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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.9 no.21 Lisboa mar. 2018

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

Antonio García López: Colagem e Politica como processo de Pintura

Antonio García López: Collage and Politics as a Painting Process

 

Ilídio Salteiro*

*Portugal, Pintor.

AFILIAÇÃO: Universidade de Lisboa; Faculdade de Belas-Artes; Centro de Investigação e Estudos em Belas Artes. Largo da Academia Nacional de Belas Artes 14, 1200-005 Lisboa, Portugal.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

Antonio García López (1970) estudou Pintura na Faculdade de bela Artes de Universidade de Valencia e atualmente é pintor, investigador e professor de Pintura na Universidade de Múrcia, sustenta o seu projeto artístico recente na colagem. Com forte ironia, sarcasmo, humor como estratégia conceptual, tem realizado um número bastante alargado de obras nas quais a visualidade, a delimitação de espaços e a colagem são os elementos conceptuais que definem a composição.

Palavras chave: Colagem / pintura / arte e politica.

 

ABSTRACT:

Antonio García López (1970) studied painting at the Faculty of Fine Arts of the University of Valencia and is currently a painter, researcher and professor of painting at the University of Murcia, sustaining his recent artistic project in collage. With strong irony, sarcasm, humor as aconceptual strategy, he has performed a large number of works in which visuality, space delimitation and collage are the conceptual elements that define composition.

Keywords: Collage / painting / art and politics.

 

Introdução

Antonio García López, pintor e investigador nascido e formado na Universidade Politécnica de Valencia, é professor de pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Múrcia. Artista com uma atividade regular, mas naturalmente afastada dos circuitos do mercado de arte atual, é um profundo conhecedor da arte contemporânea, ao mesmo tempo que se deixa envolver pela atmosfera artística valenciana, povoada de grandes artistas históricos como José de Ribera (1591-1652), Joaquim Sorolla Batisda (1863-1923) e sobretudo Josep Renau Berenguer (1907-1982). Neste universo, onde uma cultura pictórica está bem representada, desenvolve o seu trabalho artístico, tocado pelas influências dos enquadramentos do cinema e experimentando a realização de manifestos agitadores de consciências e transformados em pintura.

Enquanto investigador o seu trabalho está acessível em diversas publicações e sites da universidade onde leciona. Publicações orientadas em função de linhas de investigação bem definidas: a pintura numa relação estreita com os novos materiais pictóricos ou as novas matérias, as questões de género e as influências do cinema na Pintura. Sendo estas as três questões que estruturam a sua investigação teórica, são também estas questões que vão estruturando e construindo a sua obra pictórica através de visualidades, espaços e colagens. Quando nos referimos a visualidades, referimo-nos à pintura em si mesma, como um todo. Quando nos referimos a espaço, referimo-nos à delimitação retangular e perfeita, quadrada, muito acentuada particularmente na série de trabalhos intitulados "Personagens da Crise". Quando nos referimos a colagem, referimo-nos ao paradigma da pintura onde a cola é sempre o médium; um médium rotineiramente usado no nosso quotidiano através de constantes cut and paste.

O processo cut and paste composto pela apropriação de identidades pictóricas diferentes resgata-as pela sua reutilização/recriação, criando novos contextos, através de sobreposições, transparências, camadas criando planos, criando perspetivas. A conjugação destes elementos pode gerar uma multiplicidade de soluções, renovando o seu significado e mensagem (Cordeiro, 2014)

A sua pintura é feita com a consciência, do cut and paste, do que se corta, recorta e do que se cola noutro enquadramento, compondo discursos visuais, políticos muitas vezes, extremamente retóricos e discursivos, exorcizando emoções, agitando consciências, sem medos de ser acusada, pejorativamente, de panfletária. Panfletária apenas porque se atreve a questionar-nos, a incomodar-nos, ao invés de se subjugar ás normas e regras da composição bauhausiana ou do plasticismo.

Em 1937 Josep Renau Berenguer (1907), artista e professor de Belas Artes na Universidade de Valencia foi o responsável pela encomenda a Pablo Picasso de uma pintura para o Pavilhão de Espanha na Exposição Internacional de Paris. Esta simples encomenda, dando origem à Guernica, pintura da qual todos sabemos a história, também deu origem ao exilio do seu encomendador, porque questionou, sublinhou e manifestou opinião. Hoje podemos verificar que o questionamento e a opinião em paralelo com o equilíbrio e harmonia também são uma via da arte. E a via de Antonio García López é essa. E é apenas a 'autoridade pessoal' e a 'personalidade' própria dos artistas (Negreiros, 1971) que lhe confere o direito de manifestar opinião.

 

1. Personagens da Crise

A série Personagens da Crise, de 2013, corresponde a um conjunto de trabalhos, claramente incómodos pelas opções que nos obriga a tomar, criando cumplicidades, questionando-nos sobre o nosso posicionamento social e obrigando-nos, num processo de pura reconstrução mental, a identificarmo-nos ou recusarmos o que nos é apresentado. Esta série serve-se de alegorias ao dinheiro, à economia, à geopolítica ou à corrupção, para articular imagens num universo compositivo irónico, maledicente, tanto à maneira das cantigas de escárnio e mal dizer, à maneira trovadoresca, como à maneira de Josep Resnau Berenguer na serie The American Way of Life (Figura 1). Este modo de estruturar e construir a sua obra, possibilita que esta série de trabalhos possa ser enquadrável numa atualizada pintura de género e de costumes.

 

 

O trabalho de Antonio García López, pela dimensão conceptual que carrega dentro de si, tendo em conta todos os plasticismos do seculo XX, ultrapassa-os para cumprir o desígnio maior de assinalar os personagens do seu tempo, utilizando a Pintura como médium. Nesta série, as coisas maiores não serão os abundantes e grandes temas da atualidade sobre arte, estética e filosofia, mas serão sobretudo a análise das realidades envolventes e das rotinas do quotidiano. Realidade em mudança, em crise estrutural, aberta a todas as propostas e soluções e onde o paradigma de vanguarda ditadora de verdades efémeras, já não faz algum sentido porque há espaço para muitos outros paradigmas (Khun, 1975), desta vez enquadrados pela consciência dos valores da sustentabilidade e não da novidade pela novidade ou da "arte pela arte".

É nesta relação entre a questão de género ou de costumes profanos da sociedade atual e a rejeição dos valores meramente compositivos, que se situa a pintura de Antonio García López. A arte e a política estão presentes neste trabalho, quase nos colocando dentro da acção como numa obra literária, dramática ou mesmo cinematográfica. Mas sempre com o ver, a plasticidade e com a ausência de tempo que caracterizam a pintura.

O pensamento estruturante da série intitulada Personagens da Crise teve como objetivo dar visibilidade, de uma maneira pessoal, às vítimas e perpetuadores das mudanças traumática que estamos vivenciando, porque esta situação social, política, económica e instável afeta diretamente a vida e a saúde física e mental das pessoas (López, 2013). Por isto esta série de trabalhos acaba por nos colocar a questão da função da arte e neste caso, da pintura.

 

2. Função

A questão da funcionalidade da arte na pintura de AGL é uma evidência, lúcida e consciente. Tanto a visualidade criada como o texto que a acompanha são duas formas paralelas que constituem um todo. O texto acaba por ser um titulo longo que disponibiliza assuntos, que nos dá pistas, que nos sinaliza momentos, universalizando-os. Como Ícaro (Figura 2), também El Recortado (Figura 3) está acompanhado por um texto:

 

 

 

 

La técnica del recorte, requiere de cierta pericia y grado de madurez, se hace necesaria una gran coordinación. Todo recorte no aplicado con la precisión del bisturí viene asociado a una víctima potencial, si las medidas de ajuste son aplicadas atajo grueso , se corre el riesgo de que la víctimapase definitivamente a cadáver esquelético (López, 2013).

El recortado é uma metáfora onde a palavra e a imagem convivem com a mesma importância, lado a lado, em formatos separados. Um processo de trabalho que releva uma prática artística como intervenção social. Esta também é uma função da pintura como qualquer outra, explicitamente tratada nesta exposição, encomendada apenas pelo livre arbítrio do seu autor, e pela 'autoridade pessoal' do artista (Negreiros, 1971)

A encomenda de arte é um assunto bastante comum no panorama artístico mundial, ao nível das bienais, feiras e mercado de arte em geral, liderado por leiloeiras, galerias, museus e politicas para quem a função da arte é um elemento de prestigio social e de investimento. Universos onde geralmente o artista, investigador e professor não se situa. A encomenda feita pelo artista a si próprio deixa de ser encomenda e passa a ser projeto artístico, com estudo, investigação e exposição. É deste modo que enquadramos o processo de produção artística de Antonio García López

A função da Pintura tão explicitamente tratada por Fernand Léger (Léger, 1965), numa publicação que marcou e refletiu o espirito de uma geração modernista, encontra na "arte pela arte" o modelo enaltecido e sobrevalorizado no Século XX (Witcombe, 1995), cujas funções se poderão resumir a tornar mais belos os diversos quotidianos modernistas. Neste caso a arte olha apenas para si própria, sem cumprir outras funções, subjugando-se a continuados princípios de encomenda, nos quais o trabalho de investigação e prospeção característico da atividade artística se dissipa no cumprimento imediato das tarefas e deveres que a sociedade de consumismo cultural lhe solicita, através dos argumentos sucessivos do anúncio das mortes de todas as artes.

Mas de um modo pertinente, justificando a sua existência, a pintura permanece, apesar dessas mortes e mortes sucessivamente anunciadas, por causa dos novos instrumentos, das novas matérias, dos novos ecrãs e dos novos media que, inevitavelmente, possibilitam ao homem outros modos de a fazer.

Essa capacidade da pintura para continuar a crescer e a absorver essas novas realidades permite-nos estar em condições de desmentir os rumores que durante décadas ouvimos em relação à morte e ao desaparecimento desta singular disciplina artística. Por sorte, tal como o fim do mundo, esse momento ainda não chegou (López, 2012).

 

3. Conclusão

Verificamos uma grande proximidade entre a série Personagens da Crise de Antonio García López e a série American Way of Life de Josep Resnau, dos anos 50. Uma proximidade explícita na forma, através do corte, do recorte e da colagem e explícita no conteúdo, através da ironia, do sarcasmo e do humor. Em ambas a agitação das consciências é o seu ponto de chegada.

O processo artístico que Antonio García López utiliza na sua obra, para além de estar ao serviço da composição e consequentemente dos elementos estruturais da pintura, também se estrutura em função das opções e das ideias acerca do mundo que envolve a pintura, a arte, e cada um de nós como coabitantes desta sociedade. Quando a obra artística tem este discurso, muito localizado no tempo e no espaço social e politico perderá leitura? Ficará refém deste assunto mundano em detrimento do assunto estético? Se assim for, que importa isso? E a quem?

Arte e politica estão hoje mais ligadas do que nunca. Alguns artistas explicitam-na, outros servem-se dela. A arte é um instrumento do poder, que a usa, que a abusa e que a maltrata. Dizemos maltrata pelo cerceamento à investigação, à prospecção, à experimentação e à exposição, como é verificável pelos privilégios dados ao museu como imóvel em desfavor do museu como coleção. A questão da arte e politica, da função da pintura, da colagem como processo conceptual são questões equacionáveis nesta série de trabalhos, resultantes de investigação, de experimentações sucessivas sem constrangimentos alguns. Apenas com os argumentos e os fundamentos do seu próprio pensamento, dos seus conceitos e da sua sensibilidade.

 

Referências

Cordeiro, Maria da Conceição (2017) O Processo Criativo da Pintura num Contexto Cultural Híbrido (tese doutoramento) Lisboa: Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.         [ Links ]

Khun, Thomas (1975), A estrutura das revoluções científicas, São Paulo: Perspectiva,         [ Links ]

Léger, Fernand (1965), Funções da Pintura, Lisboa: Difusão Europeia do Livro.         [ Links ]

López, Antonio García (2012), "El problema es la solución. La eterna muerte y resurrección de la pintura como disciplina artística", en Revista DEFORMA Arte, Diseño + Comunicación, nº3, 2012, pp. 116-125. ISSN 2253-8054, antes Rev. Grafema ISSN 1647-1024.         [ Links ]

López, Antonio García, (2013), Personajes de la Crisis. http://webs.um.es/antoniog consultado em 22 de dezembro de 2017, ISBN-10: 84-695-7447-7, ISBN-13: 978-84-695-7447-8.         [ Links ]

Negreiros, Almada (1971), Ensaios I, Lisboa: Editorial Estampa.         [ Links ]

Witcombe, Christopher (1995), Art for Art's Sake, Art History Resources, consultado em 22 de dezembro de 2017 em http://arthistoryresources.net/modernism/artsake.html        [ Links ]

 

 

Enviado a 7 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: i.salteiro@belasartes.ulisboa.pt (Ilídio Salteiro)

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