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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.10 no.26 Lisboa jun. 2019

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

As paisagens de Thiana Sehn: experiência, distâncias e deslocamentos

The landscapes of Thiana Sehn: experience, distances and displacements

 

Marilice Corona*

*Brasil, artista visual, professor.

AFILIAÇÃO: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV). Rua Senhor dos Passos, 246, CEP 90000-000, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

Este artigo tem como objetivo analisar alguns aspectos da pintura da jovem artista brasileira Thiana Sehn. A artista desenvolveu, nos últimos anos, uma intensa investigação sobre o gênero da paisagem e a experiência da pintura diretamente diante do motivo, no campo. Para tanto, o conceito de experiência empregado pela fenomenologia e os estudos de Javier Maderuelo sobre a noção de paisagem serão fundamentais.

Palavras chave: pintura / paisagem / experiência.

 

ABSTRACT:

This article aims to analyze some aspects of the painting of the young Brazilian artist Thiana Sehn. In recent years, the artist has developed an intense research on the landscape genre and the experience of painting directly in front of the subject in the field. For that, the concept of experience used by phenomenology and the studies of Javier Maderuelo on the notion of landscape will be fundamental.

Keywords: painting / landscape / experience.

 

Este artigo tem como objetivo analisar alguns aspectos da pintura da jovem artista brasileira Thiana Sehn. A artista desenvolveu, nos últimos anos, uma intensa investigação sobre o gênero da paisagem e a experiência da pintura diretamente diante do motivo, no campo. Pretendo apontar aqui certas questões que se apresentam em seu processo de trabalho e que podem nos fazer refletir sobre a importância da prática da pintura nos dias atuais. Além disso, gostaria de salientar, que este artigo é também uma homenagem.

Thiana Sehn nasceu em 1985, na cidade de Camaquã, interior do Rio Grande do Sul. Em 2003 mudou-se para Pelotas, onde realizou o curso Técnico em Programação Visual no CEFET-RS (atual IFSul). Em 2008 transferiu-se para a capital gaúcha, Porto Alegre, e passou a frequentar, durante alguns anos, o Atelier Livre da Prefeitura. Em 2010 ingressou no curso de Bacharelado em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul — UFRGS. De espírito inquieto, frequentava diversas oficinas que iam desde cursos sobre cinema, como desenho, pintura, gravura e outros. Em janeiro de 2014, fez uma pausa na faculdade, mudando-se para a cidade de São Paulo. Lá dedicou-se fundamentalmente à pintura e ao desenho, tendo como espaço de criação o Ateliê em Rede, espaço colaborativo de artistas, situado na Vila Madalena. De janeiro a fevereiro de 2015 participou do curso de imersão Procedência e Propriedade, de Charles Watson, no Rio de Janeiro e, nesse mesmo ano, passou a ter como atelier de criação o mezanino do Atelier Piratininga. Em 2015 a artista começa a frequentar, como ouvinte, as aulas de pintura do professor e pintor Geraldo Dias, na ECA/USP. Nessa ocasião, como forma de exercício de observação, fazem uma saída de campo na cidade de Cananéia, litoral de São Paulo e na Ilha do Cardoso. O objetivo era pintar ao ar livre, diante do modelo, sendo desafiados pela constante transformação da atmosfera. Essas experiências em diversas cidades, conhecendo artistas e ateliês, frequentando aulas com os mais variados profissionais, fez com que Thiana rapidamente desenvolvesse seu trabalho em pintura e direcionasse essa produção para a finalização de seu período de faculdade. Em março de 2016 retornou temporariamente ao Rio Grande do Sul a fim de concluir a graduação em Artes Visuais na UFRGS. Durante esse ano, desenvolveu a pesquisa A pintura na paisagem e a paisagem na pintura, sob minha orientação. É nesse momento que Thiana retorna a cidade natal e empreende um período de imersão na zona rural de Camaquã, pintando diretamente diante do motivo, diante da natureza. Como veremos, essa forte experiência levará a artista a aprofundar certas questões referentes não só à pintura, mas a própria vida e nossa percepção do mundo. Tendo finalizado a graduação, Thiana retornou a São Paulo, em 2017, e passa a frequentar, como aluna especial do mestrado em Artes Visuais da ECA-USP, as disciplinas do professor Geraldo Dias que há muitos anos se dedica à pesquisa sobre a paisagem. Em 2018 a artista ingressa no curso de mestrado sob orientação sua orientação e dá continuidade a seu trabalho. Aluga um sítio em São Bento do Sapucaí, na serra de São Paulo, com o objetivo de, novamente, passar longos períodos pintando diretamente do motivo e desdobrar a pesquisa iniciada no Sul. No entanto, seus projetos acabam não sendo levados adiante. Em novembro de 2018, Thiana subia a serra, de automóvel, com o intuito de fazer uma imersão de um mês pintanto ao plein air, quando teve sua vida interrompida por um trágico acidente.

Essa breve biografia, que abarca 15 anos de contínua formação, também ex-pressa, de meu ponto de vista, o espírito inquieto da artista. Desde nosso primeiro contato percebi a intensidade de envolvimento de Thiana com a arte. Era movida pela paixão e parecia não ter tempo a perder. Não se tratava aqui do mero desejo de uma carreira a ser construída, mas de uma necessidade. E uma necessidade que parecia ter urgência. A relação dela com a pintura de paisagem talvez nos indique, aqui, muito mais do que um mero exercício plástico assentado na tradição. Neste artigo vou me deter no período em que estivemos próximas. No período em que retorna a terra natal para terminar seu TCC e empreende a experiência de imersão.

Em seu texto de conclusão de curso, Thiana nos conta como foi fundamental a experiência realizada quando pintou ao ar livre em viagem a Cananéia-SP:

Foram três dias de pintura, uma experiência incrível. Sol forte, insetos, depois a chuva, intercalados com banhos de mar. Adaptar-se às intempéries é algo magnífico! É estar presente na pintura, ter a possibilidade de decidir se represento o ensolarado ou o nublado, ou se os dois se fundem. Entre um olhar e outro, tudo muda, a paisagem é viva, é sempre um novo início. (Sehn, 2016)

Essa experiência e o desafio de apreensão, da fixação de uma imagem cujo modelo está em contínua transformação, foi o que interessou a artista e tornou a paisagem seu assunto principal. Logo percebeu, também, que outros fatores transformariam esse deslocamento em algo mais rico. Sería possível dizer que a experiência propiciada pela pintura ao ar livre lhe trouxe um forte sentimento de presença e entrelaçamento com o mundo. Do ponto de vista da fenomenologia, a palavra experiência expressa bem o sentido que se quer dar. Conforme Chauí,

composta pelo prefixo ex — para fora, em direção a — e a palavra grega peras — limite, demarcação, fronteira — significa um sair de si rumo ao exterior, viagem e aventura fora de si, inspeção da exterioridade. (Chauí, 2006:477)

Com Chauí nos aproximamos da fenomenologia de Merleau-Ponty, entendendo a experiência não como "passividade receptiva" e "respostas à estímulos sensoriais externos", mas o movimento mesmo, entre o interior e o exterior que definiria o espírito. Conforme a autora, "percebida doravante como nosso modo de ser e existir no mundo, a experiência será aquilo que sempre foi: iniciação aos mistérios do mundo". (2006:477). E não estaria o conceito de paisagem diretamente vinculado a esta noção de experiência? E não seria a pintura de paisagem a própria materialização desse movimento de vai e vem entre interior e exterior?

Sabe-se, historicamente, que o conceito de paisagem e a prática da pintura estão inelutavelmente ligados. Foi um olhar estetizante, dirigido ao mundo, que deu origem ao termo. Conforme Maderuelo,

A paisagem não é um ente objetual nem um conjunto de elementos físicos quantificáveis […] é uma relação subjetiva entre o homem e o meio em que ele vive, relação que se estabelece através da observação […] A paisagem não é uma coisa, não é um objeto grande nem um conjunto de objetos configurados pela natureza ou transformados pela ação humana. A paisagem tampouco é a natureza e nem sequer o meio físico que nos rodeia, ou sobre o qual estamos. A paisagem é um constructo, uma elaboração mental que nós humanos realizamos através dos fenômenos culturais (Maderuelo, 2013:11-38).

De acordo com o autor, para poder aplicar com precisão esse termo, "é necessário que exista um olho que contemple o conjunto e que gere um sentimento que o interprete emocionalmente" (Maderuelo, 2013:38). E como construto cultural "a paisagem não é um mero lugar físico, mas o conjunto de uma série de ideias, sensações e sentimentos que elaboramos a partir do lugar e seus elementos constituintes". Conforme Maderuelo, "a palavra paisagem reclama uma interpretação, a busca de um caráter e a presença de uma emotividade" (2013:11-38).

 

Distâncias e deslocamentos

Em 2016, morando em São Paulo, Thiana resolve retornar a Camaquã para passar alguns meses para finalizar seu curso de graduação. A exuberância de cores, formas, luz e texturas proporcionada pela natureza em suas experiências anteriores motivaram a artista a aprofundar sua pesquisa sobre a pintura de paisagem. Conforme relatou,

Morando há dois anos em São Paulo capital, retornei temporariamente ao Rio Grande do Sul e à minha cidade de origem, Camaquã, à qual não resido há mais de 14 anos. De volta à terra natal, empreendi um período de imersão em pintura, em contato direto com a natureza, na chácara da Tia Estácia, minha tia-avó, onde sempre tive o caráter de visitante. As paisagens observadas durante a pesquisa foram de locais em que eu nunca havia percorrido antes. Procurei absorver as características da paisagem motivada pela exuberância de cores, texturas, luz e formas que ela me oferece. Tia Estácia é uma autêntica campesina que, aos 81 anos de idade, sempre viveu na mesma propriedade rural, o que contribui para que eu observe e compreenda quais são os valores que ela considera na vivência da natureza do campo. Deste modo, reforço meus estudos comparativos entre o ponto de vista dela e o meu, de olhar "estrangeiro", em relação à mesma natureza. (Sehn, 2016:18)

Em seu texto, Thiana comenta sobre o contraste existente entre a verticalidade da cidade grande, cuja linha de horizonte torna-se inexistente em virtude dos conglomerados das edificações e os vastos campos da zona rural. É nesse momento que a artista toma consciência, também, da representação da distância como elemento fundamental da paisagem. Essa medida espaço-temporal que reforça o espaço do espectador fora da imagem/paisagem, colocando-o em estado de contemplação. Suas telas aumentam de dimensões e a sensação de profundidade também se intensifica. Compare-se as pinturas Toca de paca e Pedra da nascente — São bento do Sapucaí, de 2015 (Figura 1 e Figura 2) e Panorama das lavouras distantes de 2016 (Figura 3). Percebe-se então as diferenças entre as espacialidades construídas. Por certo a especificidade da geografia de cada local é responsável por certas características. A verticalidade da Serra da Mantiqueira se contrapõe às planícies extensas, abertas do sul do país. Mas, além disso, existe o recorte, a composição, o enquadramento escolhido pelo pintor. A experiência da planície vivida por Thiana expressa-se na pintura Panorama ….

 

 

 

 

 

 

A composição exigiu a intensificação da horizontalidade do suporte e árvores, arbustos ou pedras já não são representados com proximidade. Outro aspecto interessante é como elementos naturais ou mesmo as lavouras distantes provocam a necessidade de uma resolução plástica cada vez mais abstrata. Nesse sentido, as lavouras vistas de longe assemelham-se a composições geométricas e Thiana utilizou-se disso para reforçar o aspecto construtivo do quadro, aprofundando, também, sua pesquisa de cor, luz e texturas. As diversas culturas agrícolas somadas a espaços de mata nativa fez com que Thiana explorasse uma enorme diversidade de texturas e pinceladas. A tinta a óleo é utilizada de forma empastada, raspada e também diluída. Mas, acima de tudo, interessava à artista a forte presença da matéria expressa pelo vigor da pincelada, da gestualidade espontânea e rápida.

Nesta série a artista preparou todos os seus fundos com um intenso vermelho. Sabia dos efeitos de contraste entre cores complementares e desejava que este vermelho pulsasse sob as cores, nas falhas de pintura, entre os verdes. Na medida que suas pinturas avançavam, durante a pesquisa, as zonas de vermelho foram tornando-se cada vez mais visíveis e ocupando maior espaço na tela. Essas zonas chapadas de vermelho oferecem, além do grande contraste e beleza de colorido, certa artificialidade a uma representação que poderia se pretender "naturalista". Thiana tinha consciência que pintura e natureza são coisas distintas.

De acordo com o que nos diz Gombrich, é praticamente impossível imitar a natureza tal e qual. A natureza é viva e de sua vida o que me interessa são as experiências. Ao pintar ao ar livre, tudo muda o tempo todo, a cada vez que dirijo meu olhar para a paisagem, ela já mudou. É necessário que eu esteja completamente presente, concentrada e com a observação aguçada. Meu olhar está sempre em um vai e vem da tela à paisagem e da paisagem à tela, mas tenho a consciência de que a tela é um fato independente da natureza. É motivada por ela, mas dela difere, tem suas próprias regras. E o meu interesse é de interpretar o que vejo, transformar em outra coisa, não é fazer uma pintura tal qual. (Sehn, 2016:28)

A pintura é sempre um fato que traz consigo regras específicas. Quando figurativa pode ser motivada ou derivada de um modelo. Guarda resquícios de semelhança com este e evoca relações. Mas é sempre um fato em si. Quando Thiana começa a deixar cada vez mais visível a imprimatura vermelha (Figura 4, Figura 5, Figura 6, Figura 7), cria uma ambivalência entre o próximo e o distante, o plano e a profundidade, a tela e o horizonte. Seria possível dizer que essas zonas vermelhas assumem outra função além da criação do contraste cromático. Diria que a artista nos convoca a tomar consciência do vai e vem desse olhar que pouco a pouco construiu o quadro. Como se o quadro fosse o registro dessa experiência do espírito. Esse olhar que sai de si, vagueia sobre as coisas e retorna, transmuta-se e vira imagem por meio de um corpo tocado por tudo que viu do mundo. Um corpo intensamente consciente do aqui e agora.

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando Thiana realiza Grande panorama de uma contemplação curiosa da paisagem (Figura 6) parece ter alcançado os objetivos plásticos e metafóricos que as grandes pinturas de paisagem suscitam.

 

Referências

Chauí, Marilena (2006) "Merleau-Ponty: obra de arte e filosofia" in: Artepensamento Novaes, A. (org.) São Paulo: Companhia das Letras. ISBN 85-7164-417-9        [ Links ]

Maderuelo, Javier. ( 2005) El paisaje: génesis de um concepto. Madrid: ABADA Editores. ISBN 978-84-96258-56-3        [ Links ]

Merleau-Ponty, Maurice. (1984) "O olho e o espírito" in: Merleau-Ponty: Textos selecionados. Col. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural. ISBN 83-1333        [ Links ]

Sehn, Thiana (2016) A pintura de paisagem e a paisagem na pintura. Trabalho de Conclusão de Curso do Bacharelado em Artes Visuais, Instituto de Artes – UFRGS. Porto Alegre/RS — Brasil.

 

 

Artigo completo submetido a 07 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: mvcorona@terra.com.br (Marilice Corona)

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