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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.10 no.26 Lisboa jun. 2019

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

Amazônia: os Novos Viajantes, os Artistas da Madeira

Amazônia, Novos Viajantes, the artists of wood

 

Neide Marcondes* & Nara Sílvia Marcondes Martins**

*Brasil, artista visual, professora titular.

AFILIAÇÃO: Universidade Estadual Paulista-UNESP, Professora convidada PROLAM– Programa de Pós-Graduação da América Latina-USP. Av Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443 — 1º andar — Sala 116A — Butantã — São Paulo/SP — CEP: 05508-020 Brasil.

**Brasil, artista visual, professora pesquisadora.

AFILIAÇÃO: Universidade Presbiteriana Mackenzie; Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, FAUMackenzie. R. Itambé, 143 — Higienópolis, São Paulo — SP, 01302-907, Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

No mundo atual é nítida a preocupação quanto as questões ecológicas. Na arte contemporânea destacamos dois artistas brasileiros que se evidenciaram na Exposição Amazônia 2018, Novos Viajantes, no Museu de Escultura e Ecologia MUBE em São Paulo, Brasil. Maurício Adinolfi e Fernando Limberger trabalham com materiais recicláveis e com a escultura do verde. Ambos atuam como educadores ativistas, elaboram instalações e intervenções com linguagem poética da invenção, criação de imagens que relatam suas visões de mundo.

Palavras chave: arte contemporânea / natureza / instalações.

 

ABSTRACT:

In today's world, there is a main concern ecological issue. In contemporary art, we highlight two Brazilian artists that we evidenced in the Amazônia Exhibition 2018, Novos Viajantes at MUBE– Museum of Sculpture and Ecology in São Paulo, Brasil. Maurício Adinolfi and Fernando Limberger, they work with recyclables materials and green sculpture. Both act as educators and environment activists, elaborate installation and interventions with inventive poetic language as well as creative images that tells their world outlook.

Keywords:contemporary art / nature / installations.

 

Introdução

É época de mundialização econômico-financeira e de planetarização nas questões ambientais. Discussões ambientais, ecológicas e sobre a sustentabilidade ganham a atenção em diferentes espaços de atuação tanto na arquitetura verde, no eco equilíbrio, na logística reversa e no reuso de materiais (Manzini & Verozi, 2003). Na arte contemporânea estão presentes estas preocupações que são expressas em atitudes principalmente com a reciclagem dos materiais. Os artistas se apropriam de materiais seja pela memória histórica ou pela consciência atual despertada ao meio ambiente.

Há algum tempo construtores também chamados de artistas da madeira usam as sobras eventuais do material de construções de edifícios entre eles os estruturais, enxaiméis, colunas, construções de taipa de mão, tesouras dos telhados (Martins, 1978).

Entre os vários artistas da madeira cabe citar Frans Krajcberg, que habitou no Brasil durante décadas e faleceu no ano de 2017, este artista que se apropria de madeiras descartadas para conceber em projetos artísticos, transformando em obras de arte que liberta a madeira de sua condição anterior (Cipriano, 2003).

 

1.1 Artistas da Amazônia: Novos Viajantes

Na exposição Artistas da Amazônia: Novos Viajantes foi organizada em três núcleos que apresentou a pesquisa científica, as obras naturalistas históricas dos artistas viajantes que desbravavam o território nos séculos XVII e XVIII, e obras contemporâneas. A mostra no Museu de Escultura e Ecologia– MUBE em São Paulo, Brasil, teve curadoria de Cauê Alves e da bióloga Lúcia Lohmann, esteve aberta para visitação de maio a julho de 2018. Destacaram-se dois artistas contemporâneos, Maurício Adinolfi e Fernando Limberger, que se evidenciaram com suas grandes instalações (Guimarães, 2018).

O primeiro, paulista nascido em 1978, vive em São Paulo, capital e no litoral. Artista plástico, com pós-graduação, com formação em filosofia atua como educador ativista. Suas obras interferências e instalações assim como desenhos e pinturas evidenciam suas ideias, propósitos e preocupações. Entre suas exposições no Brasil e exterior constam: Calado do Cais, Livro-Barco e Projeto Ultra Mar. Na intervenção Calado do Cais de Maurício Adinolfi elaborou projeto que consistiu na experiência de trabalhar diretamente com os remanescentes construtores navais de barcos de madeira da praia do Perequê no Guarujá, São Paulo. Buscou na força desse material resignificar esse ato e contrapor essas embarcações e sua história à expansão portuária e à escala das grandes embarcações. O artista maneja objetos semidestruídos, no caso de barcos de pescaria, joga com estas formas e faz a intervenção no espaço público na praia do litoral sul de São Paulo. São barcos trazidos da região do Perequê que foram enterrados na areia, colocados na posição vertical, de costas para o mar (Figura 1). Por que esta praia? O movimento das reformas do canal do porto de Santos fez com que assoreasse cada vez mais esta praia consequentemente grande extensão de areia impede que os barcos atraquem; não há mais espaço para os barcos pesqueiros. A preocupação reforça a conscientização ecológica, cria imagens e formas que conversam histórias sobre reformas incessantes que causam mutação descontrolada (Adinolfi, 2018).

 

 

"Qual o sentido: somos daqui, deste local e pertencemos a ele" (Bauman, 2005:24). Em Projeto Ultramarino na Ilha Diana, uma das únicas colônias de pescadores ainda existentes na região no litoral sul de São Paulo, o artista Adinolfi coordena o projeto de reciclagem, do eco arquitetura e reforça a sensação de aconchego, de apego à comunidade, proporcionando a reflexão sobre a identidade e alteridade. Com os habitantes do lugar elabora a urbanização da ilha, elege, restaura e conserva a arquitetura identitária do local (Figura 2), especialmente pela caracterização e continuidade cultura da comunidade caiçara e dos sambaquis em vias de desaparecimento. Todo o complexo seria destruído pelo movimento das construções e da reurbanização do porto de Santos (Adinolfi, 2018). Na exposição Amazonas: Novos Viajantes, no espaço externo do Museu de Escultura e Ecologia, em maio de 2018, Maurício Adinolfi reforça mais uma vez a preocupação com a reciclagem de embarcações. Destaca-se, Estorvo Escorbuto, instalação com partes de barcos de madeira, asfalto, ossos, cabos de ação demonstrando o reuso dos materiais (Figura 3). Esta instalação foi idealizada para a exposição. Os fragmentos são retomados do passado útil e trazidos para o presente em poética instalação (Guimarães, 2018).

 

 

 

 

A instalação erege os objetos, no caso de fragmentos de barcos, exibem em visão dinâmica no espaço, elementos que despertam para um mundo mutante e líquido (Marcondes & Martins, 2018). A ideia nostálgica de pertença a uma comunidade, uma sociedade coletiva está rareando-se os habitantes destas comunidades caiçaras trabalham na retrotopia (Bauman, 2017) com a perspectiva da sobrevivência de localidade e auto referência.

O artista Fernando Limberger, natural do Rio Grande do Sul, Brasil, de 1962, é chamado escultor do verde. Trabalha com instalações e intervenções e atua no Brasil e no exterior. Sua intensa premiação deve-se as suas preocupações com situações predatórias dos espaços da natureza. Em muitas instalações Fernando discute a paisagem urbana e a natureza.

Na instalação de Fernando Limberger denominada Contenção Verde, o artista coletou espécies de árvore comuns de parques e jardins públicos da capital para dentro da Pinacoteca no ano de 2017, instalou canteiros de plantas abastecidos por sistema de irrigação. São plantas adultas, nativas e exóticas de até oito metros colocadas num mesmo espaço formando volume verde cercado por grades de ferro que confinam as pessoas do espaço verde. A luz é natural e a irrigação é sustentável e projetada. O artista questiona as fronteiras da cultura e da natureza.

No enfrentamento da torrente de processos desinibidores proporcionados pelo consumo e pela tecnologia atuais é preciso repensar a antropotécnica (Sloterdijk, 2016) e colocá-la em curso. Formas antigas podem ser examinadas e inventadas.

Em Desmoronamento Azul, instalação montada em 2016 no Centro Cultural do Banco do Brasil em São Paulo, Limberger instalou vinte toneladas de areia tingidas de azul e fincou troncos de árvores queimados organicamente de tamanhos variados, distribuídos sobre a areia (Figura 4). Os troncos queimados foram colocados em formato irregular em elevação topográfica. A madeira é um material produzido a partir do tecido formada por plantas lenhosas. É um material orgânico de complexa composição onde predominam fibras de celulose. A desflorestação e dispersão de habitat para múltiplas espécies ameaçam a biodiversidade. Segundo Guimarães (2018: 86) Limberger coloca "o tom de azul escolhido é o celeste que alude à cor do céu e traz para o espaço a impressão de aridez, invasão e transitoriedade".

 

 

A instalação do MUBE situada na parte externa do museu, Fernando Limberger trabalha a memória, reforça a consciência ecológica em Ainozoma com o cenário devastador da queima e a ruina do solo. Ao caminhar pelo mapeamento da instalação pode-se interpretar e perceber o evento no qual estabelece que o artista funda sua morada no mundo (Heidegger,1992).

São troncos queimados expostos em terra vermelha com plantas da espécie capim–braqueara que emergem de forma dificultosa em cenário devastado (Figura 5). O efeito é impactante.

 

 

 

Conclusão

A arte não apresenta uma significação, pois a obra e manifestação artística é ser, acontecer. Quando em evento, na linguagem heideggeriana permite abrir-se em histórias para o mundo e proporciona as mais diversas interpretações. Podemos ressaltar que estes artistas pesquisados podem ser chamados de artistas educadores. Na linguagem poética da invenção, criação, imagem relatam seu olhar/mundo. Nesta modernidade líquida, as identidades socioculturais, políticas e sexuais sofrem processos de transformações contínuas que vão do perene ao transitório, das identidades às alteridades e glocalidades.

A obra é pensada com aglutinadora de ideias e questões. Os artistas manejam conceitos e organismos da história e convertem suas operações em linguagem e constroem em experiências sociais. A apropriação dos materiais, seja como história seja como memória ativam o momento atual. A compossibilidade de suas obras e manifestações artísticas transitam nas técnicas das instalações, performances, vídeos e fotos. A história é convertida, a arte vai além da correção de valores. A ideia nostálgica de pertença de uma comunidade social, com memória coletiva está se rareando. Vivemos na era da tecnologia e do trabalho conceitual, na era do sempre recomeçando em nome de uma visão mais ampla do mundo, que é ao mesmo tempo ecológica e global.

 

Referências

Adinolfi, Maurício. Adinolfi (2018). Disponível em http://www.mauricioadinolfi.com/ [Consult. 2018-12-18]         [ Links ]

Bauman, Zygmunt (2005) Identidade: entrevista a Benedito Vecchi/Zygmunt Bauman. São Paulo: Jorge Zahar Ed. ISBN 85-7110-889-7        [ Links ]

Bauman, Zygmunt (2017). Estranhos à nossa porta. Rio de Janeiro: Zahar, ISBN 978-85-378-1610-3        [ Links ]

Cypriano, Fabio (2003) "Paisagens fazem intervenção no CCBB". Folha de São Paulo. Acontece. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/acontece/ac0111200304.htm [Consult. 2018-12-18]         [ Links ]

Limberger, Fernando. Limberger. Disponível em URL: http://fernandolimberger.blogspot.com/ [Consult. 2018-12-18]         [ Links ]

Guimarães, Maria (2018) Artista na expedição, biólogo no museu. Disponível em http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2018/06/084-087_Mube_268.pdf [Consult. 2018-12-18]         [ Links ]

Heidegger, Martin (1992) Arte y poesia. México: Fondo de Cultura Económica, ISBN 950-557-124-0        [ Links ]

Marcondes, Neide; Martins, Nara (2018). Desvelar a arte: arte contemporânea meandros da interpretação. São Paulo: Altamira, ISBN 978-85-99518-24-3        [ Links ]

Martins, Neide M. (1978) O partido arquitetônico rural de Porto Fleiz, Tietê e Laranjal Paulista no século XIX: um estudo comparativo. São Paulo: Conselho Estadual de Artes e Ciências ISBN 728-6098165        [ Links ]

Manzini, Ezio; Vezoli, Carlo (2003) O desenvolvimento de produtos Sustentáveis. São Paulo: EDUSP, ISBN8531407311        [ Links ]

Sloterdijk, Peter (2016) Ira e tempo, ensaio político-psicológico. São Paulo: Estação Liberdade ISBN 10: 8574481955        [ Links ]

 

 

Artigo completo submetido a 26 de dezembro de 2018 e aprovado a 21 janeiro de 2019

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: ne.be@uol.com.br (Neide Marcondes)

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