Os desequilíbrios, incertezas e crises socioecológicos que atravessam a contemporaneidade (Apostolopoulou e Cortes-Vazquez 2019) despoletam ansiedades concretas sobre o futuro possível da existência de todos os seres humanos e não-humanos, e do planeta. A necessidade de agir, procurar, indagar e criar para, e sobre, um futuro possível manifesta-se assim através de diversas vozes com enfoques, objetivos, histórias de vida, linguagens, contextos socioeconómicos distintos. E, apesar de ecoarem em quadrantes de enfoque que aparentemente não se aproximam, na realidade, as dimensões da espiritualidade e religiosidade, do ambiente e da política dialogam e entrelaçam-se para lá de fronteiras analíticas, temáticas ou organizacionais, criando assim um diálogo profícuo com um objetivo comum em prol do futuro e do respeito pela vida. O movimento religioso/espiritual do paganismo contemporâneo é um exemplo de como estas dimensões se cruzam, seja nas influências do movimento, seja nas vivências das pessoas.
Assim, este artigo propõe-se refletir sobre a interseção entre a dimensão do sagrado e do político, na forma de práticas religiosas, ambientalistas, ecologistas e ecofeministas levadas a cabo por pessoas pagãs em Portugal, com base na etnografia realizada desde 2018 neste contexto para o doutoramento em Antropologia. Este trabalho realizou-se maioritariamente com pessoas que se identificavam como mulheres, de nacionalidade portuguesa e inglesa, dos 20 aos 70 anos, com cursos superiores nas áreas das artes, humanidades e ciências sociais, e cujas vivências religiosas/espirituais se dão tanto em grupos como de forma solitária; recorrendo a métodos como o trabalho de campo, entrevistas, histórias de vida, participação em eventos e etnografia online. Os estudos de caso mobilizados neste artigo referem-se ao acompanhamento da Congregação Politeísta PFI-Portugal - com quem a autora tem vindo a trabalhar desde 2016 - na Marcha pelo Clima e num ritual que sucedeu a este evento em 2018; à participação na Conferência da Deusa Portuguesa em 2019 e ao acompanhamento online da Glastonbury Goddess Conference em 2020.
Tendo como base as abordagens da religião vivida, da ecologia política e do ecofeminismo, os casos etnográficos aqui discutidos refletem de forma implícita e explícita esta relação entre o sagrado e o ecopolítico na vivência religiosa/espiritual de pessoas pagãs nestes contextos, na sua procura por respostas e soluções perante a ansiedade e incerteza despoletada pelas várias crises socioambientais da contemporaneidade. Ao contrário dos pressupostos difundidos de que religião e espiritualidade são dimensões apolíticas e individuais da vivência das pessoas, assim como pressupostos de que estas, com a difusão da secularização das sociedades e laicização dos Estados, diminuíram e perderam expressão no espaço público e político, o crescimento exponencial de movimentos religiosos e espirituais a partir dos anos 60 do século passado e a sua crescente visibilidade no espaço público nas últimas décadas (Fedele e Knibbe 2013) demonstram o quão interligadas estão as dimensões do sagrado, da ecologia e da política na contemporaneidade.
A abordagem da religião vivida foca o que pode ser elucidado ao olhar a experiência das pessoas, no que elas consideram importante e nas práticas concretas que fazem parte da sua expressão e experiência religiosas, em vez de se centrar nas instituições e na filiação nestas. Esta abordagem também defende que pensar-se a religião como algo mutável, multifacetado e até contraditório, que vai para lá do que é institucionalmente considerado, é uma mais-valia para a compreensão destes fenómenos e vivências (Ammerman 2016; McGuire 2008). Concilio essa abordagem com a da ecologia política (Roberts 2023; Leff 2015), na sua proposta de olhar a interligações entre sociedade e ambiente do ponto de vista das relações de poder que contribuem para as definições e reproduções dos desequilíbrios socioecológicos. A proposta da ecologia política feminista leva esta premissa mais longe, ao chamar atenção para como a agencialidade política surge de subjetividades complexas e intersecionais, em que as dimensões do género, classe social e sexualidade, entre outras, são centrais na relação com as mudanças ambientais, e as consequentes respostas afetivas que surgem nesse processo. Retomando ideias ecofeministas, este foco ilumina a relação entre o social e o ecológico materializada em dimensões emocionais e afetivas vivenciadas nos quotidianos (Elmhirst 2015). Se considerarmos que a dimensão da religião e espiritualidade é também integrante da subjetividade e promotora de reações afetivas, inscritas em complexas relações de poder ao nível social e ecológico, esta presta-se também a ser analisada a partir da ecologia política. Contudo, a aplicação desta abordagem no campo da religião e da espiritualidade tem sido escassa (Wilkins 2021).
Assim, o uso destas abordagens teóricas enriquece o entendimento de uma realidade tão complexa e heterogénea como a do paganismo contemporâneo. A sua utilização permite compreender como a dimensão do sagrado, ancorada em noções de cuidado e mapeada por críticas ecofeministas e da ecologia política feminista, que iluminam as relações de poder inerentes à exploração das mulheres e do planeta e preservação de todas as formas de vida, é influenciada e influencia as abordagens das pessoas ao ambiente na sua procura em responder criativamente às ansiedades pessoais e coletivas face à crise ambiental.
Este artigo irá abordar o que é o paganismo contemporâneo e as suas características no território português em relação ao britânico, que o inspirou; de seguida irá focar-se nos casos etnográficos para iluminar como surgem as dimensões que se propõe analisar durante a vivência social, ambiental e religiosa/espiritual das pessoas pagãs. Por fim, irá apresentar uma reflexão em forma de conclusão.
Paganismo contemporâneo
O paganismo contemporâneo é um termo abrangente utilizado para definir vários movimentos religiosos e espirituais, que engloba diversos princípios, práticas, grupos, correntes e interlocutores. É bastante heterogéneo, contudo, alguns princípios unem as diversas correntes. O mais consensual tem que ver com o entendimento da natureza enquanto uma entidade sagrada e senciente que deve ser respeitada, venerada e celebrada.1 Esta é celebrada a partir de um calendário sazonal festivo, formado por vários festivais, como os equinócios de primavera e outono, e os solstícios de verão e inverno.2 Estas celebrações articulam e traduzem outro princípio, que é o uso criativo do ritual e do mito. Rituais são essenciais nas vivências religiosas/espirituais das pessoas pagãs, utilizados para celebrar a ciclicidade, mas também processos nas suas vidas, como nascimentos, morte, casamento ou maioridade (Magliocco 1996). Nestes eventos, extremamente criativos, exploram, no contacto com as suas divindades e antepassados, as suas intenções, sociabilidades, oferecendo um sentido de comunidade de iguais e de mais-que-humanos (Torre e Gutiérrez Zúñiga 2020). Além disso, recorrem, inspiram-se, revivem e reconstroem tradições religiosas pré-cristãs, com base em locais e culturas religiosas específicas que providenciam as bases de legitimação da sua vivência religiosa/espiritual. Por fim, o foco na igualdade de género é central na sua vivência, manifestando-se na sua relação com as divindades que cultuam,3 reconhecendo o divino com energias masculinas e femininas, cultuando tanto deuses como deusas (Harvey 2010).
Em Portugal, encontramos correntes de Wicca e Bruxaria Tradicional, Espiritualidade da Deusa, Reconstrucionismo Sumério e Helénico, Azatru, Druidismo,4 Culto de Divindades Ibéricas (Velloso 2020), este último, que pode cruzar todas as outras correntes, torna-se uma das especificidades do paganismo em Portugal. Todas estas correntes espelham a diversidade e heterogeneidade do movimento, tendo cada uma a sua abordagem, como veremos; contudo, podemos encontrar entre elas semelhanças que nos permitem falar de um movimento geral de paganismo contemporâneo -, sem o uniformizar - que entra em diálogo com questões ambientais, de poder e de género.5
Olhando para este movimento no contexto português, é importante fazer uma breve referência ao contexto britânico,6 já que existem estreitas ligações entre as correntes que serão mobilizadas nos casos etnográficos aqui analisados: a Congregação Politeísta PFI-Portugal que faz parte da Pagan Federation International (PFI), que por sua vez tem uma estreita ligação à Pagan Federation britânica,7 com base Wicca; e o Movimento da Deusa Português que foi influenciado pelo Movimento da Deusa de Glastonbury e pelo modelo da Goddess Conference. Contudo, existem particularidades. Por um lado, a sua longevidade nos territórios, em que, como indicado, se estabeleceram a partir dos anos 60 no Reino Unido, mas que em Portugal, pelo menos a sua organização formal, começou apenas no final dos anos 90 do século XX.
Por outro lado, num contexto como o português, cujo cristianismo religioso e cultural se encontra enraizado, mas que ao mesmo tempo apresenta uma grande pluralismo religioso (Mapril e Blanes 2013; Roussou 2016; Dix 2009), e que tem instrumentos como a Lei da Liberdade Religiosa8 e iniciativas como o Diálogo Inter-Religioso (Diálogo Inter-Religioso (s.d.)), que contribuem para o exercício livre da sua vivência religiosa/espiritual, e a crescente visibilidade no espaço público, é impossível saber o número de pessoas pagãs. O movimento, apesar de formalizado, não está institucionalizado, não há consenso quanto à sua definição, além de que existem questões de secretismo e receio de discriminação e crítica social (Fedele 2015, 2013). Assim, a reivindicação do espaço público e de direitos por estes movimentos em Portugal dá-se com menor organização e coesão do que no contexto britânico, em que é reconhecido e representado em instrumentos estatais como os censos.
Além disso, o paganismo contemporâneo desenvolveu-se ao mesmo tempo que uma série de movimentos sociais ambientalistas e feministas. Assim, o ambientalismo e o feminismo foram fontes de inspiração para várias correntes, e foram também inspirados por este movimento religioso e espiritual que perceciona o planeta e toda a vida nele inscrita como sagrados (Pike 2017, 2019). Encontram-se influências do ambientalismo nos seus discursos, nomeadamente o clamor de uma mudança de atitude perante a natureza e outros seres, criticando o impacto do capitalismo, de políticas neoliberais no ambiente e na vida social. O facto de entenderem a natureza enquanto sagrada, e se sentirem responsáveis pela sua manutenção, proteção e regeneração faz com que dialoguem e defendam uma ação concreta e política contra estas influências estruturais. Quanto à influência feminista, mais especificamente do ecofeminismo (Eaton 2001; Mies e Shiva 2014; Saave 2022), a partir dos anos 80 tornou-se visível ao oferecer compreensões alternativas ao género, e permitindo também a criação de correntes religiosas e espirituais de espiritualidade feminista, como é o caso do Movimento da Deusa (Feraro 2019), como veremos. Neste contexto, combinam as suas convicções espirituais e políticas em demonstrações públicas e ativistas e nas suas práticas rituais e religiosas (Zwissler 2009, 2012, 2018; Aune 2015). O enfoque particular em questões ambientais e feministas depende das abordagens de cada uma das correntes e grupos.
Portanto, a celebração e advocacia em torno da proteção e respeito pela natureza e igualdade de género e empoderamento são temas centrais nas vivências e anseios das pessoas interlocutoras, mesmo que adotando abordagens distintas. Estas traduzem-se em narrativas sobre a necessidade de cura, regeneração e reconexão com o ecossistema, tanto a título individual como coletivo, indissociáveis das relações de poder que a ecologia política aborda. E este processo é realizado através de ações políticas concretas, como participando em manifestações e marchas ou na assinatura de petições; assim como através de práticas mágico-rituais como será demonstrado de seguida.
Firmar desejos de proteção planetária
Era uma tarde quente de setembro em Lisboa, com uma leve brisa a acariciar a pele enquanto caminhava junto ao rio Tejo, em direção ao Cais do Sodré, onde me ia encontrar com os membros da Congregação Politeísta PFI-Portugal.9 Nesse dia, tinha sido convocada a Marcha pelo Clima,10 ao nível nacional e internacional, com o intuito de exigir ação por parte dos governos e seus líderes face à crise climática. Naquele momento, uma das preocupações dos coletivos ambientalistas nacionais prendia-se com a exploração de minério na costa portuguesa, e a aprovação de projetos extrativistas. Nessa tarde, cidadãos, coletivos ambientalistas, partidos políticos do centro-esquerda e esquerda, e esta associação de fundo religioso e espiritual, procuraram contestar e pressionar o governo a pôr fim a esse processo, investindo antes em recursos de energia renovável.
A PFI-Portugal convocou os seus membros para participarem na marcha, enviando uma carta aberta a indicar o porquê de se juntarem a esta causa. Nas suas palavras, acreditavam que enquanto cidadãos e cidadãs pagãs, deviam construir e partilhar uma consciência ecológica. Estavam a participar porque…
“… enquanto para um cidadão ecologicamente responsável, a Terra é um espaço a proteger para que a nossa sobrevivência enquanto espécie seja assegurada; para um Politeísta (pagão) a Terra-Mãe é muito mais: é um local sagrado que nutre a Vida e perpetua os seus ciclos, é um templo vivo que deve ser preservado para que o frágil equilíbrio entre a Vida e a Morte, mantenha-se.”11
Assim, em resposta ao que propuseram, seguiram a marchar pelas ruas de Lisboa, com cartazes com imagens e frases alusivas, como “Não aos furos! Não estraguem a Terra e o Mar!”, ou “AR PURO para podermos Respirar, ÁGUAS LIMPAS para haver Vida, TERRA VIVA Não aos transgénicos!” entre cartazes de “Não há Planeta B”, e gritando palavras de ordem “Somos Natureza em autodefesa!”, “Negociar o quê? Não há Planeta B!” e “Não ao furo! Sim ao Futuro!”.
Nesta marcha, a sua presença marca um posicionamento duplo. Por um lado, a sua devoção e preocupação para com o planeta enquanto entidade viva, encarada como a Mãe-Terra que sustenta e nutre todos os seres, e para com os impactos locais concretos que políticas e indústrias de exploração têm nos ecossistemas; por outro, o seu posicionamento enquanto movimento religioso/espiritual que se empenha em formas de participação política e ativista, reclamando o seu lugar no espaço público e promovendo a sua visibilidade.
Contudo, este processo não termina apenas nas demonstrações públicas em torno de uma causa. Este continua em ações coletivas ritualísticas, como foi observado na sua celebração do equinócio de outono, que teve lugar dias depois em Sintra.

Fonte: Créditos da autora
Figura 2 - Celebração do equinócio de outono PFI-Portugal, setembro de 2018, Sintra, Portugal.
No e-mail informativo enviado aos membros que iriam participar na celebração, foram partilhadas as preces a utilizar durante o ritual, entre elas as palavras de ordem proferidas durante a Marcha pelo Clima, e para terminar o ritual, uma prece final que pretendia canalizar a energia e magia a serem trabalhadas com o objetivo de curar e proteger o planeta.
Depois de o espaço ser preparado, os membros juntaram-se em círculo, o altar no centro, e o rito começou. Por norma, um ritual pagão começa já com a preparação do espaço onde vai ocorrer, seja a limpeza física e energética do espaço, seja a construção do altar, assim como a purificação dos participantes, que pode ser realizada recorrendo ao uso de incenso, água ou óleos. De seguida, dá-se a abertura do espaço sagrado invocando os quadrantes, ou seja, o Norte, Sul, Este e Oeste, que funcionam como os protetores do espaço; são invocadas ainda as divindades tutelares daquele rito, escolhidas por serem arquétipos de uma determinada energia, que neste caso eram divindades associadas à Terra. O ritual desenvolve-se com preces e cânticos, que neste caso eram as palavras de ordem da Marcha pelo Clima. Como mais tarde me explicaram os responsáveis da PFI-Portugal, estas foram utilizadas para recuperar a energia que tinha sido produzida por todas as pessoas que as entoaram naquela tarde, juntá-la à energia dos membros da associação que estavam naquele momento a criar e a produzir poder para que a sua intenção fosse respondida. Esta intenção manifestou-se na prece final, enquanto as pessoas de mãos dadas rodavam no círculo, entoando:
Da Terra ao Sol
Do Sol à Terra
Noite e dia, a Terra gira
Gira, gira a criar
Para na mente humana o nosso desejo firmar: A Terra salvar!
A cada volta intensificando a cadência e erguendo cada vez mais o tom das suas vozes, esta prece foi sendo proferida, até que, na última volta, terminaram colocando as mãos na terra, no exato momento em que dizem “A Terra salvar!”.
Este exemplo etnográfico demonstra a forma como alguns pagãos procuram formas de articular preocupações socioambientais e ecológicas concretas com as suas vivências e motivações religiosas/espirituais. Contudo, também encontrei motivações com bases ecofeministas, além de ambientalistas, em dois momentos de trabalho de campo distintos com outros grupos: o primeiro durante a Primeira Conferência da Deusa Portuguesa que teve lugar em maio de 2019; o segundo, durante a vigésima quinta Glastonbury Goddess Conference 2020 online.
Celebrando a Deusa-Terra
O Movimento da Deusa, ou Espiritualidade da Deusa é um movimento internacional que parte da premissa de que existe uma Grande Deusa, a Deusa-Mãe, uma divindade imanente no mundo, que se manifesta através da Terra, e que é a Terra, através das suas paisagens, nos ciclos sazonais e da Lua, no ciclo de vida e morte, no ciclo de vida humano, nas diferentes estados e idades e de outros seres. Para si, a Terra nutre, sustenta e protege, manifestando-se nas diversas divindades femininas presentes nos mais diversos panteões religiosos, sendo comum que nos espaços rituais sejam invocadas divindades de diversos contextos. Inspiram-se no chamado Mito do Passado Matriarcal Pré-Histórico, que defendia a existência de uma Deusa original cultuada por culturas neolíticas e da Idade do Bronze da “Velha Europa”, que eram lideradas por mulheres, sendo sociedades pacíficas, sem guerra e viradas para o cuidado (Bowman 2004; Whitehead 2018). Esta tese influenciou vários grupos de espiritualidade feminista nos anos 60 e 70 do século passado, pois colocava a mulher no centro da narrativa, ao contrário da narrativa androcêntrica que mapeou os seus referenciais culturais e religiosos até então. Esta tese tem vindo a ser criticada e refutada, contudo a ideia de uma Grande Deusa, a Deusa-Mãe, tem permanecido e faz parte do referencial religioso e espiritual de muitas mulheres, homens, e pessoas queer contemporaneamente e internacionalmente (Eller 2005) no contexto do paganismo contemporâneo.
Em 1996 foi criada a Goddess Conference, que rapidamente se tornou um modelo que se disseminou internacionalmente (Fedele 2015). Em Portugal foi realizada pela primeira vez em 2019, em Sintra. Nos espaços de encontro desta corrente de paganismo é comum que defendam, à semelhança da crítica ecofeminista, que uma das causas que levaram à degradação ambiental e todas as questões que afligem as nossas sociedades foi a dissociação que se deu da Natureza / meio ambiente provocadas por um poder androcêntrico e hegemónico. Do mesmo modo, esse poder e estruturas que exploraram ecologias são as mesmas que exerceram força no corpo das mulheres e as exploraram (Mies e Shiva 2014).
No primeiro dia da Conferência da Deusa estava sentada junto à entrada para sentir a brisa fresca que aí passava, que contrastava com o ar abafado da tenda sob o sol primaveril e cheiro a incenso. Um grupo de mulheres entrou na tenda e sentou-se perto de mim, partilhando a sua experiência e o porquê de ali estarem. Refletiam sobre a importância de estarem num lugar seguro, como a Conferência, tendo em conta a violência, misoginia e ataque que é feito à mulher por todo o mundo. Uma delas afirma: “Temos de estar firmes nas nossas convicções.”

Fonte: Créditos da autora.
Figura 3 - Conferência da Deusa Portugal, maio de 2019, tenda e altar, Sintra, Portugal.
Esta narrativa foi sendo reproduzida durante o evento, durante palestras, workshops, rituais e cerimónias, começando pelo próprio tema da conferência, “Curar o feminino, curar o planeta”, em que…
“… serão três dias de imersão no outro lado do véu, em profunda comunhão com a nossa herança celta passada, recuperando as tradições quase perdidas de celebrarmos a Senhora à nossa maneira, mantendo o espaço sagrado a fim de permitir que o espírito da mulher se erga bem alto novamente neste mundo, forte e livre de todo o condicionamento patriarcal…” 12
Numa das palestras, a sacerdotisa que a conduziu mencionou várias vezes a importância de reconexão e ação pelo planeta, afirmando que “as feridas da Terra são as mesmas feridas que nós encontramos na nossa cultura. São feridas de abuso de poder”, e é necessário “encontrar estratégias preventivas e regenerativas, tanto para o ecossistema como para coração humano”, sendo necessárias “orações em ação” para reconectar.13
Numa entrevista com a sacerdotisa, esta afirma que desde o início que se reconhece enquanto pessoa, que sempre foi uma ecofeminista, questionando uma necessidade muito concreta e incorporada de afirmar e defender o seu espaço enquanto mulher, e os ecossistemas, pois…
“… faz imenso sentido, quando já sabemos dentro de nós este caminho, fazer dele uma ação política, faz sentido. Porque creio também que as pessoas com uma via pagã, elas sentem uma ligação à natureza muito profunda. E para nós, perder elementos da natureza, perder ecossistemas, é como perder pessoas. Não há diferença. E isto é o que muita gente tem dificuldade em compreender. A perda de um ecossistema é um luto tremendo. A perda de mais um rio, a abertura de mais uma mina… é, é… devastador. Então não acho que possa ser outra coisa. Não tenho hipótese. Não vivo num mundo em que tenho hipóteses de não falar destes temas.” 14
No discurso desta sacerdotisa encontra-se estão o entrelaçar das dimensões do sagrado, da ecologia e da política, e a forma como as estruturas de poder se manifestam. No seu entendimento, a sua abordagem religiosa/espiritual promove a conexão ao planeta, mas esta não pode ser separada de posicionamentos políticos e preocupações ecológicas que têm impacto direto nas suas vidas e de outros seres. Este posicionamento é comum em correntes de paganismo contemporâneo em vários países, como me deparei durante a realização do trabalho de campo. Além disso, a influência de algumas pessoas no meio nacional e internacional é clara nos seus discursos, pelo que a ida à Glastonbury Goddess Conference no ano de 2020, onde iria palestrar e conduzir um workshop a bruxa e ativista ecofeminista Starhawk,15 foi imperativa para ilustrar as abordagens sagradas e políticas que emergem neste contexto. Este evento, que ocorreu online em 2020 devido às restrições da Covid-19, tinha como tema a Mãe-Terra, e todo o evento, mesmo sendo online, decorreu em torno de uma necessidade de reconexão e regeneração da relação com a Deusa que se manifesta a partir do próprio planeta.

Fonte: Créditos da autora.
Figura 4 - Altar criado para acompanhar a Glastonbury Goddess Conference online, 2020
No texto de apresentação da conferência presente no programa, é mencionado que:
“Temos que criar uma conexão que é restauradora, não só para a natureza, mas para nós humanos, e para o nosso lugar dentro da Sua (Terra/Deusa) natureza. (…) Ela diz-nos que nunca estamos acima ou desconectados, estamos profundamente enraizados Nela (…). Ela lembra-nos que nunca temos ‘propriedade sobre’, mas somos sim parte da ‘pertença a’. A Sua forma nunca é poder sobre, mas poder com. É quando nos esquecemos disto que a doença da destruição, ambiental e das Suas crianças humanas, através de expressões como guerra, colonialismo, escravatura, ganância, competição e orgulho se manifesta. Esta doença está dentro e à nossa volta. (…) Ela chamou-nos para lembrar, para reconectar. (…) ela é a nossa casa, e a nossa responsabilidade para com Ela é despertar.”16
Como se pode observar, a desconexão com a natureza é no seu entendimento a causa dos problemas sociais que a contemporaneidade atravessa, sendo tratada como uma doença que tem de ser curada, noção comum no seio da espiritualidade e religiosidade contemporâneas (Longman 2018; McGuire 1993). Além de curar, é necessário regenerar esta ligação. Durante a conferência, estive presente num workshop providenciado por Starhawk - uma bruxa ecofeminista americana, formadora de permacultura, figura central do Movimento da Deusa, inspirando inclusive a sacerdotisa portuguesa acima mencionada, e cuja prática religiosa/espiritual tem uma componente ativista - com o título “The Wheel of Regeneration”, no qual nos foi pedido que desenhássemos a ligação à Terra, e o que pretendíamos colher enquanto fruto dessa regeneração.

Fonte: Créditos da autora.
Figura 5 - Desenho de terreno realizado durante a Glastonbury Goddess Conference para o workshop de Starhawk, julho de 2020, online.
No decorrer do workshop, Starhawk afirma que trabalhar na regeneração da Terra, seja concretamente através de práticas como a permacultura, seja simbolicamente, em termos de relações entre humanos e mais-que-humanos e o planeta, “é também cultura. Há a necessidade de criar uma cultura que celebra os ciclos da vida e da regeneração”.17 E, portanto, estas ações concretas, que são tanto religiosas/espirituais como políticas, promovem uma ideia de conexão com o mais-que-humano traduzido em noções de cuidado e transformação que partem de posicionamentos pessoais, mas que são também eles ações coletivas de contestação das relações de poder que afetam as suas identidades de género e envolvimento com o planeta.
No último dia da Goddess Conference, uma das palestras foi sobre ativismo da Terra, com mulheres que estavam envolvidas em movimentos como Extinction Rebellion e Earth First!. Estas mulheres, com idades entre 20 e os 50 anos, relataram a sua experiência nestes momentos de ação direta e contestação, assim como as motivações que as levaram a tal. Algumas delas foram detidas, uma ou várias vezes, durante protestos em que participaram, afirmando que foram presas pelo crime de amar e querer proteger a Terra. E que, apesar desse perigo, era claro que tinham de agir e erguer-se para lutar. Além disso, é claro para elas que não só a saúde do planeta é visível na saúde humana, como o capitalismo e o patriarcado são responsáveis pela destruição da Terra. Durante a apresentação eram vários os comentários das pessoas (síncronos e assíncronos) a partilhar o seu orgulho e emoção em verem o trabalho destas jovens mulheres, que estão a trazer ao movimento uma nova vaga de ativismo pela Terra e de feminismo.
Refletindo o caminho para o futuro
O apelo de cura, regeneração e reconexão com o ambiente e de empoderamento é tanto individual como coletivo, como os casos etnográficos aqui discutidos demonstraram. É individual, no sentido que parte de um entendimento incorporado de como certas forças estruturais afetam os corpos, do entendimento das desigualdades de género, sociais e laborais, nas políticas que afetam as suas vidas, e a violência que é exercida sobre elas (Harcourt et al. 2023). A partir daí há a procura de formas de solucionar estas inquietações, que passam por um exercício de cura pela via espiritual e religiosa (McGuire 1983), assim como pela adoção de escolhas ecologicamente informadas, como alimentação, mobilidade e alternativas sustentáveis.
É coletivo, no sentido em que, em espaços como a Conferência da Deusa ou rituais de celebração do outono, há uma reflexão conjunta sobre o que pode ser feito, e daí serem tomadas ações concretas em prol do que percecionam ser comum: a sobrevivência das gerações futuras e do planeta. Além disso, esse posicionamento coletivo pode partir da participação em ações políticas concretas, como marchas, manifestações, mas também ações mágicas e rituais, como as descritas acima, mas também na forma de correntes mágicas focadas em contextos específicos e situações específicas, pela cura, regeneração e justiça. Estas são realizadas em prol do futuro e do ambiente, numa procura ativa de conexão com este. Além disso, é também um dever cívico, como partilhado pelos responsáveis da PFI-Portugal, mas também espiritual, do que consideram ser uma mensagem que está a ser enviada pela Terra e recebida por todos aqueles que estão sintonizados com essas energias, como visto na carta de apresentação da Goddess Conference 2020. Como uma das participantes da Conferência da Deusa Portuguesa, e em tempos membro da PFI-Portugal afirma:
“Não me faz sentido ser pagã, ser mulher, e estar numa vertente espiritual como a minha, sem o ser. (…) no caso do Paganismo, praticante, não quer dizer que praticas rituais só. Praticante significa que és militante, vestes a bandeira. (…) se nós, que reverenciamos os ritmos naturais, não vestimos a camisola do ecossistema, quem mais?! Quem mais?! Se nós estamos aqui a voltar a trabalhar com o sagrado feminino, e dar-lhe um lugar de reverência, e a voltar a sacralizar a natureza feminina em todos os seus aspetos, se nós não somos feministas, quem mais?” 18
Como demonstrado acima, na vivência das pessoas pagãs em Portugal não existem barreiras delimitadas sobre o que é o sagrado, o político ou o ecológico. Estas encontram-se entrelaçadas, cruzando-se em várias abordagens, situações e latitudes. Sem dúvida que estas abordagens têm problemas. Alguns desses problemas prendem-se com o perigo de cair em discursos essencialistas de características de género, ao focarem processos biológicos e fisiológicos e na feminização da natureza (Becci e Grandjean 2018); assim como discursos eugénicos, ao levarem à narrativa que o planeta não precisa do ser humano, como algumas das narrativas que surgiram durante o período da Covid-19, quando os níveis de poluição diminuíram (Martins 2023a). Podemos encontrar também problemas de acesso, seja identitário, seja económico e de classe. E por fim, na abordagem a questões ambientais através de um discurso em torno da sustentabilidade, que não considera questões sociais e económicas concretas, nem reflete sobre que sustentabilidade e para quem.
Além disso, demonstra questões de poder dentro do movimento do paganismo contemporâneo, que é em si plural. Apesar de as preocupações encontradas nos estudos de caso poderem dialogar, e aparentemente o fazerem, existem tensões que partem das abordagens e inspiração base das correntes a que pertencem, e que distancia a PFI-Portugal e as organizadoras da Conferência da Deusa. O primeiro prende-se com o facto de os grupos não dialogarem entre si devido a essas diferenças base, logo não tendo estado a PFI-Portugal envolvida ou participado na Conferência da Deusa. O segundo, prende-se com o facto de que a PFI-Portugal, apesar de estar em concordância com os movimentos de emancipação das mulheres, não se inspira, revê ou adere à militância feminista (Cordovil 2020a, 2020b); pelo contrário, o Movimento da Deusa tem como inspiração clara movimentos ecofeministas. Estas diferenças de abordagem, reforçam uma vez mais a heterogeneidade do paganismo contemporâneo. Contudo, e como visto nos relatos etnográficos, a mobilização destes movimentos perante questões ambientais é premente, mesmo com abordagens e ideais diferentes.
A abordagem da religião vivida permite que neste contexto se analisem as múltiplas dimensões da vida das pessoas, e como estas experienciam a criatividade característica destes movimentos, os sentidos e emoções e respostas corporais a estas, e até mesmo as incongruências e conflitos. Através destas percebe-se que o que move a devoção é algo complexo, mapeado por relações. Na religião e na espiritualidade não se trata apenas de uma dimensão pessoal, têm em si dimensões coletivas e estruturais que informam as suas escolhas. Se a esta abordagem se juntar a da ecologia política, na sua análise multiescala, a partir do local, para compreender relações de poder que impactam o ambiente mas também o social, seja nas suas alterações, seja na sua degradação, a compreensão destes movimentos e das motivações das pessoas é enriquecida.
Muitas das pessoas pagãs chegam a estes movimentos por parte do ambientalismo (Pike 2017). Os discursos são mapeados de referências ao impacto que o capitalismo, e políticas neoliberais de extrativismo tiveram no meio ambiente. Portanto, na necessidade de combate destas questões, seja por argumentos encontrados no meio político e ativista, seja no meio religioso. Podemos encarar a forma como pessoas pagãs se envolvem em questões políticas, sejam elas de cariz ambientalista ou ecofeminista, a partir das suas vivências religiosas/espirituais como combinando um tipo de ambientalismo, que seguindo a proposta de Joan Martínez-Alier (2002), se foca no culto da “wilderness”, na defesa de um ideal de Natureza, prendendo-se mais com valores de conservação do que por interesses materiais, apesar do reconhecimento utilitário de alguns seres. Para esta abordagem, outras espécies têm o direito a existir, e a preservação do ambiente deve ser assegurada para a continuidade da humanidade. Esta é uma das abordagens ambientalistas que mais dialoga com a religião e a espiritualidade, já que este apreço pela natureza cresceu proporcionalmente com a destruição que o crescimento económico provocou nos ecossistemas. Não significa que não se possam encontrar outros dos clusters mencionados por Martínez-Alier quando se analisa o ativismo ambiental de pessoas pagãs.
Ademais, nestes espaços procuram desconstruir e curar a influência de estruturas opressoras patriarcais e capitalistas sobre os seus corpos, papéis sociais e de género e sobre o ambiente, influenciadas por abordagens ecofeministas (Salleh 1995, 1992; Becci e Grandjean 2018; Barca 2020), recorrendo também a noções de cuidado mais abrangentes, que mapeiam a sua ação entre si e perante o planeta. Assim, motivações religiosas e espirituais são também elas políticas e ecológicas. O decidir cultuar a natureza leva, e advém de uma postura de respeito, e logo de participação política - olhar legislação, contestar - e ecológica, no entendimento de um todo interligado e necessário a ser salvaguardado, mas que também espelha as diversas abordagens ambientais que mapeiam as discussões sobre poder e ambiente abordadas pela ecologia política (Bryant 2015; Jenkins e Chapple 2011; Iamamoto, Lamas e Empinotti 2020), mas também como estas estão interligadas com questões de género no âmbito da ecologia política feminista e do ecofeminismo, que consideram o eixo género-ambiente-poder como indissociável e que a espiritualidade é parte integrante deste processo (Mies e Shiva 2014; Eaton 2001, 1996; Harcourt et al. 2023; Elmhirst 2015; Merchant 2023).
Existe uma dimensão pessoal de culto e devoção, seja no foco nas divindades, seja na natureza, mas não deixa de existir uma intenção e experiência que dialoga com as dimensões da política e da ecologia, na procura de uma vivência holística e equilibrada na ligação humano-ambiente. No fundo, podemos considerar como formas de reencantamento do mundo que foi transformado pelas relações capitalistas, e que procura formas outras de estar no mundo, livres de hierarquias e condicionadas por relações de poder (Federici 2018), mas de conexão plena entre toda a vida existente nos ecossistemas.















