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Motricidade

versão impressa ISSN 1646-107Xversão On-line ISSN 2182-2972

Motri. vol.21  Ribeira de Pena jan. 2025  Epub 23-Set-2025

https://doi.org/10.6063/motricidade.39997 

ARTIGO DE REVISÃO

Ensino das modalidades esportivas de combate por meio de jogos de oposição na educação física escolar: um ensaio teórico das interrelações com agressividade e violência

Teaching combat sports through opposition games in school physical education: a theoretical essay on the interrelations with aggression and violence

Rodrigo Paiva1 
http://orcid.org/0000-0001-9063-2981

Pedro Florencio da Cunha Fortes Junior2 
http://orcid.org/0009-0007-4315-0315

Manuela do Amaral Pinheiro2 
http://orcid.org/0009-0004-9499-5201

Geanderson Sampaio de Olivera2 
http://orcid.org/0000-0001-7351-2515

Danilo Sales Bocalini2 
http://orcid.org/0000-0003-3993-8277

Roberta Luksevicius Rica2  * 
http://orcid.org/0000-0002-6145-1337

1Faculdade de Educação Física de Sorocaba - Sorocaba (SP), Brasil.

2Universidade Federal do Espírito Santo - Vitória (ES), Brasil.


RESUMO

O tema das lutas, artes marciais e modalidades esportivas de combate integra o currículo de Educação Física Escolar estabelecido pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Contudo, é frequentemente subaproveitado pelos profissionais da área, em razão da percepção de que as lutas se interrelacionam com o incentivo à violência, segundo pais, gestores escolares e até professores. A violência e a agressividade são questões de preocupação global e devem ser abordadas no ambiente escolar. Esta revisão teve como objetivo analisar e discutir se, e em que medida, o desenvolvimento da unidade temática lutas e modalidades esportivas de combate na educação física escolar participa de processos relacionados à violência nesse contexto. Um dos aspectos preponderantes para o desenvolvimento de lutas e modalidades esportivas de combate no âmbito da educação física escolar é o tratamento pedagógico adotado pelo profissional de educação física. Os jogos de oposição, operacionalizados sob a perspectiva educacional do esporte se configuram como procedimentos didático-metodológicos adequados para as aulas de educação física escolar quando se perspectiva o ensino de lutas e modalidades esportivas de combate, inclusive, como forma de combate a violência em suas múltiplas formas de manifestação.

PALAVRAS-CHAVE: lutas; jogos de oposição; violência; agressividade

ABSTRACT

The theme of fighting, martial arts and combat sports is part of the School Physical Education curriculum established by the National Common Curriculum Base (BNCC). However, it is often underused by professionals in the area, due to the perception that the struggles are interrelated with the encouragement of violence, according to parents, school managers and even teachers. Violence and aggression are issues of global concern and must be addressed in the school environment. The present review aimed to analyse and discuss whether, and to what extent, the development of the thematic unit fights and combat sports modalities in school physical education participates in violence-related processes in this context. One of the preponderant aspects for developing fights and combat sports in the context of school physical education is the pedagogical treatment adopted by the physical education professional. The opposition games, operationalised from the educational perspective of sport, are configured as didactic-methodological procedures suitable for school physical education classes when the teaching of fights and combat sports is envisaged, including a way to combat violence in its multiple forms of manifestation.

KEYWORDS: fights; opposition games; violence; aggressiveness

INTRODUÇÃO

A prática das lutas no contexto escolar tem ganhado espaço nos debates sobre a educação física, particularmente em relação aos seus impactos sobre o desenvolvimento comportamental dos alunos. Os Parâmetros Curriculares Nacionais -“PCN” (Brasil, 1998) e a Base Nacional Comum Curricular - “BNCC” (Brasil, 2017), destacam a relevância das lutas, artes marciais e modalidades esportivas de combate como conteúdo pedagógico, visando ao desenvolvimento integral dos estudantes, abrangendo aspectos motores, cognitivos e socioemocionais. Contudo, observa-se que, frequentemente, esse tema é subaproveitado ou mesmo evitado nas aulas de educação física. Entre as razões está a percepção equivocada de que as lutas incentivam comportamentos violentos e agressivos, preocupação compartilhada por pais, diretores e até mesmo professores.

Violência e a agressividade são questões de crescente interesse na área educacional, sendo objeto de preocupação global (Lopes Neto, 2005). Estudos apontam que essas manifestações podem estar relacionadas a diversos fatores, incluindo contextos sociais, culturais, psicológicos e escolares. No âmbito da educação física, a utilização de lutas, modalidades esportivas de combate e jogos de oposição, como ferramentas pedagógicas, pode oferecer uma oportunidade singular para trabalhar tais aspectos, desde que estruturada de maneira orientada ao desenvolvimento da humanitude e do respeito mútuo. Essa abordagem permite não apenas o desenvolvimento das habilidades motoras dos alunos, mas também a promoção de valores como respeito, autocontrole, empatia e cooperação.

Entretanto, a efetividade dessa proposta pedagógica depende diretamente da forma como é conduzida pelos educadores. Aulas bem planejadas, fundamentadas em princípios pedagógicos claros, podem contribuir significativamente para a construção de um ambiente escolar mais inclusivo e acolhedor. Em contrapartida, uma abordagem inadequada, centrada exclusivamente em aspectos competitivos ou excludentes, pode reforçar dinâmicas de desigualdade e hostilidade entre os estudantes, intensificando comportamentos agressivos e diminuindo a autoestima dos alunos menos habilidosos.

Espera-se que os resultados desta pesquisa contribuam para o avanço das discussões sobre o papel das lutas e ­modalidades esportivas de combate na educação física escolar e para a desmistificação de preconceitos relacionados ao tema. Ao compreender as potencialidades e os desafios dessa prática pedagógica, pretende-se promover uma abordagem mais ­consciente e planejada, capaz de transformar o ambiente escolar em um espaço de formação cidadã, prevenção à violência e desenvolvimento humano.

O objetivo do estudo foi analisar e discutir se, e em que medida, o desenvolvimento da unidade temática lutas e modalidades esportivas de combate na educação física escolar, por meio da pedagogia dos jogos de oposição, participa de processos relacionados à violência nesse contexto.

METODOLOGIA

A produção do conhecimento científico é fortalecida pela integração de distintas abordagens metodológicas. Neste estudo, adotamos a articulação entre a revisão de literatura e o ensaio teórico, dois métodos que se complementam e desempenham um papel essencial na construção do saber em diferentes áreas do conhecimento.

A revisão de literatura corresponde a um mapeamento sistemático e crítico da produção acadêmica acerca de um determinado tema, permitindo a identificação do estado da arte e das lacunas existentes na pesquisa. O ensaio teórico, por sua vez, aprofunda a análise de conceitos e teorias, propondo novas interpretações a partir da perspectiva do pesquisador, favorecendo o avanço do conhecimento científico.

Essas duas abordagens se inter-relacionam de maneira complementar. A revisão de literatura oferece um embasamento teórico e empírico fundamental para a construção de argumentos consistentes no ensaio teórico, enquanto este amplia a compreensão do tema ao propor novas reflexões e questionamentos. Essa interação dialética é essencial para a produção do conhecimento, conforme apontado nos estudos de Cavalcante e Oliveira (2020) e Galvão e Pereira (2014).

LUTAS, ARTES MARCIAIS E MODALIDADES ESPORTIVAS DE COMBATE: TEMATIZAÇÕES PEDAGÓGICAS POSSÍVEIS NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR

Lutas, artes marciais e modalidades esportivas de combate são conceitos que, embora frequentemente usados de forma intercambiável, possuem significados distintos, tanto em sua origem quanto em seus objetivos. Essas diferenças são importantes para compreender como cada um desses termos se aplica em contextos variados, como práticas culturais, educacionais e esportivas.

Lutas

O termo “luta” refere-se ao combate entre dois ou mais indivíduos, com o objetivo de submeter o oponente utilizando técnicas de ataque e defesa. As lutas podem acontecer em diversos contextos, como em rituais, guerras ou até competições informais. Tradicionalmente, a luta é uma forma de enfrentamento físico em que o principal objetivo é desestabilizar o adversário, seja por desequilíbrio, imobilização ou contusão. Ela pode ocorrer em formas variadas, como luta livre, luta de braço ou outros combates menos regulamentados. Segundo os PCNs (Brasil, 1998) e a BNCC (Brasil, 2017), as lutas são descritas como disputas onde os oponentes buscam subjugar o adversário por meio de estratégias específicas, e são regulamentadas para evitar a violência excessiva.

Artes marciais

As artes marciais vão além da luta física, envolvendo um conjunto de técnicas de combate que surgiram ao longo dos séculos em diferentes culturas ao redor do mundo. Elas carregam um forte componente filosófico, espiritual e cultural, sendo praticadas não apenas para o aprimoramento físico, mas também como um caminho para o autoconhecimento e o desenvolvimento moral. As artes marciais podem ser vistas como um sistema de ensino que integra princípios éticos e disciplinares. Exemplos disso incluem as artes marciais orientais, como o Kung Fu, o Judô, o Karatê e o Jiu-Jitsu, bem como as modalidades ocidentais, como o Boxe e a Esgrima. Como afirma A. F. Silva (2003), as artes marciais têm um papel fundamental no desenvolvimento da autoconfiança e autocontrole, ao mesmo tempo que reforçam valores de respeito e honra. Elas não se limitam à competição, mas são uma prática que visa transformar o ser humano de maneira integral.

Modalidades esportivas de combate

Já as modalidades esportivas de combate representam uma versão mais institucionalizada e regulamentada das lutas e das artes marciais. Focadas na competição, essas modalidades são praticadas dentro de um conjunto claro de regras, com o objetivo de garantir a segurança dos participantes e definir um vencedor com base em critérios objetivos. Exemplos de modalidades esportivas de combate incluem o Judô, o Boxe, o Tae-Kwon-Do e o Wrestling. Embora baseadas em técnicas de luta, essas modalidades têm como principal foco a ­medição de habilidades físicas, técnicas e estratégicas dos competidores. Em contraste com as lutas, que podem ser informais e menos estruturadas, as modalidades esportivas de combate seguem regulamentações rigorosas para assegurar que as disputas ocorram de maneira segura e justa (Souza Júnior, 2010).

Essas distinções são fundamentais, pois nos ajudam a entender o papel que cada uma dessas práticas desempenha, seja no desenvolvimento pessoal, na preservação cultural ou na promoção de uma competição justa.

As lutas e as artes marciais não são criações recentes, mas práticas antigas, com alguns estilos datando de milhares de anos. Desde os primórdios, o ser humano necessitou “lutar” por alimento, território, tesouros e até mesmo pela sobrevivência, muitas vezes em combates corpo a corpo. Essas práticas, presentes na cultura de diversas civilizações, foram reconhecidas como ritos, preparações para a guerra, jogos ou exercícios físicos, com significados variados ao longo dos tempos, tanto no Ocidente quanto no Oriente (Brousse et al., 1999; Espartero, 1999; Villamón & Brousse, 2002; Villamón & Molina, 1999).

O estímulo para lutar passou a ter uma conotação bélica, com o corpo sendo visto como um complemento das armas. Por muito tempo, essas técnicas foram usadas em guerras e conquistas territoriais ou em espetáculos, como os combates de gladiadores na Roma Antiga, onde a morte era o fim de cada luta. Com o avanço das armas, o código de honra dos samurais se tornou obsoleto, dando lugar à força armada. As artes marciais, acompanhando esse contexto histórico, passaram a ser praticadas com objetivos esportivos, distantes das finalidades bélicas.

Atualmente, as artes marciais e lutas são atividades de lazer, exercício físico, defesa pessoal e prática esportiva, sendo associadas a um estilo de vida e valores culturais. Essas práticas têm se disseminado em academias, clubes esportivos e escolas, permitindo um “complexo e indeterminado processo de transformação” (A. F. Silva, 2003, p. 20), o que possibilita sua adaptação a diferentes contextos sociais. No campo da pedagogia do esporte, as lutas e as artes marciais carregam consigo aspectos de tradição, religião, cultura, filosofia e rituais, além de promoverem a disciplina, o autocontrole emocional e o desenvolvimento integral do educando (Bento et al., 1999; Paes, 2002; Taboada, 1995).

Ao serem introduzidas na escola, as lutas e as modalidades esportivas de combate visam o desenvolvimento de experiências motoras e cognitivas, promovendo o conhecimento do próprio corpo e proporcionando acesso ao patrimônio cultural.

Especificamente no contexto da educação física escolar, destacamos os principais documentos orientadores da área, quais sejam os PCNs (Brasil, 1998) e a BNCC (Brasil, 2017), que definem a luta como uma disputa em que os oponentes buscam submeter-se mutuamente por meio de técnicas e estratégias de desequilíbrio, contusão, imobilização ou exclusão de espaço, com regras específicas para evitar a violência.

A prática das lutas também contribui para o desenvolvimento do caráter, promovendo perseverança, autoestima positiva e segurança. Todas as sociedades organizadas possuem algum tipo de luta, seja ela folclórica ou de defesa. Combates de outros tempos foram transformados em jogos que representam a cultura local, com alguns se institucionalizando como Esportes de Combate (Souza Júnior, 2010).

Contrariamente à percepção do senso comum, as lutas e as modalidades esportivas de combate pregam a não-violência e o autocontrole. A forma como são abordadas pedagogicamente nos diferentes ambientes de ensino define seus aspectos simbólicos. Academias que priorizam a vitória em detrimento da formação de cidadãos íntegros podem gerar uma visão distorcida dessa prática.

Da mesma forma, nas aulas de educação física escolar, serão a visão de mundo e humanitude e o apanhado de princípios metodológicos adotados pelo profissional de educação física que darão aquilo que se usa chamar de tratamento pedagógico do conteúdo. Uma boa estratégia para introduzir as lutas nas escolas seria através dos jogos de oposição, que ajudam os alunos a compreenderem os conceitos, histórias, regras e técnicas das lutas.

Jogos de oposição

De acordo com Tavares (2005), os jogos podem ser classificados em três categorias: jogos de salão, jogos populares e jogos esportivos. Santos (2012) destaca que os jogos de oposição, também conhecidos como jogos de luta ou combate, são frequentemente vistos pelos educadores franceses como atividades pré-desportivas dos esportes de combate. Esses jogos envolvem duplas ou grupos em confrontos, nos quais cada participante busca vencer por meio de táticas ou capacidades físicas, sempre respeitando regras de segurança e mantendo o caráter lúdico, sem priorizar a competição e evitando a exclusão dos “perdedores”. O papel do educador é garantir que a atividade respeite as dimensões morfofuncionais, psicológicas e sociológicas dos participantes, promovendo o conhecimento do corpo e contribuindo para o desenvolvimento humano de forma abrangente.

Segundo Oliveira (2002), os jogos de oposição favorecem o desenvolvimento motor, sócio-afetivo e cognitivo. No aspecto motor, os participantes desenvolvem a capacidade de agir e adaptar-se; no nível sócio-afetivo, lidam com o corpo a corpo, o encontro com o outro e o respeito mútuo, além das regras; e no cognitivo, praticam a autoavaliação e a relação de causa e efeito, qualificam sua competência de tomada de decisão estratégica e favorecem a integração daquilo que, em pedagogia do esporte, acostumou-se a chamar de técnica e tática. O objetivo principal dos jogos de oposição é proporcionar uma experiência lúdica que contribua para o ensino de lutas, promovendo o autoconhecimento e uma abordagem integrativa, em que o adversário também é um companheiro.

Os jogos de oposição podem ser divididos em seis grupos: jogos de rapidez e atenção, jogos de conquista de objetos, jogos de conquista de território, jogos para desequilibrar, jogos para reter, imobilizar e livrar, e jogos para combater. Oliveira (2002) enfatiza que esses jogos compartilham as características dos esportes de combate. Alguns permanecem simples e adaptados à cultura local, enquanto outros se institucionalizaram, tornando-se os esportes e lutas conhecidos atualmente pelo seu apelo global de mobilização de plateias e recursos.

Santos (2012), menciona as “regras de ouro” dos jogos de oposição, que visam garantir a segurança dos alunos. Essas regras determinam que os participantes não devem causar dano a si mesmos ou aos outros, promovendo o respeito mútuo.

Violência e agressividade

A violência e a agressividade são temas frequentemente abordados na mídia, seja como divulgação de problemas sociais ou, mais comumente, por meio da exposição explícita de casos como roubos, agressões físicas e assassinatos.

Tal fenômeno, na atualidade, se apresenta como um espetáculo acessível, muitas vezes transmitido ao vivo, refletindo o descuido com a dimensão simbólica da vida, exposta pelos meios de comunicação, e mostrando sua imprevisibilidade.

A violência é uma prática presente em diversos contextos, incluindo a família, a escola e as ruas, e não se restringe a classes sociais específicas. Ao contrário do que se pensa, ela não está vinculada exclusivamente à pobreza, aos grandes centros urbanos ou a grupos etários específicos. De acordo com Pacheco (2012) a agressividade, inicialmente pode ser entendida como uma conduta para ferir alguém fisicamente e psicologicamente, e definida como um conjunto de tendências voltadas para prejudicar o outro, seja real ou simbolicamente.

Lima (1999) diferencia agressividade de violência, destacando que a primeira está relacionada ao instinto de sobrevivência e à busca por recursos, enquanto a violência exige intencionalidade e muitas vezes, ações de descontrole emocional e racionalidade.

Por mais paradoxal que possa parecer, racionalidade sinaliza uma intenção organizada na estrutura cognitiva. Os animais irracionais podem ser agressivos, mas não violentos. Para Velho (2000), a violência não se limita ao uso físico da força, mas à possibilidade de sua ameaça, associada ao poder de impor vontades e desejos sobre o outro.

Atitudes violentas são comuns em estádios, bares, festas e, especialmente, nas escolas, refletindo uma extensão da violência presente na sociedade. Influenciadas por fatores como a mídia, amigos e familiares, as crianças podem adotar comportamentos agressivos, muitas vezes vistos como “maneiras” ou “legais”. Este fenômeno ocorre tanto em escolas públicas quanto particulares, com episódios de danos ao patrimônio e agressões verbais aos professores. Charlot (2002) e Lopes Neto (2005) distingue entre violência na escola, à escola e da escola, destacando que, embora a violência na escola seja reflexo do contexto externo, a violência interna, associada à ação da própria instituição, também merece atenção.

Sposito (2001), observa que, desde os anos 1990, a violência nas escolas públicas evoluiu, englobando não apenas vandalismo, mas também agressões interpessoais, incluindo conflitos entre alunos e professores, e gerando altos índices de afastamento docente devido a problemas de saúde.

Rosenberg e Fenley (1991) identificam a violência como uma das principais causas de mortalidade no mundo moderno, com destaque para os adolescentes, para os quais ferimentos, homicídios e suicídios estão entre as principais causas de morte. Monroe (2010) aponta que mudanças fisiológicas da adolescência, como a redução da serotonina, contribuem para a agressividade, enquanto fatores culturais, problemas urbanos, desestruturação familiar e influências da mídia também desempenham um papel crucial no comportamento violento. Esses fatores são reforçados por Feijó (1992), Lippelt (2004), Monroe (2010) e Schreiber et al. (2005) que destacam a importância do contexto social na formação de comportamentos agressivos.

Trabalhando a violência com as lutas e os jogos de oposição

Em pesquisa realizada pelos alunos do curso de Educação Física da UNIJUÍ (Campi Ijuí e Santa Rosa, RS) e da URI/Santo Ângelo (RS) durante o 1º semestre de 2006, Nascimento (2007), investigou as concepções de professores sobre o ensino de lutas na Educação Física, buscando compreender as abordagens pedagógicas adotadas e as dificuldades percebidas. Os resultados apontaram restrições ao ensino de lutas, sendo os principais desafios a falta de vivência pessoal dos professores com práticas de luta e a preocupação com a violência associada a essas atividades.

Ferreira (2012), em estudo com 50 professores de Educação Física, revelou que apenas 32% dos entrevistados incorporam as lutas em seus planejamentos de aula, sendo que a maioria dos docentes (68%) não trabalha esse conteúdo. Desses, apenas 12,5% utilizam os jogos de oposição de forma lúdica. A pesquisa também mostrou divergências quanto à relação entre lutas e violência, com 24% dos entrevistados associando as práticas de luta à violência, enquanto 44% discordaram, e 32% acreditaram que isso depende do professor. A baixa carga horária dedicada ao conteúdo lutas artes marciais e modalidades esportivas de combate nos cursos de graduação, de formação de professor de educação física, ou ainda, uma abordagem direcionada exclusivamente ao aprimoramento de técnicas de uma ou outra modalidade esportiva de combate, contribuem para uma ampla percepção de insegurança pedagógica, tanto nos professores quanto nos gestores escolares que, por sua vez, reverbera na percepção dos alunos, dos pais e responsáveis dificultando a implementação efetiva desse conteúdo nas escolas.

Além disso, a utilização de tecnologias alternativas e recursos criativos, como a construção de materiais e a encenação de lutas em filmes ou desenhos animados, pode enriquecer o processo de ensino, estimulando a imaginação e o desenvolvimento motor e cognitivo dos alunos. Tais abordagens podem transformar a aula de lutas em uma experiência envolvente e educativa, sem incitar a violência, mas promovendo a educação para a convivência pacífica e a valorização do corpo e da cultura.

A prática pedagógica eficaz das lutas nas escolas depende, portanto, de um planejamento cuidadoso, que respeite a diversidade de recursos e metodologias, sempre com o objetivo de proporcionar uma aprendizagem significativa e o desenvolvimento integral dos alunos.

Outras estratégias igualmente interessantes e exitosas para o desenvolvimento do conteúdo de lutas artes marciais e modalidades esportivas de combate no contexto da educação física escolar devem considerar a experiência dos alunos, mas à ela não devendo se limitar. Convidar praticantes e técnicos da modalidade da comunidade local favorece o contato dos alunos da escola com a ritualidade, as próprias técnicas de cada modalidade e pode despertar o interesse de alguns alunos para o ingresso nessa prática. Quando possível, considerando o contexto de atuação de cada professor e professora de educação física, é claro, mobilizar os alunos e alunas em visitas aos espaços de treinamento específicos de lutas artes marciais e modalidades esportivas de combate tem se mostrado, notadamente, uma das mais ricas experiências pedagógicas de integração do conteúdo de lutas e modalidades esportivas de combate no âmbito da educação física escolar com o mundo que extrapola a divisão física e simbólica causada pelos muros de tijolos e os portões de aço da escola.

É importante ressaltar, destacar, enfatizar e tantos outros sinônimos que poderiam ser adotados de que o ensino nas modalidades esportivas de combate no seio da educação física escolar pode, claramente, dar-se por meio de jogos de oposição, além das mais variadas estratégias ludo pedagógicas para a introdução da temática no contexto da escola. Ainda, o ensino de técnicas específicas de cada luta ou arte marcial, de maneiras mais eficientes de ataque ou defesa, do uso inteligente e coerente de cadeias motoras e táticas de submissão, pode ser, sem problema algum, o objetivo dos profissionais de educação física que atuam neste cenário. Neste caso, as técnicas poderão compor a intenção primeira da aula se, e somente se, houver a garantia metodológica de que nenhum aluno ou aluno será deixado de lado por sua inabilidade ou inexperiência, em detrimento do fetiche professoral pelo aprimoramento dos gestos corporais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O principal objetivo deste estudo foi analisar e discutir se, e em que medida, o desenvolvimento da unidade temática lutas e modalidades esportivas de combate na educação física escolar participa de processos relacionados à violência nesse contexto.

Nas últimas décadas, a inclusão das lutas no currículo de Educação Física tem sido um tema de debate significativo, particularmente em relação às concepções pedagógicas e à formação dos professores. A pesquisa realizada por Ferreira (2012) e Nascimento (2007) revela que muitos docentes enfrentam dificuldades para incorporar as lutas em suas aulas, seja pela falta de experiência prática, seja pela ­percepção equivocada de que as práticas de luta estão intrinsicamente associadas à violência. Esses fatores geram uma resistência à abordagem do tema nas escolas, o que compromete a potencialidade pedagógica das lutas no desenvolvimento integral dos alunos.

As lutas e as modalidades esportivas de combate compõem o conjunto de unidades temáticas dispostos no âmbito do conhecimento sobre a cultura corporal de movimento na Base Nacional Comum Curricular, sendo reconhecidas por sua relevância na formação do indivíduo, contribuindo para o desenvolvimento motor, cognitivo e social dos estudantes. No entanto, a simples inclusão de conteúdos relacionados a lutas não é suficiente para garantir um impacto pedagógico positivo. É essencial que o ensino dessas práticas seja planejado de forma integrada aos demais componentes curriculares, como esportes, dança e ginástica, buscando uma abordagem interligada e contínua, em vez de segmentada e pontual.

O planejamento pedagógico, portanto, deve ser estruturado de maneira cuidadosa e reflexiva, levando em consideração não apenas os aspectos técnicos das lutas, mas também as potencialidades dessas práticas para o desenvolvimento de habilidades sociais, emocionais e cognitivas. A utilização de metodologias alternativas, como o uso de materiais simples, atividades interativas, e até mesmo a relação com outras linguagens artísticas, como o teatro e a música, pode tornar o ensino das lutas mais atrativo e relevante para os alunos. Essas estratégias não apenas facilitam a aprendizagem, mas também promovem a construção de um ambiente escolar mais dinâmico e inclusivo.

Em síntese, as lutas, quando abordadas de maneira planejada e interconectada com outras práticas pedagógicas, oferecem uma rica oportunidade para o desenvolvimento integral dos estudantes. O papel do educador é fundamental nesse processo, sendo necessário que ele busque constantemente formação e atualização para lidar com as especificidades desse conteúdo. Ao promover uma abordagem que respeite as diversidades e estimule a convivência pacífica, o ensino das lutas pode contribuir significativamente para a formação de indivíduos mais autoconfiantes, respeitosos e conscientes de seu corpo e de sua relação com o outro.

A implementação das lutas nas aulas de Educação Física deve ser vista não como um desafio, mas como uma valiosa oportunidade para enriquecer a prática pedagógica e contribuir para o desenvolvimento pleno dos alunos.

As técnicas específicas de cada modalidade devem ser compreendidas possibilidades de ampliação do repertório da linguagem motora dos alunos e alunas. São bem-vistas quando não intoxicam a percepção docente de que são o fim e não o percurso.

A adopção de jogos de oposição, o convite de membros da comunidade praticantes das modalidades, a realização de visitas técnicas guiadas além de outras estratégias pertinentes à realidade local de cada comunidade escolar compõe o quadro de infinitas possibilidades didático-metodológicas para o desenvolvimento das modalidades esportivas de combate no seio da educação física escolar.

A relação entre violência, agressividade e o desenvolvimento do conteúdo de lutas e modalidades esportivas de combate na educação física escolar é inversamente proporcional à percepção social amplamente difundida no senso comum. O conteúdo, ao invés de ampliar a violência e agressividade, por fim, reprime-os.

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Financiamento: nada a declarar.

Recebido: 21 de Janeiro de 2025; Aceito: 13 de Março de 2025

*Autor correspondente: Rua da Penha, 680, Centro - CEP: 18010-002 - Sorocaba (SP), Brasil. E-mail: rgo.paiva2@gmail.com

Conflito de interesses:

nada a declarar.

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