), cidade que apresenta graves problemas sociais. Serão tidos em consideração dois pólos relevantes ao seu trabalho: o choque, provocado por metáforas apropriadas subjacentes às suas performances; e o silêncio, denotado na recepção do público e, enquanto preocupação expressa da artista em situações de violência.

 

1. Berna Reale

Não podendo ser considerada uma artista jovem, é com surpresa que em 2012, o público brasileiro descobre o trabalho de Berna Reale (1965, Belém – PA, Brasil). Até então sem projecção considerável, é aquando da sua vitória do Prémio Pipa, categoria on-line (e posterior nomeação para finalista em 2013), que a obra da artista acende o interesse da crítica, e desperta a curiosidade do universo artistico brasileiro.

Usando a performance, o vídeo e a fotografia como média, Berna Reale magnetizou atenções com a capacidade de acutilância das suas obras, que de forma consagrada foram exibidas no MAR (Museu de Arte do Rio), em Setembro de 2013. A exposição "Vazio de Nós", reflexão sobre a vulnerabilidade humana, apresentou cinco videos de performances realizadas pela artísta: "Limite Zero", "Palomo", "Ordinário", "Soledade" e "Americano". O centro nevrálgico do trabalho de Reale é, como a própria aponta "a violência calada", cometida sobretudo em frágeis sectores do tecido social.

Tomemos como ponto de partida a performance "Ordinário", onde a artista transporta, num carro de mão, ossadas abandonadas de vítimas de homicidio não identificadas. Trabalhando (também) profissionalmente como perita criminal, Berna Reale acede a um conjunto de ossos de cerca de 40 índividuos, que transporta atravessando o violento e populoso bairro de Jurunas (na área metropolitana de Belém) (Figura 1). Estes restos mortais sem identificação, são frequentemente encontrados por agentes policiais em cemitérios clandestinos, produto da elevada taxa de homicídios no Brasil. A performance é uma denúncia a esta realidade, e um confronto entre os vestígios de homicídios com o local onde habitam possíveis perpretadores de tais crimes.

 

 

Sem que o público que assiste à passagem da artista tenha reações assinaláveis, sendo o silêncio a postura mais comum, em última análise, assistir ao vídeo da perfornance faz-nos pensar que mesmo depois da morte, a última indignidade é o esquecimento.

 

2. Choque e Silêncio

Habituada a criar situações que podem causar tensões com forças policiais (alertadas para o risco do seu trabalho), Berna Reale corporizou em 2009 uma das performances que mais perigo apresentou à sua integridade física. "Quando todos calam", servirá para melhor compreender o impacto do choque e do silêncio na obra da artista (Figura 2).

 

 

Na zona portuária do mercado Ver-o-Peso em Belém (Brasil), uma mulher nua, coberta de visceras, jaz deitada, enquanto abutres atacam a carne espalhada pelo seu corpo. Durante uma tarde, Berna Reale expôs-se deste modo ao olhar silêncioso dos feirantes que observaram a cena ameaçadora, protagonizada pela artista.

Quando inquirida sobre quais as violências que mais a afliguem, Berna não exista em responder:

A violência silenciosa ou a que é observada em silêncio, sem dúvida é a que mais me angustia. Silenciosa no sentido mais amplo possível, silenciosa no que diz respeito à tortura, aquela cometida entre paredes, a silenciosa por parte dos espectadores e silenciosa por meio do poder (Reale apud Fonseca, 2013)

"Quando todos calam", retira a violência do interior de quatro paredes, e de forma metaforizada expõe os vários ataques cometidos em segredo. O silêncio da "vítima/performer" é só comparável aos dos espectadores, que aceitam o seu papel inerte no espectáculo do ataque. Só os necrófagos se agitam.

Desde os anos 90 que a questão da arte enquanto fenómeno onde o público pode adquirir uma postura participativa se tem levantado. Esta participação ou colaboração procura tanto uma aproximação dos públicos, como um envolvimento social dos mesmos, e a performance surgiu como uma das expressões mais potenciadoras desta interacção. Contudo, através das suas performances, Berna Reale parece ser capaz de imobilizar o público. Se aceitarmos a máxima de Theodor Adorno "every work of art is an uncommitted crime", o público das performances de Berna, torna-se participativo pelo testemunho da analogia a um crime, no qual decidiu não intervir: torna-se testemunha silenciosa, e portanto envolvida no crime/performance. Materializa dessa forma a suprema aflição da artista.

Se contemplar abutres debicarem vísceras do corpo de um artista, pode por vezes parecer mais surpreendente do que chocante para um público de sensibilidade mais contida, será difícil atribuir à visão de um corpo carregado como um animal a caminho de uma matança, qualquer outro adjectivo.

Em "Limite Zero", os pés e mãos de Reale são amarrados a uma barra de ferro, como se de um animal morto se tratasse (Figura 3, Figura 4). Retirando-a de um camião refrigerado, indivíduos que se assemelham a enfermeiros ou a talhantes, passeiam-na pela cidade, onde o público pára para observar a sua passagem. As reacções são uma vez mais passivas; nulas. Como se uma razão justa estivesse subjacente ao tratamento extremado de um ser humano.

 

 

 

 

É oportuno compreender que nesta dinâmica de acção (performance) e reacção (silêncio) está envolvido um mediador que contribui para a ausência de tomada de posição do público: o choque. Contudo, é também necessário compreender, que embora o público possa percepcionar que as performances de Berna Reale são um evento programado (acompanhado por câmaras, fotógrafos e eventualmente presença policial), a aceitação da performance tanto a nível visual como emocional, não conduz a nenhuma tentativa de intervenção do público no sentido de a impedir. E o facto é que as performances são realizadas em espaços públicos, sem que a noção de espaço privado possa resguardar a artista de possíveis acções imprevisíveis.

É o choque justificação suficiente para a ausência de tomada de posição? É o espanto paralisante ao ponto calar vozes de defesa ou protesto? Ou é a provocação de choque apenas uma atitude transgressiva por parte da artista que procura dar uma maior materialidade ao acto performativo? É o público silencioso que detém o poder de impedir a violência encenada nas performances, ou a ausência de poder é apenas um prolongamento da realidade quotidiana? Mais importantes que as respostas, parecem ser as questões levantadas pelas performances de Berna Reale, que constantemente sondam o limite da apatia humana.

Ainda a propósito das relações de poder e do silêncio, atendamos por fim à performance "Palomo". Filmada durante o amanhecer, "Palomo" mostra um centro de cidade quase deserto, com os seus estabelecimentos comerciais fechados e com a maioria dos habitantes ainda dentro de casa. Quase remetendo para uma cidade onde foi decretado um recolher obrigatório, apenas uma figura de autoridade se passeia a cavalo pelas ruas. A artista montada num cavalo vermelho enverga roupas negras de aparência semelhante às usadas por corpos de intervenção policial (Figura 5, Figura 6). Exibe ainda um açaime, objecto intimidatório, que ao invés de refrear o animal, amordaça e controla a mordida da figura autoritária representada.

 

 

 

 

De forma poética, Berna Reale crítica o poder institucional abusivo e instalado na sociedade, que de forma opressiva se impõe. Ainda que o açaime impeça que esta figura "ataque" é também sinal da violência que lhe é intrínseca, da mesma forma que a sua montada imponente lhe confere estatuto e força.

Nesta performance a abordagem da artista difere. Ao público (escassamente presente), não é oferecido o papel de testemunha mas antes de potencial vítima, desta figura prestes a investir perante sinal de desordem. Na verdade o público encarna o papel que lhe é destinado no quotidiano: é colocado à mercê de poderes e figuras elevadas, intocáveis e ameaçadoras. No entanto… espanto ou choque, e sobretudo o silêncio para além do trote do animal, mantém-se.

 

Conclusão

A performance, por vezes caracterizada como arte poética e efémera ganha com Berna Real, e polarizada pelo choque e silêncio, um carácter impositivo e inolvidável. Reflectindo sobre a violência silenciada a artista contemporânea brasileira, procura despertar consciências, comunicando com o seu público através do choque ou confronto visual que as suas performances provocam.

Partindo por vezes dos problemas sociais inerentes ao lugar onde vive e actuando tanto como perita criminal como artista visual, Berna Real convida à interpretação de metáforas performativas de carácter universal onde, por vezes, o próprio público parece tomar parte enquanto testemunha silenciosa de actos de violência. Berna subverte o carácter participativo da performance tornando-a num acto onde a intervenção do público é a "não acção".

 

Referências

Fonseca, Raphael (2013) Entrevista com Berna Reale in Das Artes Nº30. Rio de Janeiro: Dasartes. [Consult. 2013-01-15]. Disponível em http://dasartes.com/pt_BR/materias/ed-30-out-2013-berna-reale        [ Links ]

Goldberg, RoseLee (2012) A Arte da Performance: Do futurismo ao presente. Lisboa: Orfeu Negro. ISBN: 978-989-95565-0-8        [ Links ]

Reale, Berna (2009) Quando todos calam. [Consult. 2013-01-14] Reprodução de fotografia de performance. Disponível em http://www.galeriamillan.com.br/pt-BR/ver-obra/serie-quando-todos-calam        [ Links ]

Reale, Berna (2012) Limite Zero. [Consult. 2013-01-14] Reprodução de frame de vídeo de performance. Disponível em http://www.galeriamillan.com.br/pt-BR/ver-obra/limite-zero        [ Links ]

Reale, Berna (2012) Palomo. [Consult. 2013-01-15] Reprodução de frame de vídeo de performance. Disponível em http://www.galeriamillan.com.br/pt-BR/ver-obra/palomo        [ Links ]

Reale, Berna (2013) Ordinário. [Consult. 2013-01-14] Reprodução de frame de vídeo de performance. Disponível em http://www.galeriamillan.com.br/pt-BR/ver-obra/ordinario        [ Links ]

 

Artigo completo submetido a 26 de janeiro e aprovado a 31 de janeiro 2014.

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: susanavrocha@gmail.com (Susana Rocha)

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