Introdução
A teorização em enfermagem tem sido notória desde a década de 1950, resultando num incremento significativo da disciplina e do ensino, além de influenciar a prática por meio do desenvolvimento de um corpo de conhecimentos próprio e específico que promoveu a sua autonomia como área científica e o seu reconhecimento como ciência (Bergdahl & Berterö, 2023; Meleis, 2018). No entanto, este período de intensa produção teórica, entre as décadas de cinquenta e noventa do século passado (Bergdahl & Berterö, 2023; Meleis, 2018), levou à necessidade de organizar o corpo de conhecimentos de enfermagem, o que fez emergir os padrões de conhecimento e metaparadigmas (Carper, 1978; Fawcett, 2023; Meleis, 2018).
O desenvolvimento da teorização em enfermagem é também definido pelas suas eras históricas, visando a especialização do conhecimento: a era da pesquisa (estudos baseados em teorias para a unificação do conhecimento de enfermagem) nos anos de 1950 a 1970; a era da teoria (estas teorias orientam a pesquisa e a prática de enfermagem) nos anos de 1980 a 1990, e a era da utilização da teoria (a base da enfermagem é o conhecimento/evidência visando o cuidado de qualidade) no século XXI (Alligood, 2013).
A construção da teoria é necessária para o avanço do conhecimento de uma disciplina, pois estabelece e fortalece a sua posição na academia. Logo, a compreensão do seu processo de construção (teorização) é imprescindível para saber o que é a “teoria” e o que ela representa. Além disso, é pertinente compreender porque se constrói teoria (Brandão et al., 2018; Brandão et al., 2019).
Para o desenvolvimento de teorias, a abordagem pode ter 4 formas: teoria-prática-teoria (uso de uma teoria não-enfermagem/teorias emprestadas para redefinir os componentes de acordo com a nova teoria); Prática-Teoria (observação do fenómeno de interesse, análise de similaridade e diferença, com derivação teórica de situações clínicas); pesquisa para a teoria (seleção de um fenómeno de interesse, descrição das suas características, no qual os achados da pesquisa possam apoiar a teoria); e teoria-pesquisa-teoria (modificação para aperfeiçoamento/teste da teoria com base em pesquisas, uma nova teoria pode ser formada; Meleis, 2018; Walker & Avant, 2019).
No campo da Enfermagem, é necessária a especificação clara do propósito da mesma, relacionando-o com o contexto sociopolítico e clínico-epidemiológico dos cuidados de enfermagem (Brandão et al., 2018; Brandão et al., 2019). Esta especificação facilitará a estruturação das etapas de desenvolvimento de uma teoria, seguindo determinadas técnicas, descritas em detalhe e executadas de forma rigorosa, respeitando a autonomia do teórico (Brandão et al., 2018; Walker & Avant, 2019).
As etapas podem incluir a contextualização de desenvolvimento e sua finalidade, previamente definida; a análise do conceito/análise da teoria, dependendo da estratégia de desenvolvimento da teoria; identificação e definição de proposições teóricas e pressupostos modelando a teoria, e orientação para o uso da teoria. Essas etapas podem ter uma ordem ajustada e variada de acordo com cada caminho metodológico, em conformidade com a justificativa, o rigor científico, a criatividade e a autonomia do teórico (Meleis, 2018). O teórico questiona-se frequentemente; este percurso metodológico tem sido utilizado? E sustenta-se em que tipo de pensamento?
Nos últimos anos, a enfermagem tem-se dedicado ao desenvolvimento de teorias para a prática profissional, tais como teoria de médio alcance e teoria de situação específica, sendo que estas construções necessitam de análises, avaliações e aplicabilidade mais aprofundadas, pois as instruções e replicabilidade do percurso metodológico são por vezes pouco claras (Chinn et al., 2021).
Considera-se que um dos aspetos dessa fragilidade seja a questão da criação do conhecimento em Enfermagem, pois são poucos os produtos de reflexão sobre o desenvolvimento das teorias para a práxis de enfermagem, sustentadas nas conceções da epistemologia da Enfermagem. Assim, continuamos a refletir sobre as seguintes questões: as teorias representam ou não a prática? (questão ontológica); as teorias aproximam-se cada vez mais da realidade ao longo do tempo? (questão epistemológica) (McEwen & Wills, 2021).
A importância das teorias é reconhecida na academia, mas nem sempre na prática profissional, apesar de a enfermagem estar ancorada em teorias essenciais para a formação de cada enfermeiro (Walker & Avant, 2019). Os enfermeiros são guiados por alguma teoria implícita ou explícita, ou padrão de pensamento, enquanto cuidam. Muitas vezes, esse padrão de pensamento é implícito e pautado por focos como as doenças e os tratamentos, no que diz respeito à prática, formação e mesmo à investigação (problemáticas de estudo e seu enquadramento teórico-científico; Chinn et al., 2021). Entretanto, isto não se reflete em avanço na perspetiva disciplinar da enfermagem (Watson, 2018).
A elaboração de teorias confere espessura ao corpo de conhecimentos específico e próprio da disciplina, o que é fundamental para a investigação, formação e clínica (McEwan & Wills, 2021). Assim, tem permeado o pensamento das autoras as seguintes indagações: como construir teorias para a prática da Enfermagem? Como deve ser o pensamento do teórico no desenvolvimento da disciplina?
Face ao exposto, este ensaio teórico-reflexivo foi elaborado e fundamentado durante o período de março de 2022 a julho de 2023, após levantamento bibliográfico em base de dados eletrónicas e livros proeminentes, privilegiando autores de referência da Enfermagem. Seguindo-se da discussão entre investigadores portugueses e brasileiros que trabalham em conjunto com os seus grupos de investigação potenciando sinergias, e que aplicam referenciais teóricos e metodológicos na construção de teorias no ensino, investigação e prática clínica.
Posto isto, este ensaio teórico-reflexivo teve como objetivo refletir sobre a construção de teorias no desenvolvimento do conhecimento da Enfermagem.
Desenvolvimento
Características definidoras de teoria
Existem várias definições de teoria, mas definida de maneira elementar uma teoria procura explicar e prever um fenómeno numa ordem sequencial: descrever, explicar e prever a realidade (Meleis, 2018; Walker & Avant, 2019). Ainda, as autoras referem que uma teoria é estabelecida como uma ou mais conceptualizações relativamente concretas e específicas que são derivadas de um modelo conceptual e das suas proposições, as quais descrevem relações concretas e específicas entre dois ou mais conceitos. É um grupo internamente consistente de declarações que apresenta uma visão sistemática sobre um fenómeno (Meleis, 2018). Pode haver um conjunto de definições que são específicas dos conceitos da teoria. E, geralmente, é construída para expressar uma nova ideia ou uma nova visão da natureza de um fenómeno de interesse (Walker & Avant, 2019).
Contudo, a literatura científica é enfática em afirmar que uma teoria deve ter vários méritos que contribuam para o avanço de um campo de pesquisa. Primeiro, uma boa teoria deve ser clara e logicamente integrada (Watson, 2018). Em segundo lugar, a teoria deve fornecer insights originais, ter utilidade, ser relevante para a prática e ser presciente o suficiente para cumprir o que promete (McEwan & Wills, 2021). Terceiro, a teoria deve permitir descrever, explicar, prever (os blocos de construção entrelaçados da teoria) e, finalmente, controlar fenómenos, e para ser válida é definida como um conjunto totalmente explicado de relações conceptuais e que possam ser submetidas a testes empíricos (Meleis, 2018).
Os elementos que devem compor uma teoria são: o quê e como formam o domínio de uma teoria, bem como o aspeto porquê, o qual diz respeito às dinâmicas subjacentes que justificam os fatores selecionados e as relações propostas e pressupostos da teoria; ainda, o último elemento, mesmo que imponha limitações às relações que a teoria propõe, é o quem, onde e quando (Meleis, 2018). Estes componentes auxiliam não só na construção de uma teoria, mas também na sua sustentabilidade (Chinn et al., 2021).
Também é fundamental distinguir os focos da teorização: geração, teste e elaboração da teoria. A elaboração da teoria, em particular desempenha um papel no processo mais amplo de criação de conhecimento. Esse processo inclui tanto a geração de teorias- a criação de novas teorias, seja de forma dedutiva ou indutiva- quanto o teste dessas teorias, que consiste em avaliar se e em que condições resistem a análise empírica (Walker & Avant, 2019).
A geração de teoria oferece não apenas novas ideias teóricas, mas também proposições e constructos testáveis. O processo pode começar com a observação de um fenómeno ainda não explicado e, a partir de dados, induzir novos conceitos e relações (geração indutiva de teoria). Alternativamente, pode-se utilizar argumentos sólidos, baseados em em teorias já existentes, para criar novos constructos e estabelecer relações (Walker & Avant, 2019).
O teste da teoria expõe ideias teóricas à análise empírica; ele inicia-se com hipóteses formais, originadas da teoria existente. Os investigadores colhem e avaliam dados que podem servir como evidências para apoiar essas hipóteses. Com isso, é possível que aceitem ou rejeitem as hipóteses propostas pela teoria (Brandão et al., 2019).
Por isso, na atualidade, muitos estudiosos de enfermagem desenvolvem as suas investigações tendo como ponto de partida a prática dos enfermeiros para gerar teorização, acentuando-se a emergência das “teorias da prática” em detrimento das “teorias clássicas” (Chinn et al., 2021; Mc Ewan & Wills, 2021). Deste modo, a contribuição teórica consiste num novo padrão teórico ou abordagem que emerge de dados empíricos da prática (McEwan & Wills, 2021).
Tipos de raciocínio para o desenvolvimento de teorias
Há uma tendência de começar a teorizar por meio de análise de conceito, dependendo do número de fenómenos, mas nesta fase recomenda-se selecionar a técnica/modelo de análise de acordo com o conceito a ser analisado (Walker & Avant, 2019).
Os modelos mais utilizados na enfermagem são propostos por autores (Walker & Avant, 2019), mas outros podem ser usados dependendo do conceito e teoria a ser desenvolvidos (Meleis, 2018).
A estratégia dedutiva de desenvolver teorias ao ser considerada, implica na necessidade de realizar a síntese e derivação (Walker & Avant, 2019). Para isso, é necessária a capacidade de visualizar a dimensão analógica do fenómeno em dois contextos, ou campos de interesse distintos, e também é necessária a capacidade de redefinir e transpor o conteúdo e a estrutura de um contexto ou campo para outro (Swanson & Chermack, 2013).
Nesta proposta, os principais componentes (conceitos, proposições, modelagem e suposições) de grandes teorias são aproximados de fenómenos, prestando atenção à seleção da grande teoria adequada para a derivação teórica (Walker & Avant, 2019).
A primeira dimensão a ser considerada é a lógica sobre a qual a teoria se baseia (Swanson & Chermack, 2013). As questões relevantes para descrever a teoria nesta dimensão incluem: os componentes da teoria estão conectados de forma sequencial? Trata-se de uma teoria de tipo fator? A teoria é construída em torno de conceitos e, portanto, é uma teoria concatenada? (Meleis, 2018).
A segunda dimensão a ser considerada é a do sistema de relações. As perguntas a serem feitas incluem: as relações explicam os elementos ou os elementos explicam as relações? (Meleis, 2018). Uma abordagem monádica na construção de teoria vê as unidades irreduzíveis e únicas, enquanto uma abordagem de campo analisa a unidade em relação a várias de mini unidades (Swanson & Chermack, 2013).
No entanto, limitar-se a apenas uma abordagem ou a uma estratégia pode não conduzir ao desenvolvimento bem-sucedido de teoria, pois à medida que uma teoria é construída, o uso de uma estratégia pode levar diretamente a uma segunda estratégia que desenvolve ainda mais a nova teoria (Meleis, 2018).
Nenhuma estratégia vai suprir todas as necessidades de construção de teoria que possam surgir dentro de uma área de atuação ou mesmo dentro da disciplina. O teórico precisará determinar qual é o status atual da base de conhecimento antes de selecionar uma estratégia a ser usada. Uma vez selecionada, ela deve ser usada até que não forneça informações adicionais sobre o tópico de interesse, e quando os limites são atingidos é o momento de recorrer a outra estratégia (Meleis, 2018).
A construção da teoria é um processo interativo, denominado retrodução, que envolve a aplicação sequencial de indução e dedução para chegar a uma formulação teórica adequada (Swanson & Chermack, 2013).
Para isso, o teórico deve, inicialmente, identificar várias proposições específicas e, a partir delas, induzir uma proposição mais geral. Na segunda fase da retrodução, utiliza-se a nova proposição para deduzir outras proposições novas e mais específicas (Meleis, 2018). Considera-se que as as únicas estratégias indutivas puras são aquelas de síntese, já que se baseiam claramente em dados (Meleis, 2018).
Assim, considera-se que cada estratégia é independente e, no entanto, cada uma é interdependente das outras. Cada estratégia fornece ao teórico informações únicas, mas todas elas geram ideias produtivas para o desenvolvimento da teoria (Walker & Avant, 2019).
O processo de desenvolvimento conceptual varia de acordo com o método de construção da teoria utilizado pelo teórico. No entanto, no mínimo, esse processo incluirá o desenvolvimento dos elementos-chave da teoria, uma explicação inicial da sua interdependência e as limitações gerais e condições sob as quais se pode esperar que o quadro teórico funcione (Walker & Avant, 2019). O que decorre desta fase é uma estrutura conceptual explícita e informada, que muitas vezes assume a forma de um modelo e/ou metáfora desenvolvidos a partir do conhecimento e da experiência do teórico com o fenómeno (Fawcett, 2022).
A fase de conceptualização é uma das duas fases que dominam a componente dedutiva de hipótese e teorização da construção de teoria em disciplinas aplicadas. Aqui, o teórico conduz a investigação académica sobre o domínio, fenómeno ou problema que é o núcleo da teoria (Swanson & Chermack, 2013).
O objetivo da fase de operacionalização da pesquisa de construção de teoria é prático. A operacionalização de uma teoria precisa de ser confirmada e/ou testada no contexto do mundo real (Swanson & Chermack, 2013).
Para que o quadro teórico evoque confiança, a explicação inicial do fenómeno, problema ou questão incorporada na estrutura, deve ser aplicada e empiricamente confirmada no mundo em que o fenómeno ou o problema ocorre. Para alcançar essa confirmação necessária, o referencial teórico deve ser traduzido ou convertido em componentes/elementos observáveis e confirmáveis (Swanson & Chermack, 2013).
Esses componentes/elementos podem estar na forma de, por exemplo, proposições, hipóteses, indicadores empíricos e/ou o designado conhecimento de reivindicações (Fawcett, 2022), e são abordados por meio de métodos de investigação apropriados, dependendo do método de construção de teoria que está a ser usado pelo teórico.
A fase de confirmação ou desconfirmação enquadra-se na componente prática da construção da teoria aplicada. Esta fase de construção de teoria envolve o planeamento, o projeto, a implementação e a avaliação de uma agenda de pesquisa, e estudos apropriados para informar e confirmar intencionalmente ou desmentir a estrutura teórica central para a teoria (Swanson & Chermack, 2013). Quando abordada, adequadamente, essa terceira fase resulta em uma teoria confirmada e confiável que pode ser usada com alguma confiança para informar melhor ação e prática (Brandão et al., 2019).
Um resultado importante dessa fase de aplicação da construção é que ela permite que o teórico use a experiência e a aprendizagem da aplicação no mundo real para informar, desenvolver e refinar a teoria. É na aplicação de uma teoria que a prática consegue julgar e informar a utilidade e relevância para melhorar a ação, e a resolução de problemas (Swanson & Chermack, 2013). Portanto, é por meio dessa aplicação que o mundo prático se torna uma fonte essencial de conhecimento e experiência para o desenvolvimento contínuo da teoria (Reed, 2022).
A aplicação de uma teoria no mundo prático é basilar enquanto fonte do conhecimento e experiência para a contínua jornada na (re)contrução da teoria. Ainda que se considere que a investigação de construção da teoria são de uma dupla natureza dedutiva-indutiva, embora haja uma necessidade de melhor compreensão da forma do uso desta dupla concepção, alguns métodos de investigação de construção de teorias podem começar com a dedução, em algum momento eles tornam-se informados por indução (Walker & Avant, 2019). Com outros métodos de construção de teoria, a relação entre dedução e indução pode ser o contrário.
Importância da construção de teorias para o desenvolvimento da disciplina
No estádio atual do desenvolvimento do conhecimento em Enfermagem, é consensual a importância da construção de teorias, reconhecendo-se que a mesma confere significado ao conhecimento, constituindo um modo organizado e sistematizado de identificar e expressar as ideias principais acerca da essência da prática (Watson, 2018).
A história da disciplina, sobretudo as obras das autoras que marcaram o advento da Enfermagem moderna, revela a intensa teorização a partir da década de 1950 nos Estados Unidos, visando responder a um dos grandes desafios da mesma, nomeadamente, a distinção entre o saber da Enfermagem e o saber Médico, enquanto condição de uma prática (de cuidados) igualmente distinta (Aligood, 2014). Atualmente, a construção de teorias de/para a Enfermagem tem como foco consolidar o conhecimento já produzido, com o intuito de responder à questão: qual é o saber próprio da Enfermagem? (Brandão et al., 2018).
Essa necessidade de clarificação emerge num contexto teórico mais alargado do âmbito das ciências da saúde. Conceito sobre o qual a Enfermagem prossegue a desenvolver-se enquanto disciplina e profissão como parte importante do seu mandato social (Fawcett, 2022). Para tornar o cuidar de enfermagem compreensível (Reed 2022; Rodgers, 2021), sem que se confunda com o de outros profissionais, torna-se necessário, antes de mais nada, um processo de autodefinição e de autoclarificação, de se saber dizer - a si e aos outros - para que é essencial o desenvolvimento de uma linguagem profissional clara e significativa (Watson, 2018). Para cumprir este desiderato, a construção de teorias configura-se como da maior importância e pertinência.
Existem duas razões fundamentais para o desenvolvimento de teorias de/para a Enfermagem (Meleis, 2018). Por um lado, o desenvolvimento da teoria é um meio de estabelecer claramente a enfermagem como profissão (Watson, 2018; Reed, 2022). Por outro lado, a importância do desenvolvimento da teoria motivado pelo valor intrínseco da mesma; em termos simples, a teoria pode ajudar os enfermeiros a desenvolver e enriquecer a sua compreensão do que é a prática e do que ela pode ser (Meleis, 2018; Brandão et al., 2018).
Ou seja, a partir do conceito de cuidar, cada vez mais transversal ao campo da saúde, discernir e assumir claramente qual a vertente de cuidar que cabe à enfermagem na sua especificidade (Queirós, 2022).
Retomando a ideia inicial - de que a teoria confere significado ao conhecimento e identifica, de um modo sistematizado, as principais ideias acerca da essência da prática - enfatiza-se a necessária clarificação do tipo de conhecimento sobre o qual a profissão se baseia (Watson, 2018). Este tipo de conhecimento é produzido pela academia e divulgado por meio de publicações, pelas quais o conhecimento prático e individual dos enfermeiros deve ser sustentado no conhecimento disciplinar. Ainda, acrescenta o autor, quando o conhecimento disciplinar não dá suporte à enfermagem profissional, emerge um hiato teoria-prática. Este hiato pode manifestar-se de dois modos diferentes: por um lado, importa questionar se a teoria construída é relevante ou irrelevante para a prática e, por outro lado, coloca-se a questão da translação do conhecimento. Se a teoria da enfermagem for irrelevante para a prática, então não se trata absolutamente de conhecimento de enfermagem (Watson, 2018).
A propósito da contribuição da Enfermagem para o desenvolvimento da ciência básica, a partir da década de 60 do século XX assistiu-se a um incremento da investigação de cariz social e humanista, em detrimento das ciências básicas das áreas biológicas e exatas, na tentativa de se distanciar da área médica, procurando um processo de legitimação científica próprio (Walker & Avant, 2019). Contudo, é de questionar se deste movimento resultou uma efetiva clarificação da Enfermagem, ou se, tão somente, traduz a procura que a Enfermagem ainda faz de si própria, na identificação do fenómeno - ou da perspetiva do fenómeno - que a torna única no campo das ciências e das profissões da saúde.
Nesse sentido, a questão de se saber se as construções teóricas de certos fenómenos são específicas da enfermagem, no momento do continuum de construção da disciplina e da profissão em que atualmente a enfermagem se encontra, parece que assim é!
Uma das razões deste devir da enfermagem entre as ciências ditas exatas e as ciências sociais e humanas, prende-se com a complexidade do sujeito do seu cuidado, perspetivado num ambiente igualmente complexo, cujas variáveis - físicas, emocionais, culturais, espirituais e desenvolvimentais - exercem uma influência inegável e reiteradamente mutável.
A complexidade desta díade - a pessoa no seu contexto - tem motivado mudanças frequentes e plurais na equipa de saúde, com a emergência de diversas fronteiras interdisciplinares e interprofissionais; esta situação tem requerido da Enfermagem uma constante capacidade de redefinição do seu papel e estatuto próprios, na perspetiva unitária e integral, desde há muito assumida, apoiando a ideia da necessidade de uma ciência básica de Enfermagem, consubstanciada na construção de teorias de vários níveis de abstração e generalidade (Rodgers, 2021).
Da filosofia romana da época clássica emerge o desígnio de que nada do que é humano é alheio ao humano, o qual enquadra-se na Enfermagem pois traduz bem a sua amplitude ontológica e funcional, fazendo-se necessária, mais do que nunca, a capacidade de identificar claramente o que a distingue das demais. É neste devir entre uma ontologia complexa, porque unitária e integral, e uma funcionalidade plural e igualmente complexa, que se desenham as diversas formas de pensar e dizer a enfermagem - as teorias - e as diversas maneiras de fazer a enfermagem - as práticas.
Situando-nos na construção da teoria de/em Enfermagem, autores têm postulado a importância das teorias de médio alcance, numa tentativa de aproximar as grandes teorias da prática profissional, tentando ultrapassar o hiato teoria-prática identificado, e o obstáculo que o mesmo tem constituído à evolução e consolidação efetivas da Enfermagem (Leandro et al., 2020; Meleis, 2018; Walker & Avant, 2019). Contudo, é necessário atentar para o risco de aumentar esse hiato se a construção de teorias de médio alcance não for enraizada em grandes teorias de Enfermagem (Vila-Henninger et al., 2022; Mukherjee et al., 2022), ou como assumimos anteriormente, na ciência de Enfermagem.
A este respeito, questiona-se se os investigadores que produzem teorias de médio alcance sobre uma miríade de tópicos, estão realmente a desenvolver a ciência da enfermagem ou se estão meramente a elaborar uma vasta manta de retalhos de ciência aplicada, sem relação com a disciplina globalmente considerada (Walker & Avant, 2019; Toole, 2021).
Este questionamento, entendemo-lo não como limitador da construção de teorias de médio alcance, cuja importância reiteramos, face ao suporte disciplinar que proporcionam à prática profissional; cremos, acima de tudo, tratar-se da demonstração da importância de se ter em conta as grandes teorias de enfermagem, enquanto orientação paradigmática fundamental.
Outro aspeto a considerar, no que diz respeito à construção de teorias de enfermagem, prende-se ao método de construção das mesmas - nomeadamente a indução-dedução. Com lógicas de investigação diferentes, face ao ponto de partida de questionamento do fenómeno ou objeto de estudo, e fazendo uso de dispositivos metodológicos de colheita e análise de dados afins, é importante o pressuposto de um posicionamento paradigmático que prima pela coerência dos seus elementos (Walker & Avant, 2019; Watson, 2021).
Conclusão
Esta reflexão vem reafirmar que a construção de teorias deve clarificar o domínio específico da Enfermagem, consolidando o conhecimento da mesma. Não obstante, levantam-se outras interrogações ou indagações para investigações futuras: todas as teorias de Enfermagem têm de partir de referenciais teórico-científicos de Enfermagem? As grandes teóricas da Enfermagem foram a outras disciplinas do conhecimento para obter subsídios para a construção das suas teorias. E se desenvolvermos conhecimento com base noutras disciplinas, este contribui pouco para a enfermagem? A problemática ou fenómeno em estudo é que determina o referencial teórico-científico, pois pode ser mais adequado um referencial de enfermagem ou outro, ou ambos.
É certo que este ensaio explicita algumas questões ontológicas e epistemológicas, mas naturalmente faz emergir outras para benefício do desenvolvimento da disciplina. Assim, as autoras defendem o conhecimento próprio e específico da Enfermagem, mas estão abertas a outro conhecimento; porém esse conhecimento deve transformar significativamente a Enfermagem.
Por último, o desenvolvimento da práxis através da teorização depende muito do sistema de aplicação contínuo do conhecimento na prática. As conceções teóricas e a evidência científica sustentam a prática, e esta conduz a reflexões, perguntas e desafios que exigem evolução das conceções teóricas, e ainda mais teoria para sustentar essa mesma prática. É esta articulação cíclica - teorização-ação-reflexão - que impulsiona o desenvolvimento da Ciência da Enfermagem.