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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.8 no.17 Lisboa mar. 2017

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

Corpo e ornamento: as provocações de Lauren Kalman

Body and ornament: the provocations of Lauren Kalman

 

Ana Paula de Campos*

*Brasil, artista joalheira, designer. Bacharel em Desenho Industrial, Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Mestre em Educação, Arte e Historia da Cultura, UPM. Doutora em Artes, Universidade Estadual de Campinas.

AFILIAÇÃO: Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP); Instituto de Artes; PPG – Artes Visuais. Rua Elis Regina, 50. Cidade Universitária "Zeferino Vaz". Barão Geraldo, Campinas – SP. CEP: 13083-854. Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

No séc. XX o corpo se tornou alvo de conhecimento e experimentação em múltiplos campos, dentre eles o da arte. Este texto tem como objetivo apresentar e discutir a obra da artista visual LK, na qual corpo, ornamento e imagem são discutidos a partir desuas relações com saúde e doença, beleza e grotesco, sensorialidade e sexualidade, O objetivo é fazer uma leitura das obras sob o viés de autores relevantes nos estudos do corpo, tais como Foucault, Vigarello e Courbine.

Palavras-chave: corpo/ornamento/imagem.

 

ABSTRACT:

In the twentieth century the body became the target of knowledge and experimentation in multiple fields, including art. This text aims to present and discuss the work of visual artist Lauren Kalman, in which body, ornament and image are discussed from their relationships with health and disease, beauty and grotesque, sensoriality and sexuality. The aim is to make a reading of the works through the point of view of relevant authors in body studies, such as Foucault, Vigarello and Courbine.

Keywords: body / ornament / image.

 

Introdução

Lauren Kalman é uma artista visual que atua sob forte diretriz da arte contemporânea: a transformação do corpo em material artístico. Percorrendo o universo material, simbólico e cultural do ornamento, sua produção questiona o corpo na contemporaneidade e explora o modo quase obsessivo com que lidamos com ele numa cultura saturada pela imagem. Para isso ela cria objetos que utiliza em fotografias, vídeos, performances e instalações. Os resultados provocam um misto de sedução e repulsa, tanto nas formas quanto nos conteúdos.

Com formação em Joalheria e Master em Arte e Tecnologia, desde os primeiros trabalhos Kalman mostra a intenção de utilizar campo da ornamentação para indagar corpo e imagem, fazendo chacoalhar a forma naturalizada/ anestesiada com que lidamos com esses temas. Muito de sua produção é pautada por suas inseguranças e questionamentos sobre o corpo em relação a cultura de consumo, gênero e sexualidade (AJF, 2014). Um convite para refletir sobre os impactos da hipervalorização da imagem, do corpo e da imagem-corpo na configuração dos modos de existência e das subjetividades no contemporâneo.

A articulação corpo-objeto-imagem desdobra-se em aspectos sensoriais, estéticos, de saúde e tecnológicos. Tudo que incide interna ou externamente sobre o corpo pode ser evocado e os contrastes presentes nas obras da artista – material/imaterial, saúde/doença, prazer/tortura, belo/grotesco – configuram instigantes provocações. Serão apresentadas aqui dois pares de séries que explicitam e problematizam a estetização da imagem do corpo bem como suas práticas de controle e dominação. A leitura desses trabalhos será feita na companhia dos escritos de Foucault, Vigarello e Courbine dentre outros.

 

1. Um novo corpo, uma nova imagem do corpo

O séc. XX testemunhou uma crescente escalada do interesse pela temática do corpo, tanto na produção intelectual – medicina, psicanálise, antropologia, sociologia, filosofia, etc. – quanto no território do cotidiano, impactando modos de vida e comportamentos – cuidados com a saúde, sexualidade, aparência, etc. Nas Artes Visuais os impactos dessa exaltação do corpo aparece não só no campo de sua representação – mecanizado pelo futurismo, desfigurado pelo cubismo e realismo, massificado e comercializado pela Pop-Art – mas sobretudo no seu entendimento como sujeito e objeto artístico – performances, body art, etc.

Nesse contexto é inegável o papel das novas tecnologias de produção e difusão de imagens: fotografia, vídeo, meios digitais. Elas impuseram ao olhar uma nova lógica na apresentação e representação do corpo nas ciências e nas artes, bem como sua ampla disseminação e saturação para todos os aspectos da vida cotidiana. Ao final do século sabe-se que "o que vê e o visto estão constantemente em espelho e não há quase nada que aconteça que não tenha logo sua imagem" (Michaud, 2008: 546).

Uma grande mudança decorre da instauração dessa nova 'corporalidade', que se expressa na crescente preocupação com um corpo que deve garantir suas qualidades físicas – por meio de dietas, vitaminas, exercícios, cirurgias – e psíquicas – por meio de terapias, meditação, hobbies. Daí emergem as pautas obrigatórias do sujeito contemporâneo: saúde, aparência, juventude, moral, expressão do eu (Corbin, Courtine e Vigarello, 2008). Estas se articularão à também exigida produção e difusão de imagens desse corpo, que só assim parece estar 'encarnado'. Observa-se a ascensão e hipervalorização das práticas de auto apresentação, uma "autorização da atenção a si mesmo, como comprova – ao mesmo tempo que a gera – a evolução dos meios de comunicação de massa" (Ory, 2008: 168).

No contemporâneo a imagem do corpo se torna central e implica numa dupla relação: ação e exibição. Se conhecer é poder, quanto mais se sabe sobre o corpo, maiores são as demandas de atuação sobre ele. Sob a cartilha neoliberal, ele se transforma em capital humano e consagra-se como emblema da existência. Deve ser construído e apresentado de modo a expressar o valor do indivíduo, deve ser potencializado e render. É, portanto, algo sobre o qual se age (Le Breton, 2003). Paradoxalmente, o que se exibe é um corpo idealizado, tanto na aparência – por meio da boa forma e da escultura digital das imagens – quanto na experiência – por meio de imagens de uma felicidade contínua, vivida em inúmeros selfs que anseiam por likes que lhe dão a dimensão da existência.

As demandas sobre o corpo real são tamanhas que parece ser preciso escapar para a representação, seja para alcançar as metas ou para aliviar o peso da existência real, plena de fracassos e imperfeições. O impacto dessas relações na subjetividade contemporânea pode ser discutido por meio das obras de Lauren Kalman, que questiona o modo como nos relacionamos com o corpo e consumimos suas imagens.

 

2. Doença e ornamento: oscilando entre o belo e o grotesco

A série Blooms, efflorescence, and other dermatological embellishments é composta por objetos e fotografias de corpos femininos 'decorados' em ouro e gemas. Kalman usa seu conhecimento técnico para produzir centenas de pins com o rigor e a materialidade da joalheria, mas o trabalho não se encerra aí (Figura 1 e Figura 2). Partindo de fotografias médicas como referência, esses pins preciosos são fincados no corpo, reconstruindo a aparência de enfermidades manifestas na pele humana: acne, sífilis, herpes, etc. Esses corpos ornamentados são fotografados, tanto inteiros como em closes, e essas imagens apresentadas como resultado (Figura 3 e Figura 4).

 

 

 

 

 

 

 

 

As fotos perturbam ao contrastar a beleza da materialidade preciosa e da imagem fotográfica com a aflição causada pelas 'agulhas' e pela evocação das doenças (mais reconhecíveis pelos títulos). A serie joga com elementos contraditórios nas relações que estabelece para corpo/pele como superfícies de inscrição da subjetividade. Há desvio por todos os lados: no uso do corpo, dos materiais, das técnicas manuais. Estetiza-se a feiura da doença, transformada em ornamento. O valor monetário e o prazer estético da joia associam-se ao repulsivo corpo doente. A medicina oscila entre a cura e a aparência. A dor aparece num misto de desejável e desagradável, remetendo à 'dor da beleza', conhecida de homens e mulheres que se submetem a tratamentos estéticos para alcançar obrigatória boa aparência.

O corpo exposto e desnudo destaca a presença da pele, que se torna expressão máxima da condição corporal, respondendo socialmente ao terreno da saúde, à ideia de cuidar-se e colocando o sujeito sob a mira de um julgamento moral. Explicitam-se relações com diversas doenças: as do cotidiano como a acne (cujas formas mais graves são desconhecidas do público em geral); as socialmente estigmatizadas como a lepra e aquelas associadas a sexualidade como a Aids e as DSTs. Como categoria de juízo impõem-se também superfície do corpo a questão estética, seja enquanto expressão da beleza e da juventude – uma pele lisa, sem manchas ou rugas, pele jovem – ou associada ao campo dos adereços e enfeites – roupas e joias, tatuagens e body piercings (práticas originalmente associadas à marginalidade, rebeldia e contracultura, que passaram ao campo da norma no final do sec. XX) (Ory, 2008:176).

Em Spetacular a artista segue articulando os mesmos elementos, agora por meio das roupas. São vídeos nos quais corpos femininos parcialmente cobertos por estranhos trajes brancos são apresentados sobre uma superfície giratória, permitindo assim sua apreciação em 360º (Figura 5).

 

 

Trata-se de uma 'reprodução/interpretação' de várias anomalias, apêndices e deformidades do corpo feminino e masculino, realizadas a partir de imagens médicas do séc. XIX. O resultado é instigante e o entendimento de sua relação com as doenças é indireto, já que os títulos se referem à parte do corpo atingida, normalmente uma zona genital (Figura 6 e Figura 7).

 

 

 

 

O vestuário como adereço estético, outrora orientado para sustentar, comprimir, aumentar e modelar o corpo por meio de apêndices – como fizeram paniers, anquinhas e corsets – converte-se nas deformidades produzidas pelas doenças. Em contrapartida, a brancura da materialidade têxtil e a exposição do corpo seminu evocam o imaginário erotizado da lingerie. Sexualidade, roupa e enfermidade sobrepõem-se, embaralhando a relação entre os volumes e as anomalias que foram o ponto de partida do trabalho.

Hoje vestuário e moda demandam corpos específicos, estetizados. "Não é mais o corpo que recebe uma pressão, é ele que a exerce" (Vigarelo, 1995:29). Sua configuração não se dá por acessórios, mas sim por um trabalho que evidencia o auto exercício imposto ao sujeito contemporâneo. Suas práticas de coerção sobre a carne evidenciam expressões de biopoder (Foucault, 2016). O mesmo pode ser dito sobre a sexualidade, sobre a qual o sujeito contemporâneo também deve exercer seu controle e domínio.

Questionando corpo e ornamento, Kalman estetiza experiências corporais relativas à doença, dor, deformação e anormalidade por meio de uma mediação imagética, revelando ambivalências.

 

3. Corpo e sensorialidade: jogando com a dor e o prazer

Hard Wear explora a relação corpo-objeto numa referência aos órgãos dos sentidos por meio de fotografias e vídeos de 'estranhas joias' para boca, nariz, olhos e ouvidos (Figura 8 e Figura 9). Uma conexão direta com o mundo físico é evocada, tanto pelo uso do ouro – diretamente associado à riqueza material – quanto, pela exaltação corporal a sensorialidade. As peças foram pensadas para produzir prazer e/ou desconforto em quem as usa (este último diretamente relacionado ao título – 'difícil de vestir/usar')

 

 

 

 

Ao inserir ou retirar material precioso de vários locais do corpo, Kalman provoca no espectador sensações conflitantes. Ao mesmo tempo em que zomba de nossa relação social com orifícios evoca o desejo de ornamentação corporal. Aspectos sexuais somam-se aos sensoriais e o mundo infantil justapõem-se ao adulto. Quando reveste a língua de material dourado recorda sensações relacionadas a uma serie de prazeres que vão da atitude pueril de mostrar a língua, à satisfação da comida e aos desejos sexuais (Figura 10). A imagem contrasta ainda a celebração de uma parte bastante sexualizada do corpo com o desconforto de babar.

 

 

Essa oposição entre prazer e dor aparece em Devices for filling a void, serie composta por objetos peculiares expostos junto a fotografias de corpos interagindo com eles. Fora do uso, eles apresentam contrastes de forma e materialidade. O metal, reluzente e dourado, atrai o olhar, mas tem formas agressivas, mecânicas. A cerâmica branca, limpa, doméstica, em formatos arredondados e excitantes, são um convite ao tato (Figura 11 e Figura 12). Misto de escultura e instrumento de tortura, são dispositivos que indagam: O que são? Para que servem? Como se usa?

 

 

 

 

As respostas estão nas imagens: são para a sua boca, para o espaço de sua mão, para preencher 'vazios corporais'. Se essa interação resulta em prazer ou dor vai depender de cada corpo, de suas dimensões, dos espaços ocupados. Podem fazer babar, inibir falar, fazer abraçar ou apenas se encaixar (Figura 13 e Figura 14). A obra chama à consciência corporal ao destacar os espaços vazios do corpo físico, embora inevitavelmente faça alusão aos vazios psíquicos.

 

 

 

 

Em ambas as series a sensorialidade e a sexualidade se apresentam a partir da experimentação corporal. A legitimação do interesse pelo corpo aportada pelo sec. XXveio acompanhada de uma "erosão progressiva do pudor" (Sohn, 2008). O corpo sexuado passa aser exibido de modo onipresente no espaço social eseudesnudamento científico foi acompanhado pela moda. Primeiro os corpos femininos foram liberados dos espartilhos e as pernas vieram a mostra. Com o lazer balneário, corpos de homens e mulheres passaram a se exibir cada vez mais (Mendes & Haye, 2003). Nos anos 60 os discursos sobre a sexualidade e liberação do desejo vem acompanhados da ideia de ampliação dos sentidos, proclamando o fim dos tabus e demanda por sua revelação total. Sua exibição, passa a ser obrigatória e é acompanhada pela exploração publicitária e midiática de todas as suas facetas.

 

Considerações Finais

Atração e repudio fazem parte do paradoxal efeito que o trabalho de Lauren Kalman provoca, seja por meio da temática que elege e/ou pela maneira como o concebe. Sua obra faz pensar na objetificação do corpo contemporâneo e na naturalização das dinâmicas de poder que atuam sobre ele, impondo-lhe o dever de ser 'digno de exibição'.

Ao questionar os usos do corpo – sua glorificação na forma da saúde e do prazer ou sua condenação na forma do grotesco edadoença – expõe uma cultura saturada de imagens, na qual sua exibição eexploração midiática tornou-se norma.

Ao trabalhar aspectos como sexualidade e sensorialidade ou enfermidade e deformidade Kalman explora a sedução e a curiosidade evocadas pelo desvio, que apresenta mediada pelo suporte imagético, que o estetiza e afasta do corpo real. Explicita-se assim o efeito restaurador proporcionado pela hegemonia da imagem, e sua contribuição na consolidação do corpo contemporâneo como instrumento de performance.

 

Referências

AJF – ART JEWELRY FORUM. (2014) Lauren Kalman: but if the crime is beautiful.... [Consult. 2016-12-11] Disponível em URL: https://artjewelryforum.org/lauren-kalman-but-if-the-crime-is-beautiful-%E2%80%A6-1

Corbin, Alain, Courtine,Jean-Jacques, Vigarello,Georges. (2008).História do corpo: as mutações do olhar: O século XX. Petrópolis: Ed. Vozes.         [ Links ]

Courtine,Jean-Jacques. (2011) Decifrar o corpo, pensar com Foucault. São Paulo: Ed. Vozes.         [ Links ]

Foucault,Michel. (2016) Microfisica do Poder. Rio de Janeiro: Paz e Terra.         [ Links ]

Le Breton,David. (2003) Adeus ao Corpo. Campinas: Papirus.         [ Links ]

Mendes, Valerie, Haye, Amy de la (2003) A moda do século XX. São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

Michaud, Yves. (2008) "Visualizações: o corpo nas artes visuais" in Corbin, Alain, Courtine, Jean-Jacques, Vigarello, Georges. História do corpo: as mutações do olhar: O século XX. Petrópolis: Ed. Vozes,         [ Links ]

Ory, Pascal. (2008) O corpo ordinario in CORBIN, Alain, COURTINE, Jean-Jacques, VIGARELLO, Georges. História do corpo: as mutações do olhar: O século XX. Petrópolis: Ed. Vozes,         [ Links ]

Sohn, Anne-Marie. (2008) O corpo sexuado in Corbin,Alain, Courtine,Jean-Jacques, Vigarello, Georges. História do corpo: as mutações do olhar: O século XX. Petrópolis: Ed. Vozes.         [ Links ]

Vigarello, Georges (1995) Panóplias Corretoras: balizas para uma história in SANT'ANNA,Denise Bernuzzi de. Políticas do Corpo. São Paulo: Estação Liberdade.         [ Links ]

 

Artigo completo submetido a 25 de janeiro de 2017 e aprovado a 5 de fevereiro 2017

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: dcampos.anapaula@gmail.com (Ana Paula de Campos)

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