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Acta Radiológica Portuguesa

versão impressa ISSN 2183-1351versão On-line ISSN 2976-0763

Acta Radiol Port vol.37 no.3 Lisboa dez. 2025  Epub 31-Dez-2025

https://doi.org/10.25748/arp.36660 

Imagens de Interesse

Tromboflebite Infeciosa no Contexto de Diverticulite - Uma Complicação Rara

Infeccious Thrombophlebitis in the Context of Diverticulitis - A Rare Complication

José F. Castro Pereira1 
http://orcid.org/0000-0002-3210-4360

Lourenço Teles Saldanha2 
http://orcid.org/0009-0000-0211-3226

Filipa Figueiredo3 
http://orcid.org/0000-0001-6276-2949

1Interno de formação específica em Radiologia do 4º ano - Unidade Local de Saúde Almada-Seixal, Almada, Portugal

2Interno de formação específica em Radiologia do 2º ano - Unidade Local de Saúde Almada - Seixal, Almada, Portugal

3Assistente Hospitalar de Radiologia - Unidade Local de Saúde Almada Seixal, Almada, Portugal


Resumo

A diverticulite é uma entidade muito comum nos exames de urgência de Radiologia. Apesar da sua frequência existem algumas complicações mais raras que podem levar a um prognóstico mais reservado e que necessitam de ser diagnosticadas atempadamente para permitir um tratamento precoce.

Este artigo descreve o caso de um homem de 71 anos que deu entrada no serviço de urgência com dor abdominal e melenas.

Neste contexto foi realizada uma TC abdominal e pélvica, tendo sido identificada diverticulite do colon sigmóide com preenchimento heterogéneo associado a gás na veia mesentérica inferior e trombose parcial da veia esplénica, veia porta e ramos portais intra-hepáticos, traduzindo processo de tromboflebite infeciosa.

Foi iniciada antibioterapia de largo espectro e anticoagulação oral, com resolução dos achados imagiológicos e melhoria clínica no exame de seguimento.

Palavras chave: Diverticulite; Tromboflebite infeciosa; Tomografia computorizada.

Abstract

Diverticulitis is a very common entity in emergency Radiology. Despite its high incidence it may have rarer complications that may lead to a worse prognosis and that need to be diagnosed quickly to allow for a timely treatment.

This article describes the case of a 71-year-old male that came to our emergency room with complaints of abdominal pain and melenas.

In this context, an abdominal and pelvis CT was done where sigmoidal diverticulitis was identified along with heterogeneous filling and gas in the inferior mesenteric vein with partial thrombosis of the splenic and portal vein and its intrahepatic segments compatible with the diagnosis of infeccious thrombophlebitis.

Treatment with broad spectrum antibiotics and oral anticoagulation was started, with resolution of the radiological findings and clinical improvement in the follow-up examination.

Keywords: Diverticulitis; Infeccious thrombophlebitis; Computed tomography.

Doente do sexo masculino com 71 anos deu entrada no nosso serviço de urgência com dor abdominal e melenas. Após avaliação analítica documentou-se anemia, glucose elevada enquadrável no contexto pessoal de diabetes mellitus tipo 2 conhecida, leucocitose, alterações analíticas ligeiras da Aspartato Aminotransferase (AST) e da Alanina Aminotransferase (ALT) e proteína C reativa elevada. Como antecedente relevante tinha sido submetido a colecistectomia por via laparoscópica um mês antes.

No contexto de urgência foi efetuada TC abdominal e pélvica com contraste endovenoso, tendo sido visualizada diverticulite do colon sigmoide com preenchimento heterogéneo associado a gás na veia mesentérica inferior (figura 1) e trombose parcial da veia esplénica, veia porta e ramos portais intra-hepáticos, bem como múltiplas alterações transitórias perfusionais hepáticas na fase arterial, traduzindo processo de tromboflebite infeciosa com pileflebite (figura 2).

A trombose supurativa da veia porta também conhecida como pileflebite é uma complicação rara mas potencialmente letal de uma infeção intra-abdominal, com uma mortalidade de 25%, sendo difícil de diagnosticar pela sua apresentação clínica não específica.1

Figura 1: Reconstrução coronal em fase venosa com diverticulite (seta preta) e preenchimento heterogéneo com bolha gasosa associada da veia mesentérica inferior (seta azul) 

Figura 2: A: Reconstrução coronal em Minimum intensity projection (MinIP), com veia mesentérica inferior preenchida com ar (seta); B - Plano axial em fase venosa com trombo (seta) a preencher parcialmente a veia esplénica; C - Plano axial em fase venosa com trombo (seta) a preencher parcialmente o tronco da veia porta - pileflebite; D - Plano axial em fase arterial tardia, com trombose de ramos portais intra-hepáticos (seta azul) e alterações perfusionais transitórias hepáticas (seta branca). 

A etiologia reportada mais frequentemente para pileflebite é a diverticulite, seguida de apendicite, colecistite, pancreatite e outras infeções intra-abdominais, ocorrendo com maior frequência no contexto de cirurgias abdominais recentes como no caso deste doente, submetido a cirurgia abdominal um mês antes.1

Fontes mais recentes sugerem que nos doentes mais jovens, a apendicite é a etiologia mais frequente e nos mais idosos a diverticulite.2

Embora possa estar também associada a perturbações da coagulação,2 neste doente os exames analíticos não revelaram alterações nas provas de coagulação.

A pileflebite é geralmente polimicrobiana, sendo o Bacteroides fragilis e a Escherichia coli os agentes mais frequentemente isolados. Contudo, em 30% dos casos as hemoculturas são negativas,1,2 pelo que a ausência de hemoculturas positivas não deve ser fator de exclusão deste diagnóstico na presença de processos infeciosos intra-abdominais e deteção de novo de trombose portal.

O tratamento da pileflebite consiste em antibióticos de largo espectro, embora devido à sua baixa incidência, ainda não exista um consenso sobre o qual melhor regime terapêutico. Não existe igualmente consenso sobre a prescrição de medicação anticoagulante em doentes com pileflebite.2

Neste caso, a equipa médica e cirúrgica optaram por internar o doente no hospital numa primeira fase, com antibioterapia de largo espectro e heparina de baixo peso molecular. Após melhoria clínica e analítica, o doente foi internado em regime de hospitalização domiciliária, com antibioterapia e anticoagulante oral. Foi realizada TC de reavaliação um mês depois, com resolução imagiológica da maior parte das alterações, persistindo apenas discreta fibrose da veia mesentérica inferior (figura 3).

Figura 3: A, B - Plano axial em fase venosa com resolução da trombose parcial da veia esplénica e veia porta; C - Plano coronal em fase venosa com redução do calibre e alguma densificação da gordura adjacente traduzindo prováveis alterações fibróticas da veia mesentérica inferior (seta azul). 

Referências

1. Wong K, Weisman DS, Patrice KA. Pylephlebitis: a rare complication of an intra-abdominal infection. J Community Hosp Intern Med Perspect. 2013;3. doi: 10.3402/jchimp.v3i2.20732. PMID: 23882407; PMCID: PMC3716219. [ Links ]

2. Fusaro L, Di Bella S, Martingano P, Crocè LS, Giuffrè M. Pylephlebitis: a systematic review on etiology, diagnosis, and treatment of infective portal vein thrombosis. Diagnostics (Basel). 2023;13:429. doi: 10.3390/diagnostics13030429. PMID: 36766534; PMCID: PMC9914785. [ Links ]

Divulgações Éticas

Suporte financeiro: O presente trabalho não foi suportado por nenhum subsídio ou bolsa.

Recebido: 10 de Julho de 2024; Aceito: 19 de Novembro de 2024

Correspondência José F. Castro Pereira, Unidade Local de Saúde Almada-Seixal, Av. Torrado da Silva, 2805-267 Almada, Portugal, email: jose.castro.pereira@ulsas.min-saude.pt

Conflitos de interesse: Os autores declaram não possuir conflitos de interesse.

Confidencialidade dos dados: Os autores declaram ter seguido os protocolos do seu centro de trabalho acerca da publicação dos dados de doentes.

Protecção de pessoas e animais: Os autores declaram que os procedimentos seguidos estavam de acordo com os regulamentos estabelecidos pelos responsáveis da Comissão de Investigação Clínica e Ética e de acordo com a Declaração de Helsínquia da Associação Médica Mundial.

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