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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.8 no.18 Lisboa jun. 2017

 

Artigos originais

Original articles

Klaus Mitteldorf: Memórias do Presente

Klaus Mitteldorf: Memories of the Present

 

Sandra Maria Lúcia Pereira Gonçalves*

*Brasil, artista visual. Graduação em Comunicação Visual pela Escola de Belas-Artes (EBA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestrado em Comunicação e Cultura na Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Doutorado em Comunicação e Cultura na Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

AFILIAÇÃO: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, Departamento de Comunicação. Av. Paulo Gama, 110 – Bairro Farroupilha – Porto Alegre – Rio Grande do Sul. CEP: 90040-060 Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

Resumo:

O artigo propõe como foco de reflexão o trabalho do fotógrafo, artista e cineasta brasileiro Klaus Mitteldorf (São Paulo, Brasil, 1953) denominado Introvisão (Mitteldorf, 2006), narrativa visual em forma de fotolivro que reúne a série de mesmo nome. Compõem o fotolivro 59 imagens coloridas e em preto e branco produzidas entre os anos de 1992 e 2006. A série trata de questões relacionadas ao ver e seus correlatos. Os conceitos de Fotografia Expandida (Fernandes, 2002; 2006), Fotografia Expressão (Rouillé, 2009) e Imagem Cristal desenvolvido por Deleuze (2007) e apropriado para a fotografia por Fatorelli (2003) serão desenvolvidos para a compreensão da produção do artista e da série apresentada.

Palavras-chave: Klaus Mitteldorf / Introvisão / Imagem Cristal.

 

Abstract:

The abstract presents a concise summary of the topic, the context, the objective, the approach (methodology), results, and conclusions, not exceeding 6 lines: so the goal of this article is to assist the creators and authors of submissions in the context of scholarly communication. It presents a systematic sequence of suggestions of textual composition. As a result this article exemplifies itself in a self-explanatory way. We conclude by reflecting on the advantages of communication between artists on dissemination platforms.

Keywords: Klaus Mitteldorf / Introvisão / Crystal Image.

 

Introdução

Este artigo propõe como foco de reflexão o trabalho do fotógrafo, artista e cineasta brasileiro Klaus Mitteldorf (São Paulo, Brasil, 1953) denominado Introvisão (Mitteldorf, 2006), narrativa visual em forma de fotolivro que reúne a série de mesmo nome. Compõem o fotolivro 59 imagens coloridas e em preto e branco, de base analógica, produzidas entre os anos de 1992 e 2006. De acordo com o autor, Introvisão é uma reflexão sobre as possibilidades da linguagem fotográfica (Mitteldorf, 2007) e o ato do ver. Nesse sentido, ele radicaliza seu distanciamento da transparência documental afastando-se, formalmente, de uma fotografia com caráter mais figurativo, característica de suas primeiras séries, para buscar uma fotografia mais autoral, abstrata, livre da subserviência à referência.

Na série proposta, a matéria fotográfica transforma-se em elemento fundamental na expressão visual de questões de cunho fortemente existencial do artista. Liberto da figuração, no exercício do ver proposto, através de formas imagéticas fugidias, quase líquidas que lembram, por vezes, aquarelas, como se pode observar na imagem a seguir (Figura 1), o artista convida o espectador interessado a refletir sobre questões pertinentes à contemporaneidade, que afetam as relações do ser, tais como a velocidade, o efêmero, a impermanência, o esquecimento e a quase impossibilidade de se viver o presente que rapidamente se faz memória, uma lembrança imprecisa. Em suas imagens, o invisível aos olhos busca fazer-se presença na matéria plástica de cores e formas espectrais. Suplementares, apresentam-se como um desafio à percepção e ao pensamento; ruidosas e estriadas almejam futuros. Ressalta-se que, figurativamente, o trabalho de Mitteldorf é marcado pela presença da água, do corpo feminino, pelo uso intenso da cor e pelo movimento. Tais características dão-se a ver na série apresentada.

 

 

Realizada no âmbito familiar do artista (Mitteldorf, 2007), Introvisão possui como fio condutor reflexões acerca do ver (ou do nunca ver – sempre há filtros a embaçar o olhar). Através dos mais diferentes prismas, deformadores da figuração, o espectador/leitor da imagem é transportado para um universo de luzes e sombras, linhas, cores, formas desfocadas a se gestarem em imagens que escapam do tempo presente, transformado em passagem. O exercício do ver oferecido por Mitteldorf propõe ao observador interessado, um mergulho intensivo no ser. Suas imagens cristalinas, suplementares, possibilitam achados, metamorfoses, viagem.

Para reflexão da série proposta, Introvisão, o conceito de Fotografia Expandida, aquela que ousa "ampliar os limites da fotografia enquanto linguagem, sem se deter na sua especificidade" (Fernandes, 2002: 17), será utilizado. O conceito de Fotografia Expressão será abordado a partir de André Rouillé (2009).

Soma-se aos conceitos anteriormente citados, o conceito de Imagem Cristal desenvolvido por Deleuze (2007) e apropriado para a fotografia por Fatorelli (2003). Esse último conceito qualifica imagens com potência transformadora, transgressora e suplementar, imagens detonadoras de devir (Deleuze, 2007), características que, acredita-se estarem presentes no trabalho do artista. Todos esses conceitos darão suporte às inferências que serão aqui realizadas acerca da série trabalhada. Indica-se que informações mais gerais sobre o percurso de Mitteldorf, foram retiradas de seu site oficial: http://klausmitteldorf.com/

 

1. Conceitos fundamentais

Começa-se então, pelo conceito de Fotografia Expressão. Em seguida se abordará o de Fotografia Expandida para logo depois se abordar o conceito de imagem Cristal.

 

1.1 A Fotografia Expressão

Pode-se dizer que a Fotografia Expressão, como um movimento coletivo, se estabeleceu a partir da segunda metade do século XX, quando, tendencialmente, as características que marcaram a Fotografia Documento (objetividade, imparcialidade e neutralidade – a verdade incontestável dos fatos; imagem máquina) foram postas em dúvida. Passou-se a entender que a imagem fotográfica não possuía de maneira exclusiva a capacidade de estabelecer um caráter de verdade sobre aquilo que retratava e que suas supostas características de imagem máquina, como objetividade, neutralidade, imparcialidade e seus efeitos de verdade não passavam de utopias da Era Moderna. Com o advento das novas tecnologias de produção de imagens, as imagens fotográficas foram suplantadas em número, clareza de informações e velocidade de veiculação tanto no campo científico quanto no comunicacional. Tudo isso levou os fotógrafos, mais bem formados e reflexivos, a duvidarem da natureza da fotografia como documento imparcial do mundo e a se enxergarem como autores e criadores.

A partir daí oportuniza-se, segundo Rouillé (2009) o surgimento e o reconhecimento de uma Fotografia Expressão, que não se encerra apenas no aspecto material e documental da coisa retratada. É uma fotografia que se abre a sensações e significados que vão além da referência dada e privilegiam e incluem as subjetividades do fotógrafo e do observador interessado. Descerra-se um novo campo dentro da fotografia, o da expressão, que irá envolver tanto o fotógrafo, que faz da fotografia seu ofício e não está preocupado em fazer arte; o fotógrafo artista, que é fotógrafo antes de ser artista: a fotografia é para ele ofício e lugar de sua expressão artística; e o artista fotógrafo, para quem a fotografia é a matéria expressiva para a sua arte: é artista antes de ser fotógrafo. A Fotografia Expressão privilegia o elogio da forma, a presença do autor e o dialogismo que é a sua condição de realização.

Entende-se Klaus Mitteldorf como um fotógrafo artista, visto a fotografia ser seu ofício e lugar de sua arte. Todavia, acredita-se que na série aqui tratada a fotografia transforma-se em pura matéria para a arte. Isso faz com que Mitteldorf adentre a outro território, o do universo da arte. Nesse território a fotografia de Mitteldorf se expande e é disso que vamos tratar em seguida.

 

1.2 A Fotografia Expandida

Pode-se pensar a fotografia produzida por Mitteldorf na série aqui apresentada, como Fotografia Expandida (Fernandes, 2002; 2006), uma fotografia que busca se desgarrar de modelos e de modos de fazer estabelecidos. Nessa fotografia o artista subverte a câmera e os seus modos de captação de imagem, busca a mestiçagem de meios e materiais que se articulam para a realização de seus objetivos – o processo criativo do artista dita as normas de fazer desse exercício empírico. Nesse lugar a fotografia torna-se matéria expressiva, um lugar de questionamentos e experimentações do artista. Existe nela um inconformismo com aquilo que a câmera produz diretamente, há nela um desejo de experimentações que burlem o aparelho e os seus modos de produzir imagens. Seja a fotografia analógica ou digital, demande o uso do laboratório químico ou do programa Adobe Photoshop, tudo isso é matéria plasmável para a expressão do artista. No que diz respeito ao observador da imagem, a Fotografia Expandida solicita a ele ser cúmplice do artista, de seu percurso criativo, o que irá possibilitar a esse observador a abertura para novos modos de perceber o mundo e a si mesmo.

De acordo com Fernandes (2006), para criar a Fotografia Expandida o usuário/artista deverá conhecer profundamente o aparelho que opera, bem como os processamentos posteriores que dele derivam, sejam químicos ou digitais para "[...] poder atravessar os limites do aparelho e intervir nas suas funções [...]" (Fernandes, 2006: 14). Portanto, ressalta-se junto com Fernandes (2006) e Müller-Pohle (1985), esse último fotógrafo, crítico e editor da revista European Photography, que as possibilidades de intervenções em todo o processo fotográfico para a expressão do artista são imensas: têm início na produção da imagem – perpassam desde o objeto, o modo de utilização do aparelho chegando às manipulações na superfície de captação da imagem (analógica ou/e digital) – e continuam na circulação e no uso social dado à fotografia.

Em Introvisão, Klaus Mitteldorf, apesar de submetido à lógica do aparelho fotográfico, altera o código imposto através do uso criativo dos controles de ex-posição. O desfoque, a velocidade baixa de captação, a granulação obtida através do processamento da imagem, tudo isso soma para a expressão plástica e atordoante das imagens. De acordo com Mitteldorf, em entrevista por e-mail dada a quem escreve este texto, o processo criativo de Introvisão envolveu a captação das imagens por meio analógico, quase todo com o filme positivo Kodak EPP, ISO 64 (a maioria dos filmes possuía o formato 135 mm, incluindo-se alguns no formato 6x7 cm). Os filmes foram revelados no processo C-41 para filmes negativos. Desse modo, o fotograma do EPP, que era positivo virou negativo. O resultado dessa transformação, segundo Mitteldorf, é um aumento grande do contraste e das cores nas ampliações, ou seja, dos originais que são feitos a partir desses negativos. Além disso, no trabalho proposto, Mitteldorf lança mão de diferentes prismas (lentes, água, lupas, óculos) para interferir na realidade captada pela objetiva fotográfica, como se pode observar na imagem s seguir (Figura 2). Percebe-se nessa fala a presença de processos cruzados na produção das imagens para a obtenção dos efeitos plásticos almejados.

 

 

A ação do artista, seja ela na manipulação do aparelho fotográfico, no uso dos prismas ou nos processos químicos posteriores que alteram os parâmetros da fotografia clássica, incomoda e provoca um estranhamento, um desarranjo perceptivo no observador interessado que se vê intimado a participar da construção de sentido da cena imagética proposta. Tais observações indicam o conceito a seguir: o de Imagem Cristal.

 

1.3 A Imagem Cristal

Aquilo que o artista almeja, mesmo sem o saber, por meio de sua expressão e expansão dentro do território da fotografia bem como no território da arte é a criação de uma Imagem Cristal (Deleuze, 2007; Fatorelli, 2003). Tal conceito é desenvolvido por Fatorelli (2003), pesquisador e fotógrafo brasileiro a partir de leitura do conceito de Imagem Cristal proposto por Deleuze (2007) para o cinema. Em seu livro, Fatorelli (2003) parte da relação que as imagens estabelecem com o tempo e com o espaço e as divide em Imagens Orgânicas e Imagens Cristal. As Imagens Orgânicas são aquelas nas quais as características referênciais das imagens são valorizadas e nelas se esgotam. Para o autor, ao contrário, a Imagem Cristal é aquela onde a submissão à referência não é o que importa, pois essa imagem é possuidora de realidades que não se confundem com ela. São imagens presentes principalmente no universo da Arte. Para Fatorelli,

 

[...] autõnomas, abstraídas do vínculo remissivo de origem, essas imagens situam-se num presente sempre renovado que desperta um passado e prenuncia um futuro igualmente abertos [...] (Fatorelli, 2003: 33).

 

Tais imagens provocam a suspensão do aqui e agora, possibilitam nexos com um imaterial, "[...] uma potência de pensamento [...] quando o que importa não é mais reconhecer, mas conhecer" (Fatorelli, 2003: 33).

A potência dessas imagens está em ampliar o universo do visível, em sua possibilidade de mobilizar múltiplas temporalidades que se realizam nas múltiplas visadas de seus leitores. São imagens suplementares, o dialogismo é a sua condição de realização. Com esse conceito torna-se possível perceber que o grau de aderência das imagens à referência é variável, havendo cargas diferentes de subjetividade ou objetividade de acordo com as relações estabelecidas dessas imagens com o tempo e com o espaço. Torna-se claro que os conceitos de Fotografia Expressão, Fotografia Expandida e Imagem Cristal são caracterizadores e propiciadores de certa opacidade e ruídos necessários às imagens fotográficas em sua migração para novos territórios, entre eles o da Arte.

 

2. Klaus Mitteldorf: um fotógrafo expressivo, um artista

Mitteldorf iniciou seu trajeto expressivo e investigativo dentro da fotografia na década de 1980. Nesse período inicial a fotografia é seu ofício (faz fotojornalismo, fotografia de moda e publicidade) e lugar de sua expressão artística – já em 1989 lançou seu primeiro fotolivro de caráter autoral, Norami. A esse primeiro fotolivro se seguiram muitos outros bem como inúmeras exposições, realizadas tanto no Brasil quanto no exterior.

Fotógrafo expressivo com mais de quarenta anos de carreira, formado em arquitetura e urbanismo (1978), profissão que não chegou a exercer, começou no fotojornalismo em 1975 com fotografias de Surf realizadas no litoral brasileiro. É desse período também seu primeiro envolvimento com o cinema. Logo depois passou a se dedicar a editorais de moda e fotografia publicitária, área na qual alcançou reconhecido mundial. Nas imagens criadas para os editoriais de moda e para a publicidade, como se pode observar na imagem a seguir (Figura 3), já era possível observar o artista invulgar, explorador, aberto ao experimentalismo e ao novo, características presentes naqueles marcados pelas ideias surrealistas e construtivistas, herança provável de sua passagem pela Faculdade de Arquitetura. Nesse período o uso intenso da cor e dos grafismos é recorrente.

 

 

Em 2009, desiludido com a falta de criatividade do mercado publicitário e da fotografia de moda, voltou-se intensamente para a esfera da arte e passou a se dedicar de modo quase exclusivo à fotografia expressiva (a arte dos fotógrafos, no dizer de André Rouillé (2009)), fazendo dela matéria privilegiada para sua arte. O cinema também permanece em seu campo de experimentações.

 

2.1 A série Introvisão

Como anunciado no início deste artigo, a narrativa visual produzida na série Introvisão é composta por 59 imagens em cor e preto e branco, contidas em um fotolivro de mesmo nome, de formato quadrado. De base analógica, as imagens foram produzidas entre os anos de 1992 e 2006. Nessa série é possível percebe o caráter investigativo que sempre acompanhou os trabalhos de Mitteldorf, seja na fotografia aplicada ao universo da comunicação, seja no seu exercício de uma fotografia com caráter autoral e artístico. Em Introvisão esse caráter investigativo e experimental, ganha o primeiro plano. Através dos mais diferentes prismas que "deformam" o percurso da luz, matéria básica do meio fotográfico, e desfocados, Mitteldorf cria imagens e narrativas oníricas, límbicas e possibilita ao observador interessado uma epifania, um encontro com uma Imagem Cristal.

Assim, por exemplo, nas imagens vistas a seguir (Figura 4), um tríptico, é possível vislumbrar o exercício criativo de Mitteldorf e, ao mesmo tempo, perceber a experiência perceptiva oferecida. Três imagens, desfocadas e de coloração vibrante, de uma mesma personagem feminina se sucedem: Fuga 1, 2, 3 nomeia as imagens que mostram uma mulher em aparente fuga e que parece desvanecer. Interessante que tal imagem possibilite ao expectador dois tipos de leitura: além da convencional é possível lê-la de baixo para cima, rompendo, desse modo, com a leitura de praxe. Esse fato aponta para a influência do meio cinematográfico no trabalho do artista – pode-se perceber na sequência quase um loop, técnica utilizada hoje para provocar um movimento infinito de uma mesma sequência de imagens (ou imagem). Perceptivamente, é oferecido ao observador um mergulho nesse loop, no atemporal da fuga que se repete convulsivamente, num movimento repetitivo e obsessivo onde passado e presente se chocam permanentemente, tornando o presente uma quimera, sempre recoberto pelo manto da memória (Bergson, 2010). O contraste tonal, a forma feminina em desaparecimento propicia a ruptura perceptiva necessária para a eclosão de sentidos outros e a afirmação do caráter suplementar da imagem. Marque-se que no livro esse tríptico se faz anteceder pela imagem sangrada e em página dupla da imagem do meio.

 

 

Nesta outra imagem (Figura 5), perturbadora, outra mulher que não mostra o rosto, se afasta do observador. Como as outras imagens do livro, caracteriza-se pelo desfocado e, como a mulher do tríptico anterior (Figura 4), a agora apresentada parece também desvanecer – é como se o presente, para o captador e para o observador, se tornasse uma memória de luz, um presente que não se permite existir, porque o presente apenas passa e velozmente. Melhor explicando: os desfoques acentuam a passagem veloz do instante, e a visão do presente como uma espécie de memória, quase sempre desfocada, como se essa fosse a única forma de o presente existir (a memória, a principio, é matéria plasmável, posta em foco de acordo com o desejo de seu sonhador). As questões suscitadas pelas imagens apresentadas (Figura 4 e Figura 5) permeiam o fotolivro Introvisão e oportunizam uma experiência estética e perceptiva a um só tempo atordoante e instigante.

 

 

Como cristais faiscantes, as imagens apresentadas em Introvisão, ofertam possibilidades infinitas de atualizações, momentos de epifanias ao observador. Passageiro de um tempo que submerge tudo na instantaneidade mediática tornando o mundo um déjà vu.

 

Conclusão

Na leitura e inflexão que este texto se permite é possível perceber a problemática proposta pelo autor: aquela relacionada com o ver. O ver como um nunca ver, certo tensionamento com a urgência e velocidade do mundo contemporâneo, certa insatisfação com o agora. As imagens apresentadas por Mitteldorf parecem possuir como proposta a urgência do presente em se fazer memória, visto que o presente apenas passa, e velozmente. O desfocado utilizado pelo artista sugere apontar para um passado/presente que permanentemente se chocam. Advém daí um impacto perceptivo que retira o observador da imagem de sua zona de conforto. É um Impacto profícuo que oportuniza o aparecimento da Imagem Cristal, imagem essa desestabilizadora de leituras automáticas, propiciadora que é de metamorfoses e devires. Essas imagens expressam outras esferas da realidade, reveladoras que são da não coincidência entre o ato de ver e o olhar, proporcionando por vezes a experiência da eternidade.

 

Referências

Bergson, Henri (2010). Matéria e Memória. São Paulo: Martins Fontes. ISBN: 8578272528        [ Links ]

Deleuze, Gilles (2007). A Imagem tempo. São Paulo, SP: Brasiliense. ISBN: 85-11-22028-3        [ Links ]

Fatorelli, Antônio (2003). Fotografia e Viagem. Entre a Natureza e o Artificio. Rio de Janeiro: Relume Dumará: FAPERJ. ISBN: 85-7316-323-2        [ Links ]

Mitteldorf, Klaus (s/data). Site oficial. [Consult. 2016-12-03] Disponível em URL: http://klausmitteldorf.com/        [ Links ]

Mitteldorf, Klaus (2006). Introvisão. São Paulo: Edição do autor.         [ Links ]

Mitteldorf, Klaus. (2007). "A terapia de Klaus Mitteldorf." Jornal da PUC-Campinas [Consult. 2016-12-06]. Disponível em URL: URL: www.puc-campinas.edu.br/handlers/arquivos/?arquivo=419        [ Links ]

Müller-Pohle, Andreas.(1985) Information Strategies. European Photography 21, Photography: Today/Tomorrow, v. 6, n. 1, Jan./Fev./Mar. 1985. [Consult. 2016-12-2] Disponível em URL: http://www.muellerpohle.net/        [ Links ]

Persichetti, Simonetta; Trigo, Thales (org.) (2005). Klaus Mitteldorf. Coleção SENAC de Fotografia. São Paulo: Editora SENAC. ISBN: 85-7359-466-7        [ Links ]

Rouillé, André (2009). A Fotografia. Entre o documento e a arte contemporânea. São Paulo: SENAC. ISBN: 978-7359-876-6        [ Links ]

 

Artigo completo submetido a 23 de janeiro de 2017 e aprovado a 5 de fevereiro 2017

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: sandrapgon@terra.com.br (Sandra Maria Lúcia Pereira Gonçalves)

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