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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.5 no.10 Lisboa dez. 2014

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

Ruudt Peters: a materialidade do corpo e a espiritualidade da matéria

Ruudt Peters: the materiality of the body and the spirituality of matter

 

Ana Paula de Campos*

*Brasil, artista joalheira . Bacharel em Desenho Industrial / universidade Mackenzie (UM). Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura (UM). Doutorado em Artes, uNICAMP.

AFILIAÇÃO: Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Cidade Universitária Zeferino Vaz – Barão Geraldo, Campinas – SP, CEP 13083-970, Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

De entre as razões do interesse humano na ornamentação encontra-se o desejo de transcendência, relacionado à temática místico-religiosa. Esse é o foco de Ruudt Peters, cuja produção em arte-joalheria é atravessada pela articulação vida-religião, aportando reflexões sobre o universo simbólico e conceitual desse objeto que permite dar visibilidade e expressão às subjetividades e sentidos atribuídos à existência. Em Peters religiosidade, espiritualidade e filosofia são conteúdos problematizados de modo poético no objeto-joia. Seu trabalho evoca reflexões sobre os fluxos entre a materialidade do corpo e a espiritualidade da matéria na contemporaneidade, abordadas aqui a partir das series tematizadas pela alquimia e a cosmogonia de diversas culturas.

Palavras-chave: arte-joalheria / joia / alquimia / material / materialidade.

 

ABSTRACT

Among the reasons of human interest in ornamentation we can find the desire for transcendence, related to the mystical-religious themes. This is the focus of Ruudt Peters work, whose production in art jewelry is crossed by connections between life and religion. He inviting us to a reflection on the jewelry's symbolic and conceptual universe, an object of visibility that gives expression to the subjectivities and meanings attributed to existence. In Peters religiosity, spirituality and philosophy contents are problematized poetically in the object-jewel. His work evokes reflections on contemporary flows between the materiality of the body and the spirituality of matter, addressed here from the series themed by alchemy and cosmogony of some cultures.

Keywords: art jewelry / jewelry / alchemy / material / materiality.

 

Introdução

A consciência da passagem do tempo revela a questão da finitude humana, evocando nosso desejo por um sentido para a vida. Tentativas de responder à questão – ou ao menos atenuar a aflição que ela evoca – vem sendo ofertadas pela filosofia, religião e arte. Mesmo na contemporaneidade, permeada pela hegemonia do pensamento científico, a produção artística aporta signos e símbolos relativos a essa eterna questão, remetendo inclusive a heranças e tradições arcaicas.

No território da joalheria a joia aparece como objeto mítico, uma forma de mediação entre as dimensões física e a espiritual, garantindo proteção nesta existência ou sinalizando a fé numa dimensão póstuma. Relacioná-la à vaidade e à ostentação consiste numa deformação de sua origem simbólica, vinculada ao conhecimento esotérico. Nas ciências ocultas as joias, sobretudo por sua materialidade "mais amadurecida (no sentido alquímico do termo), principalmente o ouro inalterável" (Chevalier, 2003: 522), simbolizavam o ctónico, aquilo que pertencia às entranhas da terra e, portanto, carrega sua força. Em Jung, esse significado simbólico esta relacionado às riquezas desconhecidas do inconsciente humano.

A joia, como signo de mediação entre mundos, será discutida aqui a partir do trabalho de Ruudt Peters, especialmente das series que ele desenvolveu tendo a alquimia como temática. Entretanto, antes de apresentar e analisar essa produção acredita-se na necessidade de contextualizar a arte-joalheria – campo da produção artística contemporânea no qual o trabalho do artista se insere – e problematizar o papel da materialidade neste universo.

 

1. Arte-Joalheria e Materialidade

Ainda que sob o cunho de arte menor, por séculos revela-se o pertencimento da joalheria ao território da arte. A própria definição do que é arte sofreu grandes transformações ao longo da história. Tomando-se o séc. XX como recorte temporal, nos vemos diante de um verdadeiro estado de ebulição do qual a joalheria não pôde se esquivar. Um resgate dos percursos históricos permite evidenciar momentos chave na transformação da joia para o que hoje se entende por joalheria contemporânea, em seus múltiplos contornos e definições. Volta-se ao final do séc. XIX e início do XX, com grandes mudanças formais emblematizadas na figura de René Lalique, que evidenciou a importância do desenho e da configuração da joia, independente do valor intrínseco dos materiais (Heiniger, 1974). Segue-se o surgimento das jóias de pintores e escultores das vanguardas modernas rumo a uma ruptura iniciada no pós-guerra em países da Europa e EUA, culminando com a aparição de uma joalheria alinhada aos contextos da arte.

Essa última etapa tinha como proposta servir de reação a uma joalheria conservadora e cara e daí as experimentações buscavam assegurar uma relação dinâmica e interdependente entre ornamento e corpo (Dormer e Turner, 1985). Tornou-se recorrente o desprendimento de materiais preciosos, sendo empregados materiais pelo potencial de expressar conceitos e sensibilidades, sobretudo de produzir afetos/afetar. Nas palavras do historiador de arte Manuel Castro Caldas, "só faz sentido se o objeto criado estabelecer uma tensão entre a tradição (que valoriza ou desvaloriza) e o que está fora dela que são os elementos profanos, triviais, correntes, ou insignificantes", enfim as nossas preocupações e vivências. Ao trazer a tona e questionar seus significados simbólicos, a arte-joalheria deslocou a joia de um território articulado apenas em termos de forma-matéria, convocando a uma reflexão mais profunda sobre seu papel no cenário contemporâneo. Busca-se abarcar não só os significados inscritos no campo do valor, mas aqueles que transitam pelas relações do desejo engendradas pela joia.

Mesmo nesse contexto não se pode escapar da questão da materialidade, presente na própria definição da joia: ornamento em material precioso. A secular presença de ouro-pedras na joalheira tornou o material em si um sinônimo da coisa. Porém, historicamente, essa seleção de materiais sempre se vinculou a uma noção de preciosidade decorrente de associações simbólicas direta ou indiretamente construídas: o raro, escasso, singular ou o que representa o divino, a coragem, o eterno, o poder, ou seja, o material enquanto elemento capaz de dar visibilidade a aspectos imateriais significativos.

Nesse sentido a materialidade tem ocupado lugar de destaque nos questionamentos de muitos artistas joalheiros, que passaram a tomar sua importância pelo contexto de cada produção. Discutir materialidade no contexto da arte-joalheria significa abordar os aspectos presentes nos materiais que poderiam ser considerados relevantes do ponto de vista da percepção e significação da obra. Para os materiais tradicionais destacam-se as ideias de valor e preciosidade – especialmente no que concerne a problematização das relações de poder e à uma critica ao materialismo e ao consumo exacerbado pelas práticas neoliberais – e de permanência e transcendência – articuladas em torno do desejo humano de conter a passagem do tempo e de se posicionar diante da fragilidade e efemeridade da vida, questão esta relacionada a produção de Peters.

 

2. O Artista e sua Obra

Ruudt Peters, premiado artista joalheiro holandês, formou-se na Rietvelt Academy sob a influência da geração dos anos 70. Iniciou sua produção com trabalhos em escultura e performance, mas encontrou um caminho singular quando emergiu em sua produção a importância de um background religioso (Bernabei, 2011). Afirmando-se inspirado pelas relações entre religião e vida, destaca-se o papel central dessa temática em sua obra.

Tudo o que faço em joalheria tem mais ou menos a ver com a vida e a morte. A coisa da religião é que posteriormente (a minha formação católica) eu fiz a minha própria religião. Não é que eu não sou um católico; eu acredito em Deus, mas eu pratico da minha própria maneira, não como a Instituição Católica quer. A questão da religião me traz muita potencia-energia, não no sentido de instituição, mas no sentido do poder das coisas místicas – no que poderia estar acontecendo; no que é a vida; o que é o cosmos; o que é o microcosmo e o macrocosmo? Meu interesse foi do Catolicismo para os Romanos e os Gregos e, em seguida, para trás, para o Egito e depois da Ásia, e agora eu estou estudando o budismo. É tudo religião; então eu sigo um caminho do que é a coisa mais importante para mim – a crença – mas tudo isso junto configura algo como uma espécie de religião própria (Bernabei, 2011: 153).

Algumas de suas series estão pautadas por uma conexão direta com conteúdos e contextos religiosos (Figura 1, Figura 2 e Figura 3) e em outras isso aparece de modo indireto como Ouroboros, ou Pneuma, que denotam uma conexão entre interior e exterior. Destacam-se ainda aquelas que têm na Alquimia uma espécie de leitmov para criação, e que serão tomadas como foco.

 

 

 

 

 

 

 

2.1 Alquimia e Ocidente

A Alquimia consiste numa prática milenar que fundia experimentos tecno-cientificos com componentes espirituais. Sua "linguagem de grande riqueza sugestiva, pelo recurso a alegorias, homofonias e jogos de palavras" (Roob,1997: 11), corroborou com a aura de sagrado e mistério que mantém ao longo dos séculos. Seus objetivos mais conhecidos são a Transmutação dos Metais em Ouro e a Fabricação do Elixir da Longa Vida, ambos vinculados à obtenção de uma substância mística denominada Pedra Filosofal.

A ideia de uma maturação dos metais advém das relações do homem arcaico com a experiência de transformação dos estados da matéria nas substancias minerais, compreendidas como de caráter mágico-religioso. "Encontramos muito cedo a ideia de que os minerais 'crescem' no ventre da Terra, como embriões" (Elíade, 1987: 8). Nesse sentido é que se constituíram os mitos, ritos e símbolos de diferentes culturas sobre a metalurgia, passando evidentemente pelas tradições alquímicas ocidentais e orientais que eram praticadas tanto no sentido concreto da transmutação de todos os metais em ouro, quanto no sentido metafórico de uma mudança na consciência, uma espécie de "ouro espiritual."

Na trajetória de Ruudt Peters a temática alquímica emerge em 1997 com a série Lápis (Figura 4), referencia direta à Pedra Filosofal, lapis philosophorum. Nela o artista constrói peças com substancias químicas, metais e pedras trituradas, reconfigurando-os numa espécie de receita como nas descritas em tratados de alquimia. No ano seguinte ele continua o trabalho nessa temática com a série Albedo (Figura 5), que representa a segunda fase da transmutação alquímica, na qual uma matéria escura se transforma em algo puro.

 

 

 

 

O ciclo continua com a serie Iosis (Figura 6), que significa enrubescimento e faz menção à fase final do processo alquímico. Nela o artista explora uma estética crua, carnuda e sangrenta. Em Azoth,(Figura 7) a serie é construída em torno de uma palavra formada pela primeira e última letra do alfabeto grego que evoca muitos significados, tais como o começo e o fim, mas também o nome de um elixir secreto pertencente ao vocabulário alquímico.

 

 

 

 

 

2.2 Alquimia e Oriente

Após 10 anos da investida na Alquimia Ocidental, Peters retorna trazendo elementos extraídos da Alquimia Oriental. Não foi necessariamente um salto, pois é possível observar que suas obras continuaram articuladas pela relação vida-religião, sobretudo quando começou uma pratica de desenho cego, uma forma de desconectar-se do racional e entrar em contato com o inconsciente (Figura 8). Essa experiência ecoou em 2012, quando Peters esteve na China.

 

 

Lá conheceu a Alquimia Chinesa, que também se definia em sua origem pela crença "na transmutação dos metais em ouro e pelo valor 'soteriológico' das operações realizadas para obter esse resultado." (Eliade, 1987: 89). Entretanto, ao aproximar-se do taoísmo dividiu-se em Waidanshu – Alquimia Externa (metalurgia e farmacologia) e Neidanshu – Alquimia Interna (espiritualidade). Esta ultima atingiu sua plenitude no séc. X, junto à escola zen, aproximando-se do Budismo e sendo substituída por ele. Nela os processos alquímicos orientaram-se para o próprio corpo do alquimista, por meio de praticas contemplativas, meditativas, técnicas de respiração e métodos de "fisiologia mística" (Eliade, 1987).

A série Qi (2013) é consequência da investida de Peters sobre esse universo da cultura tradicional chinesa, evidenciando novamente o interesse metafísico de sua criação artística. Baseada em desenhos cegos de seu diário de viagem, Qi está associado à energia primordial que dá origem a matéria. A série é subdividida em grupos de produtos com técnicas e aparência distintas (Figura 9 e Figura 10), cujas etapas do processo de produção foram realizadas em oficinas na China e Amsterdã. Observa-se a intenção de tornar a obra uma experiência coletiva, alinhando-a ao pensamento taoísta que ele buscou incorporar em seu processo artístico (Klimt02, 2014).

 

 

 

 

 

Conclusão

A obra de Peters nos revela o aspecto místico da joalheria para além da produção de objetos de culto e signos de uma religião, encontrando-se arraigado na origem do nosso desejo de mediação entre a dimensão física e espiritual.

Sem temer associar a joalheria ao místico e ao religioso seu trabalho carrega muito das inquietações do que se pode chamar de crise do homem contemporâneo com a fé. Imbuído do desejo de acessar o espiritual a partir de sua paixão pela materialidade, ele faz uma alquimia pessoal ao criar procedimentos, desconstruindo, destruindo e descobrindo materiais enquanto busca acessar sua preciosidade interior. Assim reconstrói o mundo do mesmo modo como faz sua própria religião.

Quando afirma "a joalheria é meu laboratório" (Besten, 2007) Peters dá pistas da conexão que busca estabelecer entre materialidade, invenção e vida, alcançada em transformações externas e internas. Sua vontade de mudança, expressa na experimentação e descoberta de novos métodos e técnicas, configura uma busca por novas subjetividades e possibilidades de ser.

Ruudt Peters traz para si a tarefa do demiurgo (no sentido gnóstico), ou seja, considera como os alquimistas, que cabe ao homem a missão de organizar ou reorganizar o caos do qual somos feitos.

 

Referências

Art Jewelry Forum Online. [Acesso 25-08-2014] Disponível em http://www.artjewelryforum.org/ajf-blog/ruudt-peters-qi        [ Links ]

Besten, Liesbeth den (2007) "Jewellery is my laboratory." Metalsmith Magazine [sn] Numero 27 …July.         [ Links ]

Bernabei, Roberta (2011) Contemporary Jewellers: Interviews with Europena Artists. Inglaterra: Berg Publishing.         [ Links ]

Chevalier, Jean e Gheerbrant, Alain (2003) Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: Jose Olympio Editora.         [ Links ]

Dormer, Peter &Turner, Ralph (1985) The New Jewelry: Trends + Traditions. Londres: Thames and Hudson.         [ Links ]

Eliade, Mircea (1987) Ferreiros e Alquimistas. Lisboa: Relógio d'Água.         [ Links ]

Galerie Chobot. [Acesso 03.09.2014] Disponível em http://www.galerie-chobot.at/templ/chobot/werk.php?id=6133        [ Links ]

Heiniger, Jeanne e Ernest A. (1974) Le Grand Livre des Bijoux. Paris: Editora Lousaune.         [ Links ]

Jmag Conference 2006 [Acesso 06.09.2014] Disponível em http://www.jmgansw.org.au/jmgaconference-2006/conference/speakers/ruudt-peters.html        [ Links ]

Klimt02 International Art Jewellery Online. [Acesso 19.08.2014] Disponível em http://klimt02.net/forum/index.php?item_id=36607        [ Links ]

Peters, Ruudt. [Acesso 19.08.2014] Disponível em http://www.artjewelryforum.org/ajf-blog/ruudt-petersqi        [ Links ]

Roob, Alexander (1997) Alquimia & Misticismo. Londres: Taschen.         [ Links ]

 

Artigo submetido a 06 de setembro e aprovado a 23 de setembro de 2014

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: dcampos.anapaula@gmail.com

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