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Análise Psicológica

versão impressa ISSN 0870-8231

Aná. Psicológica v.28 n.3 Lisboa set. 2010

 

Sentimento de comunidade, qualidade e satisfação de vida

 

Susana Elvas (*), Maria João Vargas Moniz (**)

 

(*)  Licenciada em Desenvolvimento Comunitário e Saúde Mental pelo ISPA-IU; Mestre em Psicologia Comunitária pelo ISPA-IU.

E-mail: elvas.susana@gmail.com.

 

(**) ISPA-IU, Rua Jardim do Tabaco, 34, 1149-041 Lisboa / Associação para o Estudo e Integração Psicossocial.

 

RESUMO

O sentimento de comunidade percebido numa localidade específica, como num bairro residencial, providencia vários benefícios, quer a nível individual, quer a nível comunitário. A nível individual, quanto maior for o sentimento de comunidade, maior será a participação nos processos da comunidade, maior será o capital e suporte social percebido através das relações em vizinhança e maior será a satisfação e qualidade de vida. A nível comunitário, quanto maior for o sentimento de identidade e de pertença, maior será a capacitação comunitária, promovendo comunidades saudáveis e sustentáveis.

Em termos práticos, foi realizada uma investigação com 15 participantes no Bairro do Armador e 15 no Bairro de Alfama, dos 7 aos 15 anos de idade, destinatários de projectos intervenção comunitária nos respectivos bairros.

Com este estudo aferimos a relação encontrada e a importância de um forte sentimento de pertença e de identidade lugar, para a satisfação e qualidade de vida, como sendo uma estratégia eficaz para a promoção do desenvolvimento comunitário.

Palavras chave: Comunidade, Desenvolvimento comunitário, Satisfação e qualidade de vida, Sentimento de comunidade.

 

ABSTRACT

The perceived sense of community in a specific location, as in a residential neighbourhood, provides several benefits, both individual and community level. At the individual level, the greater the sense of community, greater participation in the community, the higher capital and social support received by the neighbourly relations and greater satisfaction and quality of life. At community level, the higher for the sense of identity and belonging, the greater community empowerment, promoting healthy and sustainable communities.

In our study, the participants were children and adolescents, 15 from Armador Neighbourhood and 15 from Alfama Neighbourhood, with ages ranging from 7 to 15 that were making part in local projects of communitarian intervention.

With this study, we evaluate this relation and the importance of a strong sense of belonging, identity with the place, to life satisfaction and quality of life, considering it as a efficacious strategy to promote Community Development.

Key words: Community, Community development, Life satisfaction and quality of life, Sense of community.

 

INTRODUÇÃO

Com este artigo aprofundamos aspectos gerais, relacionados com as questões do sentimento de comunidade e os seus principais contributos, nomeadamente a qualidade e satisfação de vida, associados a contextos comunitários de vizinhança, como um bairro residencial. Frequentemente é possível observar comunidades cada vez mais coesas e organizadas para a resolução dos seus próprios problemas. Esta mobilização dos cidadãos, nos processos de decisão a favor da comunidade, contribui significativamente para o aumento do sentimento de comunidade. Assim, quanto maior a integração e satisfação perante uma comunidade, maiores serão os benefícios individuais e comunitários. A nível individual, um maior sentimento de comunidade traduz-se em níveis mais elevados de bem-estar, qualidade e satisfação de vida; sentido de justiça e capital social; menor solidão e isolamento. A nível comunitário, identifica-se uma maior colaboração e força comunitária, mobilização e participação em torno da mudança social.

No nosso estudo procurámos perceber a relação existente entre o sentimento de pertença e a satisfação e qualidade de vida, num grupo de jovens, de dois bairros residenciais da cidade de Lisboa. Em termos práticos, foi realizada uma investigação de carácter exploratório, com 15 participantes do Bairro do Armador e 15 do Bairro de Alfama, dos 7 aos 15 anos de idade, todos eles, destinatários de projectos locais de intervenção comunitária. Os resultados do estudo corroboram a importância de um forte sentimento de pertença e de identidade em relação ao bairro de residência para a satisfação e qualidade de vida dos jovens. Deste modo, consideramos que o sentimento de comunidade contribui positivamente para a promoção de programas comunitários essenciais ao desenvolvimento de comunidades sustentáveis e saudáveis.

 

Do envolvimento comunitário ao sentimento de comunidade e à satisfação de vida

Segundo Ornelas “recentemente é possível observar em Portugal que as comunidades estão cada vez mais a organizar-se para resolver os seus próprios problemas, são disso exemplo, as mobilizações a que temos assistido em áreas como: o ambiente, a segurança ou a vontade expressa de influenciar o planeamento dos seus próprios bairros” (Ornelas, 1998, p. 5).

Esta mobilização e envolvimento em torno dos problemas comunitários numa localidade específica contribuem, significativamente para o aumento do sentimento de comunidade e identidade lugar. Falar em sentimento de comunidade está “relacionado com o facto de se pertencer a um grupo ou comunidade, no qual as pessoas se consideram elas próprias como similares, agindo de forma interdependente para a satisfação das suas necessidades” (Prezza & Constantini, 1998, p. 181).

A esta mobilização e envolvimento dos cidadãos nos processos de decisão a favor da comunidade denominamos por participação comunitária. A participação comunitária não se resume apenas a um suporte ou ajuda entre membros de um determinado grupo, envolve também o seu contributo efectivo nas decisões com impacto na mudança social. Este tipo de participação pode acontecer através de formas muito diversificadas e incidir em áreas como a qualidade de vida nos bairros, as questões ambientais, as questões de segurança e a prevenção da violência interpessoal (Dalton, Elias, & Wandersman, 2001).

 

Comunidade e sentimento de comunidade

A maior parte das pessoas compreende intuitivamente o significado de sentimento de comunidade. No entanto, esta é uma ideia complexa, composta por vários elementos e, longe de ser um conceito ultrapassado, o sentimento psicológico de comunidade ou simplesmente sentimento de comunidade, é um conceito sócio-psicológico que dá ênfase à experiência da comunidade, ou seja, percepciona e compreende atitudes e sentimentos de uma comunidade, bem como, o relacionamento e interacções entre pessoas desse mesmo contexto.

Sarason (o pai do sentimento de comunidade), em 1974, descreveu o sentimento psicológico de comunidade como, “o sentimento de que fazemos parte de uma rede de relacionamento de suporte mútuo, sempre disponível e da qual podemos depender” (Sarason, 1974, p. 1). O sentimento de comunidade transcende o individualismo e mantém-se na interdependência do relacionamento com os outros e nas expectativas que temos deles” (Pretty, Andrewes, & Collet, 1994, p. 347).

Para McMillan e Chavis, o sentimento de comunidade baseia-se em quatro elementos essenciais que definem as qualidades específicas do conceito. Estes elementos são: fazer parte de; influência; integração e satisfação das necessidades e partilha de ligações emocionais, que são definidos como sendo “o sentimento que os membros têm de pertença, o sentimento que os membros importam para um outro membro e para o grupo, e a convicção de que as necessidades dos membros serão alcançadas através de um compromisso de união” (McMillan & Chavis, 1986, p. 9).

Segundo Gusfield (1975), as comunidades das sociedades modernas desenvolvem-se positivamente pelos interesses e pelos territórios partilhados. Se existir um elevado sentimento de comunidade é mais provável que as pessoas se mobilizem, no sentido de participarem nas soluções dos seus próprios problemas. O sentimento de comunidade promove para um maior sentimento de identificação e uma maior autoconfiança, facilita as relações sociais, combate a solidão e o anonimato (Prezza & Constantini, 1998), contribuindo para o aumento da qualidade de vida e bem-estar individual.

 

Sentimento de comunidade, qualidade e satisfação de vida

As investigações realizadas mostram que um forte sentimento de comunidade reflecte um maior sentimento de protecção e segurança nos bairros ou grupos, através de uma maior adesão a actos eleitorais, uma maior preocupação nas questões ambientais, mais colaboração e inter-ajuda e mais voluntariado (Cantillon, Davidson, & Schweitzer, 2003; Chavis & Wandersman, 1990; Davidson & Cotter, 1989; Zani, Cicognani, & Albanesi, 2001, citados por Pretty, Conroy, Dugay, Fowler, & Williams, 1996, p. 368). A academia também deu a conhecer, que um forte sentimento de comunidade está associado a um baixo índice de doenças mentais, suicídios, abusos sexuais de crianças, diminuição da criminalidade, melhor qualidade ambiental nos bairros e fortalecimento das pessoas (Chipuer & Pretty, 1999; Glynn, 1981; Pretty, Andrews, & Collett, 1994; Prezza & Constantini, 1998; Roach & O’Brien, 1982, citados por Pretty, Conroy, Dugay, Fowler, & Williams, 1996, p. 368).

Segundo Amaro (2007), o sentimento de comunidade ajuda as organizações e instituições a identificar as necessidades e a estabelecer prioridades nas comunidades; avaliar a saúde global das comunidades; valorizar os bairros individualmente e a cidade como um todo; desenhar e avaliar intervenções sociais, económicas e de promoção da saúde; planear novas comunidades e fortalecer as existentes. O sentimento de comunidade está no centro de todos os esforços para fortalecer e construir uma comunidade, nascendo de um propósito colectivo que valoriza a diversidade cultural, bem como a singularidade (Sarason, 1974).

O relatório Europeu da Fundação para Melhorar a Vida e as Condições de Trabalho de 2006 contribui para a compreensão, entre outros aspectos, de como a satisfação de vida e o sentimento de pertença e identificação são conceitos e realidades que se interligam e que são imprescindíveis para um entendimento de um bem-estar subjectivo inerente à satisfação e qualidade de vida. O bem-estar subjectivo engloba três dimensões importantes: a satisfação global de vida; a felicidade e o sentimento de pertença.

O modelo geralmente aceite do subjectivo bem-estar refere que a sua conceptualização diz respeito a uma componente afectiva (isto é, emoções positivas e negativas) e a uma componente cognitiva com a satisfação de vida (Diener, Emmons, Larsen, & Griffin, 1985). A satisfação de vida é directamente influenciada pelas suas componentes e largamente definida por referências específicas e dominantes da vida, como a família, os amigos, o próprio, os vizinhos, o trabalho, a escola e o ambiente envolvente (Diener et al., 1985).

O modelo multidimensional de satisfação de vida não se foca apenas numa avaliação global ou geral da satisfação de vida, mas na derivação de perfis de satisfação de vida, julgados em domínios chave da vida. Por exemplo, Huebner (2004) propôs uma hierarquia no modelo de satisfação vida com cinco domínios específicos, tais como: escola, família, amigos, próprio e ambiente envolvente, que incluem um factor geral da satisfação de vida.

São poucos os estudos que averiguam a relação existente entre o sentimento de comunidade e a qualidade e satisfação de vida percebida de forma subjectiva. Contudo, Pretty, Andrews, e Collet (1994) realizaram uma investigação com um grupo de adolescentes, demonstrando que a ausência do sentimento de comunidade num bairro leva à solidão e ao isolamento, quando retirada a influência da comunidade gerada pela escola e pela vizinhança (Prezza & Constantini, 1998).

Os estudos de Prezza e Constantini (1998) indicaram que o sentimento de comunidade era maior numa pequena localidade comparativamente com uma grande cidade, onde o sentimento de pertença era sentido de forma menos intensa, verificando-se assim que o sentimento de comunidade está relacionado com a qualidade das relações sociais e com a percepção do suporte social recebido (Prezza & Constantini, 1998). Deste modo, quanto maior o suporte social recebido, maior é a qualidade das relações sociais, a auto-estima, a satisfação de vida e, consequentemente, maior é o sentimento de comunidade.

Mais tarde, Prezza, Amici, Roberti, e Tedeschi (2001) desenvolveram estudos onde é possível verificar a relação entre o sentimento de comunidade quer com as relações de vizinhança, quer com a satisfação de vida, bem como a relação existente entre a ausência do sentimento de comunidade e a solidão e o isolamento. Contudo, as ligações encontradas entre o sentimento de comunidade e a satisfação de vida são mais evidentes em pequenos contextos territoriais e comunitários. Em contextos de maiores dimensões, esta relação não se confirma. Ao contrário das expectativas dos autores, em contextos territoriais e comunitários de maiores dimensões, o sentimento de comunidade está mais relacionado com as relações de vizinhança do que com a satisfação de vida e inversamente com o isolamento e a solidão. No entanto, os autores defendem que na medida em que as relações sociais de vizinhança contribuem para um maior sentimento de comunidade e para prevenir a solidão e o isolamento, podem promover, desta forma, a satisfação de vida (Prezza, Amici, Roberti, & Tesdeschi, 2001). Deste modo, em contextos de maiores dimensões, o sentimento de comunidade pode ser controlado por outras e varáveis, como o suporte social e as redes de suporte social (Prezza, Amici, Roberti, & Tesdeschi, 2001).

Outros estudos, desenvolvidas por vários autores, demonstram que o sentimento de comunidade pode revelar-se de várias formas, seja através da participação comunitária activa (Davidson & Cotter, 1991), seja através do bem-estar e da qualidade de vida subjectivos (Davidson & Cotter, 1991; Pretty, Andrewes, & Collett, 1994; Pretty, Conroy, Dugay, Fowler, & Williams, 1996; Prezza & Constantini, 1998). Contudo, qualquer um destes estudos suporta a possibilidade, de considerar que o sentimento de comunidade funciona como um indicador subjectivo de qualidade de vida.

No nosso estudo foi pertinente averiguar a relação existente entre a percepção do sentimento de comunidade numa determinada comunidade de residência e o nível percebido de satisfação global de vida em crianças e jovens, nos mais diversos domínios, tais como: amigos; família; vizinhos; próprio e escola.

 

METODOLOGIA

Foi seleccionada para o estudo uma amostragem por conveniência com 30 participantes dos 7 aos 15 anos de idade, sendo 16 pertencentes ao sexo feminino e 14 ao sexo masculino. Do total da amostra, 15 dos participantes residem no Bairro do Armador e participam no Projecto de Inclusão Social de Crianças e Jovens do Armador (PISCJA), do Bairro do Armador. Os outros 15 participantes residem no Bairro de Alfama e integram o Projecto Recrear, Olhar, Descobrir e Acolher (RODA), da Associação de Tempos Livres de Alfama (ATLA).

Os Bairros do Armador e de Alfama, situados nas freguesias de Marvila e de Santo Estêvão respectivamente, estão ambos localizados na cidade de Lisboa, o primeiro na zona central de Lisboa, em Chelas e o segundo, no sudeste da capital.

O instrumento adoptado para a recolha de dados resultou de uma compilação de duas escalas. Uma, tendo por base a Escala Multidimensional de Satisfação de Vida das Crianças (MSLSS) (Huebner, 2004), que permite avaliar o nível de percepção de satisfação de vida nas crianças e jovens através de cinco domínios importantes da vida das crianças e jovens: família; amigos; próprio; escola e ambiente envolvente (subescalas de análise). A conceptualização desta escala providencia uma análise multidimensional das crianças e jovens no que diz respeito à satisfação de vida, contribuindo para intervenções específicas que promovam o bem-estar positivo dos participantes. Este instrumento é constituído por 40 itens ou afirmações referentes à percepção global de satisfação de vida. As quarenta afirmações encontram-se aleatoriamente distribuídas pelos cinco domínios já referidos da percepção de satisfação de vida.

A outra escala que compõem o nosso instrumento de investigação é o Índice de Sentimento de Comunidade (SCI), desenvolvido por McMillan e Chavis (1986). Esta escala tem como objectivo a medição e avaliação do sentimento de comunidade através dos seguintes elementos: fazer parte de; influência; integração e satisfação das necessidades; e partilha de ligações emocionais. A escala é composta por 12 itens ou afirmações, referentes ao sentimento de comunidade de um bairro de residência ou de um grupo comunitário. As doze afirmações encontram-se subdivididas em quatro subescalas que integram os quatros elementos integrantes do sentimento de comunidade.

O resultado final foi um instrumento de avaliação com 52 itens, as primeiras 40 questões sobre a satisfação e qualidade de vida e as últimas 12 sobre o sentimento de comunidade percepcionado pelos nossos participantes, que responderam de acordo com uma escala de likert com cinco opções de resposta fechada. Referimos, ainda, que o instrumento de investigação sofreu algumas alterações após a realização de um pré-teste num grupo de crianças de N=5 dos 7 aos 12 anos de idade. Com este pré-teste foi possível verificar que nas questões com a mesma cor, de acordo com as categorias em análise, os participantes tendiam a responder de forma igual, copiando o resultado da questão anterior da mesma cor. Deste modo, o instrumento adoptado para a investigação foi administrado nos tons neutros de preto e branco e também sofreu algumas correcções ao nível do vocabulário, tornando-se num texto de fácil compreensão para o escalão etário dos participantes, crianças e adolescentes, dos 7 aos 15 anos de idade. Optámos também pela substituição da escala de likert tradicional, com opções entre o 1 (não concordo totalmente) e o 5 (concordo totalmente), por smiles totalmente fechados, fechados, sem expressão, abertos e totalmente abertos, com a possibilidade para pintar a opção desejada.

O modo de administração do questionário foi variável, consoante a idade do participante e, consequentemente, a sua capacidade para ler e compreender cada questão, e responder o mais perto da realidade vivenciada, através do preenchimento individualizado do mesmo, com ou sem ajuda da facilitadora. Assim, quando o participante sabia ler e escrever, a forma utilizada foi o auto-preenchimento do questionário fechado, sem a intervenção da investigadora, embora pudesse recorrer à sua ajuda caso necessitasse de algum tipo de esclarecimentos. Este tipo de procedimento implicava que a aplicação do questionário fosse operacionalizada num grupo pequeno, com os participantes ligeiramente afastados entre si. Por outro lado, caso a criança ou jovem não soubesse ler, escrever e/ou entender as questões, a forma de inquirir era a entrevista semi-directiva, onde a facilitadora lia as questões ao participante e este pintava a opção para a resposta desejada. Para este tipo de procedimento a aplicação do questionário foi realizada individualmente.

Nesta fase de recolha e levantamento de dados, os técnicos responsáveis pelos projectos PISCJA e RODA facilitaram o processo, aplicando eles próprios os questionários às crianças e jovens com quem estão diariamente. Nestes casos, a recolha e levantamento de informação correspondem a uma metodologia não-directiva. A administração do instrumento, no caso das crianças e jovens do Bairro do Armador, foi realizada numa sala da Biblioteca Sophia de Mello Breyner Andersen e, no caso das crianças e jovens do Bairro de Alfama, foi realizada nas instalações da Associação de Tempos Livres de Alfama.

Relativamente ao modo de administração do nosso instrumento de estudo, foi evidente ao longo de toda a investigação, a existência de uma boa relação pessoal entre a investigadora e os participantes, acreditando firmemente nos benefícios de uma investigação participativa e colaborativa, sem barreiras institucionais entre a facilitadora e os colaboradores do estudo. A investigação e a metodologia utilizada, para além de permitir o conhecimento teórico nesta área com esta população, transmitiu às crianças e jovens envolvidos a adequação possível entre a pedagogia e o lúdico e a importância de abordar aspectos relevantes para os próprios. A grande maioria dos nossos participantes nunca tinha participado num estudo ou investigação, onde fossem eles os agentes primordiais e centrais de uma investigação colaborativa e onde lhes fosse permitido expressar livremente as opiniões e vontades, sem pressões e julgamentos. Para os resultados encontrados também foi importante, a empatia da investigadora com os participantes, na medida em que o instrumento era demasiado longo, o que dificultava a concentração até ao fim.

 

RESULTADOS

Expõe-se, em seguida, uma síntese dos resultados. Começamos por apresentar a análise descritiva dos dados demográficos dos participantes por bairro, para ter em consideração as características da amostra em estudo. Seguidamente, apresentamos a análise inferencial da principal questão de investigação.

Como já foi referido, 15 dos participantes da nossa amostra pertencem ao Bairro do Armador e outros 15 ao Bairro de Alfama, perfazendo um total de 30 crianças e jovens, dos 7 aos 15 anos de idade. No que diz respeito ao género dos 30 participantes, as frequências estão mais ou menos equilibradas, sendo que 53.3% (16) pertencem ao sexo feminino e os restantes 46.7% (14) pertencem ao sexo masculino. No Bairro do Armador (N=15) a maioria dos participantes, cerca de 73.3% (11) pertencem ao sexo feminino e os outros 26.7% (4) são do sexo masculino. No Bairro de Alfama cerca de 66.7% (10) são do sexo masculino e os restantes 33.3% (5) pertencem ao sexo feminino.

Relativamente ao escalão etário dos 30 participantes, a grande maioria, cerca de 40% (12), situa-se entre os 10 e aos 12 anos de idade, cerca de 36.7% (11) representam os participantes entre os 7 e os 9 anos, sendo que os restantes 23.3% (7) representam o escalão etário dos mais velhos, dos 13 aos 15 anos de idade. No Bairro do Armador a maioria das idades dos participantes, cerca de 46.7% (7), situa-se entre os 10 e os 12 anos de idade. No Bairro de Alfama, a maioria das idades dos participantes, 60% (9), situa-se no escalão etário dos mais novos, entre os 7 e os 9 anos de idade (ver Gráfico 1).

 

GRÁFICO 1

Dados demográficos relativos ao escalão etário da amostra

 

Em relação ao nível de escolaridade dos participantes dos dois bairros, cerca de 56.7% (17) das crianças frequentam o 1º ciclo, 36.7% (11) dos jovens estão matriculados no 2º ciclo e só apenas 6.7% (2) frequentam o 3º ciclo. No Bairro do Armador, por ser uma amostra composta por participantes mais velhos, 47% dos participantes frequentam o 2º ciclo, 40% o 1º ciclo e os restante 13% o 3º ciclo. No Bairro de Alfama, por ser uma amostra mais jovem, a maioria dos participantes, cerca de 73% andam no 1º ciclo e os outros restantes 27% no 2º ciclo.

A constituição do agregado familiar dos 30 participantes é variável. A grande maioria das crianças e jovens, 33.3% (10), residem com os pais e irmãos, 23.3% (7) estão inseridos em famílias monoparentais, residindo apenas com a mãe e irmãos, e cerca de 16.7% (5) residem apenas com os pais, sendo filhos únicos. Em relação ao Bairro do Armador, cerca de 26.7% (4) residem só com os pais, outros 26.7% (4) residem em famílias monoparentais, só com a mãe e irmãos. No que diz respeito ao Bairro de Alfama, a maioria dos participantes, 53.3% (8), residem com os pais e os irmãos, cerca de 20% (3) residem apenas com a mãe e os irmãos. Os restantes participantes, em ambos os bairros, residem com os pais, irmãos e avós ou só com os pais ou só com os avós (ver Gráfico 2).

 

GRÁFICO 2

Dados demográficos relativamente ao agregado familiar da amostra

 

Feita a caracterização da nossa amostra, iremos proceder à análise descritiva das categorias que compõem a escala de satisfação de vida (família; amigos; próprio; escola e ambiente envolvente) e das categorias da escala de sentimento de comunidade (fazer parte de; influência; integração e satisfação das necessidades e partilha de ligações emocionais), em separado por categorias e por bairro, identificando desta forma características importantes para o nosso estudo.

Importa referir que designaremos por B1 o Bairro do Armador e por B2 o Bairro de Alfama. Relativamente às questões que compõem o questionário, algumas assumem uma conotação positiva e outras uma compreensão negativa para a vida do sujeito, as quais designaremos por questões positivas e negativas.

A categoria Amigos é composta pelas questões “os meus amigos são simpáticos comigo”, “os meus amigos são bons”, “os meus amigos ajudam-me quando preciso”, “os meus amigos tratam-me bem” e os “meus amigos significam muito para mim”. Em relação a esta categoria, o Bairro do Armador apresenta homogeneidade nas respostas para a maioria das questões. A grande maioria dos participantes responderam entre as opções mais cotadas que, neste caso, são representadas pelas opções “concordo” e “concordo muito”. Ainda nesta categoria, existem perguntas com alguns outliers, ou seja, que respondem à pergunta não de acordo com o padrão de resposta verificado (ver Gráfico 3). No Bairro de Alfama esta categoria apresenta uma grande satisfação ao nível dos amigos, pois os participantes respondem sempre positivamente às afirmações. Relativamente à qualidade do tempo que passam com os seus amigos, as opiniões divergem entre o “concordo” e o “discordo”, o que demonstra uma grande percepção da realidade do contexto que vivem com os seus amigos. Mas no que se refere à diversão com os amigos e à quantidade dos amigos, quase todos os participantes concordam totalmente que se divertem muito com os seus amigos e que têm bastantes amigos (ver Gráfico 4).

 

GRÁFICO 3

Categoria Amigos do Bairro do Armador

 

GRÁFICO 4

Categoria Amigos, do Bairro de Alfama

 

A categoria Família, no Bairro do Armador, é a que apresenta mais homogeneidade de respostas para todas as questões, ou seja, para todas as perguntas relativas à família a grande maioria dos participantes respondeu entre as opções “concordo” e “concordo muito”. Para os jovens dos 10 aos 15 anos de idade, que representam a grande maioria dos participantes neste bairro, esta homogeneidade de resposta parece-nos uma realidade positiva, numa fase em que os jovens querem conquistar a sua independência em relação às suas próprias famílias. Em relação ao Bairro de Alfama, a categoria Família também apresenta um grande nível de satisfação por parte deste grupo, o que seria de esperar num grupo maioritariamente constituído por crianças até aos 9 anos de idade, onde se verifica ainda uma grande ligação emocional à família. Assim, nas questões “eu gosto de passar tempo com os meus pais”, “eu gosto de estar em casa com a minha família”, “os meus pais tratam-me bem” e “os meus pais eu fazemos coisas divertidas em conjunto” todos os inquiridos concordam totalmente com as afirmações apresentadas. Importa ainda referir que para a questão “a minha família é a melhor de todas” os sujeitos na sua maioria concordam favoravelmente com a afirmação, excepto o sujeito número 12 que discorda totalmente.

A categoria Escola, no Bairro do Armador, não apresenta grandes irregularidades nas respostas apresentadas. Os participantes concordam e concordam muito que a escola é interessante, que aprendem muito na escola e que, inclusivamente, gostam das actividades escolares, algo bastante positivo de verificar em crianças/jovens dos 10 aos 15 anos de idade. No Bairro de Alfama, na categoria Escola, verificamos que as questões elaboradas numa perspectiva positiva, como “eu aprendo muito na escola”, “eu olho à volta quando vou para a escola”, “eu gosto de estar na escola”, “a escola é interessante” e “eu gosto das actividades escolares”, apresentam como tendência de resposta uma grande satisfação ao nível da escola. No que diz respeito às questões formuladas numa perspectiva negativa, analisaremos em separado. Assim, para as questões “eu sinto-me mal na escola” e “existem muitas coisas na escola que eu não gosto” as respostas divergem entre o “concordo” e o “discordo”, ou seja, nem todos os participantes entrevistados se sentem bem na escola e nem todos gostam das coisas que existem na escola. Finalmente, para a última questão formulada na negativa (“eu desejo não ir à escola”), a grande maioria dos participantes discordam, o que quer dizer que quase todos os participantes desejam frequentar a escola, o que seria de esperar, uma vez que é na escola que as crianças e jovens têm os seus amigos para conviverem, mesmo que não gostem da componente pedagógica da escola, gostam do lado mais lúdico e relacional da escola.

No Bairro do Armador, a categoria Ambiente Envolvente, surge com uma grande percentagem de participantes que concordam e concordam muito, quando questionados se gostam de viver no bairro, tanto pelas coisas interessantes que podem fazer como também pelas pessoas importantes que lá residem. Relativamente, as questões de reforço, ou seja, que questionam o mesmo, mas de forma diferente, estas deveriam apresentar semelhante tipologia gráfica. No entanto, nas questões “eu gosto da minha vizinhança” e “eu gosto dos meus vizinhos” as respostas não apresentam grande concordância como podemos verificar, o que nos leva a concluir que os participantes tiveram alguma dificuldade em compreender, por exemplo, o significado de vizinhança, o que foi demonstrado verbalmente por alguns dos sujeitos. Outro aspecto interessante de registar é o facto da maioria dos participantes afirmarem que gostam da sua vizinhança, mas também gostariam de morar noutro lugar, o que nos leva a concluir que, apesar das relações entre vizinhos serem boas, gostariam de habitar noutro espaço físico. No entanto, a grande maioria dos sujeitos na questão “a casa da minha família é agradável” respondem que concordam com a afirmação, registando-se apenas alguns outliers que discordam totalmente. Analisando esta mesma categoria, Ambiente Envolvente, no Bairro de Alfama, verificamos que existe muita concordância em questões similares, como “eu gosto da minha vizinhança” e “eu gosto dos meus vizinhos”, onde os participantes concordam totalmente com a afirmação. Para as questões “existem muitas coisas interessantes para fazer onde eu moro”, “neste bairro existem pessoas importantes” e “a casa da minha família é agradável” os resultados são idênticos, estando os sujeitos tendencialmente satisfeitos nestes itens. Para terminar, na questão que avalia no geral o gostar de viver no bairro, quase todas as crianças e jovens que compõem a amostra concordam totalmente que gostam de viver no bairro em questão.

A categoria Próprio, para o Bairro do Armador, é a única categoria formada apenas por questões na positiva e com uma conotação favorável, sendo a que apresenta mais homogeneidade nas respostas. No Bairro de Alfama, nesta categoria verificamos que praticamente todos os sujeitos concordam com as afirmações a este nível, o que nos leva a concluir uma elevada satisfação na componente que diz respeito ao foro íntimo e próprio de cada participante.

Em relação à categoria fazer parte de, da escala de Sentimento de Comunidade, o Bairro do Armador não evidencia grandes oscilações de resposta para a primeira e segunda pergunta que compõem a categoria. Relativamente à questão “são poucos os meus vizinhos que me conhecem” os participantes dividem-se entre a opção “concordo” e “discordo”. Nesta categoria, no Bairro de Alfama, os participantes consideram que conhecem a maioria das pessoas que vivem no bairro mas, por outro lado, afirmam que são poucos os vizinhos que os conhecem a eles. Na questão “eu sinto-me em casa neste bairro” quase todos os sujeitos afirmam que concordam totalmente.

No Bairro do Armador, na categoria de influência, os participantes não consideram-se grandes agentes com influência no bairro, nunca demonstrando uma concordância total nas questões elaboradas para avaliar o grau de influência. Desta forma, analisa-se que a grande maioria dos sujeitos “discordam” e “discordam totalmente” em relação ao poder e influência que os participantes sentem sobre a realidade do bairro. Já em relação ao Bairro de Alfama, nesta componente de influência sobre o bairro as opiniões dividem-se, com metade dos participantes a concordar totalmente com as afirmações e a outra metade a discordar. A última afirmação que refere “eu preocupo-me com o que os meus vizinhos pensam acerca das minhas atitudes”, constatamos que as opiniões divergem entre o “concordo totalmente” ao “discordo totalmente”, o que seria de esperar neste grupo etário tão novo, onde as crianças e os jovens que ainda não se preocupam com o que os outros pensam acerca do que fazem.

Para a categoria integração e satisfação das necessidades, no Bairro do Armador, verificamos uma divergência significativa nas questões apresentadas. A grande maioria dos participantes para a questão “eu penso que o meu bairro é um bom sítio para viver” afirmam que “concordam” e “concordam muito”, no entanto para a pergunta “as pessoas neste bairro não têm as mesmas atitudes” grande parte dos sujeitos referem que “concordam” e “concordam totalmente” com a afirmação. Relativamente, “aos meus vizinhos e eu queremos as mesmas coisas do bairro” os inquiridos dividem-se entre o “concordo” e o “discordo”. Para esta mesma categoria no Bairro de Alfama, temos grande parte dos sujeitos que concordam que “o bairro é um bom sítio para viver” o que demonstra uma grande satisfação e integração no bairro de residência. Para a questão “os meus vizinhos e eu queremos as mesmas coisas do bairro”, também temos que a grande maioria dos participantes a concordarem com a afirmação. Para finalizar e em relação ao item “as pessoas neste bairro não têm as mesmas atitudes” verificamos também que as respostas divergem entre a opção “concordo” e a opção “discordo”, o que demonstra que nem todos os sujeitos consideram que as pessoas no bairro tenham as mesmas atitudes.

A última categoria em análise da escala Sentimento de Comunidade diz respeito à partilha de ligações emocionais. No Bairro do Armador verificamos concordância em duas das questões que caracterizam a categoria e que se cruzam no seu significado. Assim, em relação aos items “é muito importante viver neste bairro” e “espero viver neste bairro por muito tempo” os sujeitos, na sua maioria, afirmam que “concordam” e “concordam totalmente” com as afirmações. Contudo, apesar de sentirem uma ligação emocional muito forte em relação ao bairro, todos os sujeitos do grupo afirmam que, por vezes, as pessoas no bairro não se dão umas com as outras, ou seja, ocasionalmente têm algumas divergências entre si, mas que isso não impede a forte ligação emocional por parte das crianças e jovens entrevistados no que diz respeito ao bairro onde vivem. No Bairro de Alfama, nesta categoria, registamos que a grande maioria dos participantes concorda com as afirmações, o que demonstra uma forte ligação emocional ao bairro. Em relação à afirmação “as pessoas neste bairro, às vezes não se dão umas com as outras” as opções dividem-se, ou seja, metade dos participantes considera que as pessoas do bairro por vezes não se relacionam bem umas com as outras e outros sujeitos pensam que não, todos os residentes no bairro se relacionam bem.

Para terminar a nossa apresentação dos resultados e respondendo à nossa questão principal de investigação, onde pretendíamos verificar a relação positiva e direccional entre o sentimento de comunidade e a satisfação de vida, comprovámos, através do coeficiente de correlação de Pearson, que o nível de correlação entre as duas variáveis em estudo é relativamente forte (ver Quadro 1).

 

QUADRO 1

Coeficiente correlação Pearson para as variáveis Satisfação de Vida e Sentimento de Comunidade

 

Este coeficiente de correlação permite avaliar a magnitude ou direcção da associação existente entre duas variáveis em estudo, quando estas assumem um nível de mensuração pelo menos ordinal. Isto significa que um aumento de magnitude, de uma das variáveis está directamente associado a um aumento linear da outra variável, ou seja, o aumento significativo da variável independente sentimento de comunidade pressupõe também um aumento do nível da variável dependente satisfação de vida.

Visto o quadro em cima, verificamos que o nível de correlação entre as duas variáveis em estudo, é relativamente forte, uma vez que, é superior ao valor zero e ligeiramente superior a 0.5. Isto significa que um aumento de magnitude de uma das variáveis tem associado um aumento linear da outra variável, ou seja, o aumento significativo da variável sentimento de comunidade pressupõe também um aumento do nível da variável satisfação de vida, o vice-versa também é válido.

Também verificamos que existem diferenças relevantes entre estas variáveis nos dois grupos. Ou seja, no bairro considerado mais histórico, antigo e típico de Lisboa, como o Bairro de Alfama, onde estão presentes ligações mais fortes de vizinhança e ligações de identificação com a comunidade de residência, existe um maior grau de sentimento de pertença e de identidade com o bairro e, consequentemente, visto ser proporcional, um maior nível de satisfação e qualidade de vida. No Bairro do Armador, um bairro de realojamento social relativamente recente, ainda se encontram em fase de construção e intensificação as relações socais de vizinhança e a identificação ao lugar de residência.

 

REFLEXÕES E CONCLUSÕES

Para a presente investigação, optámos por escolher como objecto de análise o sentimento de comunidade, um dos valores da Psicologia Comunitária, porque este conceito tem assumido um papel central no campo da Psicologia Comunitária, nos últimos anos. Este refere-se à qualidade do intercâmbio pessoal (relacionamento interpessoal) em prol de contextos saudáveis e sustentáveis a níveis pessoais e comunitários (Davidson & Cotter, 1991). Contudo, a relação existente entre o sentimento de comunidade e a satisfação e qualidade de vida é pouco explorada teoricamente e poucos estudos publicados existem nesta área. Com este estudo pretendemos dar resposta à questão principal de investigação, relacionada com a existência de uma ligação forte e direccional entre o sentimento de comunidade e a satisfação e qualidade de vida.

No grupo de jovens participantes, residentes de dois bairros da cidade de Lisboa (Armador e Alfama), foi possível encontrar uma correlação significativa entre o sentimento de comunidade e a satisfação e qualidade de vida, garantindo, desta forma, a consistência interna da experiência do terreno e da teoria da academia.

Quanto maior for a intensidade dos elementos que identificam e definem as qualidades específicas do sentimento de comunidade, como: fazer parte de, influência, integração e satisfação das necessidades e partilha de ligações emocionais em relação a uma comunidade de residência, maior serão os benefícios quer a nível individual, quer a nível comunitário. Para os indivíduos, o benefício resultante do sentimento de comunidade providencia índices subjectivos de qualidade e satisfação de vida, como podemos verificar com

o nosso grupo de participantes. O facto de as pessoas apresentarem maior sentimento comunidade para com um grupo e/ou um bairro, reflecte-se num maior sentimento de pertença, num maior sentimento de controlo e influência sobre o grupo, possibilitando, deste modo, uma satisfação real das necessidades tendo em conta as capacidades do grupo e a história em comum, possibilitando também uma ligação emocional e um investimento face ao grupo (Davidson & Cotter, 1991).

A investigação realizada nesta área tem evidenciado que quanto maior for a intensidade do sentimento de comunidade, maior serão os benefícios a nível individual e a nível comunitário. A nível individual, um maior sentimento de comunidade reflecte-se no aumento do bem-estar individual (Dalton & Elias, 2001), da qualidade e satisfação de vida individual (Dalton & Elias, 2001), do sentido de justiça social (Dalton & Elias, 2001), da saúde mental (Davidson & Cotter, 1991), do capital social (Tennent, Farrell, & Tayler, 2005), num maior sentimento de identificação e de autoconfiança (Prezza & Constantini, 1998), maiores níveis de participação comunitária (Dalton & Elias, 2001) e menor sentimento de solidão (Prezza, Amici, Roberti, & Tesdeschi, 2001). A nível colectivo, os resultados da investigação apontam para que a relação entre o sentimento de comunidade e uma: maior colaboração e força comunitária (Dalton & Elias, 2001); maior mobilização da comunidade para as soluções dos seus problemas comuns (Prezza & Constantini, 1998) e maior construção do sentido de comunidade.

A melhoria da qualidade e satisfação de vida percepcionada através do sentimento de pertença a uma comunidade é directamente influenciada, por componentes específicas e dominantes da vida, como a família, os amigos, a escola, o próprio, os vizinhos e o bairro. No Bairro de Alfama, onde verificamos um maior sentimento de pertença ao bairro, também constatamos um maior nível de qualidade e satisfação de vida, comparativamente com o Bairro do Armador, o que demonstra a importância do ambiente envolvente na vida das pessoas.

Para os indivíduos, numa primeira instância, e para a comunidade, os níveis de qualidade e satisfação de vida funcionam como experiências e recursos positivos para proteger a saúde biopsicossocial. A participação activa na comunidade, o envolvimento efectivo em organizações políticas e a mobilização comunitária em torno dos problemas sociais, afastam por completo níveis baixos de satisfação de vida, os quais estão mais relacionados com situações de depressão, rejeição pessoal, solidão, comportamentos agressivos, consumo de álcool e abuso de substâncias químicas.

Os fenómenos resultantes do envolvimento cívico e da participação comunitária na comunidade de residência, para além de permitirem um real entendimento da noção de comunidade, resultam num excelente mecanismo para a resolução dos problemas comunitários, para a emergência do sentimento de pertença e para o desenvolvimento de um maior nível de coesão e bem-estar dos seus membros no decurso dos processos de mudança (Ornelas, 1998).

“O Sentimento de comunidade e de pertença em relação a uma vizinhança, a preocupação demonstrada pelos outros e o acreditar que alguém se preocupa com o(a) próprio(a) são atitudes cruciais que podem apoiar ou desencorajar a participação” (Ornelas, 2002, p. 11). Se o nosso objectivo for a compreensão do envolvimento cívico e da participação comunitária, as associações de vizinhança devem ser vistas como foco ideal para a intervenção, pois oferecem aos cidadãos a oportunidade de discutir os problemas da comunidade com os vizinhos.

Cada vez mais verificamos uma maior organização e mobilização das comunidades em tornos dos seus próprios problemas e necessidades, com base nas suas potencialidades e recursos: Este envolvimento e participação dos cidadãos, numa localidade específica e nos processos de decisão a favor da comunidade, contribui significativamente para o aumento do sentimento de pertença e identidade de comunidade e promove um maior índice de satisfação e qualidade de vida dos indivíduos.

Como o objectivo da presente investigação foi a análise do sentimento de comunidade em crianças e jovens de dois bairros residenciais diferentes e a relação encontrada entre a satisfação e qualidade de vida, optámos por entrevistar os nossos participantes sobre aspectos como o bairro (ambiente envolvente) e os vizinhos para aferir o nível percepcionado de sentimento de comunidade e os aspectos relacionados com o próprio, a família, a escola e os amigos, para investigar o índice de satisfação e qualidade de vida percepcionada. No nosso estudo concluímos que as crianças e jovens com maiores índices de qualidade e satisfação de vida são as mesmas que apresentam maior envolvimento cívico no bairro de residência e, consequentemente, maior sentimento de comunidade.

Desta forma e de um modo geral, os resultados obtidos demonstram uma relação significativa existente entre as duas variáveis em estudo, ou seja, o sentimento de comunidade e a satisfação de vida. Assim, o aumento da magnitude do sentimento de pertença e de identificação a uma comunidade está associado a um aumento linear do nível de satisfação e qualidade de vida individual, como podemos verificar mais significativamente com o grupo de crianças e jovens residentes do Bairro de Alfama.

Para finalizar, gostaríamos ainda de incluir algumas pistas e indicações para futuras e novas investigações. Seria interessante utilizar o mesmo instrumento de investigação em outros estudos teóricos, uma vez que o instrumento que avalia a satisfação de vida é bastante rico, no que diz respeito à análise e comparação entre as diversas categorias. Futuramente, poder-se-ia também realizar um estudo de triangulação com outros actores chaves para estes participantes, como pais, vizinhos, amigos e/ou professores e fazer um estudo etnográfico para análise e cruzamento de dados destes mesmos participantes nos seus contextos reais de integração e intervenção. Por outro lado, o alargamento desta investigação aos adultos permitiria verificar se existem diferenças significativas comparativamente com os jovens. À semelhança da investigação realizada por Prezza, Amici, Roberti, e Tesdeschi, em 2001, em três diferentes regiões, seria também interessante aplicar este estudo em comunidades de diferentes dimensões e características, para analisar as possíveis diferenças entre o ambiente urbano e o rural.

 

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