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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.10 no.26 Lisboa jun. 2019

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

RevelAção: o outro nas foto-performances de Adriana Barreto

RevelAtion: the other in the photo-performances of Adriana Barreto

 

Zalinda Cartaxo*

*Brasil, artista visual.

AFILIAÇÃO: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas (PPGAC/UNIRIO) e Centro de Investigação e Estudos em Belas Artes (CIEBA), Universidade de Lisboa. Largo da Academia Nacional de Belas Artes 4, 1249-058 Lisboa, Portugal.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

A série RevelAção (2018), da artista visual brasileira Adriana Barreto, parte do pressuposto de que o outro (tal qual aborda Jean Luc-Nancy) é parte essencial no desenvolvimento de sua performance em que: o corpo existe em relação a outro; o corpo expõe uma existência; o dentro do corpo é sobretudo um fora do fora: o que se retira do fora para ficar fora; o corpo não se confunde com nenhum outro, não recobre e nem é recoberto por outro; o corpo é esse pelo quê, como quê e em quê tudo acontece; e, finalmente, o corpo só é fazendo e se fazendo — sempre fora de tudo que poderia contê-lo. Sua obra, no contexto da arte brasileira possuiu fliações com o legado estético da artista Lygia Clark.

Palavras chave: performance / fotografia / imagem.

 

ABSTRACT:

The series Revelation (2018), by the Brazilian visual artist Adriana Barreto, starts from the assumption that the other (as discussed by Jean Luc-Nancy) is an essential part in the development of her performance in which: the body exists in relation to another; the body exposes an existence; the inside of the body is especially one outside the outside: what is withdrawn from the outside to stay outside; the body is not confused with any other, nor recovers and is not covered by another; the body is that by what, how and what happens; and finally, the body is only doing and doing itself — always out of everything that could contain it. His work, in the context of Brazilian art, had affiliation with the aesthetic legacy of the artist Lygia Clark.

Keywords: performance / photography / image.

 

Introdução

 


Às vezes também amassamos uma folha ou tocamos a tangente de um teclado para formar corpúsculos que se debatem numa tela, numa folha impressa, num fora aventureiro do que pensamos ser um pensamento se fazendo mas que não passa de um modo delicioso e difícil de nos entretocarmos. (Nancy, 2015:9)

A Casa do Horto é um espaço construído pela artista visual carioca Adriana Barreto num bairro arborizado do Rio de Janeiro, Brasil. Foi idealizado para a criação e desenvolvimento de suas performances e consiste numa sala de criação (elaboração), numa sala de desenvolvimento de performance (experimentação), numa sala de recolhimento (conscientização), numa sala de vídeo-performance (finalização) e num grande jardim que contorna a Casa do Horto e possui participação relevante nas suas criações. A Casa do Horto é, na verdade, um centro de desenvolvimento de performance exclusivo da artista que abdica do termo atelier por não se adequar plenamente às suas necessidades estéticas. A primeira performance desenvolvida pela artista no recém-inaugurado espaço (2018), RevelAção, exemplifica de forma clara as necessidades estético-espaciais da artista para o desenvolvimento de seu trabalho. RevelAção é uma série de foto-performance ainda em andamento (e, talvez, sem conclusão). A artista recebe a cada sessão oito convidados por vez (geralmente amigos) em horários sequenciais. Cada um é recebido individualmente por Adriana que pede que retire qualquer maquiagem do rosto, se houver. A seguir é levado descalço, de mãos dadas, à sala de desenvolvimento de performance, onde terá seu rosto fotografado (em preto e branco). A seguir, Adriana encaminha seu convidado à sala de recolhimento. A luz branda, o som meditativo em volume baixo e o perfume aromático cria um ambiente de relaxamento. Adriana leva o convidado até o futon onde deverá deitar-se e, a partir das suas orientações, relaxar o corpo. Ela toca um sino tibetano para dar início ao processo. A artista cobre os olhos do convidado com uma máscara de ervas com um peso leve e retira suas meias, se houver. Utitlizando óleos essenciais inicia uma massagem em cada um dos pés do convidado que, lentamente, se desacelera. Depois de massagear os dois pés, deixa o convidado imergir num transe profundo. A artista intui o tempo necessário de cada um e conclui o processo tocando novamente e suavemente o sino tibetano. Orientado a alongar-se ainda no futon, o convidado vai, aos poucos, voltando a si. Adriana o conduz a sala de desenvolvimento de performance onde fará novo registro fotográfico do seu rosto. O processo performático de Adriana e do convidado é baseado na confiança e na intimidade, portanto, o que se passa dentro da sala de recolhimento não pode ser compartilhado com o público. A fotografia que registra o momento da entrada e da saída da sala de recolhimento é, em si, a obra de foto-performance da série RevelAção. Manipulada para coexistir numa única imagem, as fotos registram o antes e o depois simultaneamente, compactando (em devir e imanência) toda a experiência pré e pós performática (Figura 1).

 

 

A opção pela fotografia em preto e branco, assim como pelo uso de uma luz que banha de forma clara e uniforme o rosto do convidado e de um fundo negro, deve-se à exclusão de qualquer indício de dramaticidade ou teatralidade. A imagem deve ser absolutamente clara para que se possa registrar toda a função muscular facial do pré e pós relaxamento (ação performática). Todas as rugas (se houver), transformações de expressão, etc., tudo deve ser fotograficamente registrado. A captura do rosto do convidado na sua chegada (com a sua contaminação natural do dia-à-dia) e na sua saída (ainda em estado de relaxamento) deve ser imediata afim de dar sentido visual, de materializar esta performance que existe na intimidade, no recolhimento. A imagem da foto-performance reverbera a experiência.

 

1. O outro nas foto-performances de Adriana Barreto

 

Existir significa de fato distinguir-se tanto do nada como de outras existências.
(Nancy, 2015:9)

 

De acordo com Jean-Luc Nancy (2015), um corpo só existe em relação a outro. Para o autor, ele seria o "contorno" do início e do fim de uma existência, ou, de outro modo — "um corpo expõe uma existência" (Nancy, 2015:7). O corpo é um fora — um fora-dentro, que guarda em si órgãos com as suas respectivas funções. Contudo, esse dentro não é o que se apresenta como um corpo. De acordo com Nancy, "para apresentá-lo, é preciso violentar às vezes mais, às vezes menos, o corpo. O dentro não se apresenta. Ao contrário, retira-se para que o fora possa se sustentar e agir. O dentro do corpo é sobretudo um fora do fora: o que se retira do fora para ficar fora." (Nancy, 2015:7). O autor afirma que,

Um corpo é uma pro-posição, uma chegada que se adianta e se põe adiante, no fora, como um fora. Pro-posto é que o corpo não se confunda com nenhum outro, que não recubra nenhum outro e nem seja por nenhum outro recoberto — nunca, a não ser quando estiver em jogo uma descoberta, o por-se a descoberto de cada corpo.
(…) Um corpo é esse pelo quê, como quê e em quê tudo acontece: tudo sobrevém, tudo se produz num gesto, numa inflexão, numa emoção ou erupção da pele, o sentido de um outro corpo roçado ou melindrado.
(…) Um corpo não "é" no sentido que se costuma supor que uma coisa ou um conceito "é" — posto, delimitado, estabilizado em algum lugar. Um corpo só é fazendo e se fazendo — sempre fora de tudo que poderia contê-lo. (Nancy, 2015:8)

O outro nas foto-performances de Adriana Barreto (Figura 2) constitui-se como afirmativa da existência. Daquela que nos fala Nancy: "existir significa de fato distinguir-se tanto do nada como de outras existências." (Nancy, 2015:9). A prática performática da artista, nesta série, se desenvolve na intimidade. Outras práticas performáticas também ocultam, de certa forma, a sua realização. Tomemos como exemplo as intervenções urbanas de Banksy (de um modo geral o artista trabalha com o anonimato) ou de Olafur Eliasson (por exemplo, com a sua série Green River). Ambos desenvolveram obras cuja ação (absolutamente performática) estava fundada na clandestinidade. O que resta nestas 'ações performáticas' (geralmente nomeadas de intervenções urbanas), uma cabine telefônica amassada, no caso de Banksy, ou um rio com coloração radioativa, no caso de Eliasson, é a conclusão de uma ação no espaço público, em estado de devir e imanência. Em ambos os casos, a ação precedente, invisível, é tão importante quanto os seus resultados. O mesmo ocorre com a série RevelAção, de Adriana Barreto. Contudo, diferentemente dos exemplos citados de Banksy e Eliasson, que se inscrevem numa esfera pública, a artista performa numa esfera particular, intimista. Suas foto-performances, também, existem em devir e imanência. Dentro das questões sobre performance na atualidade, podemos localizar obras cuja concepção e realização direciona-se para outras categorias artísticas. Muitas obras de intervenção urbana possuem (mesmo que o artista não entenda assim) aspectos marcantes da performance art. A relevância desta questão está no fato da maioria das obras de intervenção urbana promover um performar do público que alimenta a obra e que, portanto, não deve ser menosprezado ou ignorado. A presença do outro nas práticas estéticas contemporâneas é extremamente limitativa em seu entendimento.

 

 

A série RevelAção, de Adriana Barreto, parte do pressuposto de que o outro (tal qual aborda Nancy) é parte essencial no desenvolvimento de sua performance: 1. o corpo existe em relação a outro; 2. o corpo expõe uma existência; 3. o dentro do corpo é sobretudo um fora do fora: o que se retira do fora para ficar fora; 4. o corpo não se confunde com nenhum outro, não recobre e nem é recoberto por outro; 5. o corpo é esse pelo quê, como quê e em quê tudo acontece; e, finalmente, 6. o corpo só é fazendo e se fazendo — sempre fora de tudo que poderia contê-lo.

Nesta série, Adriana recupera o sujeito (o convidado) ao fomentar, pela experiência, a sua existência, essencialmente. A artista dá ênfase a este ser corpo, único e inconfundível, ao registrá-lo contraposto a um fundo negro abismal. Os tons de cinza da fotografia dão a dimensão volumétrica do ser (existência). O corpo-fora, na sua totalidade, podemos associar ao fundo absolutamente negro, que, facilmente, poderíamos associar ao espaço infinito do Barroco, mas que, aqui, será utilizada outra abordagem. Segundo Junichiro Tanizaki (2007), ao contrário dos ocidentais que valorizam os brilhos dos metais polindo-os, os orientais valorizam os acúmulos temporais que refletem a passagem do tempo e suas histórias na opacidade das superfícies. Para o autor, apraz, para os orientais, "observar o tempo marcar sua passagem esmaecendo o brilho do metal, queimando e esfumaçando sua superfície" (Tanizaki, 2007:28). O sentido de profundidade (presente também no Barroco italiano), de natureza cumulativa, em reciprocidade com o corpo-fora, oferece um ressoar em aberto Para Nancy,

o corpo, a corporeidade do corpo — quer dizer, a sua extensão, a sua expansão, a sua expressão — comporta a verdade de que nada se reúne numa intimidade cúmplice de si mas de que tudo se lança para mais longe, mais para o dentro porque mais fora do que qualquer recolhimento. (Nancy, 2015:9)

A série RevelAção parte deste movimento: a partir do recolhimento (do corpo-dentro) faz-se emergir o corpo-fora.

 

Conclusão

É impossível ignorar a filiação estética de Adriana Barreto, cuja abordagem experimental e extremamente subjetiva, nos faz remeter à produção de Lygia Clark. Salvo as óbvias diferenças, ambas desenvolveram obras cujo material essencial seria a própria estrutura interna do sujeito. Tratadas de forma diferenciada, ambas apresentam obras que causam dificuldade na compreensão de se constituírem como uma obra de arte. A desmaterialização da arte é um fenômeno que desde os anos de 1960 vem se desenhando de forma persistente e coerente.

Especialmente no campo da performance art existe, ainda, a predominância de uma estrutura próxima do teatral e com a presença de um público. O sentido de realidade que as artes visuais sempre buscou — e que trouxe ao longo dos séculos respostas variadas — talvez seja a grande diferença das práticas performáticas do teatro. A dimensão filosófica da arte contemporânea colaborou na sua aproximação com o real (isso, em várias práticas estéticas como a fotografia, a pintura, a intervenção etc.), tornando quase impossível ignorá-la.

A aproximação com a realidade colocou a arte próxima de questões cotidianas como a religião, a espiritualidade, o feminismo, o racismo, a imigração, a diversidade e as demais instâncias políticas. Portanto, abordar o sujeito através da meditação significa, na obra performática de Adriana Barreto, recolocá-lo no âmbito da consciência da existência, da sua existência, da sua experiência, da sua realidade. A lacuna temporal entre a experiência pessoal e reservada (aquilo que não vemos) do convidado de Adriana na série RevelAção (Figura 3) e a obra foto-performática (aquilo que vemos), coloca a performance da artista numa instância de transitoriedade: "o dentro do corpo é sobretudo um fora do fora: o que se retira do fora para ficar fora." (Nancy, 2005:7). Somente o corpo tocado pode constituir-se como tal. A performance, aqui, é meio ativação do corpo, às vezes, esquecido. RevelAção significa, aqui, revelar através da ação (performance).

 

 

 

Referências

Nancy, J. L. (2015). Corpo, fora. Rio de Janeiro : 7 Letras.         [ Links ]

Tanizaki, J. (2007). Em louvor da sombra. São Paulo: Companhia das Letras.         [ Links ]

 

 

Artigo completo submetido a 29 de dezembro de 2018 e aprovado a 21 janeiro de 2019

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: z.cartaxo@uol.com.br (Zalinda Cartaxo)

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